Carta Aberta para a Comunidade Theravada
sobre o
Dhammacariya Dhanapala
O Brasil é realmente um país afortunado, ou será mesmo? Entre tantos países do Ocidente nos quais o Budismo Theravada se instalou o Brasil carece de monges e monastérios, mas sem dúvida tem o seu Dhammacariya. Ricardo Sasaki é o coordenador do grupo Nalanda e também faz parte da diretoria do Colegiado Budista Brasileiro (CBB). Nos web sites dessas duas organizações aparece a sua biografia na qual consta que ele é o Dhammacariya Dhanapala. Dhammacariya em Pali quer dizer professor do Dhamma em Português. Dhanapala é simplesmente o seu nome em Pali que lhe foi dado na toma de refúgio na jóia tríplice. Como no meu caso é Dhammarakkhita. Quem quiser ter um nome em Pali basta tomar o refúgio nas três jóias - Buda, Dhamma e Sangha. Mas o que Dhammacariya quer dizer? Com certeza serve para impressionar aqueles que não estão familiarizados com o Budismo Theravada, bem como os incautos e os ingênuos.
O título Dhammacariya é empregado nos meios monásticos principalmente em Myanmar, antiga Birmânia. Em Myanmar os monges podem receber dois tipos de títulos Sasanadhaja Dhammacariya ou Sasanatakkasila Dhammacariya. Esses títulos são apenas concedidos a monges pelas universidades monásticas em Myanmar.
Para leigos existem diversas universidades tanto em Myanmar, como em outros países Budistas, além de países do Ocidente, nos quais o estudante pode obter um Diploma, BA, MA ou PhD em estudos Budistas. Em geral é com base nesse tipo de formação que um leigo estará qualificado para atuar como "professor de Budismo".
As explicações dos dois últimos parágrafos foram dadas pelo Venerável Uttaranyana Sayadaw que atua como guia espiritual do Nalanda, além de ser um conselheiro do Colegiado Budista Brasileiro. Ele também explicou que nenhuma dessa qualificações tanto no caso de monges como no caso de leigos, pode ser obtida sem a aprovação nos correspondentes exames. Em correspondência datada 27/3/2007 o Venerável Uttaranyana Sayadaw adicionou o seguinte:
"Dr. Rewata Dhamma gave dhammacariya certificate to Mr Ricardo. I think that it is good encouragement and supporting for his long term contribution of Buddhism in his home land through literary work. That dhammacariya is very simple, very common and it is different from Sasanadhaja or Sasanatakkasila dhammacariya."
O Venerável Uttaranyana Sayadaw explica que o título de Dhammacariya foi apenas um encorajamento e apoio pessoal feito pelo Dr. Rewata Dhamma pela contribuição ao Budismo no Brasil através dos livros que o Ricardo publicou. Não há nenhuma menção de reconhecimento ou aprovação como professor do Dhamma. É como se fosse um título "honoris causa". Imaginem um profissional qualquer que recebe um título honoris causa de alguma universidade que tenha uma faculdade de medicina, isso não o qualifica a exercer a medicina. É a mesma coisa no caso do título de Dhammacariya concedido pelo Dr. Rewata Dhamma ao Ricardo. Portanto a afirmação na sua biografia de ter recebido "certificação como dhammacariya (professor de Dharma)" é incorreta e enganosa.
Na sua biografia Ricardo também ostenta o título de Mahasadhammajotikadhaja outorgado pelo Ministério de Assuntos Religiosos de Myanmar. Myanmar é governado faz décadas por um regime ditatorial brutal que oprime o povo e a própria sangha Budista de Myanmar (veja os eventos de 2007 nos quais centenas de bhikkhus foram aprisionados). Devido ao completo desrespeito aos direitos mais fundamentais das pessoas, esse regime está sujeito a várias sanções dos principais países do Ocidente. O Ministério de Assuntos Religiosos faz parte desse regime. Será que receber qualquer título que seja de um regime desses é realmente uma honra? Ou na verdade significa reconhecer e sancionar a ditadura vigente no país?
