O Gosto da Liberdade
Por
Ajaan Chah
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contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.
Estas palestras também estão disponíveis em áudio, clique para Ouvir
Conteúdo
O responsável
pela impressão gostaria de agradecer ao Venerável Ajaan Puriso, o tradutor para
o inglês, que gentilmente não somente revisou o texto para esta edição mas
também ajudou com a tarefa de conferência final dos textos.
Este livro foi
criado com a ajuda de muitas pessoas devotas. Khun Vanee Lamsam, juntamente com
o seu irmão Khun Parl Na Pombejra, conseguiram os recursos para financiar todos
os custos da publicação. Khun Thanu Malakul Na Ayudhaya forneceu um diapositivo
da sua belíssima pintura para a capa. Khun Panya Vijinthanasarn ajudou com o
desenho e ilustrações da capa. Khun Chutima Thanapura ajudou com a primeira
correção dos textos. Khun Pansak Panpak-deeddisakul nos forneceu uma
inestimável fotografia de Luang Por Chah (Phra Bodhinyana Thera). Khun Karoon
Hansachainand ajudou com a composição de algumas partes das artes e supervisionou
o trabalho de impressão. Que os generosos atos meritórios das pessoas acima
mencionadas as auxiliem a encontrar a felicidade suprema do Nibbana.
As palestras
traduzidas neste livro foram todas extraídas de antigas gravações em fitas K-7 do
Venerável Ajaan Chah, algumas em Tailandês e algumas no dialeto do Nordeste da
Tailândia, a maioria delas gravadas com equipamento de má qualidade sob
condições pouco adequadas. Devido a isso o trabalho de tradução apresentou
algumas dificuldades que foram superadas omitindo ocasionalmente passagens que
não estavam claras e em outras ocasiões solicitando o auxílio de outros
ouvintes mais familiarizados com os idiomas. Todavia, houve inevitavelmente
alguma edição durante o processo de elaboração deste livro. Além das
dificuldades apresentadas pela falta de claridade das fitas, existe também a
necessidade de um processo de edição quando se passa do meio verbal para o meio
escrito. Por esse processo, o tradutor assume inteira responsabilidade.
As palavras em
Pali foram em certos casos mantidas enquanto que em outros casos foram
traduzidas. O critério foi a facilidade da leitura. Aquelas palavras em Pali
consideradas suficientemente curtas ou familiares aos leitores versados na
terminologia Budista, foram deixadas sem tradução. Isso não deve representar
nenhuma dificuldade pois elas em geral são explicadas pelo Venerável Ajaan no
transcurso da palestra. Palavras mais longas ou que provavelmente não são do
conhecimento do leitor típico foram traduzidas. Dessas, existem duas que são
dignas de nota. Elas são Kamasukhallikanuyogo
e Attakilamathanuyogo, que foram
traduzidas respectivamente como Entregar-se ao Prazer e Entregar-se à Dor.
Essas duas palavras ocorrem em nada menos que cinco das palestras incluídas neste
livro e embora as traduções aqui utilizadas não são aquelas que em geral se
empregam, elas refletem adequadamente o sentido que o Venerável Ajaan lhes
aplica.
O Venerável Ajaan
Chah sempre proferia as suas palestras em linguagem simples, do cotidiano. O
seu objetivo era de esclarecer o Dhamma,
não de confundir os ouvintes com uma dose excessiva de informações. Por
conseguinte as palestras aqui apresentadas foram passadas de forma simples para
o inglês. O objetivo foi o de apresentar os ensinamentos de Ajaan Chah tanto na sua essência como na sua
forma.
Nesta terceira
edição do O Gosto da Liberdade, foram
feitas correções a algumas passagens que estavam compostas de forma
desajeitada, esperando assim que existam menos dessas ocorrências do que nas
primeiras edições. Por essas imperfeições o tradutor assume responsabilidade e
espera que o leitor tenha paciência com as eventuais deficiências literárias de
forma a receber o benefício completo dos ensinamentos aqui contidos.
O tradutor
Acerca desta
mente... Na verdade não existe nada de errado com ela. Ela é essencialmente
pura. Dentro de si mesma ela já está em paz. Que a mente não esteja em paz
nestes dias é porque ela se deixa levar pelos humores. A mente real não tem
nada a ver com isso, é simplesmente (um aspecto da) Natureza. Ela se torna
pacífica ou agitada porque os humores a enganam. A mente que não é treinada, é
estúpida. As sensações surgem e a ludibriam com a alegria, sofrimento,
felicidade e tristeza, mas a verdadeira natureza da mente não é nenhuma dessas
coisas. Essa alegria ou tristeza não é a mente mas somente um humor que surge
para nos enganar. A mente que não é treinada se perde e segue atrás dessas
coisas, esquece de si mesma. Então pensamos que somos nós que estamos
preocupados ou tranqüilos ou o que quer que seja.
Mas na realidade
essa nossa mente já está imóvel e tranqüila…realmente tranqüila! Tal como uma
folha que está imóvel até que o vento a sopre. Se o vento surge a folha se
agita. A agitação se deve ao vento - a agitação se deve a essas sensações; a
mente as segue. Se ela não as segue, não ficará agitada. Se conhecemos a
verdadeira natureza das sensações, não ficaremos agitados.
A nossa prática é
simplesmente ver a Mente Original. Dessa forma precisamos treinar a mente a
conhecer essas sensações e a não se deixar levar por elas. Fazer com que tudo
esteja em paz. É somente esse o objetivo desta difícil prática que estamos
empreendendo.
"...
Aquilo que "inspeciona" os vários elementos que surgem durante a
meditação é 'sati', atenção plena… Sati é vida… Quando não temos sati, quando
somos descuidados, é como se estivéssemos mortos… Sati é simplesmente a mente
atenta… É a causa do surgimento do auto-conhecimento e da sabedoria…Mesmo quando
não nos encontramos mais em samadhi, sati deveria estar sempre presente…"
Acalmar a mente
significa encontrar o equilíbrio correto. Se você tentar forçar a sua mente em
demasia ela irá longe demais, se você não se esforçar o suficiente ela não irá
chegar lá, ela perde o ponto de equilíbrio.
Normalmente a
mente não está tranqüila, ela está se movendo o tempo todo, lhe falta força.
Fortalecer a mente e fortalecer o corpo não é a mesma coisa. Para fortalecer o
corpo necessitamos exercitá-lo mas para fortalecer a mente significa fazer com
que ela fique em paz, que não fique pensando acerca disto ou daquilo. Para a
maioria das pessoas a mente nunca esteve em paz, ela nunca teve a energia de samadhi, [1] por
isso, devemos colocá-la dentro de limites. Sentamos em meditação, permanecendo
com Aquele que sabe.
Se forçamos a
nossa respiração para que seja muito longa ou muito curta, não estaremos em
equilíbrio, a mente não ficará em paz. É o mesmo quando usamos uma máquina de
costura com pedal pela primeira vez. Inicialmente praticamos somente com o
pedal, de forma a ajustar nossa coordenação, antes que costuremos alguma coisa.
Acompanhar a respiração é parecido. Nós não nos preocupamos se ela é longa ou
curta, fraca ou forte, nós somente a observamos. Deixamos que seja como deve
ser e acompanhamos a respiração natural.
Quando ela
estiver equilibrada, tomamos a respiração como nosso objeto de meditação.
Quando inspiramos, o começo da respiração está na ponta do nariz, o meio da
respiração está no peito e o final da respiração está no abdômen. Esse é o
caminho da respiração. Quando expiramos, o início da respiração está no
abdômen, o meio no peito e o final na ponta do nariz. Simplesmente observamos o
caminho da respiração na ponta do nariz, no peito e no abdômen e depois no
abdômen, no peito e na ponta do nariz. Notamos esses três pontos de forma a
fazer com que a mente fique estável, para conter a atividade mental de tal
forma que a atenção plena e a plena consciência possam surgir com facilidade.
Quando formos
capazes de notar esses três pontos poderemos soltá-los e notar a inspiração e a
expiração, concentrando exclusivamente na ponta do nariz ou no lábio superior,
onde o ar toca quando entra e sai. Nós não precisamos seguir a respiração,
simplesmente estabelecemos a atenção plena à nossa frente, na ponta do nariz e
notamos a respiração nesse único ponto - entrando, saindo, entrando, saindo.
Não há necessidade de pensar acerca de algo especial, agora, concentre-se nessa
simples tarefa, mantendo continuamente a mente atenta. Não há nada mais a ser
feito, somente inspirar e expirar.
Em pouco tempo a
mente ficará tranqüila, a respiração mais sutil. A mente e o corpo se tornam
leves. Esse é o estado correto para a tarefa da meditação.
Quando estamos
sentados em meditação a mente se torna refinada, mas em qualquer estado em que
ela se encontre devemos tentar ter consciência dele, conhecê-lo. A atividade
mental está ali junto com a tranqüilidade. Existe vitakka. Vitakka é a ação de trazer a mente para o tema da
contemplação. Se não existe muita atenção plena, não haverá muito vitakka. Então vicara, a contemplação em torno daquele tema, segue. Várias
impressões mentais "mais fracas" podem surgir de tempos em tempos mas
a nossa plena consciência é o mais importante - não importa o que esteja
acontecendo nós temos conhecimento disso continuamente. À medida que nos
aprofundamos estamos constantemente conscientes do estado em que se encontra a
nossa meditação, sabendo se a mente está ou não firmemente estabelecida. Dessa
forma, ambos, a concentração e a atenção plena estarão presentes.
Ter uma mente
tranqüila não quer dizer que nada está acontecendo, as impressões mentais
continuam surgindo. Por exemplo, quando falamos sobre o primeiro nível de
absorção, dizemos que ele possui cinco fatores. Juntamente com vitakka e vicara, piti (êxtase)
surge com o tema da contemplação e depois sukha
(felicidade). Essas quatro coisas estão todas juntas na mente que se firmou na
tranqüilidade. Elas são como um estado único.
O quinto fator é ekaggata ou unificação da mente em um só
ponto. Você deve estar perguntando a si mesmo como pode haver a unificação
quando também existem esses outros fatores. Isso ocorre porque eles ficam todos
unificados com base na tranqüilidade. Juntos eles são chamados de o estado de samadhi. Eles não são estados do
cotidiano da mente, eles são fatores de absorção. Existem essas cinco
características mas elas não perturbam a tranqüilidade básica. Existe vitakka, mas ela não perturba a mente; vicara, êxtase e felicidade surgem mas
não perturbam a mente. Portanto, a mente e esses fatores estão como se fossem
uma coisa só. Assim é o primeiro nível de absorção.
Nós não
precisamos chamá-lo de Primeiro Jhana,
[2] Segundo
Jhana, Terceiro Jhana e assim por diante, vamos chamá-lo simplesmente de ”uma mente
tranqüila". Conforme a mente vai progressivamente se acalmando, ela irá
dispensar vitakka e vicara, restando somente êxtase e felicidade.
Por que a mente descarta vitakka e vicara? A razão é porque a mente vai se
tornando mais refinada e a atividade de vitakka
e vicara é muito grosseira para que
possa permanecer. Neste estágio, quando a mente abandona vitakka e vicara,
sentimentos de intenso êxtase podem surgir, lágrimas podem aflorar. Mas
conforme o samadhi se aprofunda, o
êxtase também é descartado, ficando somente a felicidade e a unificação da
mente em um só ponto até que finalmente, mesmo a felicidade se vai e a mente
atinge o ponto mais elevado de refinamento. Existe apenas equanimidade e
unificação da mente em um só ponto, todo o demais foi deixado para trás. A
mente permanece imóvel.
Uma vez que a
mente esteja tranqüila tudo isso pode acontecer. Você não precisa pensar muito
a respeito disso, isso acontece por si mesmo. A isto se chama de a energia de
uma mente tranqüila. Nesse estado, a mente não está sonolenta; os cinco
obstáculos, desejo sensual, aversão, inquietação, torpor e dúvida, foram todos
embora.
Mas se a energia
mental não for forte o suficiente e a atenção plena for fraca, ocasionalmente
surgirão impressões mentais intrusas. A mente está tranqüila mas é como se
houvesse uma "névoa" dentro dessa tranqüilidade. Não é um tipo de
sonolência comum no entanto, algumas impressões irão se manifestar - talvez
ouçamos um som ou vejamos um cachorro ou outra coisa. Não está absolutamente
claro mas também não é um sonho. Isto ocorre porque os cinco fatores se
tornaram desequilibrados e fracos.
A mente tem a
tendência de nos pregar peças nesses níveis de tranqüilidade.
"Imagens" podem surgir certas vezes quando a mente está nesse estado,
através de qualquer um dos sentidos e o meditador poderá não ser capaz de
identificar o que exatamente está acontecendo. "Estou dormindo? Não. É um
sonho? Não, não é um sonho…" Essas impressões surgem a partir de um tipo
de tranqüilidade média; mas se a mente estiver verdadeiramente tranqüila e
cristalina não teremos dúvidas acerca das várias impressões mentais ou imagens
que surgirem. Questões como, "Eu fiquei à deriva? Eu estava dormindo? Eu
me perdi? " não surgem pois elas
são a característica de uma mente que ainda duvida. "Estou dormindo ou
acordado?"…Aqui está confuso! Essa é a mente que está ficando perdida nos
seus humores. É como a lua se escondendo atrás de uma nuvem. Você ainda pode
ver a lua mas as nuvens que a cobrem fazem com que ela não possa ser vista com
clareza. Não é como a lua que surgiu por detrás das nuvens - clara, bem
definida e brilhante.
Quando a mente
está tranqüila e com a atenção plena firmemente estabelecida, não haverá dúvida
em relação aos vários fenômenos que encontramos. A mente terá verdadeiramente
superado os obstáculos. Conheceremos com clareza, como na verdade é, tudo
aquilo que surgir na mente. Não teremos dúvida porque a mente está clara e
luminosa. A mente que alcança o samadhi
é assim.
No entanto,
algumas pessoas têm dificuldade de entrar em samadhi porque este não convém às suas inclinações. O samadhi existe mas não é forte ou firme.
Mas a pessoa pode alcançar a paz através da sabedoria, contemplando e vendo a
verdade das coisas, solucionando os problemas por esse caminho. Isto é a
utilização da sabedoria ao invés do poder de samadhi. Para alcançar a tranqüilidade na prática, não é necessário
sentar em meditação. Somente pergunte a si mesmo, "Ei, o que é
isso?…" e solucione o seu problema exatamente nesse momento! Assim é uma
pessoa sábia. Talvez ela realmente não consiga atingir níveis elevados de samadhi, embora ela desenvolva algo, o
suficiente para cultivar a sabedoria. É a diferença entre cultivar arroz e
cultivar milho. A pessoa pode depender mais de arroz do que milho para o seu
sustento. A nossa prática pode ser assim, dependemos mais da sabedoria para
solucionar os problemas. Quando vemos a verdade, a paz surge.
As duas formas
não são iguais. Algumas pessoas possuem insight e sólida sabedoria mas não
possuem muito samadhi. Quando elas
sentam para meditar elas não ficam muito tranquilas. Elas tendem a pensar
muito, contemplando isso ou aquilo até que finalmente elas contemplam a
felicidade e o sofrimento e enxergam neles a verdade. Algumas se inclinam mais
para isso do que samadhi. Quer seja
em pé, caminhando, sentado ou deitado, [3] a iluminação do Dhamma poderá ocorrer.
Vendo e abandonando, elas alcançam a paz. Elas alcançam a paz conhecendo a
verdade sem ter qualquer dúvida, porque elas a viram por si mesmas.
Outras pessoas
possuem somente pouca sabedoria mas o seu samadhi
é bastante sólido. Elas podem entrar em profundo samadhi rapidamente, mas não tendo muita sabedoria, elas não
conseguem agarrar as suas impurezas, elas não as conhecem. Elas não conseguem
resolver os seus problemas.
Mas
independente da abordagem que usemos, precisamos eliminar a maneira incorreta
de pensar, deixando ficar somente o Entendimento Correto. Precisamos eliminar a
confusão, deixando somente a paz. De ambas maneiras chegaremos ao mesmo lugar.
Existem esses dois aspectos da prática, mas essas duas coisas, tranqüilidade e
insight, caminham juntas. Não podemos eliminar nenhuma delas. Elas precisam ir
juntas.
Aquilo que
"inspeciona" os vários fatores que surgem na meditação é 'sati',
atenção plena. Sati é uma condição
que, através da prática, pode auxiliar outros fatores a surgirem. Sati é vida. Sempre que não tivermos sati, quando formos desatentos, é como
se estivéssemos mortos. Se não temos sati,
então o que falamos e fazemos não possui nenhum significado. Sati é simplesmente recordação. É a
causa do surgimento da plena consciência e sabedoria. Quaisquer virtudes que
tenhamos cultivado serão imperfeitas se lhes faltar sati. Sati é o que observa quando estamos em pé, caminhando,
sentados e deitados. Mesmo quando não estamos mais em samadhi, sati deveria estar sempre presente.
Tomamos cuidado
com qualquer coisa que façamos. Uma sensação de vergonha [4] irá surgir. Ficaremos envergonhados
das coisas que fazemos e que não são corretas. Conforme a vergonha aumenta, o
nosso autocontrole também aumenta, quando o nosso autocontrole aumenta a
desatenção irá desaparecer. Mesmo que não sentemos em meditação, esses fatores
estarão presentes na mente.
E isto surge
devido ao fato de cultivarmos sati.
Desenvolva sati! Esse é o dhamma que inspeciona o trabalho
que estamos fazendo ou que fizemos no passado. Ele tem utilidade. Devemos nos
conhecer o tempo todo. Se nos conhecermos dessa forma, o certo irá se
distinguir do errado, o caminho irá se tornar claro e o motivo para toda a
vergonha irá se dissolver. A sabedoria irá surgir.
Podemos resumir
toda a prática em virtude, concentração e sabedoria. Ter autocontrole, isso é
virtude. O firme estabelecimento da mente dentro desse controle é concentração.
Para completar, o conhecimento amplo dentro da atividade na qual estamos
engajados é sabedoria. A prática, em resumo, é apenas virtude, concentração e
sabedoria ou em outras palavras, o caminho. Não existe outra alternativa.
"...Com o samadhi correto, não importa qual nível de tranqüilidade é
alcançado, existe a consciência. Existe atenção plena e plena consciência. Esse
é o samadhi que pode dar origem à sabedoria, a pessoa não será capaz de se
perder nele. Os praticantes devem
entender isto muito bem..."
O Caminho em Harmonia
Hoje eu gostaria
de lhes perguntar. "Vocês estão seguros, vocês têm certeza da sua prática
de meditação?" Eu pergunto por que atualmente existem muitas pessoas
ensinando meditação, tanto monges como leigos e eu temo que vocês possam estar
sujeitos à incerteza e a dúvida. Se entendermos claramente, seremos capazes de
fazer com que a mente seja firme e tranqüila.
Vocês devem
entender o "Caminho Óctuplo" como sendo virtude, concentração e
sabedoria. O caminho é simplesmente isso. A nossa prática consiste em fazer com
que esse caminho se desenvolva dentro de nós.
Quando sentamos
em meditação nos dizem para fechar os olhos, não olhar para nada mais porque
agora iremos olhar diretamente para a mente. Quando fechamos os nossos olhos, a
nossa atenção se volta para dentro. Estabelecemos nossa atenção na respiração,
centralizamos ali as nossas sensações, colocamos ali a nossa atenção plena.
Quando os elementos do caminho estiverem em harmonia seremos capazes de ver a
respiração, as sensações, a mente e os seus humores da forma como realmente
são. Aqui veremos o "ponto de foco", para onde samadhi e os demais elementos do Caminho convergem em harmonia.
