Samadhi é Puro Deleite
Por
Ajaan Sucitto
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Vejamos a idéia da concentração, ou samadhi. Quando você ouve essas quatro sílabas con-cen-tra-ção, o que elas lhe sugerem? Você provavelmente não é capaz de expressar o que é, mas você poderá sentir um conjunto especial de energias assumindo o controle. Pode ter um sentido de fazer alguma coisa, dar duro para conseguir realizar isso. Essa é a interpretação usual. Dizemos para nós mesmos, "Samadhi. Isso é realmente importante. Não vai ser nada fácil." Nós nos contraímos, ficamos tensos e nos lançamos nesse trabalho. É prática intensiva, um campo de "concentração". Não é permitido a frouxidão! Com esse tipo de pensamento, estabelecemos uma tática de dominação por meio da qual controlamos a mente. Colocamos os sistemas de controle em alta rotação, os sistemas de tarefa, os sistemas de trabalho, os sistemas de fazer-a-coisa-certa. Isso é coisa da Gestapo quando atinge este ponto.
Essas táticas funcionam durante algum tempo, mas em poucos dias começaremos a ficar cansados. Alguma coisa em nós fica tensa, enrijece. E ao mesmo tempo, alguma outra coisa em nós provavelmente está dizendo, "Ah, aos diabos com isso." De vez em quando essa voz vem à tona. Queremos ter um pouco de diversão, então buscamos meios legítimos para evitar a "prática". Afinal, quantas pessoas na verdade gostariam de praticar o tempo todo? Claro que a mente idealista diz, "Sim, eu gostaria de comprometer-me com o Dhamma todo o tempo." Uma pequena voz pia, "Sim senhor, esse sou eu!" Mas disfarçadamente está dizendo, "Uma noite ou outra de folga seria legal." Portanto, é importante questionar a nossa percepção da concentração. Essa atitude tipo Gestapo não irá resultar em samadhi, unificação, ou que não é dividido. Se examinarmos essa atitude de "botar pra quebrar", poderemos sentir o quão destrutiva ela é, o quanto ela faz com que desanimemos. Não existe apreço nela. Podemos sentir o quanto isso faz com que nos sintamos estressados e críticos.
Eu descobri por mim mesmo tentando desenvolver samadhi desse modo no monastério. Eu passei a criticar todo mundo - aquele tinha a postura horrível, o outro abria a porta fazendo muito barulho; um outro vestia os mantos da forma incorreta. Ficamos assim muito meticulosos e críticos porque as nossas idéias sobre a concentração intensificam as nossas faculdades críticas. Mas essa faculdade discriminativa é aquilo que separa. Ela conduz à segregação. A segregação por sua vez conduz à inquietação e revolta. O que quer que tenha sido expulso e rejeitado começa a dar o troco. Assim, uma experiência cujo objetivo é resultar em clareza faz com que todos os obstáculos sejam estimulados. A concentração se dissolve porque não foi cultivada do modo correto.
Ao invés disso, vamos considerar o modo descrito pelo Buda. A concentração é prazer. É uma experiência prazerosa. Ele disse, "Naquele em que o corpo está equilibrado e tranqüilo, não é necessária a intenção 'Que eu sinta felicidade, que eu me sinta tranqüilo.'" Em outras palavras, nós não precisamos fazer nenhum esforço. Se o corpo estiver em harmonia com a energia equilibrada, então nos sentiremos tranqüilos. Não é necessário estabelecer a intenção "que eu me concentre." Alguém que esteja tranqüilo irá se concentrar naturalmente. Isso é samadhi.