Na primeira biografia publicada no site do CBB, além de professor e Dhammacariya, também aparecia "reverendo", que no Theravada é um título apenas empregado para monges. Pelo menos nesse caso o bom senso prevaleceu e reverendo desapareceu da biografia.
Com relação à prática de meditação, no Theravada há duas correntes principais. De um lado está a prática de meditação Vipassana ou Insight, que visa desenvolver a sabedoria ou o entendimento da realidade das coisas. Essa prática em geral não é acompanhada de um significativo desenvolvimento de tranqüilidade ou concentração (Samatha/Samadhi). De outro lado está a prática que visa desenvolver Vipassana em paralelo com Samatha/Samadhi. No primeiro grupo predominam os monges da tradição de Myanmar discípulos de Mahasi Sayadaw e outros mestres não tão bem conhecidos no Ocidente, bem como professores leigos como Sayagi U Ba Khin e S. N. Goenka. A prática de Vipassana teve origem no projeto de disseminação da meditação entre os leigos, que ganhou impulso após a independência da Birmânia na década de 1940. Foi essa prática dirigida a leigos que alavancou a expansão do Theravada no Ocidente.
Em particular Joseph Goldstein, Sharon Salzberg e Jack Kornfield na década de 70 deram início a retiros regulares de meditação Vipassana nos EUA. Hoje eles dirigem dois grandes centros de meditação, o IMS e Spirit Rock, respectivamente na costa leste e oeste dos EUA, além de terem estimulado o surgimento de um grande número de centros menores. Tanto o IMS como Spirit Rock, contam com um grande número de professores. Nenhum desses professores, nem mesmo os fundadores Joseph, Sharon e Jack, apesar da imensa contribuição que fizeram para a expansão do Budismo no Ocidente e dos estreitos laços com diversos e renomados monges de Myanmar, foram agraciados com o título de Dhammacariya, ou qualquer honraria que seja, e se por acaso receberam algo, não sentem necessidade de usar isso como muleta.
A prática de Vipassana reconhecidamente produz benefícios, inclusive comprovado pela ciência, mas para a ampla maioria dos praticantes esses benefícios acabam tendo um alcance limitado.
O segundo tipo de meditação praticado no Theravada, que combina em paralelo Samatha/Samadhi com Vipassana, é praticado e ensinado principalmente pelos monges da tradição das florestas, em particular da tradição das florestas da Tailândia. Praticamente não existem professores leigos que ensinem esse tipo de meditação porque essa prática exige muita dedicação e retiros longos e intensos.
Como seria de se esperar, o tipo de formação meditativa do Ricardo, de acordo com o que pode ser constatado na sua biografia, é a meditação Vipassana. No entanto há algo mais na sua biografia. Ajaan Buddhadasa, é identificado como um dos seus principais mestres. Ricardo identifica Ajaan Buddhadasa com a tradição das florestas da Tailândia. Ajaan Buddhadasa foi um monge extremamente influente na sociedade Tailandesa por suas idéias reformistas e por defender um tipo de Budismo com engajamento social. Mas não é correto identificá-lo como pertencente à tradição das florestas da Tailândia pois ele não foi ordenado nessa tradição e não teve mestres dessa tradição. Deve ficar claro que a simples localização de um monastério numa floresta não o caracteriza como tal. Aquilo que hoje é conhecido como "tradição das florestas da Tailândia" está ligado ao tipo de linhagem e ao tipo de prática. A tradição de florestas da Tailândia teve a sua origem com Ajaan Mun e Ajaan Sao, e continuidade através dos seus discípulos, o que não é o caso de Ajaan Buddhadasa. Na biografia de Ajaan Buddhadasa consta que a sua prática era Vipassana - " um dos poucos lugares dedicados a Vipassana no sul da Thailândia." Essa vinculação do Ricardo à Buddhadasa e deste à tradição das florestas da Tailândia parece ser uma maneira esperta e sutil de atribuir-se um tipo de qualificação que na verdade não é possuída.