Quando estiverem
sentados em meditação, seguindo a respiração, pensem consigo mesmo que agora
vocês estão sentados sozinhos. Não existe ninguém sentado à sua volta, não
existe nada mais. Desenvolvam esse pensamento de que vocês estão sentados
sozinhos até que a mente solte de tudo que é externo, concentrando-se somente
na respiração. Se vocês estiverem pensando, "Esta pessoa está sentada
aqui, aquela pessoa está sentada ali", não haverá paz, a mente não vem
para dentro. Simplesmente coloquem tudo isso de lado até que vocês sintam que
não existe ninguém sentado a sua volta, até que não exista nada mais, até que
vocês não tenham nenhuma hesitação ou interesse naquilo que está a sua volta.
Deixem que a
respiração flua com naturalidade, não a force para que seja curta, longa ou o
que quer que seja, simplesmente fiquem sentados e observem ela entrar e sair.
Quando a mente se solta de todas as sensações externas, os ruídos de carros e
outros barulhos não irão perturbá-los. Nada, quer sejam visões ou sons, irá
perturbar, porque a mente não os estará recebendo. A sua atenção estará
concentrada na respiração.
Se a mente está
confusa e não se concentra na respiração, inspirem fundo, o mais fundo que
vocês puderem e depois expirem até que não reste nada. Façam isso três vezes e
depois re-estabeleçam a sua atenção. A mente irá se acalmar.
É natural que ela
se acalme durante algum tempo e que depois a inquietação e a confusão possam
surgir outra vez. Quando isso acontecer, concentrem-se, respirem fundo outra
vez e depois re-estabeleçam a sua atenção na respiração. Continuem fazendo
isso. Quando houver ocorrido isso algumas vezes, vocês se tornarão peritos
nisso, a mente irá se soltar de todas as manifestações externas. Impressões
externas não irão atingir a mente. Sati estará firmemente estabelecido. À medida
que a mente for ficando mais sutil, assim também a respiração. As sensações
irão ficar cada vez mais sutis, o corpo e a mente ficarão leves. A nossa
atenção estará somente no que é interno, veremos a inspiração e a expiração
claramente, veremos todas as impressões claramente. Veremos a Virtude,
Concentração e Sabedoria se unindo. A isto se denomina o Caminho em harmonia.
Quando existe harmonia a nossa mente ficará livre da confusão, estará
unificada. A isto se denomina samadhi.
Após observar a
respiração por um longo tempo, ela pode se tornar bastante sutil, a atenção na respiração
irá cessar gradualmente, restando somente a atenção pura. A respiração pode
ficar tão sutil que desaparecerá! Talvez estejamos "apenas sentados",
tal como se não houvesse respiração. Na verdade existe a respiração mas a
impressão é de que ela não existe. Isto ocorre porque a mente atingiu o seu
estado mais sutil, existe somente a atenção pura. Ela foi além da respiração. O
conhecimento de que a respiração desapareceu se torna estabelecido. O que
tomaremos agora como objeto de meditação? Tomamos esse conhecimento como nosso
objeto, isto é, a consciência de que não existe respiração.
Coisas
inesperadas podem acontecer neste momento; algumas pessoas as experimentam,
outras não. Se elas surgirem, devemos ser firmes e manter uma sólida atenção
plena. Algumas pessoas vêm que a respiração desaparece e ficam com medo, elas
temem que possam morrer. Nesse caso devemos entender a situação apenas pelo que
ela é. Nós simplesmente notamos que não há respiração e tomamos isso como
objeto da nossa atenção. Esse, podemos dizer, é o tipo de samadhi mais firme e mais seguro. Existe somente um estado da
mente, firme e imóvel. Talvez o corpo se torne tão leve que é como se não
houvesse corpo. Sentimos como se estivéssemos sentados em um espaço vazio, tudo
parece vazio. Embora isso possa parecer muito estranho, vocês devem entender
que não existe motivo para se preocupar. Estabeleçam a sua mente firmemente
dessa forma.
Quando a mente
está firmemente unificada, e já não é perturbada por impressões dos sentidos, a
pessoa pode permanecer nesse estado pelo tempo que quiser. Não haverão
sensações dolorosas que a perturbem. Quando o samadhi atingiu esse nível, poderemos deixá-lo quando quisermos,
porém se deixarmos esse samadhi o
faremos de maneira confortável, não porque ficamos entediados ou cansados. Nós
o deixamos porque estamos satisfeitos por agora, nos sentimos relaxados, sem
nenhum tipo de problema.
Se podemos
desenvolver esse tipo de samadhi, e nos sentarmos, digamos, trinta minutos ou
uma hora, a mente estará relaxada e calma por muitos dias. Quando a mente está
assim relaxada e calma, ela está limpa. Tudo aquilo que experimentarmos, a
mente irá tomar e investigar. Esse é um fruto do samadhi.
A virtude possui
uma função, a concentração possui outra função e a sabedoria outra. Esses
elementos são como um ciclo. Podemos vê-los todos dentro de uma mente
tranqüila. Quando a mente está calma ela possui moderação e autocontrole devido
à sabedoria e a energia da concentração. À medida em que ela fica mais
controlada ela se torna mais sutil, o que por conseguinte dá força para que a
virtude incremente a sua pureza. Na medida em que a virtude se purifica, isso
auxilia no desenvolvimento da concentração. Quando a concentração está
firmemente estabelecida ela auxilia o surgimento da sabedoria. Virtude,
concentração e sabedoria se auxiliam mutuamente, elas estão inter-relacionadas
dessa forma. No final o Caminho se converte em um só e opera todo o tempo.
Devemos buscar a força que se origina do caminho, porque é a força que conduz
ao Insight e Sabedoria.
* * *
Os Perigos do
Samadhi
Samadhi é capaz de trazer muito dano ou muito benefício para o meditador, não é
possível dizer que somente traga um ou outro. Para aquele que não possui sabedoria,
ele é prejudicial mas, para aquele que possui sabedoria ele pode trazer um
benefício real, pode conduzi-lo ao Insight.
Aquilo que pode
ser mais prejudicial ao meditador é o Samadhi
da Absorção (Jhana), o samadhi com profunda e sustentada tranqüilidade.
Esse samadhi traz imensa paz. Onde existe paz existe a felicidade. Quando
existe a felicidade, o apego, a união a essa felicidade surgem. O meditador não
quer contemplar nada mais, ele quer somente desfrutar dessa sensação agradável.
Após termos praticado por um longo tempo poderemos ter a habilidade de entrar
nesse samadhi muito rapidamente. Assim que começamos a
notar o nosso objeto da meditação, a mente fica tranqüila e nós não queremos
sair para investigar nada mais. Nós ficamos grudados nessa felicidade. Esse é
um perigo para quem pratica a meditação.
Nesse caso
precisamos usar Upacara Samadhi.
Aqui, penetramos a tranqüilidade e então, quando a mente estiver
suficientemente tranqüila, saímos e olhamos para a atividade externa. [5] Olhando para o exterior com a mente
tranqüila faz surgir a sabedoria. É difícil de entender isso, porque é quase o
mesmo que pensar e imaginar. Quando o pensamento está presente, podemos pensar
que a mente não está tranqüila, mas na verdade esse pensamento está ocorrendo
dentro da tranqüilidade. Existe a contemplação mas ela não perturba a
tranqüilidade. Podemos trazer o pensamento para contemplá-lo. Nesse caso
tomamos o pensamento para investigá-lo mas não é que estejamos pensando em investigá-lo
a esmo, nem que estejamos pensando ou imaginando a esmo; é algo que surge da
mente que está tranqüila. A isto se denomina "atenção dentro da calma e
calma com atenção". Se for simplesmente o pensamento e imaginação normais,
a mente não ficará tranqüila, ela ficará perturbada. Mas eu não estou falando
do pensamento comum, essa é uma sensação que surge da mente tranqüila. Se chama
"contemplação". É exatamente aí que nasce a sabedoria.
Portanto, pode
haver o samadhi correto e o samadhi incorreto. O samadhi incorreto se
dá quando a mente penetra a tranqüilidade e não existe absolutamente nenhuma
atenção. A pessoa pode ficar sentada por duas horas ou mesmo todo o dia mas a
mente não sabe onde esteve ou o que aconteceu. Não sabe de nada. Existe a
tranqüilidade, mas isso é tudo. É tal como uma faca muito bem afiada que não
nos damos ao trabalho de usar para nada. Esse é um tipo de tranqüilidade
enganoso porque não existe muita plena consciência. O meditador pode pensar que
já alcançou o ponto máximo e por isso não se preocupa em procurar por algo
mais. Samadhi pode ser um inimigo
nesse ponto. A sabedoria não é capaz de surgir porque não existe consciência do
que é certo ou errado.
Com o samadhi correto, não importa o nível de
tranqüilidade que seja alcançado, existe consciência. Existe atenção plena e
plena consciência. Esse é o samadhi que
pode fazer surgir a sabedoria, ninguém se perde nele. Os praticantes devem
entender isto muito bem. Você não deve ficar sem essa consciência, ela deve
estar presente do começo ao fim. Esse tipo de samadhi não apresenta nenhum perigo.
Vocês devem estar
se perguntando, de onde surge o benefício, como surge a sabedoria, do samadhi? Quando o samadhi correto foi desenvolvido, a sabedoria tem a possibilidade
de surgir em todos os momentos. Quando o olho vê uma forma, o ouvido ouve um
som, o nariz cheira um aroma, a língua experimenta um sabor, o corpo
experimenta o toque ou a mente experimenta objetos mentais - em todas as
posturas - a mente permanece com pleno conhecimento da verdadeira natureza
dessas impressões sensuais, ela não é seletiva. Em qualquer situação estamos
plenamente atentos ao surgimento da felicidade e da infelicidade. Nós nos
soltamos de ambas coisas, não nos apegamos. A isto se denomina a Prática
Correta, que está presente em todas as posturas. Essas palavras "todas as
posturas" não se referem somente a posturas do corpo, elas se referem à
mente, que possui atenção plena e plena consciência da verdade durante todo o
tempo. Quando samadhi foi
desenvolvido corretamente, a sabedoria surge dessa forma. A isto se denomina
"insight," o conhecimento da verdade.
Existem dois
tipos de paz - a grosseira e a refinada. A paz que surge de samadhi é do tipo grosseira. Quando a
mente está tranqüila existe a felicidade. A mente então assume que essa
felicidade é a paz. Mas a felicidade e a infelicidade são o devir e o
nascimento. Não existe escapatória do samsara
[6] nesse
caso porque ainda temos apego. Dessa forma a felicidade não é paz, a paz não é
felicidade.
O outro tipo de
paz é aquele que surge da sabedoria. Nesse caso não confundimos a paz com a
felicidade; conhecemos a mente que contempla e que conhece a felicidade e a
infelicidade como sendo paz. A paz que surge da sabedoria não é a felicidade,
mas é aquela que vê a verdade de ambas, a felicidade e a infelicidade. O apego
a esses estados não surge, a mente se eleva acima deles. Esse é o verdadeiro
objetivo de toda a prática Budista.
"...O Buda estabeleceu a Virtude, Concentração e Sabedoria como o
Caminho para a paz, o caminho para a iluminação. Mas na verdade essas coisas
não são a essência do Budismo. Elas são somente o Caminho…A essência do Budismo
é a paz e a paz é o resultado de conhecer verdadeiramente a natureza de todas
as coisas..."
O Caminho do Meio Interior
O ensinamento
Budista compreende o abandono do mal e a prática do bem. Então, quando o mal é
abandonado e o bem estabelecido, precisamos nos soltar de ambos, do bem e do
mal. Já ouvimos o suficiente acerca de condições benéficas e prejudiciais para
sermos capazes de entender algo a seu respeito, portanto eu gostaria de falar
sobre o Caminho do Meio, isto é, o caminho para escapar dessas duas coisas.
Todas palestras
do Dhamma e ensinamentos do Buda possuem um objetivo - mostrar como sair do
sofrimento para aqueles que ainda não conseguiram escapar. Os ensinamentos
possuem como objetivo nos transmitir o entendimento correto. Se não entendermos
corretamente, então não alcançaremos a paz.
Quando os vários
Budas se iluminaram e transmitiram os seus primeiros ensinamentos, todos eles
falaram acerca desses dois extremos - entregar-se ao prazer e entregar-se à
dor. [7] Esses dois caminhos são os
caminhos das paixões cegas, eles são os caminhos entre os quais oscilam aqueles
que se entregam aos prazeres sensuais, sem nunca alcançar a paz. Eles são os
caminhos que ficam dando volta no samsara.
O Iluminado
observou que todos os seres estão presos a esses dois extremos, nunca enxergando
o Caminho do Meio do Dhamma, portanto ele os expôs de forma a mostrar a punição
envolvida em ambos. Porque nós ainda estamos presos, porque ainda desejamos,
vivemos repetidas vezes sob a sua ditadura. O Buda declarou que esses dois
caminhos são os caminhos da embriaguez, eles não são os caminhos de um
meditador, nem os caminhos para a paz. Esses caminhos são a entrega ao prazer e
a entrega à dor ou, para colocar de maneira simplificada, o caminho da
negligência e o caminho da tensão. Se você investigar interiormente, momento a
momento, verá que o caminho da tensão é a raiva, o caminho do sofrimento.
Seguindo por esse caminho haverá somente dificuldade e sofrimento. Entregar-se
ao prazer - se você escapou dela, isso significa que você escapou da felicidade.
Esses caminhos, tanto a felicidade como a infelicidade não são estados de paz.
O Buda ensinou a soltar ambos. Essa á a prática correta. Esse é o Caminho do
Meio. Essas palavras, "o Caminho do Meio", não se referem ao nosso
corpo e linguagem, elas se referem à mente. Quando uma impressão mental que não
gostamos surge, ela afeta a mente e surge a confusão. Quando a mente está
confusa, quando ela está agitada, esse não é o caminho correto. Quando surge
uma impressão mental da qual gostamos, a mente se move para entregar-se ao
prazer - esse não é o caminho tampouco.
Nós não queremos
sofrer, queremos a felicidade. Mas na verdade a felicidade é apenas uma forma
refinada de sofrimento. O sofrimento em si é a forma grosseira. Você pode compará-los
a uma cobra. A cabeça da cobra é a infelicidade, a cauda da cobra é a
felicidade. A cabeça da cobra é realmente perigosa, ela possui as presas
venenosas. Se você tocá-la a cobra morderá imediatamente. Mas não importa a
cabeça, mesmo se você segurar a cauda, ela irá se voltar e mordê-lo do mesmo
jeito, porque ambos a cabeça e a cauda pertencem à mesma cobra.
Da mesma forma,
ambas a felicidade e a infelicidade, ou prazer e dor, surgem do mesmo
progenitor - desejo. Portanto, quando você está feliz a mente não está em paz.
Não está mesmo! Por exemplo, quando obtemos as coisas que queremos, tal como
riquezas, prestígio, elogios ou felicidade, como resultado ficamos satisfeitos.
Mas a mente ainda abriga algum desconforto porque tememos perder algo. Esse
mesmo temor não é um estado pacífico. Mais tarde poderemos até perder algo e
então realmente sofreremos. Dessa forma, se você não tiver consciência, mesmo
que esteja feliz, o sofrimento é iminente. É exatamente o mesmo que agarrar a
cauda da cobra - se você não soltá-la ela irá mordê-lo. Portanto quer seja a
cauda ou a cabeça da cobra, isto é, condições benéficas ou prejudiciais, elas
são apenas qualidades da Roda da Existência, mudando interminavelmente.
O Buda
estabeleceu a virtude, concentração e sabedoria como o caminho para a paz, o
caminho para a iluminação. Mas na verdade essas coisas não são a essência do
Budismo. Elas são somente o caminho. O Buda as chamava de "Magga",
que significa "caminho". A essência do Budismo é a paz e essa paz
surge conhecendo verdadeiramente a natureza de todas as coisas. Se
investigarmos de perto, veremos que a paz não é a felicidade nem a
infelicidade. Nenhuma delas é a verdade.
A mente humana, a
mente que o Buda nos estimulou a conhecer e investigar, é algo que somente
podemos conhecer através da sua atividade. A verdadeira "mente
original" não pode ser medida, não pode ser conhecida. No seu estado
natural ela é inabalável, imóvel. Quando surge a felicidade, o que ocorre é que
essa mente se perde em uma impressão mental, existe movimento. Quando a mente
se move dessa forma, o apego e a ligação a essas coisas surgem.
O Buda
estabeleceu o caminho da prática completo, mas nós ainda não o praticamos, ou
se o fazemos, nós o praticamos somente com a linguagem. As nossas mentes e a
nossa linguagem ainda não estão em harmonia, nós nos entregamos apenas a uma
conversa sem propósito. Mas a base do Budismo não é algo acerca do qual se
possa conversar ou fazer conjecturas. A base real do Budismo é o completo
conhecimento acerca da verdade da realidade. Se alguém conhece essa verdade
então não existe a necessidade de nenhum ensinamento. Se alguém não a conhece,
mesmo que ele escute os ensinamentos, ele na verdade não os irá ouvir. É por
isso que o Buda disse, "O Abençoado apenas indica o caminho". Ele não
pode realizar a prática por você, porque a verdade é algo que não pode ser
colocada em palavras ou revelada.
Todos os
ensinamentos são apenas metáforas e comparações, meios para ajudar a mente a
ver a verdade. Se não pudermos ver a verdade, sofreremos. Por exemplo,
geralmente dizemos "sankharas" [8] quando
nos referimos ao corpo. Qualquer pessoa pode dizer isso mas na verdade temos
problemas simplesmente porque não conhecemos a verdade desses sankharas, e por isso nos apegamos a
eles. Porque não conhecemos a verdade do corpo, sofremos.
Vou dar um
exemplo. Suponha que uma manhã você está caminhando para o trabalho e um homem
do outro lado da rua lhe grita ofensas e insultos. Assim que você ouve essas
ofensas a sua mente muda do seu estado normal. Você não se sente tão bem, você
sente raiva e mágoa. Aquele homem se encontra ali ofendendo-o dia e noite.
Quando você ouve a ofensa, você fica com raiva e mesmo quando você volta para
casa, ainda sente raiva porque você se sente vingativo, você quer revidar.
Alguns dias mais
tarde um outro homem vem na sua casa e lhe diz. "Ei! Aquele homem que o
ofendeu outro dia, ele está louco, ele está insano! Já faz vários anos! Ele
ofende a todos dessa forma. Ninguém presta atenção ao que ele diz". Assim
que você ouve isso, você se sente repentinamente aliviado. Aquela raiva e mágoa
que estavam armazenadas dentro de você todos esses dias se dissolvem
completamente. Por que? Porque agora você conhece a verdade. Antes, você não
sabia, você pensava que aquele homem era normal, por isso você estava com raiva
dele. Pensando dessa forma fez com que você sofresse. Assim que você descobriu
a verdade, tudo mudou: "Ah, ele está louco! Isso explica tudo!"
Entendendo isso, você se sente bem, porque você sabe por você mesmo.
Entendendo, então, você pode soltar de tudo. Se você não sabe a verdade você se
agarra ao sentimento. Quando você estava pensando que o homem que o havia
ofendido era normal, você poderia tê-lo matado. Mas quando você descobriu a
verdade, que ele está louco, você se sentiu muito melhor. Esse é o conhecimento
da verdade.
Alguém que vê o
Dhamma tem uma experiência semelhante. Quando a cobiça, raiva e delusão
desaparecem, elas desaparecem do mesmo modo. Enquanto não conhecemos essas
coisas pensamos, "O que posso fazer? Eu tenho tanto desejo e
raiva". Esse não é o claro conhecimento. É exatamente o mesmo quando
pensávamos que o homem louco era equilibrado. Quando finalmente vimos que ele
estava louco todo o tempo, nos aliviamos da aflição. Ninguém poderia
mostrar-lhes isso. Somente quando a mente vê por si mesma é possível arrancar
pela raiz e abandonar o apego.
É o mesmo que
ocorre com este corpo que chamamos de sankharas.