Agora, isso não soa muito preciso, não é mesmo? A razão é porque falta precisão em relação à definição do objeto, que é onde nos sentimos mais seguros. Pensamos, "Quando eu conseguir sentir um determinado número de respirações ocorrendo nas minhas narinas, então estarei concentrado. Isso é samadhi." Tente olhar de outro modo. Ao invés de basear samadhi num objeto, inverta isso. Esqueça a respiração por um instante. Olhe mais para as qualidades subjetivas. Como você está se sentindo agora? Simplesmente aqui sentado, caminhando, vivendo - como você sente isso? Como você reage às mudanças? Quando você se sente feliz? Quando você se sente triste? Quando você se sente ocupado? Quando você se sente calmo e tranqüilo? Quando você sente que a vida é apenas isto? Como é sentida a energia nessas situações?
Quando houver algo no futuro que precisemos alcançar, haverá tensão. As coisas começam a se solidificar; a flexibilidade começa a desaparecer. Quando houver uma forte noção de autoconsciência - "Eu sou isso, eu não sou aquilo; Eu não fui aquilo, eu serei isso" - haverá um aperto na nossa energia. Quando nos defendemos de pessoas, eventos, memórias e sentimentos, quando nos fechamos para as coisas, a tensão e o estresse estão presentes. Quando tentamos desempenhar um papel e converter-nos em alguma coisa, a tensão e o estresse estão presentes. Quando comparamos e competimos, há tensão e estresse.
Então começamos a contemplar esses padrões insalubres e a abrir mão deles. Podemos ver como as nossas vidas operam em termos de compartimentos. Podemos compartimentar um retiro. Estabelecemos uma série de pequenos nichos - sentar, caminhar, tempo livre, depois outra vez sentar, caminhar, tempo livre. Podemos dizer para nós mesmos, "Eu não consegui sentar o meu número de horas hoje." Vocês vêm o que acontece? Os nossos pensamentos estabelecem zonas: "Isto será assim e aquilo será assado. Quero saber como será cada coisa de modo que eu esteja preparado. Eu terei a minha almofada no lugar certo e o meu caminho especial para meditação andando e que ninguém se apodere disso!" Criamos zonas nas quais tudo que é indesejado ou incomum tenha sido capinado. Por seu lado isso cria um sentimento de muita rigidez. Quando algo se desvia ligeiramente do padrão, sentimos-nos confusos ou perturbados. Não se pode viver assim. Essa é uma experiência estéril, como viver num laboratório.
Mas é claro que as ervas daninhas ainda surgem, não é mesmo? As ervas daninhas são capazes de sobreviver em praticamente qualquer lugar. Elas atravessam o cimento. As ervas daninhas são os verdadeiros senhores do planeta. Deveríamos almejar ser mais parecidos com as ervas daninhas e dar realmente destaque para a resiliência, robustez, espontaneidade, a qualidade da erva daninha de estar em qualquer parte ao invés da precariedade de uma orquídea preciosa que só é capaz de sobreviver numa estufa com borrifos e adubos especiais. Afinal de contas, uma erva daninha é na verdade apenas uma flor. Aprendemos a dizer "erva daninha", decidindo que é algo indesejado. A nossa percepção rotula como negativo do mesmo modo que as nossas mentes foram treinadas para aceitar apenas o impessoal e irreal, o estéril e sem vida, o pré-empacotado e filtrado. O nosso sistema imune é fraco, igual à orquídea cultivada, incapaz de sobreviver na natureza. Não somos capazes de lidar com a natureza.
Mas a mente pode. No nosso treinamento a mente permite e aceita as condições. Quando a mente toma o corpo, existe a presença personificada do corpo. Quando a mente forma conceitos, existe o pensamento aplicado. Quando a mente se inclina para a sensação e percepção, existe ressonância. Quando a sua intenção for a pura referência sem adições, chamamos isso de atenção plena, ou referir-se às coisas como elas são. Quando a referência está totalmente estabelecida, o estabelecimento da mente no prazer é samadhi.