Como pode ser observado, a correspondência com o Venerável Uttaranyana Sayadaw está datada de 2007. Esse assunto na época foi bastante discutido principalmente com o CBB visando através da intermediação do CBB chegar a algum tipo de entendimento com o Ricardo. Isso na época não aconteceu mas por circunstâncias pessoais acabei não tornando pública a questão. Não era minha intenção ressuscitá-la. Mas houve um outro acontecimento recentemente que fez com que eu mudasse de idéia.
Acontece que o Nalanda adota uma atitude extremamente discriminatória em relação aos demais grupos do Budismo Theravada no Brasil. E isso inclui o Acesso ao Insight. Basta ver a página "com quem andamos do grupo Nalanda"* para constatar que não há menção a nenhum outro grupo no Brasil. Essa atitude chega ao ponto de censurar a minha participação nas listas de discussão e nos grupos nos quais Ricardo Sasaki é o moderador. A única razão que consigo encontrar para esse tipo de atitude é o interesse econômico. Essa atitude discriminatória também tem como conseqüência que como diretor no Colegiado Budista Brasileiro, Ricardo não representa o Theravada no Brasil mas apenas o grupo Nalanda. Por conseguinte a afirmação na sua biografia que o CBB "congrega os professores buddhistas atuando no Brasil" é absolutamente falsa no caso do Theravada.
Ainda com relação ao CBB, quando em 2005 surgiu a idéia da formação do Colegiado, fui convidado a participar do grupo. Esse convite ocorreu justamente pelo trabalho feito no Acesso ao Insight. Meu desligamento do Colegiado ocorreu antes da sua formalização no final de 2005, devido ao fato de morar fora do Brasil e dos sinais de discriminação em relação aos demais grupos Theravada no Brasil. Não concordei que o Colegiado fosse empregado apenas para alavancar os interesses do Nalanda que justamente é o que acabou acontecendo.
Recentemente numa das listas de discussão, na qual Ricardo é o moderador e a minha participação censurada, surgiu a pergunta sobre o Tipitaka em Português. Na resposta Ricardo não somente não menciona as traduções dos suttas disponíveis no Acesso ao Insight, como também crítica como inferiores as traduções que não são feitas diretamente do Pali**. Se é assim como ele vê, não é incoerente que ele não adote as traduções que considera "superiores"? Por exemplo, no caso de "asava" em Pali, que por sinal é um termo técnico importante, o tradutor ao qual Ricardo dá preferência interpretou como "cancro" mas nos seus textos ele prefere "corrupção".
Aliás falando em Pali, é necessário lembrar que um autêntico Dhammacariya tem como pré-requisito justamente a fluência em Pali. Na sua biografia não há qualquer menção que o Ricardo tenha alguma formação em Pali.
Também é uma ironia que o convite para participar do CBB tenha sido em função da qualidade do material oferecido pelo Acesso ao Insight e que passados alguns anos, de repente, a qualidade do site não é mais considerada aceitável.
Na verdade cada tradução tem o seu mérito se for tomada como um meio hábil. Para algumas pessoas uma certa tradução faz mais sentido, enquanto que outras terão uma preferência distinta. Cada tradução é um dedo que aponta para a lua, não a lua em si. Interpretar uma tradução ou outra como superior ou inferior tem mais a ver com as preferências de quem está fazendo a interpretação do que com a tradução em si.
Não há nenhum sutta no cânone em Pali no qual o Buda indique que títulos ou honrarias são bons requisitos para julgar a confiabilidade de um professor. No Canki Sutta (MN 95) o Buda diz que um professor deve ser examinado quanto à presença de estados baseados na cobiça, estados baseados na raiva e estados baseados na delusão. A ausência desses estados faz com que um professor seja digno de ser visitado, homenageado, ouvido.
No Cunda Sutta (MN 8) o Buda diz o seguinte:
"Cunda, para alguém que esteja afundando na lama ter que puxar outra pessoa que esteja afundando na lama, é impossível."