Embora o Buda já tenha explicado que não se trata de algo sólido ou real como
tal, nós ainda não aceitamos isso, teimosamente nos agarramos a ele. Se o corpo
pudesse falar, ele nos diria o tempo todo, "Você não é o meu dono,
sabia?" Na verdade ele nos está dizendo isso o tempo todo, mas é a
linguagem do Dhamma, por isso somos incapazes de entendê-lo. Por exemplo, os
órgãos dos sentidos: olho, ouvido, nariz, língua e corpo estão mudando todo o
tempo, mas eu nunca os vi pedir permissão uma vez que seja! Tal como quando
temos dor de cabeça ou dor de estômago - o corpo nunca pede primeiro permissão,
ele simplesmente faz o que quer, seguindo o seu curso natural. Isso mostra que
o corpo não permite que ninguém seja o seu dono, ele não tem dono. O Buda o
descreveu como algo vazio.
Nós não
entendemos o Dhamma e por isso não entendemos esses sankharas; nós assumimos que eles são nós mesmos, que nos pertencem
ou pertencem a outros. Isso faz surgir o apego. Quando o apego surge, "vir
a ser" vem em seguida. Uma vez que o devir surge, então existe o
nascimento. Uma vez que existe o nascimento, então o envelhecimento,
enfermidade, morte…toda a massa de sofrimento surge. Isto é Paticcasamuppada. [9] Nós dizemos que a ignorância faz surgir as atividades volitivas,
elas dão origem à consciência e assim por diante. Todas essas coisas são
simplesmente eventos que se passam na mente. Quando entramos em contato com
alguma coisa da qual não gostamos, se não temos atenção plena, a ignorância
estará ali. O sofrimento surge imediatamente. Mas a mente passa por essas
mudanças tão rapidamente que não nos é
possível acompanhá-la. É o mesmo quando você cai de uma árvore. Antes que você
se dê conta - "Pum!" - você caiu no solo. Na verdade você passou por
muitos galhos e ramos pelo caminho mas você não foi capaz de contá-los, você
não foi capaz de se lembrar deles à medida que passava por eles. Você somente
caiu e depois "Pum!"
Com o Paticcasamuppada é o mesmo. Se o
dividirmos da forma como está nas escrituras, diremos que a ignorância dá
origem às atividades volitivas, as atividades volitivas dão origem à
consciência, a consciência dá origem à mentalidade-materialidade, a
mentalidade-materialidade dá origem aos seis meios dos sentidos, os seis meios
dos sentidos dão origem ao contato sensual, o contato dá origem à sensação, a
sensação dá origem ao desejo, o desejo dá origem ao apego, o apego dá origem ao
ser/existir, o ser/existir dá origem ao nascimento, o nascimento dá origem ao
envelhecimento, enfermidade, morte e todas as formas de sofrimento. Mas na verdade,
quando você entra em contato com alguma coisa da qual você não gosta, o
sofrimento é imediato! Essa sensação de sofrimento é na verdade o resultado de
toda a cadeia do Paticcasamuppada. É
por isso que o Buda exortava os seus discípulos a investigar e conhecer as suas
mentes inteiramente.
Quando as pessoas
nascem no mundo elas não possuem nomes - uma vez que nascem, lhes damos nomes.
Isso é uma convenção. Damos nomes para as pessoas por conveniência, para ter
como chamar um ao outro. Com as escrituras ocorre o mesmo. Separamos tudo com
rótulos para que o estudo da realidade seja facilitado. Da mesma forma, todas
as coisas são simplesmente sankharas.
A sua natureza é que são coisas originadas de condições. O Buda disse que elas
são impermanentes, insatisfatórias e não-eu. Elas são instáveis. Nós realmente
não entendemos isso, nossa compreensão é falha e por isso temos o entendimento
incorreto. Esse entendimento incorreto é de que os sankharas somos nós mesmos, que nós somos os sankharas, ou de que a felicidade ou infelicidade somos nós mesmos,
nós somos a felicidade e a infelicidade. Ver dessa forma não é conhecer plena e
claramente a verdadeira natureza das coisas. A verdade é que não podemos forçar
todas essas coisas a seguir os nossos desejos, elas seguem o caminho da
natureza.
Uma simples
comparação: suponha que você vá e se sente no meio de uma autopista com carros
e caminhões vindo na sua direção. Você não pode ficar com raiva dos carros e
gritar, "Não dirijam por aqui! Não dirijam por aqui!" É uma autopista,
você não pode dizer-lhes isso! Então o que você pode fazer? Você sai da
autopista! A autopista é o lugar dos carros, se você não quiser que os carros
estejam ali, você irá sofrer.
É o mesmo com os sankharas. Nós dizemos que eles nos
perturbam, tal como quando sentamos em meditação e ouvimos um som. Nós
pensamos, "Ah, esse som está me aborrecendo". Se pensarmos que o som está nos perturbando
então conseqüentemente sofreremos. Se investigarmos um pouco mais, veremos que
somos nós que saímos e perturbamos o som! O som é simplesmente som. Se o
entendermos dessa forma então não há nada mais e nós o deixamos em paz. Veremos
que o som é uma coisa, nós somos outra. Aquele que deduz que o som surge para
perturbá-lo é alguém que não consegue ver a si mesmo. Ele realmente não
consegue! Uma vez que você consiga ver a si mesmo, então você estará tranqüilo.
O som é somente um som, por que você deveria agarrá-lo? Você verá que na verdade
foi você quem saiu e perturbou o som. Esse é o genuíno conhecimento da verdade.
Você vê os dois lados, assim você terá paz. Se você enxergar somente um lado,
existirá o sofrimento. Uma vez que você consiga ver ambos lados, você estará
seguindo o Caminho do Meio. Essa é a prática mental correta. Isso é o que
chamamos de "acertar a nossa compreensão".
Da mesma forma, a
natureza de todos sankharas é a
impermanência e a morte, porém nós queremos agarrá-los, nós os carregamos
conosco e os desejamos. Queremos que eles sejam verdadeiros. Queremos encontrar
a verdade nessas coisas que não são verdadeiras! Sempre que alguém pense assim
e se apegue aos sankharas como sendo
ele mesmo, ele sofrerá. O Buda queria que o levássemos em conta dessa forma.
A prática do
Dhamma não depende de ser um monge, um noviço ou um leigo; ela depende de
acertarmos a nossa compreensão. Se o nosso entendimento é correto, alcançaremos
a paz. Quer você seja ordenado ou não, é a mesma coisa, todas as pessoas têm a
oportunidade de praticar o Dhamma, de contemplá-lo. Nós todos contemplamos a
mesma coisa. Se você alcança a paz, é a mesma paz para todos; é o mesmo
Caminho, com os mesmos métodos.
Portanto, o Buda
não discriminava entre leigos e monges, ele ensinou todas as pessoas a praticar
para conhecer a verdade dos sankharas.
Quando conhecemos essa verdade, nos soltamos deles. Se conhecermos a verdade
não haverá mais vir a ser ou nascimento. Como não haverá mais nascimento? Não
há mais como ocorrer o nascimento porque conhecemos plenamente a verdade dos sankharas. Se conhecermos a verdade
plenamente, então haverá paz. Ter ou não ter, é tudo a mesma coisa. Ganho ou
perda é o mesmo. O Buda nos ensinou a entender isso. Isso é paz; paz da
felicidade, infelicidade, alegria e tristeza.
Precisamos ver
que não há razão para nascer. Nascer de que forma? Nascer na felicidade: Quando
conseguimos algo que gostamos ficamos felizes por isso. Se não existe apego a
essa felicidade não existe nascimento; se existe apego, a isso se chama
"nascimento". Portanto se obtemos algo, não nascemos (na felicidade).
Se perdemos, não nascemos (na tristeza). Isto é o não nascido e o imortal. O
nascimento e a morte, ambos, são encontrados no apego e no amor aos sankharas.
Assim o Buda
disse: "O nascimento foi destruido, a vida santa foi vivida, o que deveria
ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado". Aí está! Ele
conhecia o não nascido e o imortal! Isso é o que o Buda constantemente exortava
os seus discípulos a conhecer. Essa é a prática correta. Se você não
alcançá-la, não irá alcançar o Caminho do Meio e então não irá transcender o
sofrimento.
"...Meditar significa pacificar a mente de modo a permitir que a
sabedoria surja…Para colocar de forma sucinta, é apenas uma questão de
felicidade e infelicidade. A felicidade é uma sensação agradável na mente, a
infelicidade é justamente a sensação desagradável. O Buda ensinou a separar
essa felicidade e infelicidade da mente..."
A Paz que está mais além
É muito
importante que pratiquemos o Dhamma. Se não praticarmos, então todo o nosso
conhecimento será somente um conhecimento superficial, a sua cobertura externa
somente. É como se tivéssemos um certo tipo de fruta mas que ainda não a
tivéssemos experimentado. Apesar de termos essa fruta nas nossas mãos, ela não nos
traz nenhum benefício. Somente comendo a fruta é que podemos realmente conhecer
o seu sabor.
O Buda não
louvava aqueles que simplesmente acreditavam nos outros, ele louvava a pessoa que tinha o conhecimento
interiorizado. O mesmo que com a fruta, se nós já a tivermos provado, não
precisaremos perguntar a ninguém mais se ela é doce ou azeda. Os nossos
problemas estão solucionados. Por que estão resolvidos? Porque vemos de acordo
com a verdade. Aquele que compreendeu o Dhamma é como aquele que percebeu a
doçura ou acidez da fruta. Todas as dúvidas terminam nesse momento.
Quando falamos
sobre o Dhamma, embora possamos falar muito, usualmente, isso pode ser resumido
em quatro coisas. Elas são simplesmente entender o sofrimento, entender a causa
do sofrimento, entender o fim do sofrimento e entender o caminho da prática que
conduz ao fim do sofrimento. Isso é tudo. Tudo que experimentamos até agora no
caminho da prática se resume nessas quatro coisas. Quando entendermos essas
coisas, os nossos problemas terminam.
De onde surgem
essas quatro coisas? Elas surgem justamente deste corpo e desta mente, de
nenhum outro lugar. Então por que o Dhamma do Buda é tão amplo e extenso? Ele é
assim de forma a explicar essas coisas de uma maneira mais detalhada, para
ajudar-nos a vê-las.
Quando Siddhattha
Gotama nasceu neste mundo, antes que ele enxergasse o Dhamma, ele era uma
pessoa comum como qualquer um de nós. Quando ele entendeu o que era para ser
entendido, isto é, a verdade do sofrimento, a causa, o fim e o caminho que
conduz ao fim do sofrimento, ele compreendeu o Dhamma e se tornou um Buda
perfeitamente Iluminado.
Quando nós
compreendemos o Dhamma, em qualquer
lugar que sentemos, entenderemos o Dhamma, em qualquer lugar que estejamos,
ouviremos os ensinamentos do Buda. Quando nós compreendemos o Dhamma, o Buda
está dentro da nossa mente, o Dhamma está dentro da nossa mente e a prática que
conduz à sabedoria está dentro da nossa mente. Ter o Buda, o Dhamma e a Sangha
dentro da nossa mente significa que, boas ou más, saberemos claramente, por nós
mesmos, a verdadeira natureza das
nossas ações. Foi assim que o Buda descartou as opiniões mundanas, ele
descartou os elogios e as críticas. Quando as pessoas o elogiavam ou criticavam
ele simplesmente aceitava ambos pelo que eram. Essas duas coisas são
simplesmente condições mundanas, assim ele não se abalava com elas. Por que não?
Porque ele conhecia o sofrimento. Ele sabia que se ele acreditasse nesse elogio
ou crítica, estes lhe causariam sofrimento.
Quando o
sofrimento surge ele nos agita, nos sentimos perturbados. Qual é a causa desse
sofrimento? É porque não conhecemos a Verdade, essa é a causa. Quando a causa
está presente, então o sofrimento surge. Uma vez que surge nós não sabemos como
pará-lo. Quanto mais tentamos pará-lo, mais intenso ele fica. Nós dizemos,
"Não me critique", ou "Não ponha a culpa em mim". Ao tentar
pará-lo dessa forma, o sofrimento fica realmente mais intenso e ele não irá
parar.
Portanto, o Buda
ensinou que o caminho que conduz ao fim do sofrimento é fazer surgir o
Dhamma como uma realidade dentro das
nossas mentes. Nos tornamos alguém que testemunha o Dhamma por si mesmo. Se
alguém diz que somos bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos
bons, nós não nos perdemos nisso; eles dizem que não somos bons e nós não nos
esquecemos de nós mesmos. Dessa forma podemos nos libertar. "Bem" e
"mal" são apenas dhammas mundanos, eles são, apenas, estados da
mente. Se os seguirmos, a nossa mente se transforma no mundo, nós ficamos
tateando no escuro e não sabemos onde está a saída. Se é assim, então ainda não
temos controle sobre nós mesmos. Tentamos derrotar os outros, mas agindo assim
apenas derrotamos a nós mesmos; porém se temos controle sobre nós mesmos então
temos controle sobre tudo - sobre todas as formações mentais, visões, sons,
aromas, sabores e sensações corporais. Agora estou falando de coisas externas,
elas são assim, mas o exterior também está refletido internamente. Algumas
pessoas apenas conhecem o exterior, elas não conhecem o interior. Como quando
dizemos para "ver o corpo no corpo". Ver o corpo exterior não é
suficiente, precisamos conhecer o corpo dentro do corpo. Então, tendo
investigado a mente, devemos conhecer a mente dentro da mente.
Por que devemos
investigar o corpo? O que é esse "corpo no corpo"? Quando falamos
conhecer a mente, o que é essa "mente"? Se não conhecermos a mente
então não conheceremos as coisas dentro da mente. É ser alguém que não conhece
o sofrimento, não conhece a causa, não conhece o fim e não conhece o caminho.
As coisas que deveriam ajudar a extinguir o
sofrimento não funcionam porque nós somos distraídos pelas coisas que o
agravam. É como se tivéssemos uma coceira na cabeça e coçássemos a perna! Se é a nossa cabeça que está coçando então
obviamente não vamos obter muito alívio. Da mesma forma, quando o sofrimento
surge, não sabemos como lidar com ele, não conhecemos a prática que conduz ao
fim do sofrimento.
Por exemplo,
vejam o corpo, este corpo que cada um de nós trouxe a esta reunião. Se somente
virmos a forma do corpo não há como escapar do sofrimento. Por que não? Porque
ainda não enxergamos o interior do corpo, somente vemos o exterior. Somente o
vemos como algo belo, que possui substância. O Buda disse que somente isso não
é o suficiente. Nós vemos o exterior com os nossos olhos; uma criança pode
vê-lo, animais podem vê-lo, não é difícil. O exterior do corpo pode ser visto
com facilidade, mas ao vê-lo nos prendemos a ele, não conhecemos a verdade a
seu respeito. Ao vê-lo nós o agarramos e ele nos morde!
Portanto devemos
investigar o corpo dentro do corpo. Não importa o que exista no corpo, vá em
frente e olhe. Se virmos somente o exterior, não estará nítido. Vemos cabelo,
unhas e assim por diante e elas são apenas coisas belas que nos atraem, por
isso o Buda nos ensinou a olhar para dentro do corpo, para ver o corpo dentro
do corpo. O que é o corpo? Olhem para dentro atentamente! Veremos muitas coisas
ali que nos surpreenderão, porque apesar de estarem dentro de nós, nós nunca as
vimos. Para qualquer lugar que caminhemos, nós vamos carregá-las conosco,
sentados em um carro, nós vamos levá-las conosco, mas mesmo assim não as
conhecemos!
É como quando
visitamos alguns parentes e eles nos dão um presente. Nós o pegamos e colocamos
na nossa mala e depois saímos sem abri-lo para ver o que é. Quando finalmente o
abrimos - está cheio de cobras venenosas! O nosso corpo é igual. Se virmos somente a sua casca diremos que ele é
agradável e bonito. Nós nos esquecemos.
Esquecemos que é impermanente, insatisfatório e não-eu. Se olharmos
dentro deste corpo veremos que ele é realmente repulsivo. Se virmos de acordo
com a realidade, sem tentar disfarçar as coisas, veremos que ele é realmente
patético e cansativo. O desapego irá surgir. Essa sensação de
"desinteresse" não quer dizer que sintamos aversão pelo mundo ou algo
parecido; é simplesmente a nossa mente sendo limpa, a nossa mente se soltando
dele. Vemos as coisas como elas são por natureza. Não importa como queiramos
que sejam, elas serão do seu próprio jeito. Quer riamos ou choremos, elas são
simplesmente como são. As coisas que são instáveis, são instáveis; as coisas
que são feias, são feias.
Portanto o Buda
disse que quando experimentamos visões, sons, sabores, aromas, sensações
corporais ou estados mentais, deveríamos libertá-los.Quando o ouvido ouve um
som, deixe-o ir. Quando o nariz cheira um aroma, deixe-o ir…deixe-o no nariz!
Quando as sensações corporais surgem, solte-se do gostar ou não gostar que vem
em seguida, deixe que retornem para onde vieram. O mesmo para os estados
mentais. Todas essas coisas, deixe que elas sigam o seu caminho. Isso é o
conhecimento. Quer seja felicidade ou infelicidade, é a mesma coisa. A isto se
chama meditação.
Meditação
significa pacificar a mente de forma que a sabedoria possa surgir. Isso exige
que pratiquemos com o corpo e a mente de forma a ver e conhecer as impressões
sensuais da forma, do som, do sabor, do toque e das formações mentais.
Colocando de modo resumido, é somente uma questão de felicidade e infelicidade.
A felicidade é uma sensação agradável na mente, a infelicidade é justamente a
sensação desagradável. O Buda ensinou a separar essa felicidade e infelicidade
da mente. A mente é aquela que sabe. A sensação [10] é a característica da felicidade ou infelicidade, gostar ou não
gostar. Quando a mente se entrega a essas coisas dizemos que ela se apega ou
assume que essa felicidade e infelicidade merecem ser guardadas. Esse apego é
uma ação mental, essa felicidade ou infelicidade é a sensação.
Quando afirmamos
que o Buda nos disse para separar a mente da sensação, ele não quis dizer
literalmente colocá-los em lugares diferentes. Ele quis dizer que a mente deve
conhecer a felicidade e a infelicidade. Quando estamos sentados em samadhi, por exemplo, e a paz preenche a
mente, então a felicidade pode vir mas ela não nos atinge, a infelicidade pode
vir mas não nos atinge. Isto é o que quer dizer separar a sensação da mente.
Podemos compará-lo com a água e óleo numa garrafa. Eles não se combinam. Mesmo
se você tentar misturá-los, o óleo permanece como óleo e a água permanece como
água. Por que ocorre isso? Porque eles possuem densidades diferentes.
O estado natural
da mente não é nem de felicidade nem de infelicidade. Quando uma sensação entra
na mente então a felicidade ou infelicidade surge. Se tivermos atenção plena
então entenderemos a sensação agradável como sensação agradável. A mente que
sabe não irá se agarrar a ela. A felicidade se encontra ali mas está "do
lado de fora" da mente, não está enterrada dentro da mente. A mente
simplesmente sabe disso com clareza.
Se separarmos a
infelicidade da mente, isso significa que não haverá sofrimento, que nós não o
experimentaremos? Sim, nós o experimentamos, porém sabemos que a mente é mente
e a sensação é sensação. Nós não nos agarramos a essa sensação ou a carregamos
conosco. O Buda separou essas coisas através do conhecimento. Ele sofria? Ele conhecia o estado de sofrimento mas não
se apegava a ele, dessa forma dizemos que ele extirpou o sofrimento. E também
havia a felicidade, mas ele conhecia essa felicidade, quando ela não é
conhecida, é como um veneno. Ele não a tomou como parte de si mesmo. A felicidade ali estava através do
conhecimento, mas ela não existia na sua mente. Dessa forma dizemos que ele
separou a felicidade e a infelicidade da sua mente.