A mente em si não é nenhuma dessas experiências; ela está contida em todas elas. A prática é seguir apresentando a mente, com base na atenção plena, ao corpo, pensamentos e estados de humor. Isto requer um claro comprometimento da intenção: como por exemplo, estar no presente, estar com o corpo, estar com as sensações, etc. Portanto, para encorajar esse comprometimento, faça com que a prática seja acolhedora. Assim, a mente pensadora acompanhará. Na verdade, o truque é encontrar o equilíbrio por meio do qual possamos pensar quando queiramos, e quando não for a hora de pensar possamos descansar numa mente consciente do prazer.
Esse tipo de prazer é uma experiência receptiva e estabelecida. Por exemplo, quando aprendemos a dançar ou tocar piano, há diferentes estágios. O primeiro estágio é "não consciente e incompetente" - sem saber o que fazer e não ser capaz de fazê-lo. Em seguida é "consciente e incompetente" - sabendo o que fazer mas ainda não sendo capaz de fazê-lo. Neste estágio praticamos como se fossemos um marceneiro, martelando as teclas, a meditação do principiante. Terceiro é "consciente e competente" - sabendo o que fazer e sendo capaz de fazê-lo. Pensamos, "Agora está tudo sob controle, eu estou desempenhando muito bem." A maioria das pessoas pensa que esse é o pináculo. O verdadeiro pináculo no entanto é "inconsciente e competente" - a prática simplesmente acontece. Não sabemos como estamos fazendo aquilo, mas de todos os modos está acontecendo. Somos parte de um fluxo. Nesse tipo de consciência - que pode ser experimentada em certas artes, trabalhos manuais, esportes, e assim por diante - sentimos o que está acontecendo. Confiamos naquilo. Fluímos com aquilo. Estamos presentes e sintonizados. Não há nenhum padrão cognitivo dizendo, "faça isto, faça aquilo." O fluxo simplesmente segue.
Assim é samadhi. É competente e inconsciente, ou melhor dizendo, está além do esforço consciente. A "consciência" neste contexto é a atividade discriminatória. A consciência no olho discrimina a distância, luz e sombra. Separa as partes numa descrição da experiência: "Esta árvore está a um metro de distância; aquela outra está a três metros de distância." Porém, na verdade, aquilo está ali simplesmente. A consciência na mente discrimina entre sujeito e objeto: "Esse é você e este sou eu. Você está aí fora e eu estou aqui dentro." A mente discrimina o tempo todo. Isto não se aplica somente ao que chamamos de atividades externas usuais. Mesmo quando observamos a mente, há a noção: "Eu estou aqui observando a minha mente lá do outro lado." Quando nos debatemos com as contaminações: "Eu estou aqui e as contaminações estão lá do outro lado." Há uma espécie de linha divisória entre os dois. Assim é a consciência. Embora estar consciente seja o aspecto central da consciência, essa linha divisória é estabelecida pela atividade da consciência.
Enquanto essa linha divisória existir, haverá a tomada de posições, o nervosismo, ganhar, perder, etc. Visto que as experiências são transitórias, sempre haverá uma ligeira noção de estar se apegando ou de estar se livrando do estado atingido, tentando incrementá-lo ou reduzi-lo. Samadhi acontece quando ultrapassamos essa linha. Existe participação completa e deleite com a experiência. Samadhi é a libertação de toda tensão, do agarramento, da criação de delimitações.
Nos estágios iniciais de samadhi operamos dentro dos limites do que é experimentado para examinar bem o kamma, os padrões e tendências habituais de ações passadas. Começamos dentro dos limites do corpo para limpar todas as suas delimitações internas - a falta de consciência do corpo, a inabilidade de fluir junto com as energias do corpo, as congestões experimentadas no corpo – para que ele não seja mais sentido como confinado, estreito, nodoso, deformado ou desbalanceado. Uma vez que haja a plenitude do corpo, não temos que fazer nada mais em termos corporais, o corpo está em repouso. Ser simplesmente um corpo é prazeroso.