Após a pergunta sobre o Tipitaka em Português numa das listas, tentei através da intermeditação do CBB dar um fim a essa situação de animosidade e evitar a publicação desta carta mas infelizmente não foi possível chegar a um bom termo.
Para aquelas pessoas que nutrem admiração e amizade pelo Ricardo peço desculpas se as ofendi e que simplesmente ignorem esta carta.
* http://nalanda.org.br/sobre-o-nalanda/com-quem-andamos
** O livro "Ensinamentos do Buda" de Nissim Cohen está esgotado. Recomendar um livro esgotado é o melhor modo de ajudar as pessoas?
A cartilha do CBB, publicada em Junho de 2007, contém idéias que, sob o ponto de vista da doutrina Budista contida no Cânone em Pali, em alguns casos são completamente errôneas e em outros questionáveis. Para que os interessados no Budismo possam tirar as suas próprias conclusões, abaixo encontram-se as afirmações contidas na cartilha seguidas de uma correção ou comentário.
Questão: 1. O que é o Buddhismo?
Cartilha: Abhidharma-pitaka (que contém os comentários de vários eruditos buddhistas sobre a filosofia buddhista)
Correção: O Abhidhamma pitaka contém os textos canônicos do Abhidhamma. Os vários comentários não fazem parte do pitaka e são textos excluídos do Cânone.
Questão 3 - O que é Dharma segundo o Buddhismo?
Cartilha: A proposta de Buddha seria expor um conjunto de premissas que representariam uma verdade universal - que não deve ser confundida com uma verdade única e especial, exclusiva do buddhismo ....
Correção: A verdade não é do Budismo, mas há alguma outra religião que exponha essa mesma verdade universal? Se as outras religiões expõem outras teorias como sendo verdades e não reconhecem a verdade Budista como sendo verdade, mas sim como sendo uma teoria, então aquilo que para os outros é teoria e que para o Budismo é verdade passa a ser uma exclusividade do Budismo.
Cartilha: A prática do Caminho do Meio (o conjunto de ações contemplativas saudáveis passíveis de experimentação através da prática da Meditação de Plena Consciência à Respiração– "Anapanasati" – e outras práticas tradicionais do Buddhismo).
Correção: Isto está muito mal formulado pois parece que a meditação Anapanasati é o caminho do meio e as “outras práticas tradicionais” é um termo demasiado vago para entender do que se trata. Sob o ponto de vista da prática, o caminho do meio é evitar os extremos do ascetismo exagerado e da entrega à sensualidade. O caminho do meio é o nobre caminho óctuplo que compreende virtude, concentração e sabedoria.
Cartilha: Em um segundo contexto, temos os "dharmas", ou o conjunto de fenômenos e ações que pavimentam o caminho do praticante.
Comentário: Dharmas como fenômenos é uma tradução comum, no entanto traduzir dharmas como ações é uma inovação não muito feliz.
Questão: 4. O que significa o termo "Três Jóias"?
Cartilha: O Dharma, como a Doutrina, o Ensinamento pregado pelo Mestre Iluminado, que foram preservados principalmente através dos "Sutras" os Textos Sagrados do Buddhismo contendo as Palavras do Buddha (uma espécie de Bíblia ou Evangelho do Buddhismo), e devem nortear a vida e a prática de todos os Buddhistas.
Correção: O próprio Buda em vários suttas identifica os seus ensinamentos como “Doutrina e Disciplina” – Dhamma e Vinaya. Entende-se o Dhamma como abrangendo os Suttas contidos nos Nikayas ou Agamas mais o Abhidhamma. Entre os estudiosos há divergências quanto à origem do Abhidhamma, mas como regra geral não há divergências quanto aos Suttas e Vinaya. Então ao falar sobre o Ensinamento do Buda, além dos Suttas, também deve ser incluído o Vinaya, este não deve ser deixado de lado.
Questão: 5. Por que o Buddhismo fala de "sofrimento"?
Cartilha: Na verdade, o termo sânscrito Duh:kha -- em páli, Dukkha --, freqüentemente traduzido como "sofrimento", deve ser mais corretamente entendido como significando insatisfação ou angústia mental, e não o sofrimento físico em si.