Quando dizemos
que o Buda e os Iluminados aniquilaram as contaminações, [11]
não é que eles realmente as aniquilaram. Se eles as tivessem
aniquilado então provavelmente nós não teríamos nenhuma! Eles não aniquilaram
as contaminações, quando eles as conheceram pelo que elas são, eles se soltaram
delas. Alguém que seja estúpido irá se agarrar a elas, mas os Iluminados
conheciam as contaminações como veneno nas suas mentes, assim eles as varreram
para fora. Eles varreram para fora as coisas que lhes causavam sofrimento, eles
não as aniquilaram. Alguém que não saiba disso verá algumas coisas, assim como
a felicidade, como boas e então irá agarrá-las, mas o Buda as conhecia e simplesmente as varria para
fora.
Mas quando a
sensação surge nos entregamos a ela, isto é, a mente carrega consigo aquela
felicidade e infelicidade. Na verdade elas são duas coisas distintas. As
atividades da mente, sensações agradáveis, sensações desagradáveis e assim por
diante, são impressões mentais, elas são o mundo. Se a mente sabe disso ela pode lidar igualmente com a felicidade
ou a infelicidade. Por que? Porque ela conhece a verdade acerca dessas coisas.
Alguém que não a conhece, as vê como sendo iguais. Se você se apega à
felicidade será ali onde irá surgir a infelicidade mais tarde, porque a
felicidade é instável, ela muda o tempo todo. Quando a felicidade desaparece,
surge a infelicidade.
O Buda sabia
disso porque ambas a felicidade e a infelicidade são insatisfatórias, elas
possuem o mesmo valor. Quando surgia a felicidade ele a soltava . Ele tinha a
prática correta, vendo que ambas as coisas possuem valores e desvantagens
iguais. Elas se submetem à lei do Dhamma, isto é, elas são instáveis e
insatisfatórias. Uma vez que nascem, elas morrem. Quando ele viu isso, o entendimento correto despertou e a prática
correta se tornou clara. Não importa que tipo de sentimento ou pensamento
surgia na sua mente, ele sabia que era simplesmente o jogo contínuo da felicidade
e infelicidade. Ele não se apegava a elas.
Pouco após a sua
iluminação o Buda deu um sermão acerca de entregar-se ao prazer e de
entregar-se à dor. "Bhikkhus! Entregar-se ao prazer é o caminho relaxado,
entregar-se à dor é o caminho tenso". Essas foram as duas coisas que
atrapalharam a sua prática até o dia em que ele se iluminou, porque no início
ele não se soltava delas. Assim que ele as entendeu, ele passou a se soltar
delas e dessa forma foi capaz de proferir o seu primeiro sermão.
Portanto, dizemos
que um meditador não deve seguir o caminho da felicidade ou infelicidade, de
preferência ele deve entendê-las. Entendendo a verdade do sofrimento, ele
saberá a causa do sofrimento, o fim do sofrimento e o caminho que conduz ao fim
do sofrimento. E o caminho que conduz ao fim do sofrimento é a própria
meditação. Para colocar de maneira simples, precisamos estar plenamente
atentos.
Atenção plena
é saber, ou presença da atenção. Exatamente agora o que estamos pensando, o que
estamos fazendo? O que temos conosco exatamente neste instante? Observamos
dessa forma, estamos conscientes de como estamos vivendo. Quando praticamos
dessa forma, a sabedoria pode surgir. Nós consideramos e investigamos todo o
tempo, em todas as posturas. Quando uma impressão mental surge e queremos
conhecê-la tal como ela é, nós não a tomamos como sendo algo com substância. É
apenas felicidade. Quando a infelicidade surge sabemos que se trata da entrega
à dor, não é o caminho de um meditador.
Isto é o que
chamamos de separar a mente da sensação. Se formos espertos não nos apegamos,
deixamos as coisas como são. Nos tornamos "aquele que sabe'. A mente e a
sensação são como óleo e água, elas estão na mesma garrafa mas não se misturam.
Mesmo se estivermos enfermos ou com dor, ainda assim entenderemos a sensação
como sensação, a mente como mente. Conhecemos os estados desconfortáveis ou
confortáveis mas não nos identificamos com eles. Somente permanecemos com a
paz, a paz que está além do conforto e da dor.
Você deve
entender dessa forma, porque se não há um eu permanente então não existe
refúgio. Você deve viver dessa forma, isto é, sem felicidade e sem
infelicidade. Você permanece simplesmente com esse entendimento, você não
carrega essas coisas.
Enquanto não
alcançarmos a iluminação tudo isso pode soar estranho mas não tem importância,
nós simplesmente colocamos o nosso objetivo nessa direção. A mente é a mente.
Ela encontra a felicidade e a infelicidade e as vemos apenas como tais, nada
além disso. Elas são divididas, não misturadas. Se estiverem misturadas então
não as entenderemos. É como viver em
uma casa, a casa e o seu morador estão relacionados, porém separados. Se a
nossa casa está em perigo ficamos aflitos porque precisamos protegê-la, mas se a
casa pegar fogo precisaremos abandoná-la. Se uma sensação desconfortável surge
nós a abandonamos, tal como com a casa. Se ela estiver em chamas e nós
soubermos disso, sairemos correndo. São duas coisas distintas; a casa é uma
coisa, o morador é outra.
Dizemos que
separamos a mente e a sensação dessa forma, mas na verdade por natureza elas já
estão separadas. A nossa realização é simplesmente conhecer essa separação
natural de acordo com a realidade. Quando dizemos que elas não estão separadas
é porque por ignorância da verdade nos apegamos a elas.
Por isso o Buda
nos disse para meditar. Essa prática de meditação é muito importante. Somente
conhecer com o intelecto não é suficiente. O conhecimento que é obtido através
da prática com uma mente tranqüila e o conhecimento que é obtido através do
estudo são dois tipos realmente muito distintos. O conhecimento que é obtido
através do estudo não é o verdadeiro conhecimento da nossa mente. A mente tenta
agarrar e manter esse conhecimento. Por que tentamos mantê-lo? Solte-o ! E então
quando o soltamos, lamentamos!
Se realmente
tivermos o conhecimento, então poderemos nos soltar de tudo, que as coisas
sejam como são. Sabemos como as coisas são e não nos esquecemos. Se acontecer
de ficarmos enfermos não nos perderemos nisso. Algumas pessoas pensam,
"Este ano estive enfermo todo o tempo, não pude nunca meditar". Essas
são as palavras de uma pessoa realmente tola. Alguém que esteja enfermo e
morrendo deve realmente ser diligente na sua prática. Uma pessoa pode dizer que
não confia no seu corpo e por isso sente que não consegue meditar. Se pensarmos
assim então as coisas ficarão difíceis. O Buda não ensinou dessa forma. Ele
disse que aqui mesmo é o lugar para meditar. Quando estamos enfermos ou
morrendo é quando podemos realmente ver e conhecer a realidade.
Outras pessoas
dizem que elas não têm a oportunidade de meditar porque estão muito ocupadas.
Algumas vezes professores me procuram. Eles dizem que possuem muitas
responsabilidades e por isso não têm tempo para meditar. Eu lhes pergunto,
"Quando vocês estão ensinando, vocês têm tempo para respirar?" Eles
respondem, "Sim". "Portanto como que vocês têm tempo para
respirar se o trabalho é tão agitado e confuso? Nesse caso, vocês estão
distantes do Dhamma."
Na realidade,
esta prática é justamente sobre a mente
e as sensações. Não se trata de algo que você tenha de correr atrás ou se
esforçar. A respiração continua enquanto trabalhamos. A natureza toma conta dos
processos naturais - tudo que precisamos fazer é estar atentos. Continuar
tentando apenas, ver internamente com clareza. A meditação é assim.
Se tivermos essa
atenção presente, então todo trabalho que façamos será a ferramenta que nos
permitirá continuamente saber o que é certo e o que é errado. Existe muito tempo
para meditar, nós apenas não entendemos a prática de forma completa, isso é
tudo. Enquanto estamos dormindo, respiramos;
comendo, respiramos, não é mesmo? Por que não temos tempo para meditar?
Onde quer que seja que estejamos, respiramos. Se pensarmos dessa forma então a
nossa vida tem tanto valor quanto a nossa respiração, onde quer que estejamos,
temos tempo.
Todos os tipos de
pensamentos são condições mentais, não condições do corpo, deste modo,
precisamos simplesmente ter a atenção presente, então saberemos o que é certo e
o que é errado todo o tempo. Em pé, caminhando, sentado e deitado, existe tempo
de sobra. Nós, apenas, não sabemos como usá-lo da forma apropriada. Por favor
levem isso em conta.
Não podemos fugir
das sensações, precisamos conhecê-las. Sensação é apenas sensação, felicidade é apenas felicidade, infelicidade é apenas infelicidade. Elas são simplesmente isso. Portanto,
por que deveríamos nos apegar a elas? Se a mente for esperta, só de ouvir isso
seria o suficiente para nos permitir separar a sensação da mente.
Se investigarmos
dessa forma continuamente, a mente irá encontrar a libertação, mas não escapará através da ignorância. A mente
se solta de tudo, quando ela sabe. Ela não solta devido à estupidez, não porque
ela não queira que as coisas sejam como são. Ela solta porque sabe de acordo
com a verdade. Isso é ver a natureza, a realidade que está à nossa volta.
Quando sabemos
isso somos alguém hábil com a mente, temos habilidade com as impressões
mentais. Quando temos habilidade com as impressões mentais somos hábeis com o
mundo. Isto é ser um "Conhecedor do Mundo". O Buda era alguém que
claramente conhecia o mundo com todas as suas dificuldades. Ele sabia que o que
é preocupante e que o que não é preocupante estavam exatamente ali. O mundo é
tão confuso, como é que o Buda foi capaz de entendê-lo? Com relação a isso
devemos entender que o Dhamma ensinado pelo Buda não está além da nossa
capacidade. Em todas as posturas devemos ter a atenção presente e
plena consciência - e quando for o momento para sentar em meditação, fazemos
apenas isso.
Nós sentamos em
meditação para estabelecer a paz e cultivar a energia mental. Nós não o fazemos
com o propósito de explorar algo especial. A meditação de insight é estar sentado em samadhi. Em alguns lugares se diz, "Agora vamos sentar em samadhi, depois disso faremos meditação
de insight". Não faça essa separação! A tranqüilidade é a base que faz
surgir a sabedoria, a sabedoria é o fruto da tranqüilidade. Dizer que agora
vamos fazer a meditação da tranqüilidade e mais tarde insight - você não pode
fazer isso! Você somente consegue dividi-las na linguagem. Tal como uma faca, a
lâmina está de um lado, a parte de trás da lâmina do outro. Você não consegue
dividi-las. Se você pegar um lado irá na verdade ficar com os dois lados. A
tranqüilidade faz a sabedoria surgir dessa forma.
A Virtude é o pai
e a mãe do Dhamma. No princípio precisamos ter virtude. A virtude é paz. Isso significa
que não existem ações incorretas com o corpo ou a linguagem. Quando não agimos
da forma incorreta não ficamos agitados; quando não ficamos agitados, então a
paz e o autocontrole surgem na mente.
Portanto dizemos que a virtude, concentração e sabedoria são o caminho que
todos os Nobres trilharam em direção à iluminação. Eles são um só. A virtude é
concentração, a concentração é virtude. A concentração é sabedoria, a sabedoria
é concentração. É tal como uma manga. Quando ela é uma flor a chamamos de flor.
Quando se torna uma fruta a chamamos de manga. Quando amadurece nós a chamamos
de manga madura. Tudo isso é uma manga que muda continuamente. A manga grande
se desenvolve da manga pequena, a manga pequena se torna uma grande. Você pode
chamá-las de nomes diferentes ou dar um nome só. Virtude, concentração e
sabedoria estão relacionadas dessa forma. Ao final todas são o caminho que
conduz à iluminação.
A manga, do
momento em que surge como uma flor, simplesmente se desenvolve até o
amadurecimento. Isso é o suficiente, nós devemos ver dessa forma. Seja o que
for que os outros a chamem, não importa. Uma vez nascida ela cresce até
envelhecer, e depois o que? Devemos meditar sobre isso.
Algumas pessoas
não querem envelhecer. Quando elas envelhecem elas ficam se lamentando. Essas
pessoas não deveriam comer mangas maduras! Por que queremos que as mangas
amadureçam? Se não amadurecem no tempo certo, nós as amadurecemos
artificialmente, não é verdade? Porém quando envelhecemos ficamos cheios de
lamentações. Algumas pessoas choram, elas temem envelhecer ou morrer. Se é
assim, então elas não deveriam comer mangas maduras, melhor comer somente as
flores! Se podemos enxergar isso, então poderemos ver o Dhamma. Tudo fica
claro, estamos em paz. Decida-se a praticar dessa forma.
Assim, hoje, o
Chefe Conselheiro e o seu grupo vieram
juntos para ouvir o Dhamma. Vocês deveriam tomar o que eu disse e analisar tudo
cuidadosamente. Se algo não estiver correto, por favor me desculpem. Mas para saberem se está certo ou errado, depende de
praticarem e enxergarem por si mesmos. Aquilo que estiver errado, joguem fora.
Aquilo que estiver certo, guardem e usem. Mas na verdade, nós praticamos para
soltar ambos, o que é correto e o que é incorreto. Ao final jogamos tudo fora.
Se for correto, jogue fora; se for incorreto, jogue fora! Usualmente, se for
correto nos apegamos à correção, se for incorreto, nos agarramos à idéia de que
é incorreto e então as discussões surgem. Mas o Dhamma é o lugar onde não
existe nada - absolutamente nada.
"...O Buda se iluminou no mundo, ele contemplou o mundo. Se ele não
tivesse contemplado o mundo, se ele não tivesse visto o mundo, ele não
poderia ter superado o mundo. A iluminação do Buda foi simplesmente o
despertar deste mesmo mundo. O mundo estava ali mesmo: ganho e perda, elogio e
crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza ainda estavam todas ali. Se
não fossem por essas coisas não haveria nada do que se despertar..."
Abrindo o Olho do Dhamma
Muitos de
nós começamos a praticar e mesmo após
um ano ou dois, ainda não sabemos o que é o que. Ainda nos sentimos inseguros
em relação à prática. Quando nos sentimos inseguros, não enxergamos que tudo à
nossa volta é claramente o Dhamma, e dessa forma buscamos os ensinamentos dos Ajaans.
Mas na verdade, quando conhecemos a nossa própria mente, quando temos sati para olhar de perto para a mente,
existe a sabedoria. Todos os momentos e todas as situações se tornam ocasiões
para ouvir o Dhamma.
Podemos aprender o Dhamma da natureza das árvores, por exemplo. Uma árvore nasce devido a causas e cresce seguindo o curso da natureza. Nisso, a árvore está nos ensinando o Dhamma, porém não o entendemos. No seu devido tempo, ela cresce até que brotos, flores e frutos apareçam. Tudo que vemos é a aparência das flores e frutos, somos incapazes de interiorizar e contemplar isso. Por isso não sabemos que a árvore está nos ensinando o Dhamma. O fruto aparece e nós simplesmente o comemos sem investigar: doce, azedo ou salgado, é a natureza da fruta. E esse Dhamma é o ensinamento da fruta. Dando seguimento, as folhas envelhecem. Elas ficam murchas, morrem e depois caem das árvores. Tudo que vemos é que as folhas caíram. Nós pisamos nelas, varremo-las e isso é tudo. Nós não investigamos a fundo, por isso não sabemos que a natureza está-nos ensinando. Mais tarde, as novas folhas brotam e nós vemos somente isso, sem levar o assunto mais adiante. Nós não trazemos essas coisas para dentro das nossas mentes para contemplá-las.
Se pudermos
trazer tudo isso para dentro e investigar, veremos que o nascimento de uma
árvore e o nosso próprio nascimento não têm diferença. Este nosso corpo nasce e
existe dependendo de condições, dos
elementos terra, água, ar e fogo. Tendo a sua comida, ele crescerá e crescerá.
Todas as partes do corpo mudam e fluem de acordo com a sua natureza. Não existe
diferença em relação à árvore; cabelo, unhas, dentes e pele - tudo muda. Se
entendermos as coisas da natureza, então entenderemos a nós mesmos.
As pessoas
nascem. Ao final elas morrem. Tendo morrido elas nascem novamente. Unhas,
dentes e pele constantemente morrem e crescem outra vez. Se entendermos a
prática então veremos que uma árvore não é diferente de nós. Se entendermos os
ensinamentos dos Ajaans, então nos daremos conta de que o exterior e o interior
são comparáveis. As coisas que possuem consciência e aquelas sem consciência
não são diferentes. Elas são iguais. E se entendermos essa identidade, então
quando vemos a natureza de uma árvore por exemplo, saberemos que não existe
diferença em relação aos nossos cinco khandhas
[12] -- corpo, sensação, percepção,
formações mentais e consciência. Se entendemos isso então entendemos o Dhamma.
Se entendemos o Dhamma entendemos os cinco khandhas
e como eles se movem e
mudam constantemente, sem nunca parar.
Portanto quer
seja em pé, caminhando, sentados ou deitados, nós deveríamos ter sati para vigiar e cuidar da mente.
Quando vemos as coisas externas é como se víssemos as coisas internas. Quando vemos
as coisas internas é como se víssemos as coisas externas. Se compreendermos
isso então poderemos ouvir o ensinamento do Buda. Se compreendermos isso, então
poderemos dizer que a qualidade do Buda, 'aquela que sabe', foi estabelecida Ela conhece o externo. Ela conhece o
interno. Conhece todas as coisas que surgem. Entendendo dessa forma, então
sentados ao pé de uma árvore ouviremos os ensinamentos do Buda. Em pé,
caminhando, sentados ou deitados, ouviremos os ensinamentos do Buda. Vendo,
ouvindo, cheirando, saboreando, tocando e pensando, ouviremos os ensinamentos
do Buda. O Buda é somente isso 'aquele que sabe' dentro dessa nossa mente. Ele
conhece o Dhamma, investiga o Dhamma. A qualidade do Buda, 'aquela que sabe',
surge, a mente se torna iluminada.
Se estabelecermos
o Buda dentro da nossa mente então veremos tudo, contemplaremos tudo, como não
sendo diferente de nós mesmos. Veremos vários animais, árvores, montanhas e
plantas como não sendo diferentes de nós mesmos. Veremos pessoas pobres e ricas
- elas não são diferentes! Elas possuem todas as mesmas características. Quem
compreende isto, estará satisfeito em qualquer lugar. Ele ouve os ensinamentos
do Buda em todos os momentos. Se não compreendermos isso, então mesmo que
gastemos todo o nosso tempo ouvindo os ensinamentos dos vários Ajaans, ainda
assim não compreenderemos o significado deles.
O Buda disse que
a iluminação do Dhamma é somente conhecer a Natureza, [13] a realidade que nos cerca, a Natureza que está exatamente aqui! Se
não entendermos essa Natureza experimentaremos decepções e alegrias, estaremos
perdidos em humores, fazendo surgir a tristeza e o remorso. Estar perdido em
objetos mentais é estar perdido na Natureza. Quando nos perdemos na Natureza
então não entendemos o Dhamma. O iluminado apenas apontou essa Natureza.
Tendo surgido,
todas as coisas mudam e morrem. As coisas que fazemos, tal como pratos, tigelas
e vasilhas, todas possuem a mesma característica. Uma tigela é moldada devido a
uma causa, o impulso do homem em criar e na medida em que a usamos, ela fica
velha, se quebra e desaparece. Árvores, montanhas e plantas são o mesmo, até os
animais e pessoas.
Quando Añña
Kondañña, o primeiro discípulo, ouviu o ensinamento do Buda pela primeira vez,
a compreensão que ele alcançou não foi algo complicado. Ele simplesmente viu
que tudo aquilo que nasce está sujeito à mudança e ao envelhecimento como uma
condição natural e no final das contas terá que morrer. Añña Kondañña nunca
havia pensado nisso antes, ou se havia não estava completamente claro, dessa
forma ele não havia ainda se soltado, ele ainda estava agarrado aos khandhas. Estando sentado, com atenção
plena, ouvindo o discurso do Buda, a qualidade do Buda surgiu nele. Ele recebeu
uma espécie de "transmissão" do Dhamma que foi o conhecimento de que
todas as coisas condicionadas são impermanentes. Tudo aquilo que nasce tem que
ter o envelhecimento e a morte como resultado natural.
