Nibbana

Por

Henri van Zeyst

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Introdução

Nibbana, a libertação última de toda delusão, possui muitos aspectos e com freqüência é mal compreendido; algumas vezes tido por aniquilação, outras, por felicidade suprema, raramente como a cessação da ignorância através do insight, e ainda mais raramente como o fim de todo o esforço, como a solução de um problema através da dissolução do mesmo. Não é através do pensamento que o insight faz surgir o despertar do entendimento, se a mente finita, com as suas limitações de pensamento, pudesse compreender nibbana, então nibbana também seria limitado e finito, relativo e condicionado. Não seria nibbana. O insight ocorre através da compreensão de que todos os problemas e conflitos surgem de um mal-entendido quanto à origem de toda ação, o “eu”. Só com a experiência da cessação de todo o pensamento volitivo é que uma negação poderá ser entendida, sem a busca de uma resposta para um problema que será sempre no interesse de um “eu”.

Aspectos de Nibbana

Primeiro, o aspecto ético. Nibbana implica a destruição de todas as impurezas mentais, (asava), a remoção definitiva de todos os obstáculos, (nivarana), e a libertação de todos os grilhões, (samyojana). Em vista de todas essas remoções, nibbana é chamado libertação, (vimutti). Nibbana não pode ser mirado como um ideal positivo, pois “o fim do mundo não pode ser conhecido, visto ou alcançado viajando” (se esforçando). [1] A remoção temporária dos obstáculos, no entanto, depende do esforço.

Segundo, o aspecto mental, que é a culminação de uma evolução no processo de entendimento. É o desenvolvimento gradual através dos quatro estágios da iluminação.

Finalmente, o aspecto filosófico e metafísico, que proporciona ao conceito de nibbana certo caráter positivo, muito embora a maioria dos seus sinônimos seja negativa. Nesse sentido, nibbana é visto como o imortal, (amata), o incondicionado, (asankhata), o summum bonum, (parama sukha). É o absoluto por não haver relatividade, não havendo assim, distinção entre “eu” e “não-eu,” nenhuma oposição e nenhum conflito. Como tal, é não-fabricado, não-causado, não-criado, não-condicionado.

Não há um eu que realiza nibbana. Apesar de inconcebível, ele pode ser experimentado, não através do esforço e prática, mas com o entendimento, experimentando e vivendo de acordo com a verdade. Uma vez que a verdade seja vista, não mais ocorrerá nenhuma alucinação, porque as fontes, que produzem esses mal-entendidos, que são o desejo e a fabricação do eu, foram esgotadas.

Uma Solução?

Nibanna é a solução dos nossos conflitos? É o objetivo da nossa busca pela paz? É o cume da realização onde a mente por fim descansa? Em outras palavras, nibbana é o fim do esforço? Se nibbana fosse isso tudo, deveria ser possível empenhar-se por tal perfeição sublime, por essa suprema satisfação. Mas isso faria de nibbana um objetivo do nosso esforço, dependente do nosso esforço, limitado pelos nossos conceitos relativos. Nibbana não é o resultado de um objetivo alcançado, visto que isso seria a realização de um “eu” finito e faria de nibbana algo limitado, uma propriedade, uma condição, um efeito, sujeito ao esforço e à cessação.

A sabedoria pode ser adquirida? A pessoa pode crescer em conhecimento, mas isso ainda implica no crescimento do “eu.” O mesmo ocorre em relação à generosidade, renúncia, paciência, compaixão, virtude e concentração.

É claro que é um absurdo perguntar: como cessar? Pois isso ainda seria a busca para alcançar a cessação.

É tão fácil perdermo-nos do caminho no emaranhado das realizações pessoais. A libertação absoluta é a imagem do objetivo que a mente estabeleceu. E então, o pensamento começa a fazer experimentos! Primeiro com a renúncia, afastando-se de todos os embaraços do mundo. Depois em isolamento e com mais concentração, disciplinando a mente e eliminando as distrações mentais a partir do nosso interior. Mais adiante, o caminho da prática poderá nos conduzir aos elevados níveis dos jhanas imateriais. Mas ainda há o pensamento; há a lembrança dos estados de absorção e do êxtase; há o afã de permanecer nesse isolamento. E isso significa que ainda há o “eu” querendo ser/existir, querendo permanecer, querendo experimentar.

