Ensinamentos Acessíveis, Verdades Profundas

Por

Ajaan Anan Akiñcano

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Introdução

A mente esteve dando voltas toda a manhã, tentando compreender tudo. Nós gostaríamos de seguir com a meditação, mas precisamos resolver isso primeiro. Diz respeito à prática. Meditar estes dias parece mais difícil: menos fora do comum, menos relaxante. Ultimamente têm surgido muitos pensamentos indesejados. Alguma coisa tem escavado preocupações, possibilidades, antigas lembranças, letras de músicas ... Já não tínhamos superado tudo isso? De todo modo, esqueçamos isso. Provavelmente nós só necessitamos de uma mudança de ares.

Com certeza deve ser o próprio monastério. Refletindo sobre algumas particularidades do local, parece que as coisas poderiam ser melhores. Para começar, poderia ser mais silencioso; poderia haver menos pessoas. O clima definitivamente poderia ser melhor, mais fresco. Talvez pudéssemos plantar mais árvores? E certamente deveríamos ser capazes de realizar as tarefas de um modo mais eficiente. Mais tempo para meditação, menos tarefas. Se as coisas fossem diferentes, poderíamos superar todo esse sofrimento e descontentamento, certo?

Na verdade, agora temos tempo. Ninguém nos está pedindo nada. Mas como podemos sentar em meditação com a presença dessas emoções? É o persistente desconforto da incerteza, das dúvidas não resolvidas. As coisas não estão claras. Quando tentamos planejar o futuro imediato, digamos, apenas os próximos meses, ainda assim não há clareza. Imaginamos criando cenários alternativos, mas ainda assim existem muitas coisas indefinidas. Pensamos que talvez pudéssemos nos beneficiar de uma mudança de ambiente. Quer seja uma estada num outro monastério ou algum tempo em retiro no meio da floresta. Isso resolveria as coisas? Hum. Vamos tentar entender isso e então a mente terá paz e poderemos dar seguimento ao verdadeiro trabalho ...

Sabemos que temos que ir e falar com o nosso mestre, Ajaan Anan. Gostaríamos de solucionar isso por nós mesmos, argumentar com a mente até a submissão, mas já passamos por isso antes. Neste momento a nossa mente está agitada, espumando, num redemoinho. A mente está tagarelando como um idiota, uma página rebelde da web enlouquecida pelas janelas de propaganda que pululam inesperadamente. Com certeza não há como conduzi-la à razão. Não há como submetê-la com pensamentos. Mas se formos conversar com Ajaan Anan, as coisas poderão ser resolvidas. Na nossa tradição das florestas tomamos o Ajaan como nosso mentor, nosso líder ... nosso pai. Confiamos na sua orientação e conselho porque ele seguiu o caminho do Dhamma antes de nós.

Já são quase onze horas da manhã. A necessidade de acalmar a agitação na mente não foi diminuída; no mínimo, se tornou mais urgente. Assim saímos rapidamente, subindo a ladeira em direção à kuti de Ajaan Anan. Quando chegamos depois de alguns minutos, o encontramos cuidando dos seus afazeres. Naquele momento ele está conversando com alguns visitantes leigos de Bangkok, mas ao longo de um dia típico ele também poderá dividir o seu tempo entre ensinar os monges, supervisionar projetos de construção e orientar os abades dos vários monastérios afiliados.

Quase sempre ele está envolvido na solução de algum assunto, mudando de um tema para outro. E no entanto, há algo especial com relação ao modo como ele se relaciona com toda essa atividade - não é algo ordinário. Pelo grau de atenção que ele dedica à tarefa em mãos e a calma que permeia tudo, fica claro que esse é um homem que treinou a sua mente.

Chegando até onde ele estava sentado, nos curvamos e sentamos quietos a um lado. Consideramos qual a melhor maneira de comunicar o nosso problema, mas hesitamos, sem saber como começar, sem saber como perguntar. O cenário mudou mas a nossa mente continua como antes, dando voltas e proliferando. Apesar disso, notamos uma certa calma surgindo simplesmente por estar em sua presença. As nossas preocupações não desapareceram, embora pareçam menos rígidas, menos urgentes. E então, inesperadamente, ele se volta e nos dá um sorriso. "O que vocês têm em mente?" ele pergunta. Sentimos como se ele já soubesse.

Embora as verdades mais profundas com freqüência surjam da orientação que nos é dada, elas, em geral, começam muito mais próximo do básico. Podemos esperar que ele responda com indiferença, "simplesmente solte-se disso," ou "tudo está vazio," ou "qual o sentido de se preocupar, a morte é certa," mas ele não faz isso. Ele ouve. Ele sabe que o nosso sofrimento é real e ele sente compaixão. À medida que ele fala, o significado das suas palavras se aprofunda gradualmente, desenrolando-se pouco a pouco como a linha de uma pipa solta no vento. Quer sejam reflexões sobre a sua própria prática, soluções práticas, exemplos, piadas ou algo para que contemplemos, ele nos oferece um modo novo de ver as coisas. E embora não soubéssemos quando chegamos, no fim das contas, é o que procurávamos. Percebemos que afinal o nosso problema não era assim tão grande ...

Os ensinamentos neste livro foram coletados de várias palestras dadas tarde da noite em Tailandês, bem como de discussões informais do Dhamma. Elas foram selecionadas com a esperança de capturar a habilidade de Ajaan Anan em nos auxiliar a superar as nossas dificuldades e, como resultado, amadurecer as nossas qualidades saudáveis. O livro em si foi composto de modo que nos permita gradualmente progredir na direção das verdades mais profundas, começando com o sofrimento inerente à nossa situação. Embora isso seja algo difícil de compreender, uma vez reconhecido, podemos então fazer algo a respeito. Os primeiros capítulos nos orientam na prática da atenção plena e da meditação. Em seguida há ensinamentos sobre os fundamentos para a prática de meditação - virtude e bondade para com os outros. Por fim, encontramos a sabedoria, o que nos faz lembrar que o fim do sofrimento na verdade não está tão distante.

Contidas nestas páginas encontram-se reflexões e orientações para nos ajudar em nossa jornada espiritual, esse processo de educar o coração e a mente. Nós o convidamos a ler, desfrutar e aplicar. Quando somos capazes de ver o nosso sofrimento e a sua causa, a sabedoria poderá então surgir. O Buda e os nossos mestres nos deram as ferramentas para fazer isso, mas depende de nós usá-las. Alguns ensinamentos podem iluminar as verdades mais profundas instantaneamente, outros só depois de tentar a prática por nós mesmos, mas no final, a Verdade é o que nos irá conduzir à paz e à felicidade nas nossas vidas.

Este livro nasceu graças ao trabalho duro de muito discípulos devotos de Ajaan Anan. Fizemos o nosso melhor esforço para transmitir o significado original e o sabor das palestras do modo mais acurado possível e nos desculpamos por quaisquer erros ou má interpretação que possam ter ocorrido no processo de tradução ou edição.

Oferecemos este livro como um presente da nossa devoção e gratidão à Jóia Tríplice e ao nosso mestre, Ajaan Anan. Que todos os seres sejam cada vez mais felizes progredindo constantemente até o fim do sofrimento.

Os Editores
Wat Marp Jan
Rayong, Tailândia

 

 

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Revisado: 14 Agosto 2010

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