Essa sensação era
diferente de tudo aquilo que ele havia conhecido antes. Ele realmente entendeu
a sua mente e assim o "Buda" surgiu dentro dele. Naquela ocasião o
Buda declarou que Añña Kondañña havia recebido o Olho do Dhamma.
E o que é que
esse Olho do Dhamma vê? Esse Olho vê que tudo que nasce tem o envelhecimento e
a morte como resultado natural. "Tudo que nasce" significa tudo
mesmo! Quer seja material ou imaterial, tudo se encaixa no termo "tudo que
nasce". Se refere a toda a Natureza. Como este corpo por exemplo - nasce e
depois prossegue até a extinção. Quando é pequeno, "morre" da
infância para a juventude. Após um tempo ele "morre" da juventude e
se transforma na meia idade. Então prossegue para "morrer” da meia idade e
alcançar a velhice, finalmente chegando ao fim. Árvores, montanhas e plantas
todos têm essa característica.
Portanto a visão
ou entendimento 'daquele que sabe' claramente entraram na mente de Añña Kondañña enquanto ele estava ali
sentado. Esse conhecimento de "tudo que nasce" ficou profundamente
cravado na sua mente, permitindo que ele desenraizasse o apego ao corpo. Esse
apego era sakkayaditthi. Isso
significa que ele não tomou o corpo como sendo um eu ou um ser, ou em termos de
"ele" ou "eu". Ele não se apegou ao corpo. Ele o viu com
clareza e dessa forma desenraizou sakkayaditthi.
E vicikiccha (dúvida) foi destruída. Tendo
desenraizado o apego pelo corpo ele não duvidou do seu entendimento. Silabbata paramasa [14]
também foi desenraizado. A sua prática se tornou firme e
segura. Mesmo se o seu corpo estivesse com dores ou febre ele não se agarraria
a ele, ele não tinha dúvida. Ele não teria dúvida porque havia desenraizado o
apego. Esse agarrar-se ao corpo é chamado de silabbata paramasa. Quando alguém desenraiza essa idéia de que o
corpo é o eu, o agarramento e a dúvida terminam. Se essa idéia do corpo como o
eu apenas surgir na mente, então o agarramento e a dúvida têm início exatamente
ali.
Portanto enquanto o Buda explicava o Dhamma, Añña Kondañña abriu o Olho do Dhamma. Esse Olho é exatamente "Aquele que vê com clareza". Ele vê as coisas de uma maneira diferente. Ele vê a Natureza. Ao ver a Natureza com clareza, o apego é desenraizado e 'Aquele que sabe' nasce. Antes ele sabia mas ainda tinha apego. Você poderia dizer que ele conhecia o Dhamma mas que ainda não o havia visto, ou que ele havia visto o Dhamma mas que ainda não estava integrado com ele.
No momento em que
o Buda disse, "Kondañña sabe." O que ele sabia? Ele sabia apenas
sobre a Natureza! Usualmente nos perdemos na Natureza, tal como com este nosso
corpo. Terra, água, fogo e ar se juntam para constituir este corpo. É um
aspecto da Natureza, um objeto material que podemos ver com o olho. Ele existe
na dependência da comida, cresce e muda até que finalmente chegue à extinção.
Vindo para o
interior, aquilo que vigia o corpo é a consciência - apenas 'Aquela que sabe',
uma consciência única. Se vem através do ouvido ela é chamada, ouvir; se
através do nariz é chamada, cheirar; se através da língua, saborear; se através
do corpo, tocar; e através da mente, pensar. Essa consciência é uma só mas
quando ela atua em diferentes lugares lhe damos nomes distintos. Através do
olho damos um nome, através do ouvido outro. Mas quer atue no olho, nariz,
língua, corpo ou mente é somente uma consciência. De acordo com as escrituras
elas são chamadas de as seis consciências mas na realidade existe uma só
consciência que surge nessas seis bases diferentes. Existem essas seis
"portas" mas uma única consciência. Que é exatamente a mente.
A mente é capaz
de entender a verdade da Natureza. Se a mente ainda tiver obstruções, então
dizemos que ela sabe através da ignorância. Ela entende incorretamente e vê
incorretamente. Entender incorretamente e ver incorretamente ou entender e ver
corretamente é apenas uma única consciência.
Falamos em entendimento incorreto e entendimento correto mas é uma coisa
só. Correto e incorreto surgem deste único lugar. Quando existe o entendimento
incorreto dizemos que a ignorância oculta a verdade. Quando existe o
conhecimento incorreto existe o entendimento incorreto, pensamento incorreto,
ação incorreta, modo de vida incorreto - tudo está incorreto! E por outro lado,
o caminho da prática correta nasce nesse mesmo lugar. Quando o correto existe então
o incorreto desaparece.
O Buda praticou
suportando muitas dificuldades e torturando-se com o jejum e assim por diante,
mas ele investigou a sua mente profundamente até que finalmente ele desenraizou
a ignorância. Todos os Budas possuem a mente iluminada, porque o corpo nada
sabe. Você pode alimentá-lo ou não, não faz diferença, ele pode morrer a
qualquer momento. Todos os Budas praticavam com a mente. Eles tinham a mente
iluminada.
O Buda, tendo
contemplado a sua mente, abandonou os extremos da prática - entregar-se ao
prazer e entregar-se à dor - e no seu primeiro discurso expôs o Caminho do Meio
entre esses dois. Mas nós ouvimos o seu ensinamento e ele fere os nossos
desejos. Nós estamos encantados com o prazer e o conforto, encantados com a
felicidade, pensamos que estamos bem, estamos excelentes - isso é entregar-se
ao prazer. Não é o caminho correto. Descontentamento, desprazer, antipatia e
raiva - isso é entregar-se à dor. Esses são os extremos que alguém que está no
caminho da prática deve evitar.
Esses
"caminhos" são simplesmente a felicidade e a infelicidade que surgem.
Aquela "que está no caminho" é esta mente, 'aquela que sabe'. Se um
humor bom surge nos agarramos a ele como bom, isso é entregar-se ao prazer. Se
um humor desagradável surge nos agarramos a ele através do desprazer - isso é
entregar-se à dor. Esses são os caminhos incorretos, eles não são os caminhos
de um meditador. Eles são os caminhos de um mundano, aquele que busca a
diversão e a felicidade e que evita o desagrado e o sofrimento.
O sábio conhece
os caminhos incorretos mas ele os abandona, ele desiste deles. Ele não é
afetado pelo prazer nem pelo desprazer, felicidade e infelicidade. Essas coisas
surgem mas aqueles que sabem não se apegam a elas, eles se soltam delas e deixam-nas
ser de acordo com a natureza delas. Esse é o entendimento correto. Quando
alguém entende isso completamente, então existe a libertação. A felicidade e a
infelicidade não têm qualquer significado para um Iluminado.
O Buda disse que
os Iluminados estão muito afastados das contaminações. Isso não significa que
eles fogem das contaminações, eles não correm para nenhum lugar. As
contaminações estão ali. Ele as comparou a uma folha de lótus em um lago. A
folha e a água existem juntas, elas estão em contato, mas a folha não fica
úmida. A água é tal como as contaminações e a folha de lótus é a Mente
Iluminada.
Com a mente
daquele que pratica ocorre o mesmo; ela não sai correndo para nenhum lugar, ela
fica exatamente no lugar. O bem, o mal, a felicidade e a infelicidade, o
correto e o incorreto surgem e ele os conhece a todos. O meditador simplesmente
os conhece, eles não entram na sua mente. Isto é, ele não possui apego. Ele é
simplesmente aquele que experiencia. Dizer que ele simplesmente experiencia é utilizar
a nossa linguagem comum. Na linguagem do Dhamma dizemos que ele deixa que a sua
mente siga o Caminho do Meio.
Essas ações de
felicidade, infelicidade e assim por diante surgem constantemente porque elas são
características do mundo. O Buda se iluminou no mundo, ele contemplou o mundo.
Se ele não tivesse contemplado o mundo, se ele não tivesse visto o mundo, ele
não poderia tê-lo superado. A iluminação do Buda foi simplesmente a iluminação
deste mundo. O mundo ainda estava ali: ganho e perda, elogio e crítica, fama e
má reputação, alegria e tristeza ainda ali estavam. Se não fossem por essas
coisas não haveria nada do que se iluminar! O que ele conhecia era apenas o
mundo, aquilo que cerca os corações das pessoas. Se as pessoas seguem essas
coisas, buscando o elogio e a fama, ganho e alegria e tentam evitar os seus
opostos, elas afundam sob o peso do mundo.
Ganho e perda,
elogio e crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza - isso é o mundo. A
pessoa que está perdida no mundo não tem por onde escapar, o mundo a subjuga.
Esse mundo segue a Lei do Dhamma portanto o chamamos de dhamma mundano. Aquele
que vive no dhamma mundano é chamado de um ser mundano. Ele vive cercado pela
confusão.
Portanto, o Buda nos
ensinou a desenvolver o caminho. Podemos dividi-lo em virtude, concentração e
sabedoria - desenvolvam-no até a sua finalização! Esse é o caminho da prática
que destrói o mundo. Onde está o mundo? Está justamente nas mentes dos seres
que estão encantados com ele! A ação de apegar-se ao elogio, ganho, fama,
alegria e tristeza é chamada o "mundo". Quando isso está lá na mente,
então o mundo surge, o ser mundano nasce. O mundo nasce devido ao desejo.
Desejo é o lugar de nascimento de todos os mundos. Dar um fim ao desejo é dar
um fim ao mundo.
A nossa prática
de virtude, concentração e sabedoria é chamada de Caminho Óctuplo. Esse Caminho
Óctuplo e os oito dhammas mundanos são um par. Como é que eles são um par? Se
falamos de acordo com as escrituras, dizemos que o ganho e a perda, elogio e
crítica, fama e má reputação, alegria e tristeza são os oito dhammas mundanos.
Entendimento Correto, Pensamento Correto, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo
de Vida Correto, Esforço Correto, Atenção Plena Correta e Concentração Correta,
esse é o Caminho Óctuplo. Esses dois caminhos óctuplos existem no mesmo lugar.
Os oito dhammas mundanos estão exatamente aqui nesta mente, com 'Aquele que
sabe' mas esse 'Aquele que sabe' tem obstruções e dessa forma sabe da forma
incorreta e assim se torna o mundo. É
exatamente este 'Aquele que sabe', nenhum outro! A qualidade do Buda ainda não
surgiu nessa mente, ela ainda não se retirou do mundo. Uma mente assim é o mundo.
Quando praticamos
o caminho, quando treinamos nosso corpo e linguagem, tudo ocorre nessa mesma
mente. É o mesmo lugar, portanto eles vêem um ao outro, o caminho vê o mundo.
Se praticarmos com essa nossa mente, encontraremos esse apego ao elogio, fama,
ganho e alegria, vemos o apego ao mundo.
O Buda disse,
"Vocês devem conhecer o mundo. Ele fascina como uma carruagem real. Os
tolos se hipnotizam mas os sábios não se deixam enganar." Não que ele
quisesse que fossemos pelo mundo olhando para tudo, estudando tudo a seu
respeito. Ele simplesmente queria que observássemos esta mente que está apegada
ao mundo. Quando o Buda nos disse para olharmos para o mundo ele não queria que
ficássemos presos nele, ele queria que nós o investigássemos, porque o mundo
nasce exatamente nesta mente. Sentado à sombra de uma árvore você pode olhar
para o mundo. Quando existe desejo o mundo passa a existir exatamente ali. No
querer é onde o mundo nasce. Extinguir o querer é extinguir o mundo.
Quando sentamos
em meditação nós queremos que a mente fique tranqüila, mas ela não fica. Por que acontece isso? Nós não queremos
pensar e no entanto pensamos. Tal como uma pessoa que se senta sobre um
formigueiro: as formigas a picarão o tempo todo. Quando a mente é o mundo, então mesmo sentados quietos com os nossos
olhos cerrados, tudo que vemos é o mundo. Prazer, tristeza, ansiedade, confusão
- tudo surge. Por que isso? É porque nós ainda não realizamos o Dhamma. Se a
mente é assim, o meditador não consegue tolerar os dhammas mundanos, ele não os
investiga. É como se ele estivesse sentado sobre um formigueiro. As formigas
irão mordê-lo porque ele está na casa delas! Portanto o que ele deve fazer? Ele
deve procurar algum veneno ou usar o fogo para expulsá-las.
Mas a maioria dos
praticantes do Dhamma não vê dessa forma. Se eles se sentem satisfeitos eles
simplesmente seguem essa satisfação, sentindo-se insatisfeitos eles seguem
isso. Ao seguir os dhammas mundanos a mente se torna o mundo. Às vezes podemos
pensar, "Ah, eu não consigo fazer isso, está além da minha
capacidade...", então, nós nem mesmo tentamos! Isso porque a mente está
cheia de contaminações, os dhammas mundanos não permitem que o caminho surja.
Não conseguimos continuar o desenvolvimento da virtude, concentração e
sabedoria. Tal como a pessoa sentada sobre o formigueiro. Ela não pode fazer
nada, as formigas a estão mordendo e tomando todo o seu corpo, ela está imersa
na confusão e agitação. Ela não consegue eliminar o perigo do lugar em que está
sentada, assim ela simplesmente se deixa ficar ali sentada, sofrendo.
Assim é a nossa
prática. Os dhammas mundanos existem nas mentes dos seres mundanos. Quando
esses seres desejam encontrar a paz os dhammas mundanos surgem. Quando a mente
é ignorante existe somente a escuridão. Quando o conhecimento surge a mente é
iluminada, porque a ignorância e o conhecimento surgem no mesmo lugar. Quando a
ignorância surge, o conhecimento não consegue entrar, porque a mente aceitou a
ignorância. Quando o conhecimento surge, a ignorância não pode permanecer.
Deste modo, o
Buda exortou os seus discípulos a praticarem com a mente, porque o mundo nasce
nesta mente, os oito dhammas mundanos estão ali. O Caminho Óctuplo, isto é, a
investigação através da meditação da tranqüilidade e insight, o nosso esforço
dedicado e a sabedoria que desenvolvemos, todas essas coisas afrouxam o
agarramento ao mundo. Cobiça, raiva e delusão se tornam mais leves e sendo
mais leves, nós os conheceremos como tal. Se experimentarmos a fama, o ganho,
elogio, alegria ou tristeza, estaremos conscientes disso. Nós precisamos
conhecer essas coisas antes que possamos transcender o mundo, porque o mundo
está dentro de nós.
Quando nos
livramos dessas coisas é o mesmo que sair de uma casa. Quando entramos numa
casa que tipo de sensações temos? Sentimos que atravessamos a porta e entramos
na casa. Quando saímos da casa sentimos que a deixamos e que estamos na clara
luz do dia, não está mais escuro como estava lá dentro. A ação da mente ao
entrar nos dhammas mundanos é a mesma que entrar na casa. A mente que destruiu
os dhammas mundanos é igual àquela que saiu da casa.
Portanto, o
praticante do Dhamma deve se tornar alguém que testemunha o Dhamma por si
mesmo. Ele sabe por si mesmo se os dhammas mundanos foram embora ou não, se o
caminho foi desenvolvido ou não. Quando o caminho foi bem desenvolvido ele
purifica os dhammas mundanos. Ele se torna cada vez mais forte. O entendimento
correto cresce enquanto que o entendimento incorreto diminui, até que
finalmente o caminho destrói todas as impurezas - ou isso, ou as impurezas
destruirão o caminho!
Entendimento
correto e entendimento incorreto, só existem esses dois caminhos. O
entendimento incorreto também possui os seus truques, vocês sabem, ele possui
sabedoria - mas é uma sabedoria que está equivocada. O meditador que começa a
desenvolver o caminho experimenta uma separação. No final, é como se ele fosse
duas pessoas - uma no mundo e a outra
no caminho. Elas se dividem, elas se separam. Sempre que ele estiver
investigando haverá essa separação, e ela continua até que a mente atinja o
insight, vipassana.
Ou talvez seja vipassanu! [15] Tentando estabelecer resultados benéficos através da nossa
prática, vendo esses resultados, nos apegamos a eles. Esse tipo de apego surge
porque queremos obter algo da prática. Isso é vipassanu, a sabedoria com as impurezas ( isto é, "sabedoria
impura"). Algumas pessoas desenvolvem a bondade e se apegam a ela, elas
desenvolvem a pureza e se apegam a isso, ou elas desenvolvem sabedoria e se
apegam a ela. A ação de se apegar a essa bondade ou conhecimento é vipassanu, infiltrando-se na nossa
prática.
Portanto, se você
desenvolver vipassana, tenha cuidado!
Fique atento com relação a vipassanu,
porque elas são tão parecidas que às vezes você não consegue diferenciá-las.
Mas com o entendimento correto podemos vê-las com clareza. Se for vipassanu o sofrimento irá surgir
ocasionalmente. Se for realmente vipassana
não há sofrimento. Há paz. Ambas a felicidade e a infelicidade são silenciadas.
Isso você poderá ver por si mesmo.
Esta prática requer
resistência. Algumas pessoas, quando praticam, não querem ser perturbadas por
nada, elas não querem fricção. Mas a fricção é a mesma de antes. Precisamos
tentar encontrar um fim para a fricção através da própria fricção! Portanto, se
existe fricção na sua prática, então está tudo bem. Se não existe fricção, não
está bem, você come e dorme quanto quiser. Sempre que você quer ir a algum
lugar ou dizer algo você simplesmente segue os seus desejos. O ensinamento do
Buda irrita. O supramundano vai contra o mundano. O entendimento correto se
opõe ao entendimento incorreto, a pureza se opõe à impureza. O ensinamento
irrita os nossos desejos.
Existe uma
história nas escrituras sobre o Buda, anterior à sua iluminação. Naquela
ocasião, tendo recebido um prato de arroz com leite, ele o colocou para flutuar
em uma correnteza e pensou o seguinte, "Se eu vou me iluminar, que esse
prato flutue contra a correnteza". O prato flutuou contra a correnteza!
Aquele prato era o entendimento correto do Buda, ou a natureza de Buda para a
qual ele despertou. Ele não seguiu os desejos dos seres comuns. Ele flutuou
contra a correnteza da sua mente, foi na direção contrária em todos os
sentidos.
Hoje em dia, da
mesma forma, os ensinamentos do Buda são opostos às nossas vontades. As pessoas
querem se entregar ao desejo e à raiva, mas o Buda não as deixa. Elas querem
ser deludidas, mas o Buda destrói a delusão. Portanto, a mente do Buda se opõe
à mente dos seres mundanos. O mundo diz que o corpo é bonito, ele diz, não é
bonito. Eles dizem que o corpo nos pertence, ele diz que não é assim. Eles
dizem que o corpo é sólido, ele diz que não é. O entendimento correto está
acima do mundo. Seres mundanos simplesmente seguem o fluxo das torrentes.
Continuando com a
história, quando o Buda se levantou de onde estava, ele recebeu oito punhados de
capim de um brâmane. O significado verdadeiro disso é que os oito punhados de
capim eram os oito dhammas mundanos - ganho e perda, elogio e crítica, fama e
má reputação, alegria e tristeza. O Buda, ao receber o capim, decidiu sentar-se
sobre ele e entrar em samadhi. A ação
de sentar-se sobre o capim foi em si samadhi,
isto é, a sua mente estava acima dos dhammas mundanos, subjugando o mundo até
que ele compreendesse o transcendente. Os dhammas mundanos se converteram em
lixo, eles perderam todo significado. Ele estava sentado sobre o capim mas este
não obstruiu a sua mente de nenhuma forma. Os vários maras vieram na tentativa
de submetê-lo, mas ele simplesmente ficou ali sentado em samadhi, subjugando o mundo, até que finalmente ele se iluminou no
Dhamma e derrotou Mara completamente. [16] Isto
é, ele derrotou o mundo. Portanto a prática de desenvolvimento do caminho é
aquela que anula as contaminações.