Todo exercício, todo empenho, todo esforço, é um desejo de satisfazer a ambição de se tornar um ideal. Mas essa ambição, esse mesmo esforço para alcançar, é um empecilho no caminho para a libertação. O controle da mente, o autocontrole ainda possui o pensamento de um “eu.” Tendo esse objeto como ideal, não haverá libertação.

É o pensamento de um “eu” que precisa cessar e isso não pode ser feito através da supressão. Quanto mais esforço houver na concentração, mais profundamente a realização do “eu irá se enraizar.” O pensamento só cessa com o entendimento. O que é o pensamento? É o relacionamento com o passado, pois o pensamento depende da memória, ele é a reação à experiência passada, querendo projetar essa imagem para o futuro para existir, continuar, renovar o passado, para manter o “eu” vivo. O pensamento sempre se refere ao passado, ele nunca está no presente. No presente há a seleção, a comparação, o armazenamento, a manutenção daquilo que passou para ser usado no futuro.

Como é possível cessar esse conhecimento? É óbvio que não através da aquisição de mais conhecimento, que só irá incrementar as posses da mente. É o “eu” que deseja saber, adquirir conhecimento.

Quando o conhecimento não ajuda, mas, ao invés disso, se transforma num obstáculo para o entendimento, que outro método poderá conduzir ao objetivo? As religiões reveladas classificaram essa questão como impossível e sem encontrar uma resposta perceberam a necessidade de introduzir um fator externo: a graça divina. Não é através do esforço humano que pode haver a salvação, mas unicamente através da graça divina. Porém, a adição de conceitos não irá tampouco proporcionar uma solução para o problema. O problema encontra-se na volição dos pensamentos e a solução só será alcançada com a cessação da volição, na cessação dos pensamentos.

O que existe além do conhecimento? Como fazer com que o pensamento cesse? Quando é visto que o pensamento é uma reação ao conhecimento do passado, a memória perde o seu valor, visto que ela não se encontra no presente. Para ver o problema no presente não pode haver uma dependência do passado. Mas sem o passado não há pensamento no presente. Então o que há? Se o pensamento for o reflexo de uma experiência, que passa a fazer parte do passado assim que ocorre um pensamento a seu respeito, então, no presente há apenas a experiência em si, sem um pensamento a seu respeito. No presente há apenas a experiência, enquanto que o pensamento se refere a uma experiência que não existe mais. Quando não há o pensamento a respeito de algo, tampouco há um pensador. No momento da experiência não há um eu que possa ser separado como sujeito, como observador ou como ator, que se separa do objeto que é experienciado ou observado, que se separa da ação. Há apenas a ação sem reação.

Experienciando:

Experienciar não é conhecer, pois no conhecimento há o conhecedor que armazena o seu conhecimento, ao experienciar não há um pensamento a respeito de uma experiência e por conseguinte não há um experienciador que conhece. O pensamento é a última defesa do “eu” por meio das reações, do esforço, da busca por resultados, por meio das tentativas de realização e do ser/existir. Experienciar não é concentrar-se num objeto escolhido, e sim concentrar-se naquilo que é. E o que é? O que acontece na experiência? A beleza das montanhas não está nas montanhas ou nos efeitos da luz, mas na reação da mente. A dor causada por uma palavra ofensiva não está na palavra, nem na pessoa que ofende, mas na reação dentro da mente. A beleza pode ter desaparecido com o anoitecer, as palavras ofensivas terão sido carregadas pelo vento, porém a reação está aqui e agora dentro de mim. Eu sou essa reação, muito embora não exista nenhuma ação, e por conseguinte, não há nenhum ator. Ao enxergar o vazio dessa reação, há o entendimento da sua não-entidade, a não-identidade da beleza e da dor – e do “eu.” Com esse entendimento não há o esforço e a ansiedade de alcançar, pois não há objetivo. Está tudo aqui neste momento. Sem ter de alcançar algo, há a libertação do pensamento. Essa extinção é chamada nibbana, que é quando o conflito, (dukkha), proveniente da resistência contra a impermanência, (anicca), é visto e entendido como vazio, porque não há um eu, (anatta), para resistir.