Correção: Isso não está correto, dukkha não compreende apenas o sofrimento ou insatisfação mental. Isso está evidenciado nos suttas: "Há essas três formas de sofrimento, meu amigo: o sofrimento da dor, o sofrimento das formações condicionadas e o sofrimento da mudança. Essas são as três formas de sofrimento." (SN 38.14)
Questão: 7. Quais são os ensinos básicos do Buddhismo?
Cartilha: 2. O Não-Eu, ou seja, em nenhuma das coisas ou fenômenos que existem no Universo, podemos encontrar algo que seja permanente e imutável, constituindo assim um "eu" ou uma "alma" eterna e imortal.
Correção: Isto não é correto, nos suttas “eu” e “alma” são coisas distintas e não sinônimos da mesma coisa.
Cartilha: Assim sendo, Nirvana é um Estado de Ser e não um Paraíso, como muitos querem fazer parecer. E, àquele que atinge esse Estado de Ser, é dado o título de Buddha, o Desperto, o Iluminado.
Correção: Além do Buda, o arahant, de acordo com o Cânone em Pali, também é um ser iluminado, alcançando a mesma iluminação de um Buda.
Questão: 9. Por que a meditação é tão falada no Buddhismo? É a mesma meditação que encontro no Yoga Hindu ou em outras religiões?
Cartilha: Historicamente, a Meditação (em sânscrito, Dhyana) como técnica específica tem origem nas antigas tradições hinduístas, onde sua prática tem como objetivo – sob o cômputo geral de suas várias tradições – realizar a experiência mística de Moksha (libertação, esclarecimento) e assim atingir o Samadhi (iluminação) ..... No buddhismo, a meditação pode se desdobrar em várias técnicas dependendo de qual escola estivermos enfocando, mas em virtualmente todas as escolas tradicionais temos que a técnica meditativa fundamental será a chamada Meditação da Plena Atenção à Respiração, conforme preconizado pelo próprio Buddha em seu famoso texto Anapanasati Sutta(Majjhima Nikaya, 118).
Comentário: Em primeiro lugar não fica claro porque uma cartilha sobre o Budismo descreve os objetivos da prática das tradições hinduístas. Samadhi até pode ser iluminação no hinduísmo, mas no Budismo o significado de samadhi é outro. Isso só aumenta a confusão. Não é possível afirmar que a meditação tem origem nas antigas tradições hindus pois não há registros que comprovem isso. Há um interessante estudo feito pelo Bhikkhu Sujato, disponível na web, intitulado “A History of Mindfulness” no qual ele apresenta evidências de que não há como comprovar exatamente que tipo de prática meditativa era realizada pelos antecessores e contemporâneos do Buda. Além disso, apesar do Cânone em Pali relatar que o Bodisatva teria praticado algum tipo de meditação com os seus professores Alara Kalama e Udaka Ramaputta, o Cânone não traz informações mais detalhadas sobre que prática seria essa. Por outro lado o Cânone também afirma que o Bodisatva foi quem descobriu os dhyanas. Ou seja, se ele descobriu os dhyanas, não era isso que era praticado pelos seus contemporâneos ou antecessores.
O Anapanasati Sutta é corretamente identificado na cartilha como a técnica para desenvolver os dhyanas. No entanto, enfocar apenas a prática de dhyana como sendo a meditação Budista é um erro pois na verdade o cerne da prática meditativa Budista é a combinação de Dhyana (Shamatha) e Vipayshana ou em Pali – Jhana (Samadhi) e Vipassana. Com relação a Vipassana, a cartilha não diz absolutamente nada. Essa é uma grande deficiência.
Cartilha: Embora algumas pequenas variações sobre como iremos nos concentrar ocorra em diferentes escolas, podemos dizer que a meditação da Plena Consciência é a prática que define o ensinamento de Buddha por excelência.