As pessoas nos
dias de hoje possuem pouca fé. Tendo praticado por um ou dois anos elas querem
chegar ao objetivo, e elas querem avançar rápido. Elas não consideram que o
Buda, o nosso Mestre, havia deixado a sua casa fazia seis anos quando alcançou
a iluminação. É por isso que temos a "libertação da dependência". [17] De acordo com as escrituras, um monge
precisa ter pelo menos cinco retiros de chuvas[18] para que ele seja considerado capaz de viver por sua própria
conta. Após esse período ele terá estudado e praticado o suficiente, ele
possuirá conhecimento adequado, ele possuirá fé e a sua conduta será boa.
Alguém que tenha praticado por cinco anos, eu digo que ele é competente. Mas
ele precisa realmente praticar, não somente “andar” com os mantos durante cinco anos. Ele precisa realmente
cuidar da prática, realmente fazê-lo!
Até que você
complete os cinco retiros das chuvas você se pergunta, "O que é essa
'libertação da dependência' da qual o Buda falou?" Você realmente precisa praticar por cinco anos para então conhecer
por você mesmo as qualidades às quais ele se referiu. Depois desse tempo você
será competente, competente em relação à mente, alguém que tem certeza. No
mínimo, após cinco estações das chuvas, a pessoa deve estar no primeiro nível
da iluminação. Não são somente cinco estações das chuvas com o corpo mas cinco
estações das chuvas com a mente também. Esse monge teme a crítica e tem a noção
da vergonha e da modéstia. Ele não ousa agir de maneira incorreta quer seja na
frente das pessoas ou escondido delas, quer seja à luz do dia ou no escuro.
Por que não? Porque ele realizou o Buda, 'Aquele que sabe'. Ele toma refúgio no
Buda, no Dhamma e na Sangha.
Para ter
verdadeira confiança no Buda, no Dhamma e na Sangha precisamos ver o Buda. Qual
o benefício de tomar o refúgio sem conhecer o Buda? Se ainda não conhecemos o
Buda, o Dhamma e a Sangha, tomar refúgio neles se torna um ato com
o corpo e com a fala somente, a mente ainda não os compreendeu. Uma vez que a
mente os tenha compreendido, saberemos como o Buda, o Dhamma e a Sangha
são. Então poderemos realmente tomar refúgio neles, porque essas coisas surgem
na nossa mente. Em qualquer lugar teremos o Buda, o Dhamma e a Sangha conosco.
Quem é assim não ousa
cometer atos ruins. É por isso que dizemos que aquele que alcançou o primeiro
estágio da iluminação não irá mais renascer nos estados miseráveis. A sua mente
tem certeza, ele entrou na Correnteza, ele não tem dúvida. Se ele não realizar
a iluminação agora, certamente assim o fará em algum momento no futuro. Ele
pode fazer algo incorreto mas não o bastante para enviá-lo ao Inferno, isto é,
ele não regride para a prática de ações
prejudiciais com o corpo e com a linguagem, ele é incapaz disso. Dessa forma
dizemos que essa pessoa alcançou o Nascimento Nobre. Ela não será capaz de
retornar. Isso é algo que vocês deveriam ver e conhecer por si mesmos nesta
mesma vida.
Nos dias de hoje,
aqueles que ainda têm dúvidas acerca da prática ouvem essas coisas e dizem,
"Ah, como poderei fazer isso?" Às vezes nos sentimos felizes, às
vezes preocupados, satisfeitos ou insatisfeitos. Por que razão? Porque não conhecemos o Dhamma. Qual Dhamma?
Justamente o Dhamma da Natureza, a realidade que nos cerca, o corpo e a mente.
O Buda disse,
"Não se apeguem aos cinco khandhas,
soltem-se deles, abandonem esses cinco khandhas!" Por que não conseguimos
soltá-los? Somente porque não os vemos ou conhecemos de forma completa. Nós os
vemos como sendo nós mesmos, nós nos vemos nos khandhas. Felicidade e sofrimento, nós vemos a nós mesmos, nós nos
vemos na felicidade e no sofrimento. Nós não conseguimos nos separar deles.
Quando não conseguimos nos separar deles significa que não conseguimos ver o
Dhamma, não conseguimos ver a Natureza.
Felicidade,
infelicidade, alegria e tristeza - nenhum deles é o eu, mas nós assumimos que
sim. Essas coisas entram em contato conosco e nós vemos um pedaço de 'atta',
ou eu. Onde existe o eu, você encontra a felicidade, infelicidade e tudo mais.
Dessa forma, o Buda disse para destruir esse "pedaço" de eu, isto é,
destruir sakkaya ditthi. Quando o atta (eu) é destruído, anatta (não-eu) naturalmente surge.
Nós assumimos que
a Natureza somos nós e que nós somos a Natureza, portanto não conhecemos a
Natureza de forma completa. Se ela é boa nós rimos com ela, se é ruim nós
choramos por ela. Mas a Natureza é simplesmente sankharas. Como dizemos no
cântico, Tesam vupasamo sukho --
pacificar os sankharas é a verdadeira
felicidade. Como nós os pacificamos? Simplesmente, removemos o apego e vemos
como eles realmente são.
Portanto, existe
verdade neste mundo. Árvores, montanhas e plantas, todas vivem de acordo com a
sua verdade, elas nascem e morrem de acordo com a sua natureza. Somente nós, as
pessoas, é que não somos verdadeiros! Nós vemos isso, mas criamos uma grande
confusão em torno disso, a Natureza é impassível, ela simplesmente é como é.
Nós rimos, nós choramos, nós matamos, mas a Natureza permanece verdadeira, ela
é a verdade. Não importa quão felizes ou tristes estejamos, este corpo
simplesmente segue a sua própria natureza. Ele nasce, cresce e envelhece,
mudando e envelhecendo o tempo todo. Ele segue a Natureza dessa forma. Todo
aquele que considera que o corpo é o seu eu e o carrega consigo para todos os
lugares, irá sofrer.
Portanto Añña
Kondañña reconheceu esse "tudo que nasce" em tudo, quer seja material
ou imaterial. A sua visão do mundo mudou. Ele viu a verdade. Quando levantou do
seu assento, ele levou junto essa verdade. A atividade de nascimento e morte
continuou e ele simplesmente olhava
para elas. Felicidade e infelicidade surgiam e desapareciam e ele simplesmente
as notava. A sua mente estava estável. Ele não mais se sujeitou aos estados
miseráveis. Ele não ficou excessivamente satisfeito ou desnecessariamente
preocupado por essas coisas. A sua mente estava firmemente estabelecida na
atividade de contemplação.
Ali! Añña
Kondañña recebeu o Olho do Dhamma. Ele viu a Natureza, que nós chamamos de sankharas, de acordo com a verdade. A
sabedoria é aquilo que conhece a verdade dos sankharas. Essa é a mente que sabe e que vê o Dhamma, que
capitulou.
Até que tenhamos
visto o Dhamma necessitamos ter paciência e moderação. Precisamos ter resistência,
nós precisamos renunciar! Nós precisamos cultivar a perseverança e a
resistência. Por que precisamos cultivar a perseverança? Porque somos
preguiçosos! Por que precisamos desenvolver a resistência? Porque nós não
agüentamos! Assim é como é. Porém, quando já estamos estabelecidos na nossa
prática, demos fim à preguiça, então não necessitamos da perseverança. Se já
conhecemos a verdade acerca de todos os estados mentais, se não ficamos felizes
ou infelizes por eles, não necessitamos empregar a resistência, porque a mente
já é o dhamma. 'Aquele que sabe' viu o Dhamma, ele é o Dhamma.
Quando a mente é
o Dhamma, ela pára. Ela alcançou a paz. Não existe mais a necessidade de fazer
algo especial, porque a mente já é o Dhamma. O exterior é o Dhamma, o interior
é o Dhamma. 'Aquele que sabe' é o Dhamma. Esse estado é o Dhamma e aquele que
conhece esse estado é o Dhamma. É um só. Está livre.
Essa Natureza não
é nascida, não envelhece ou adoece. Essa Natureza não morre. Essa Natureza não
é nem feliz nem infeliz, nem grande ou pequena, nem pesada ou leve, nem curta
ou comprida, nem preta ou branca. Não há nada que possa ser comparado a ela.
Nenhuma convenção poderá alcançá-la. É por isso que dizemos que Nibbana não tem cor. Todas as cores são
meras convenções. O estado que está além do mundo está além do alcance das
convenções mundanas.
Portanto o Dhamma
é aquilo que está além do mundo. É aquilo que cada pessoa deve ver por si
própria. Está além da linguagem. Não pode ser colocado em palavras, podemos
apenas falar de formas e meios para realizá-lo. A pessoa que o viu por si
mesma, concluiu a sua tarefa.
"...Sem levar em conta tempo e lugar, toda a prática do Dhamma
alcança a sua realização no lugar em que não há nada. É o lugar da capitulação,
do vazio, do desfazer-se do fardo..."
Convenção e Libertação
As coisas deste
mundo são apenas convenções que nós mesmos criamos. Tendo estabelecido essas
convenções, nos perdemos nelas e nos recusamos a soltar-nos delas, fazendo
surgir o apego às nossas idéias e opiniões pessoais. Esse apego nunca termina,
ele é samsara, fluindo sem ter fim.
Não se acaba. Agora, se conhecermos a realidade convencional então conheceremos
a Libertação. Se conhecermos claramente a Libertação, então conheceremos a
convenção. Isso é conhecer o Dhamma. Nesse caso há um fim.
Vejam a pessoas,
por exemplo. Na verdade as pessoas não possuem nomes, nós simplesmente nascemos
nus no mundo. Se temos nomes eles surgem apenas por convenção. Eu tenho
analisado esse assunto em profundidade e vejo que o não entendimento da verdade
dessa convenção pode ser prejudicial
para as pessoas. É simplesmente algo que usamos por conveniência. Sem isso não
poderíamos nos comunicar, não haveria nada para ser dito, nenhuma linguagem.
Eu vi Ocidentais
fazendo meditação em grupo no Ocidente. Quando eles se levantavam após a
meditação, homens e mulheres juntos, às vezes eles se tocavam uns aos outros,
nas cabeças! [19] Vendo isso eu pensei,
"Ah, se nos apegamos a convenções o surgimento das contaminações (mentais)
é imediato". Se pudermos nos soltar das convenções, abrir mão de nossas
opiniões, estaremos em paz.
Como os generais
e coronéis, homens de posição destacada na sociedade, que vêm me ver. Quando
eles chegam dizem, "Ah, por favor toque a minha cabeça." [20] Se eles assim o pedem, não existe nada de
errado com isso, eles ficam felizes em ter as cabeças tocadas. Mas se você
tocar as cabeças deles no meio da rua é uma outra história! Isso se deve ao
apego. Por isso eu sinto que soltar-se das coisas é realmente o caminho para a
paz. Tocar uma cabeça é contra os nossos costumes, mas na verdade não é nada.
Quando eles concordam que a cabeça pode ser tocada não existe nada de errado, é
como tocar num repolho ou numa batata.
Aceitar,
abandonar, soltar - esse é o caminho da leveza. No simples ato de se apegar
surge o vir a ser e o nascimento. O perigo está exatamente aí. O Buda ensinou
acerca da convenção e como se desfazer
da convenção da forma correta e assim alcançar a Libertação. Essa é a
liberdade, não se apegar a convenções. Todas as coisas neste mundo possuem uma
realidade convencional. Tendo estabelecido essa realidade convencional nós não
devemos nos deixar enganar por ela, porque perder-se nela realmente conduz ao
sofrimento. Esse ponto relativo a regras e convenções é de suprema importância.
Aquele que puder superá-lo superará o sofrimento.
No entanto, elas
são uma característica do nosso mundo. Vejam o Sr. Boonmah, por exemplo; ele
era uma pessoa comum mas agora ele foi nomeado Comissário do Distrito. É apenas
uma convenção, mas uma convenção que devemos respeitar. Faz parte do mundo das
pessoas. Se você pensar, "Ah, antes eramos amigos, trabalhávamos juntos na
alfaiataria ", e então você bate carinhosamente na cabeça dele em público,
ele ficará zangado. Não é correto, ele irá se ofender. Portanto devemos seguir
as convenções de forma a evitar que surjam ressentimentos. É útil entender as
convenções, isso é viver no mundo. Saiba o momento e lugar corretos, conheça a
pessoa.
Por que é errado
não aceitar as convenções? É errado por causa das pessoas! Você deve ser
esperto, conhecendo ambas, as convenções e as Libertações. Saiba o momento
adequado para cada uma. Se soubermos como usar as regras e convenções com
descontração então seremos hábeis. Mas, se tentamos nos comportar de acordo com
a realidade mais elevada numa situação inadequada, isso é errado. Em que
sentido é errado? É errado em relação às contaminações (mentais) das pessoas!
Todas as pessoas possuem contaminações (mentais). Em uma situação nos
comportamos de uma forma, em outra situação precisamos nos comportar de outra
forma. Precisamos saber aquilo que é aceito e o que não é, porque vivemos de
acordo com as convenções. Os problemas ocorrem porque as pessoas se apegam a
elas. Se supomos que algo é, então será. Está ali porque supomos que ali está.
Mas se você olhar mais de perto, no seu sentido absoluto, essas coisas na
verdade não existem.
Eu tenho dito com
freqüência, antes éramos leigos e agora
somos monges. Vivíamos de acordo com as convenções das "pessoas
leigas" e agora vivemos de acordo com as convenções dos
"monges". Nós somos monges por convenção, não somos monges através da
Libertação. No início estabelecemos convenções como essas, mas se uma pessoa
apenas se ordena, isso não significa que ela terá superado as contaminações
(mentais). Se tomarmos um punhado de areia e nos pusermos de acordo em chamá-lo
de sal, isso faz com que seja sal? É sal apenas no nome, não na realidade. Você
não poderia usá-lo para cozinhar. O seu único uso está limitado ao universo
daquele acordo, porque na realidade nesse caso não existe sal, somente areia.
Se converterá em sal somente pela nossa suposição de que assim é.
Essa palavra
"Libertação" é em si apenas uma convenção, mas se refere àquilo que
está além das convenções. Tendo obtido a liberdade, tendo alcançado a
libertação, nós ainda temos que usar a convenção de modo a nos referirmos a ela
como libertação. Se não tivéssemos as convenções não poderíamos nos comunicar,
portanto elas têm a sua utilidade.
Por exemplo, as
pessoas têm nomes diferentes, mas elas não deixam de ser pessoas. Se não
tivéssemos nomes para diferenciar entre elas, e quiséssemos chamar alguém em
uma multidão dizendo, "Ei, Pessoa! Pessoa!, isso seria inútil. Você não
poderia dizer quem iria responder porque elas são todas "pessoas".
Mas se você chamasse, "Ei, João!", então o João responderia, os
outros não iriam responder. Os nomes satisfazem essa necessidade. Através deles
podemos nos comunicar, eles proporcionam a base para o comportamento social.
Portanto, você
deve conhecer ambas, as convenções e a libertação. As convenções têm o seu uso,
mas na realidade não existe nada nelas. Até mesmo as pessoas não existem! Elas
são apenas grupos de elementos, nascidas de condições causais, crescem na
dependência de condições, existem durante algum tempo. Mas sem as convenções
não teríamos o que dizer, não teríamos nomes, nenhuma prática, nenhum trabalho.
As regras e convenções são estabelecidas para que tenhamos a linguagem, para
facilitar as coisas e isso é tudo.
Vejam o dinheiro,
por exemplo. Em um passado remoto não existiam moedas ou cédulas, elas não
possuíam valor. As pessoas faziam escambo, mas como isso era muito complicado
foi criado o dinheiro usando moedas e cédulas. Talvez no futuro tenhamos algum
decreto real de modo que não precisaremos mais usar cédulas de dinheiro,
usaremos cera, derretendo-a e comprimindo-a em blocos. Diremos que isso é
dinheiro e o usaremos em todo o país. Deixando a cera de lado, pode acontecer
que eles decidam que a moeda local deva ser excremento de galinha - todas as
outras coisas não podem ser dinheiro, apenas o excremento de galinha! Então as
pessoas iriam brigar e matar umas às outras pelo excremento de galinha! Assim é
como são as coisas. Muitos exemplos poderiam ser usados para ilustrar as
convenções. Aquilo que usamos como dinheiro é simplesmente uma convenção que
criamos, que tem um uso dentro dos limites da convenção. Tendo decretado o que
deve ser dinheiro, aquilo se torna dinheiro. Mas na realidade, o que é
dinheiro? Ninguém é capaz de dizer. Quando existe um acordo popular acerca de
algo, então surge uma convenção para satisfazer a necessidade. O mundo é apenas
isso.
Isso é convenção,
mas para fazer com que as pessoas comuns entendam a libertação é realmente
difícil. Nosso dinheiro, nossa casa, nossa família, nossos filhos e parentes
são simples convenções que nós inventamos, mas na verdade, vendo-os sob a luz
do Dhamma, eles não nos pertencem. Talvez, não nos sintamos tão bem ao ouvir
isso, mas na verdade é assim. Essas coisas possuem valor somente através das
convenções estabelecidas. Se estabelecermos que elas não possuem valor, então
elas não terão valor. Assim é como as
coisas são, criamos as convenções no mundo para satisfazer uma necessidade.
Nem mesmo este
corpo é realmente nosso, nós é que supomos que seja assim. É verdadeiramente
apenas uma suposição. Se você tentar encontrar um eu real, com substância
dentro dele, não irá encontrá-lo. Existem apenas elementos que nascem,
permanecem por algum tempo e depois morrem. Tudo é assim. Não existe uma real e
verdadeira substância nele, mas está certo que nós o usemos. É uma ferramenta
para nosso uso. Se ele parar de funcionar haverá problemas, mas apesar do fato
de que ele irá parar de funcionar, você deve tentar ao máximo preservá-lo. E
dessa forma temos os quatro apoios [21] que
o Buda ensinou repetidas vezes para que nós os analisemos em profundidade.
Eles são os apoios dos quais um monge depende para manter a sua prática.
Enquanto você viver irá depender deles, portanto, você deve compreendê-los. Não
se apegue a eles, dando origem ao desejo na sua mente.
A convenção e a
libertação estão relacionadas desta forma continuamente. Apesar de usarmos as convenções continuamente, não
devemos confiar nelas como sendo a verdade. Se você se apegar a elas, o
sofrimento irá surgir. O caso do certo e errado é um bom exemplo. Algumas
pessoas vêm o errado como sendo certo e o certo como sendo errado, mas ao final
quem é que realmente sabe o que é certo e o que é errado? Nós não sabemos.
Diferentes pessoas estabelecem diferentes convenções acerca do que é certo e do
que é errado, mas o Buda tomou o sofrimento como parâmetro. Se você quiser
discutir sobre isso, não chegaremos nunca a um acordo. Um diz,
"certo", outro diz, "errado". Um diz, "errado",
outro diz, "certo". Na verdade não temos qualquer idéia do que é
certo ou errado! Mas numa abordagem útil e prática, podemos dizer que o certo é
não causar dano para si mesmo e não causar dano aos outros. Dessa forma temos
algo prático.
Portanto, no
final, tanto regras e convenções bem como a libertação são simplesmente
dhammas. Uma é mais elevada que a outra, mas elas andam juntas. Não há um modo
de garantir que alguma coisa é definitivamente desta ou daquela forma, por isso
o Buda disse para não levarmos o assunto adiante. Deixe que seja incerto. Não
importa o quanto você goste ou desgoste disso, você deve entendê-lo como sendo
incerto.
Independente
de tempo e lugar, toda a prática do Dhamma alcança a sua realização no lugar em que não há nada. É o lugar da
capitulação, do vazio, de deixar de lado o fardo. Esse é o final. Não é como a
pessoa que diz, "Por que a bandeira está tremulando ao vento? Eu digo que é
por causa do vento". Outra pessoa diz que é por causa da bandeira. A outra
replica que é por causa do vento. Não existe fim nisso! A mesma situação com a
velha charada, "O que veio primeiro, a galinha ou o ovo?" Não há como
chegar a uma conclusão, isso é a Natureza.