Nibbana não é um estado de existência de uma entidade, mas um momento de experiência. Nesse momento não há memória e não há desejo, não há passado nem futuro. É o momento em que o pensamento pára, ou seja, os pensamentos condicionados pelo passado, pela memória e tradição e os pensamentos condicionados pelo futuro, pela antecipação e pelo desejo. Nesse momento não há pensamento, mas apenas a experiência de ser incondicionado, de ser livre, de não-ser.

Como isso se compara com as conhecidas descrições de nibbana:

- Imortal, (amata), significa que não há mais morte porque não há mais nascimento.
- Incondicionado, (asankhata), que não é possível haver formação ou condicionalidade que proporcione a completa liberdade.
- Não-criado, (akata), que não há um criador que ppossa produzir aquilo que não é um produto.

Nesse sentido, nibbana não está sujeito à mudança ou cessação, sendo, por isso, chamado de permanente, (nicca), pois não é possível haver o retorno da ignorância e delusão, uma vez que a delusão foi discernida e compreendida como uma falácia. Uma vez que a individualidade e a substancialidade da personalidade tenham sido descobertas como a projeção do desejo pela continuidade, o evento da iluminação não poderá ser obscurecido por novas delusões. Portanto, há permanência na libertação da delusão. E isso resulta em: felicidade suprema, (paramasukha). Como todo o restante, aquilo que é impermanente, condicionado, composto, é a morte em si.

Entendimento

Quando há a compreensão através do insight, isso não quer dizer que não há mais sensações, que não há mais percepções. Mas sim, que estas não mais serão interrupções; poderá haver dor, mas não haverá mais tristeza; poderá haver conhecimento, mas não haverá mais mal-entendidos; poderá haver a perda, mas não haverá mais a consternação; poderá haver ação, mas não haverá mais reação; poderá haver energia, mas não haverá mais o esforço; poderá haver a visão, mas não haverá mais o desejo; poderá haver sensações, mas não haverá mais apego; poderá haver percepções, mas não haverá mais formações; poderá haver necessidade, mas não haverá mais cobiça; poderá haver a experiência, mas não haverá mais a acumulação; poderá haver vida, mas não haverá mais morte e conseqüentemente, não haverá mais nascimento.

Com a retirada do “eu”, através do trabalho de insight, o esforço tem fim, o fardo é colocado de lado, os grilhões são rompidos. O caminho se revela desimpedido para ser caminhado, embora ele não conduza a um objetivo, pois ele mesmo é a liberdade e o objetivo. E tampouco há um caminhador, um propósito, um sujeito ou um objeto, só o que permanece é a liberdade para caminhar, a liberdade para viver, a liberdade de ser livre, agora!

Negação

Nibbana é então só negação e aniquilação? A negação tem a função de romper os conceitos, de libertar a mente da discriminação e de penetrar todas as idéias pré-concebidas. A verdade não é o objetivo da busca, mas ela será revelada, uma vez que todos os conceitos sejam destruídos.

Insight

O caminho para o entendimento é um caminho de insight momento a momento, mas não com o objetivo de compreensão. O insight tem de ver aquilo que está presente e aquilo que não está presente, e porque isso é assim. Ver sem discriminação; sem volição; sem seleção e sem intenção. Aquilo que está presente não evoca reação, o ideal cessa de provocar o desejo e com a ausência de reação e projeção, de memória e desejo, não há nem passado e tampouco futuro, não há ser/existir e tampouco não ser/existir. Meras palavras? Elas com certeza não têm significado nenhum fora da experiência. A negação total proporciona a libertação dos conceitos, que é a libertação do ser/existir, do renascimento, da continuidade do infeliz conceito de um eu, da distorção do pensamento que se opõe, do caos e da aversão.

 


 

Notas:

Esta tradução é um resumo do texto original. O resumo foi feito pelo tradutor para o Português.

[1] Veja o SN XXXV.116. [Retorna]

 

 

Revisado: 10 Fevereiro 2007

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