Comentário: Acima foi dito que a Meditação da Plena Atenção à Respiração é a técnica meditativa fundamental no Budismo. Agora se diz que a meditação de “Plena Consciência” é a prática que define o ensinamento de Buddha por excelência. As palavras são diferentes mas a prática é a mesma? Ou seja, Plena Atenção à Respiração e Plena Consciênca são a mesma coisa?
Questão: 10. Qual é o Deus Buddhista?
Cartilha: Desta forma, não há referências sobre um deus único no Buddhismo e todas as referências a deuses na literatura buddhista e nos discursos de Buddha referem-se a um dos seis reinos de existência - demônios, fantasmas famintos, animais, humanos, titãs e deuses.
Comentário: Há um problema na formulação dessa frase pois a conclusão é que os deuses são encontrados entre os demônios, fantasmas, animais, humanos, titãs e deuses (é óbvio que os deuses vão ser encontrados entre os deuses ao invés de todos esses outros mundos).
Questão: 13. O que é Karma segundo o Buddhismo?
Cartilha:Karma significa ação … Apenas os seres iluminados não produzem mais karma.
Correção: A conclusão é que os seres iluminados não agem, visto que karma significa ação, a única forma de um iluminado não produzir karma é não agir, imagino que devem viver num estado vegetativo. Essa na verdade não é a tese Budista mas sim parece com a tese dos Jainistas. A tese Jainista é que com a supressão da ação não há a geração de karma e o objetivo da prática é exaurir o karma acumulado.
A correta definição de karma de acordo com o ensinamento do Buda está resumida neste sutta: “Bhikkhus! Intenção, eu digo, é karma. Pela intenção, a pessoa faz karma através do corpo, linguagem, e mente.” (AN VI.63)
Ou seja a definição correta seria ação com base na intenção. Uma ação sem intenção não gera karma.
Questão: 14. Praticando o Buddhismo eu me tornarei Iluminado?
Cartilha: Mas o buddhismo não se considera dono dos caminhos para a iluminação e reconhece este acontecimento em outras práticas espirituais.
Comentário: Esta é uma afirmação complicada. O Budismo reconhece que a iluminação pode ocorrer em outras tradições religiosas e isso está evidenciado nos paccekabuddhas, ou budas silenciosos. Por outro lado, o Budismo não reconhece nenhum outro caminho para a iluminação que não contenha as quatro nobres verdades, ou seja, os paccekabuddhas de outras tradições realizam a iluminação através das mesmas quatro nobres verdades. A afirmação de que existem outros caminhos para a iluminação fora das quatro nobres verdades não tem respaldo nos ensinamentos Budistas. Curiosamente, a própria cartilha do CBB contradiz aquilo que está dito nesta questão 14, quando em resposta à questão 9 diz o seguinte: “Toda escola não-buddhista que tenha esses mesmos objetivos, fundamentados em premissas semelhantes aquelas das Quatro Nobres Verdades e do Caminho óctuplo, apresentados de forma coerente e amadurecida compartilhará, certamente, a mesma experiência de iluminação espiritual, diferindo apenas na forma em como irá abordar a questão.” Ou seja, a iluminação Budista pode ser experimentada em outras tradições religiosas contanto que esteja fundamentada nas quatro nobres verdades.
Questão: 15. O que significa o termo "Nirvana"?
Cartilha: O nirvana não é a "extinção do ser", mas sim a "extinção do sofrimento".
Comentário: A resposta assume a existência de um ser quando “um ser” é apenas um conceito. Aquilo que não existe não pode ser extinto.
Cartilha: o nirvana é eterno, pois transcende o tempo
Comentário: Aquilo que transcende o tempo não seria atemporal ao invés de eterno?
Questão: 16. É preciso ter fé para ser Buddhista?
Cartilha: Saddha, em páli, tem um sentido de confiança que elimina as impurezas da mente consciente.
Comentário: a mente inconsciente está livre de impurezas então, ou seja quando dormimos um sono profundo sem sonhos, não há impurezas. Então a iluminação é igual a um sono profundo sem sonhos, ou um estado comatoso?
Revisado: 19 Novembro 2011
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