Todas essas
coisas que dizemos são apenas convenções, somos nós que as estabelecemos. Se
você entender essas coisas com sabedoria então você entenderá a impermanência,
o insatisfatório e o não-eu. Esse é o entendimento que conduz à iluminação.
Vocês sabem que
treinar e ensinar pessoas com diferentes níveis de compreensão é realmente
difícil. Algumas pessoas possuem certas idéias, você lhes diz algo e elas não
acreditam em você. Você lhes diz a verdade e elas dizem que não é verdade.
"Eu estou certo, você está errado…" Não existe um fim nisso. Se você
não se soltar, haverá sofrimento. Eu já
lhes contei antes sobre os quatro homens que se dirigem para a floresta. Eles
ouvem uma galinha cacarejando, "Coo-co-rocoo!" Um deles fica curioso, "Isso é um galo
ou uma galinha?" Três deles respondem juntos "É uma galinha",
mas o outro não concorda, ele insiste que é um galo. "Como uma galinha
poderia cacarejar assim?" ele pergunta. Eles respondem, "Bem, ela tem
um bico, não tem?" Eles discutem até as lágrimas, ficando realmente
perturbados com a discussão, mas ao final eles estão todos equivocados. Quer
você diga uma galinha ou um galo, estes são apenas nomes. Estabelecemos essas
convenções, dizendo que um galo é assim, uma galinha é de um outro jeito, um
galo cacareja assim, uma galinha cacareja de outro modo…e é assim que ficamos
atolados no mundo! Lembrem-se disso! Na verdade, se você disser que realmente
não há um galo e nem uma galinha então isso dará fim a tudo. No campo da
realidade convencional um lado está certo e o outro está errado, mas nunca
haverá plena concordância. Discutir até as lágrimas não serve para nada!
O Buda ensinou a
não nos apegarmos. Mas como praticamos o não apego? Nós simplesmente praticamos
o abandono do apego, agora esse não apego é muito difícil de ser compreendido.
Para investigá-lo e penetrá-lo é necessário ter aguçada sabedoria, de forma a
realmente alcançar o não apego. Quando você pensa sobre isso, quer as pessoas
estejam felizes ou tristes, contentes ou descontentes, não depende de elas
terem pouco ou terem muito - depende da sabedoria. Todo sofrimento só pode ser
superado através da sabedoria, vendo a verdade das coisas.
Portanto, o Buda
nos exortou a investigar e a pensar seriamente. Esse “pensar seriamente”
significa simplesmente tentar solucionar esses problemas corretamente. Essa é a
nossa prática. Como o nascimento, o envelhecimento, a enfermidade e a morte -
esses são os acontecimentos mais naturais e comuns. O Buda ensinou a pensar
seriamente sobre o nascimento, o envelhecimento, a enfermidade e a morte, mas
algumas pessoas não compreendem isso, "O que há para ser pensado?"
elas dizem. Elas nascem mas não entendem o nascimento, elas irão morrer mas não
entendem a morte.
Uma pessoa que
investiga essas coisas repetidamente, irá ver. Tendo visto, ela irá solucionar
os seus problemas gradualmente. Mesmo que ela ainda tenha apego, se ela tiver
sabedoria e vir que o envelhecimento, a enfermidade e a morte são parte da Natureza,
então ela será capaz de obter alívio do sofrimento. Nós estudamos o Dhamma
somente por essa razão - para curar o sofrimento. Não existem muitos
fundamentos no Budismo, existe apenas a origem e a cessação do sofrimento, isso
o Buda chamou de verdade. O nascimento é sofrimento, envelhecimento é
sofrimento, enfermidade é sofrimento e a morte é sofrimento. As pessoas não vêm
esse sofrimento como a verdade. Se entendermos a verdade então entenderemos o
sofrimento.
O orgulho contido
nas opiniões pessoais, esses argumentos, eles não têm fim. Para tranqüilizar as
nossas mentes, para encontrar a paz, deveríamos pensar seriamente no passado,
no presente, e naquilo que nos aguarda. Como o nascimento, envelhecimento,
enfermidade e morte. O que podemos fazer para evitar que sejamos atormentados
por essas coisas? Mesmo que ainda estejamos um pouco preocupados, se
investigarmos até sabermos de acordo com a verdade, todo sofrimento irá
diminuir e nós não mais estaremos apegados a ele.
"...O caminho mundano é o do fazer as coisas por alguma razão, para
obter algo em troca, mas no Budismo fazemos as coisas sem essa idéia do ganho.
Se não queremos absolutamente nada, o que iremos ganhar? Não ganhamos nada!
Tudo aquilo que você ganhar será apenas um motivo para o sofrimento, dessa
forma nós praticamos para não ganhar nada... Simplesmente, fazemos a mente
ficar tranqüila e isso é tudo!..."
Sem morada
Nós ouvimos
algumas partes dos ensinamentos e não conseguimos compreendê-los realmente. Nós
pensamos que eles não deveriam ser como são e por isso não os seguimos, mas na
verdade há uma razão para todos os ensinamentos. Pode parecer que as coisas não
deveriam ser dessa forma, mas elas são. Inicialmente eu nem mesmo acreditava na
meditação sentada. Eu não conseguia ver qual o benefício que poderia haver em
simplesmente ficar sentado com os olhos fechados. E a meditação andando…caminhe
a partir desta árvore, faça a volta e regresse…"Por que me incomodo?"
Eu pensava, "Qual a utilidade de todo esse caminhar?" Eu pensava
dessa forma, mas na verdade a meditação andando e sentada são muito úteis.
As tendências de
algumas pessoas é que as fazem preferir a meditação caminhando, outras preferem
a meditação sentada, mas você não pode deixar nenhuma delas de lado. As
escrituras falam nas quatro posturas: em pé, caminhando, sentado e deitado. Nós
vivemos com essas quatro posturas. Podemos preferir uma à outra, mas precisamos
usar as quatro.
Elas dizem que
essas quatro posturas devem ser equilibradas, fazer com que a prática seja
equilibrada em todas as posturas. Inicialmente eu não conseguia entender o que
isso quer dizer, fazer com que sejam equilibradas. Talvez isso signifique que
dormimos por duas horas, depois ficamos em pé por duas horas, depois caminhamos
por duas horas…talvez seja isso? Eu tentei - mas não consegui, era impossível!
Esse não era o significado de fazer com que as posturas fossem equilibradas.
"Fazer as posturas equilibradas" se refere à mente, à nossa atenção.
Isto é, fazer a sabedoria surgir na mente, iluminar a mente. Essa nossa
sabedoria tem que estar presente em todas as posturas, nós precisamos saber ou
compreender constantemente. Em pé, caminhando, sentado ou deitado, nós
entendemos todos os estados mentais como impermanentes, insatisfatórios e
não-eu. Dessa forma é possível fazer com que as posturas sejam equilibradas.
Tanto faz se o gostar ou não gostar estejam presentes na mente, nós não nos
esquecemos da nossa prática, estamos atentos.
Se nós focarmos
nossa atenção na mente constantemente, então teremos a essência da prática.
Quer experimentemos estados mentais que o mundo entende como bons ou ruins, nós
não ficamos esquecidos, não nos perdemos no bom e no ruim. Nós permanecemos
firmes. Fazer com que as posturas sejam estáveis, dessa forma é possível. Se
tivermos estabilidade na nossa prática e formos elogiados, então será
simplesmente elogio; se formos criticados, então será apenas crítica. Nós não
ficamos excitados ou deprimidos com isso, permanecemos exatamente igual.
Por que? Porque vemos o perigo em todas essas coisas, nós vemos o que elas
causam. Nós estamos constantemente conscientes do perigo em ambos, no elogio e
na crítica. Habitualmente, quando estamos de bom humor, a mente também está
bem, nós vemos ambos como sendo a mesma coisa, se estamos de mal humor a mente
também está mal e nós não gostamos disso. Assim é como são as coisas, essa é a
prática desequilibrada.
Se tivermos
equilíbrio apenas o suficiente para reconhecer os nossos humores, e saber que
estamos nos apegando a eles, isso já é um avanço. Isto é, temos consciência,
nós sabemos o que está acontecendo, mas ainda assim não conseguimos nos soltar.
Nós vemos que estamos nos agarrando ao bom e ao mau e sabemos disso.
Agarramo-nos ao bom e sabemos que essa ainda não é a prática correta, mas mesmo
assim não podemos nos soltar. Isso já é 50% ou 70% da prática. Ainda não existe
a libertação, mas nós sabemos que se pudéssemos nos soltar esse seria o caminho
para a paz. Prosseguimos dessa forma, vendo com igualdade as conseqüências
danosas de todos os nossos gostos e desgostos, dos elogios e críticas,
continuamente. A mente, dessa forma, estará equilibrada não importa o que
ocorra.
Mas as pessoas
mundanas, quando acusadas ou criticadas, ficam realmente perturbadas. Se elas
são elogiadas, ficam animadas, elas dizem que é bom e ficam realmente felizes
por isso. Se soubermos a verdade acerca dos nossos vários humores, se soubermos
as conseqüências de nos apegarmos ao elogio e à crítica, o perigo de nos
apegarmos a qualquer coisa que seja, seremos mais sensíveis aos nossos
humores. Saberemos que se nos agarrarmos a eles realmente haverá sofrimento.
Veremos esse sofrimento e veremos o nosso apego como a causa desse sofrimento.
Começaremos a ver as conseqüências do apego e do agarramento àquilo que é bom e
àquilo que é mau porque nós os compreendemos
e já vimos o resultado – não trazem a verdadeira felicidade. Então,
agora vamos procurar uma maneira de nos soltarmos.
Onde está esse
"caminho para nos soltarmos"? No Budismo dizemos "Não se apegue
a nada". Nunca paramos de ouvir esse "não se apegue a nada!"
Isso significa segurar, mas sem se agarrar. Como esta lanterna. Nós pensamos,
"O que é isto?" Então nós a pegamos, "Ah, é uma lanterna",
então a colocamos de volta. Seguramos as coisas dessa forma. Se não quiséssemos
absolutamente nada, o que poderíamos fazer? Não poderíamos fazer meditação
andando ou qualquer outra coisa, portanto precisamos, primeiro, querer as
coisas. É desejo sim, isso é verdade, que mais tarde conduzirá aos parami (virtudes ou perfeições). Tal
como querer vir aqui por exemplo…o Venerável Jagaro [22] veio para visitar o Wat Pah Pong. Primeiro, ele precisou desejar
vir. Se ele não tivesse sentido que desejava vir, ele não teria vindo. O mesmo
ocorre com todas as pessoas, elas vêm aqui por causa do desejo. Mas quando o
desejo surge não se apegue a ele! Dessa forma, você vem e depois você retorna…O
que é isso? Nós pegamos, olhamos e vemos, "Ah, é uma lanterna", então
colocamos de volta. A isto se chama querer mas sem se apegar, nós soltamos
daquilo. Nós conhecemos e depois soltamos. Colocando de uma forma simplificada:
"Conheça e depois solte". Permaneça olhando e soltando. "Isto,
dizem que é bom; isto, dizem que não é bom"…conheça e depois solte. Bom e
mau, conhecemos tudo isso, mas nós os soltamos. Nós não nos apegamos tolamente
às coisas, nós as "queremos" com sabedoria. A prática nessa
"postura" pode ser constante. Você precisa ser estável dessa forma.
Faça com que a mente conheça tudo dessa forma, deixe que a sabedoria surja.
Quando a mente possui sabedoria, o que mais há para buscar?
Precisamos
refletir acerca do que estamos fazendo aqui. Qual a razão de estarmos vivendo
aqui, pelo que estamos trabalhando? No mundo se trabalha por esta ou aquela
recompensa, mas os monges ensinam algo um pouco mais profundo do que isso. O
quer que façamos, nós não esperamos
nada em troca. Trabalhamos sem esperar recompensas. As pessoas mundanas
trabalham porque querem isto ou aquilo, porque elas querem um ou outro ganho,
mas o Buda ensinou a trabalhar apenas pelo trabalho, não pedimos nada além
disso. Se você faz alguma coisa apenas para obter algo em retorno, isso irá
causar sofrimento. Tente por você mesmo! Você quer tranqüilizar a sua mente e então
você senta e tenta tranquilizá-la - você irá sofrer! Tente. O nosso caminho é
mais refinado. Nós fazemos e depois soltamos; fazemos e soltamos.
Veja um brâmane
que faz um sacrifício: ele possui um desejo na mente, por isso ele faz um
sacrifício. Esses atos que ele pratica não irão ajudá-lo a transcender o
sofrimento porque ele está agindo com base no desejo. No início, praticamos com
algum desejo na mente; seguimos praticando mas não conseguimos alcançar o nosso
desejo. Assim praticamos até que cheguemos a um ponto em que praticamos para
não obter nada em troca, praticamos para poder nos soltar. Isso é algo que
precisamos ver por nós mesmos, é muito profundo. Talvez pratiquemos porque
queiramos alcançar Nibbana --e
exatamente por isso, você não irá alcançar Nibbana!
É natural que se queira a paz, mas não
é verdadeiramente correto. Precisamos praticar sem desejar absolutamente nada.
Se não desejarmos absolutamente nada, o que iremos obter? Não obteremos nada!
Qualquer coisa que você obtenha é apenas causa de sofrimento, portanto nós
praticamos para não obter nada.
Isso é exatamente
o que chamamos de "esvaziar a mente". Ela está vazia mas ainda existe
a ação. Esse vazio é algo que habitualmente as pessoas não entendem, mas
aqueles que o compreendem vêm o valor de conhecê-lo. Não é o vazio de não ter
nada, é o vazio das coisas que aqui estão. Tal como esta lanterna: deveríamos
ver esta lanterna como vazia, por causa da lanterna existe o vazio. Não é o
vazio em que não podemos ver nada, não é isso. As pessoas que assim o entendem,
estão completamente enganadas. Você tem que compreender o vazio das coisas que
aqui estão.
Aqueles que ainda
estão praticando com a idéia de obter um ganho são como o brâmane que faz um
sacrifício para satisfazer um desejo. Como as pessoas que vêm me ver para serem
borrifadas com ‘água benta’. Quando eu lhes pergunto, "Porque vocês querem
esta 'água benta'?" elas dizem, "queremos viver felizes e com
conforto sem enfermidade". Aí está! Elas nunca irão transcender o
sofrimento dessa forma. O caminho mundano é
fazer as coisas por alguma razão, para obter algo em troca, mas no
Budismo fazemos as coisas sem essa idéia de ganho. O mundo precisa entender as
coisas em termos de causa e efeito, mas o Buda nos ensina a ir além da causa e
além do efeito; ir além do nascimento e além da morte; ir além da felicidade e
além do sofrimento. Pense a respeito disso…não existe onde ficar. Nós vivemos
em um ‘lar’. Deixar esse lar e ir para onde não existe um lar…não sabemos como
fazer isso, porque sempre vivemos com o vir a ser e com o apego. Se não podemos
nos apegar, não sabemos o que fazer.
Assim, a maioria
das pessoas não quer Nibbana, não
existe nada lá; absolutamente nada. Olhe para o teto e o piso aqui. O extremo
superior é o teto, essa é uma ‘moradia’. O extremo inferior é o piso, e essa é
outra ‘moradia’. Mas no espaço vazio entre o piso e o teto não existe onde se
sustentar. Um pessoa pode se sustentar no teto, ou no piso, mas não no espaço
vazio. Onde não existe uma moradia, ali é onde está o vazio e, colocando de uma
forma simples, dizemos que Nibbana é
esse vazio. As pessoas ouvem isso e elas recuam um pouco, elas não querem isso.
Elas temem que não verão os seus filhos ou parentes.
É por isso que
quando abençoamos pessoas leigas, dizemos que "Que você tenha uma vida
longa, beleza, felicidade e força". Isso faz com que elas fiquem realmente
felizes, "Sadhu!" [23] elas todas dizem. Elas gostam dessas
coisas. Se você começa a falar sobre o vazio elas não querem saber, elas estão
apegadas à moradia. Mas você alguma vez viu uma pessoa bem velha com uma bela
complexão? Você alguma vez viu uma pessoa bem velha com muita força ou muito
feliz?…Não…Mas nós dizemos, "vida longa, beleza, felicidade e força"
e elas ficam realmente satisfeitas, todas elas dizem "Sadhu!" Isso é o mesmo que o brâmane que faz oblações
para obter o que quer. Na nossa prática nós não ‘fazemos oblações’, nós não
praticamos para obter algo em retorno. Nós não queremos nada. Tranqüilize a sua mente, nada mais, e acabe com isso!
Mas se eu falar assim, vocês não se sentirão muito confortáveis, porque vocês
querem ‘nascer’ outra vez.
Portanto, todos
vocês que são praticantes leigos deveriam se aproximar dos monges e observar a prática
deles. Estar próximo dos monges significa estar próximo do Buda, estar próximo
do Dhamma. O Buda disse, "Ananda, pratique muito, desenvolva a sua
prática! Todos que vêem o Dhamma vêem a mim e todos que vêem a mim vêem o
Dhamma". Onde está o Buda? Podemos pensar que o Buda aqui esteve e partiu,
mas o Buda é o Dhamma, a verdade. Algumas pessoas gostam de dizer, "Ah, se
eu tivesse nascido na época do Buda eu iria para Nibbana." Pessoa estúpidas falam desse modo. O Buda ainda está
aqui. O Buda é a verdade. Independente de quem nasça ou morra, a verdade
ainda estará aqui. A verdade nunca parte do mundo, está aqui todo o tempo. Quer
um Buda nasça ou não, quer alguém saiba ou não, a verdade ainda estará aqui.
Portanto devemos nos aproximar do Buda, devemos vir para dentro e encontrar o
Dhamma. Ao encontrarmos o Dhamma encontraremos o Buda; vendo o Dhamma veremos o
Buda e todas as dúvidas se dissolverão.
Colocando de uma
maneira bem simples, é como o Mestre
Choo. [24] Inicialmente ele não era um
mestre, ele era apenas o Sr. Choo. Depois que ele estudou e passou todos os
exames necessários ele se tornou um mestre, e se tornou conhecido como Mestre
Choo. Como é que ele se tornou um mestre? Estudando as coisas que eram necessárias,
dessa forma permitindo que o Sr. Choo se tornasse o Mestre Choo. Quando o
Mestre Choo morrer, os estudos para se tornar um mestre irão permanecer e todos
aqueles que estudarem se tornarão um mestre. Esse conjunto de estudos para se
tornar um mestre não desaparece, tal como a Verdade, cujo conhecimento permitiu
ao Buda tornar-se o Buda. Portanto o Buda ainda está aqui. Todo aquele que praticar e ver o Dhamma verá o Buda. Nos
dias de hoje as pessoas estão todas equivocadas, elas não sabem onde está o
Buda. Elas dizem, "Se eu tivesse nascido na época do Buda teria me tornado
um discípulo dele e me iluminaria". Isso é tolice. Vocês deveriam entender
isso.
Não pensem que ao
final do retiro da estação das chuvas vocês irão regressar para a vida leiga.
Não pensem assim! Em um instante um mau pensamento pode surgir na mente e vocês
poderiam matar alguém. Da mesma forma, é necessário apenas uma fração de
segundo para o bem brilhar na mente e vocês já estão nesse ponto. Não pensem
que vocês precisam se ordenar por um longo período para serem capazes de
meditar. A prática correta está naquele instante em que fazemos kamma. Em uma
fração surge um pensamento ruim…antes que vocês se dêem conta cometeram algum
kamma realmente pesado. E da mesma forma, todos os discípulos do Buda
praticaram por muito tempo, mas o tempo necessário para se iluminar foi apenas
um momento num pensamento. Portanto não sejam desatentos, mesmo nas menores
coisas. Empenhem-se, tentem se aproximar dos monges, pensem seriamente sobre as
coisas e então vocês entenderão os monges. Bem, acho que isso basta, não? Já
está ficando tarde e algumas pessoas estão ficando sonolentas. O Buda disse
para não ensinar o Dhamma para pessoas sonolentas.
"...O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto.
Porque não exercemos o autocontrole dos sentidos, colocamos a culpa pelo nosso
sofrimento nas coisas externas…O lugar correto para os monges, o lugar da
equanimidade, é justamente o próprio Entendimento Correto. Não deveríamos
buscar nada além disso..."
Entendimento Correto - O
Lugar da Equanimidade
A prática do
Dhamma vai em sentido contrário aos nossos hábitos, a verdade vai contra os
nossos desejos, por isso existe a dificuldade na prática. Algumas coisas que
entendemos como erradas podem estar certas, enquanto que as coisas que tomamos
como corretas podem estar erradas. Por que isso? Porque as nossas mentes estão
no escuro, não vemos a Verdade com clareza. Nós, na realidade, não sabemos nada
e dessa forma somos enganados pelas mentiras das pessoas. Elas apontam o que é
certo como sendo errado e nós acreditamos e aquilo que é errado, elas dizem que
é certo e nós acreditamos nisso. Essa é a razão porque ainda não somos senhores
de nós mesmos. Os nossos humores nos enganam o tempo todo. Não deveríamos tomar
essa mente e as suas opiniões como nosso guia, porque ela não conhece a
verdade.
Algumas pessoas
se recusam a ouvir o que outras têm para dizer, mas esse não é o caminho de uma
pessoa provida de sabedoria. Uma pessoa sábia ouve tudo. Alguém que ouça o
Dhamma deve ouvi-lo sim, quer goste ou não, e não acreditar cegamente ou
desacreditar. Ela deve ficar em um ponto intermediário, no meio, e não ser
descuidada. Ela ouve e depois reflete, proporcionando, assim, o surgimento de
resultados corretos.
Uma pessoa sábia
deve refletir e ver a causa e efeito por si mesma antes de acreditar naquilo
que ela ouve. Mesmo que o mestre fale a verdade, não acredite, porque você
ainda não conhece a verdade, por si mesmo.
É o mesmo para
todos nós, incluindo a mim mesmo. Eu pratiquei antes de vocês, eu já vi muitas
mentiras. Por exemplo, "Esta prática é realmente muito difícil, muito
severa". Por que essa prática é difícil? É só porque pensamos da forma
errada que nós temos o entendimento
incorreto.
Antigamente eu
vivia com outros monges, mas não me sentia bem. Eu escapei para as florestas e
montanhas, fugindo da multidão, dos monges e noviços. Eu pensava que eles não
eram como eu, eles não praticavam com a dedicação que eu praticava. Eles eram
negligentes. Aquela pessoa era assim, esta pessoa era assim. Isso foi algo que
realmente me causou uma grande comoção, foi a razão para a minha contínua fuga.
Mas quer eu vivesse sozinho ou com outras pessoas eu ainda assim não tinha paz.
Sozinho eu não estava satisfeito, em um grupo grande eu não estava satisfeito.
Eu achava que esse descontentamento era devido aos meus companheiros, devido
aos meus humores, devido ao lugar onde estava morando, a comida, o clima,
devido a isso e aquilo. Eu estava constantemente buscando algo que satisfizesse
a minha mente.
Como um monge dhutanga [25], eu viajava, mas as coisas ainda não estavam bem. Assim, eu
refletia, "O que posso fazer para que tudo esteja bem? O que posso
fazer?" Vivendo com muitas pessoas eu estava insatisfeito, com poucas
pessoas eu estava insatisfeito. Por que razão? Eu simplesmente não conseguia
ver. Por que eu estava insatisfeito? Porque eu tinha entendimento incorreto, só
por isso; porque eu ainda estava apegado ao Dhamma errado. A qualquer lugar que
eu fosse, eu estava descontente, pensando, "Aqui não está bem, ali não
está bem…” todo o tempo dessa forma. Eu punha a culpa nos outros. Eu punha a
culpa no clima, calor e frio, eu punha a culpa em tudo! Tal como um cachorro
louco. Ele morde tudo o que encontra, porque ele está louco. Quando a mente
está assim, a nossa prática nunca se estabiliza. Hoje nos sentimos bem, amanhã
mal. É assim o tempo todo. Nós não alcançamos
o contentamento ou a paz.
O Buda certa vez
viu um chacal, um cachorro selvagem, correndo pela floresta na qual ele estava.
O chacal parou por alguns instantes e depois saiu correndo para dentro de um
arbusto e em seguida saiu outra vez. Daí, ele correu para dentro de um tronco
oco de uma árvore e depois saiu outra vez. Aí, ele foi para uma caverna, só
para sair correndo outra vez. Num instante ele estava em pé, no seguinte ele
correu, depois se deitou, depois ficou em pé…Aquele chacal tinha sarna. Quando
estava em pé a sarna se entranhava na pele, por isso ele corria. Correndo ele ainda
se sentia incomodado, por isso ele deitava. Então ele ficava em pé de novo,
corria para os arbustos, o tronco oco, nunca ficando quieto.
O Buda disse,
"Monges, vocês viram aquele chacal esta tarde? Em pé ele estava sofrendo,
correndo ele estava sofrendo, sentado ele estava sofrendo, deitado ele estava
sofrendo. No arbusto, no tronco oco ou na caverna ele estava sofrendo. Ele
culpou o estar em pé pelo seu
desconforto, ele culpou o estar sentado, ele culpou o correr e o deitar; ele
culpou a árvore, o arbusto e a caverna. Na verdade o problema não estava em
nenhuma dessas coisas. Aquele chacal tinha sarna. O problema era a sarna."
Nós monges somos
iguais ao chacal. O nosso descontentamento se deve ao entendimento incorreto.
Porque não praticamos a contenção dos sentidos colocamos a culpa pelo nosso
sofrimento nas coisas exteriores. Quer vivamos em Wat Pah Pong, na América, ou
em Londres, ainda assim nós não estamos satisfeitos. Ir viver em Bung Wai ou
qualquer outro dos monastérios afiliados, assim mesmo não estamos satisfeitos.
Por que não? Porque ainda temos o entendimento incorreto, apenas isso! Onde quer
que estejamos não estaremos satisfeitos.
Mas igual ao
chacal, se a sarna for curada, ele estará satisfeito onde quer que ele vá. Eu
reflito sobre isto com freqüência e eu lhes ensino isto com freqüência, porque
é muito importante. Se conhecermos a verdade dos nossos vários humores
alcançaremos o contentamento. Quer esteja quente ou frio nós estaremos
satisfeitos, com muitas pessoas ou poucas pessoas estaremos satisfeitos. O
contentamento não depende de com quantas pessoas estejamos, ele surge somente
do entendimento correto. Se tivermos o entendimento correto, então onde quer
que estejamos estaremos satisfeitos.
Mas a maioria de
nós possui entendimento incorreto. É como um verme! O lugar em que o verme vive
é asqueroso, o seu alimento é asqueroso…mas eles satisfazem o verme. Se você
tomar uma vara e empurrá-lo para longe do seu naco de estrume, ele irá se
esforçar para rastejar de volta. É o mesmo quando o Ajaan nos ensina a ver
corretamente. Nós resistimos, nos sentimos desconfortáveis. Corremos de volta
para o nosso 'naco de estrume' porque é ali que nos sentimos em casa. Todos
somos assim. Se não enxergarmos as conseqüências negativas de nosso entendimento
incorreto, então não o abandonaremos, a prática é difícil. Assim deveríamos
ouvir. Não existe nada além disso na prática.
Se tivermos o
entendimento correto, para qualquer lugar que formos estaremos satisfeitos. Eu pratiquei
e vi isso. Hoje em dia existem muitos monges, noviços e pessoas leigas que me
procuram. Se eu ainda não soubesse, se ainda tivesse o entendimento incorreto,
já estaria morto! O lugar correto para os monges, o lugar da equanimidade é
justamente o entendimento correto. Não deveríamos procurar nada além disso.
Portanto, mesmo
que você possa estar infeliz, isso não tem importância, essa infelicidade é
incerta. Essa infelicidade é o seu "eu"? Existe nela qualquer
substância? Ela é real? Eu não a vejo como real, de maneira nenhuma. A
infelicidade é apenas uma sensação que aparece num instante e depois
desaparece. A felicidade é igual. Existe consistência na felicidade? Ela é
verdadeiramente uma entidade? É simplesmente uma sensação que relampeja de repente
e desaparece. Pronto! Ela nasce e em seguida morre. O desejo relampeja por um
momento e depois desaparece. Onde está a consistência no desejo, raiva ou
ressentimento? Na verdade não existe uma entidade com substância, elas são
apenas impressões que se espalham na mente e depois morrem. Elas nos enganam
constantemente, não encontramos segurança em nenhum lugar. Tal como disse o
Buda, quando a infelicidade surge ela permanece por algum tempo, depois
desaparece. Quando a infelicidade desaparece, a felicidade surge e permanece
por algum tempo e depois morre. Quando a felicidade desaparece, a infelicidade
surge outra vez…continuamente dessa forma.
No final, só
podemos dizer isto - exceto pelo nascimento, vida e morte do sofrimento, não
existe nada mais. Existe só isso. Mas nós que somos ignorantes, corremos e
agarramos constantemente. Nunca vemos a verdade das coisas e que existe somente
essa contínua mudança. Se entendermos isto, então não precisaremos pensar
muito, e teremos muita sabedoria. Se não soubermos isso, então teremos mais
pensamento que sabedoria - e talvez nenhuma sabedoria! Até que realmente
enxerguemos as conseqüências danosas das nossas ações para que possamos abrir
mão delas. Da mesma forma, somente quando virmos os benefícios reais da prática
é que nós a seguiremos e começaremos a trabalhar para tornar a mente
"boa".
Se cortarmos um tronco de árvore e o jogarmos num rio e ele não afundar ou apodrecer, nem ficar preso nas margens do rio, esse tronco irá com certeza chegar ao mar. A nossa prática é igual. Se você praticar de acordo com o caminho estabelecido pelo Buda, seguindo-o com rigor, você irá transcender duas coisas. Quais duas? Exatamente os dois extremos que o Buda disse não ser o caminho do verdadeiro meditador - entregar-se ao prazer e entregar-se à dor. Essas são as duas margens no rio. Uma das margens do rio é a raiva, a outra a cobiça. Ou você pode dizer que uma margem é a felicidade e a outra a infelicidade. O "tronco" é a mente. À medida que "fluir rio abaixo" ela irá experimentar a felicidade e a infelicidade. Se a mente não se apegar a essa felicidade ou infelicidade, chegará ao "oceano" de Nibbana. Você deve ver que não existe nada além de felicidade e infelicidade surgindo e desaparecendo. Se você não "ficar preso" nessas coisas, então você estará no caminho de um verdadeiro meditador.
Esse é o ensinamento do Buda. Felicidade, infelicidade, cobiça e raiva simplesmente existem na Natureza de acordo com a invariável lei da natureza. A pessoa sábia não os segue ou estimula, ela não se apega a eles. Essa é a mente que não se entrega ao prazer e não se entrega à dor. É a prática correta. E como aquele tronco de madeira irá finalmente chegar ao oceano, assim também a mente que não se apega a esses dois extremos irá inevitavelmente alcançar a paz.
...Você sabe onde
isso acaba? Ou você seguirá aprendendo assim?…Ou será que existe um fim?…Isso
está bem, mas é o estudo externo, não o estudo interno. Para o estudo interno
você tem que estudar estes olhos, estas orelhas, este nariz, esta língua, este
corpo e esta mente. Esse é o estudo real. O estudo de livros é apenas o estudo
externo, é realmente difícil terminá-lo.
Quando o olho vê
a forma que tipo de coisas acontecem? Quando o ouvido, nariz e língua
experimentam sons, aromas e sabores, o que acontece? Quando o corpo e a mente
entram em contato como o tato e os estados mentais, que reações ocorrem? O
desejo, a raiva e a delusão estão presentes? Nós nos perdemos nas formas,
sons, aromas, sabores, tangíveis e humores? Esse é o estudo interno. Ele tem um
ponto em que termina.
Se estudarmos mas
não praticarmos, não obteremos nenhum resultado. É tal como a pessoa que cria
vacas. Pela manhã ela leva a vaca para pastar, à tarde ela a traz de volta para
o curral - mas ela nunca toma o leite da vaca. O estudo é bom, mas não deixe
que seja só isso. Você deve criar a vaca e também tomar o seu leite. Você
precisa estudar e praticar também para obter o melhor resultado.
Aqui, vou
explicar melhor. É igual a uma pessoa que cria galinhas, mas que não coleta os
ovos. Tudo que ela obtém é o estrume de galinha! Isso é o que digo para as
pessoas que criam galinhas onde vivo! Tomem cuidado para que vocês não se
tornem assim! Isso significa que nós estudamos as escrituras mas não sabemos
como nos soltar das nossas contaminações, nós não sabemos como
"empurrar" o desejo, a raiva e a delusão da nossa mente. Estudar
sem praticar, sem esse "abandono", não produz resultados. É por isso
que comparo com alguém que cria galinhas mas que não recolhe os ovos, ela apenas
colhe o excremento. É a mesma coisa.
Por causa disso,
o Buda queria que estudássemos as escrituras e que então abandonássemos as
ações prejudiciais praticadas através do corpo, linguagem e mente e para que
desenvolvêssemos as ações benéficas através do corpo, linguagem e mente. O
real valor da humanidade se realiza através das nossas ações com o corpo,
linguagem e pensamento. Mas se apenas falarmos de maneira correta, sem agirmos
de acordo, ainda não estará completo. Ou, se praticarmos ações benéficas mas a
mente ainda não estiver bem, isso não estará completo. O Buda ensinou para que
desenvolvêssemos a ação correta, a linguagem correta e o pensamento correto.
Esse é o tesouro da humanidade. O estudo e a prática, ambos, precisam ser
benéficos.
O Caminho Óctuplo
do Buda, o caminho da prática, possui oito elementos. Esses oito elementos são
nada mais do que este corpo: dois olhos, duas orelhas, duas narinas, uma língua
e um corpo. Esse é o caminho. E a mente é aquela que percorre o caminho. Portanto,
ambos, o estudo e a prática existem no nosso corpo, linguagem e mente.
Você já viu
escrituras que ensinem sobre alguma outra coisa que não seja o corpo, a
linguagem e a mente? As escrituras ensinam apenas isso; nada mais. As
contaminações nascem aqui. Se você as conhecer elas morrerão exatamente aqui.
Portanto, você deve compreender que a prática e o estudo, ambos, existem
exatamente aqui. Se estudarmos na medida exata poderemos saber tudo. É como a
nossa linguagem: falar uma palavra que seja uma Verdade é melhor do que toda
uma vida de linguagem incorreta. Você entende? Quem estuda mas não pratica é
como uma concha em uma sopeira. Ela está na sopeira todos os dias mas não
conhece o sabor da sopa. Se você não praticar, mesmo que estude até o dia da
sua morte, não conhecerá o Gosto da
Liberdade!
1. Samadhi é o estado de tranqüilidade
com concentração que resulta da prática de meditação. [Retorna]
2. Jhana é um estado avançado de concentração ou samadhi, em que a mente fica absorvida pelo seu objeto de
meditação. Ele está dividido em quatro níveis, cada um progressivamente mais
refinado que os anteriores. [Retorna]
3. Isto é, todo o tempo, em todas atividades. [ Retorna]
4. Esta é uma "vergonha" que tem como base o conhecimento da lei de
causa e efeito, ao invés do mero sentimento de culpa. Veja hiri-ottappa. [ Retorna]
5. "Atividade externa" se refere a todas as impressões sensuais. É usada
em contraste a "atividade interna" do samadhi de absorção (jhana),
em que a mente não "sai" em busca das impressões sensuais externas. [Retorna]
6. Samsara, a roda do Nascimento e
Morte, é o mundo de todos os fenômenos condicionados, mentais e materiais, que
possuem as três características de impermanência, insatisfatórios e não-eu. [Retorna]
7. Veja Introdução. [Retorna]
8. No idioma Tailandês a palavra "sungkahn," derivada da palavra em Pali
sankhara (o nome dado a todos
fenômenos condicionados), é um termo comumente usado para o corpo. O Venerável
Ajaan emprega a palavra com ambos sentidos. [Retorna]
9. Paticcasamuppada -- A Cadeia da
Origem Dependente, uma das doutrinas centrais da filosofia Budista. [Retorna]
10. Sensação é uma tradução da palavra em Pali vedana,
e deve ser entendida com o sentido dado por Ajaan Chah: como os estados mentais
de gostar, não gostar, alegria, tristeza, etc. [Retorna]
11. Contaminações, ou kilesa, são os
hábitos nascidos da ignorância que infestam as mentes de todos os seres não
iluminados. [Retorna]
12. Khandhas. São os cinco
"agregados" que compõem aquilo que denominamos "uma pessoa”. [Retorna]
13. Natureza neste caso se refere a todas as coisas, mentais e físicas, não somente
árvores, animais, etc. [Retorna]
14. Silabbata paramasa tradicionalmente se
traduz como apego a preceitos e rituais. Neste caso o Venerável Ajaan o
conecta, juntamente com a dúvida, especificamente ao corpo. Essas três coisas, sakkayaditthi, vicikiccha e silabbata
paramasa, são, nas escrituras, os três primeiros dos dez "grilhões",
que são abandonados ao alcançar o primeiro vislumbre da Iluminação, conhecido
como "Entrar na Correnteza". Com a iluminação completa todos dez
grilhões são abandonados. [Retorna]
15. Isto é, vipassanupakkilesa
-- as contaminações sutis que se originam da prática de meditação. [Retorna]
16. Mara (o Sedutor), a personificação do mal no Budismo. Para o meditador é tudo
aquilo que perturba a busca pela iluminação. [Retorna]
17. "Libertação da dependência," isto é, durante os primeiros cinco anos
ele vive sob a orientação de um monge mais graduado. [Retorna]
18. "Retiro das Chuvas" refere-se ao retiro anual de três meses durante a
estação das chuvas, através do qual os monges contam a sua idade. Dessa forma
um monge com cinco retiros das chuvas foi ordenado faz cinco anos. [Retorna]
19. A cabeça é considerada sagrada na Tailândia e tocar a cabeça de uma pessoa é
considerado um insulto. Também, de acordo com a tradição, homens e mulheres não
se tocam em público. Por outro lado, sentar em meditação é considerada uma
atividade "sagrada". Talvez neste caso o Venerável Ajaan estivesse
usando um exemplo do comportamento ocidental que em particular choca um público
Tailandês [Retorna]
20. Na Tailândia é considerado de bom augúrio ter a cabeça tocada por um monge
muito estimado. [Retorna]
21. Os quatro apoios -- mantos, alimentos, moradia e medicamentos. [Retorna]
22. Venerável Jagaro, abade Australiano do Wat Pah Nanachat naquela época, que
havia trazido o seu grupo de monges e pessoas leigas para ver Ajaan Chah. [Retorna]
23. Sadhu é a palavra em Pali que
tradicionalmente se usa para reconhecer uma bênção, ensinamento do dhamma, etc.
Ela significa "muito bem." [Retorna]
24. Na Tailândia a palavra "Mestre" é usada como um título, tanto quanto
"Doutor" é usado no Português. "Mestre Choo" é um dos
quatro anciões, residentes locais, que vieram passar o retiro das chuvas no Wat
Pah Nanachat, para quem a última parte deste discurso está dirigida. [Retorna]
25. Dhutanga propriamente quer dizer
"asceta". Um monge Dhutanga é aquele que segue algumas das treze
práticas ascéticas permitidas pelo Buda. Os monges Dhutanga tradicionalmente
passam o seu tempo viajando (freqüentemente a pé) em busca de lugares calmos
para meditação, outros mestres ou simplesmente como uma prática em si. [Retorna]
Revisado: 30 Abril 2008
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