Aprender a essência da prática dentro dos limites do corpo faz uso de uma delimitação segura e manejável. É mais fácil com o corpo pois este é tangível e grosseiro. Desfrute a presença manifesta - sentado, caminhando, em pé. O corpo então treina a mente a parar de criar injunções, controles e nervosismo. Treina a mente a parar a ignorância, o esquecimento e a visão incorreta, a parar a presunção, a vergonha e a violência. Isso conduz a pañña, ou sabedoria - isto é, o entendimento do processo - que por seu lado resulta em libertação. Libertação do medo, da preocupação, da tensão, da ignorância.
A libertação em si é um processo gradual. Fazemos com que a mente mude o seu comportamento. Isso é algo que só podemos fazer com o corpo porque a mente não é capaz de mudar a si mesma. Ela necessita de uma referência. Assim, focamos a mente em algo e perguntamos, "Hum. Como é isso? Porque a minha respiração é assim?" A respiração é um bom lugar para começar a desenvolver a concentração. É claro que com freqüência pensamos, "Preciso ajustar a respiração para que ela fique correta. Tem algo de errado." Assim mexemos aqui e ali e a aprimoramos. Tudo bem se isso conduz à calma. Mas se fizermos elaboradas invenções ou formulações em torno da respiração, chegará o ponto em que não iremos nem querer ouvir a palavra "respiração". Concentrar-se na respiração é demasiado dolorido porque estabelece muitos critérios conceituais refinados. Intensificamos a discriminação em relação ao objeto ao invés de cobri-lo com a nossa atenção.
Precisamos desenredar o estresse. Note simplesmente que você está respirando. Comece por tocar isso. É bem simples. Observe como você recebe, conectando-se com muita consciência à palavra "receber", porque esse é o "fazer" menos intenso que pode acontecer. Traga à mente a reflexão de receber a respiração. Talvez no início a sua receptividade não será muito clara ou nítida ou luminosa. Melhore a recepção; permaneça com isso. Depois pergunte, "O que posso receber?" Foque nos padrões, como por exemplo saber a diferença entre os sons e os silêncios ao ouvir uma voz. Sinta as modulações, para dentro, para fora e as pausas; você será capaz de acompanhar isso com bastante rapidez. Quando estiver respirando, simplesmente receba os tipos de sensações e permita-se desfrutá-las, pausar nelas, fluir com elas. " Naquele em que o corpo está equilibrado e tranqüilo, não é necessária a intenção 'Que eu sinta felicidade, que eu me sinta tranqüilo.' É uma lei da natureza que naquele em que o corpo está equilibrado e tranqüilo, sente felicidade. Alguém que sente felicidade, não é necessário a intenção: ‘Que a minha mente fique concentrada!’ É uma lei da natureza que naquele que sente felicidade, a mente se concentra." Essas são as palavras do Buda.
Fluir não é um objeto discreto. Não é possível solidificar o fluxo. Requer deixar de lado o hábito de solidificar as coisas, colocar delimitações ao redor das coisas, isso é um grande alívio na meditação. As coisas são dinâmicas, as coisas estão fluindo. Então, a nossa resposta tem que ser dinâmica e fluída. Tentamos encontrar um objeto sólido que possamos agarrar, e chamamos isso de concentração. Alguém pode sentir uma certa alegria ao alcançar isso, mas isso dura um curto espaço de tempo. Daí, até logo fluxo, até logo energia, até logo alegria.
Quando contemplamos a respiração, nós estamos na verdade observando uma metáfora para a mente. Temos que olhar para essa metáfora do mesmo modo que apreciamos um poema ou uma pintura. Veja o que isso significa. Não se aproxime da tela e grude o nariz nela. Mantenha uma certa distância de onde os olhos possam pousar com conforto. Isso varia de pessoa para pessoa. Você pode se sentir confortável com um objeto a vinte centímetros de distância, trinta, cinqüenta centímetros de distância. Depende. Coloque-a na distância em que você se sentir confortável. A idéia de focar é acomodar, então foque de um modo que você se sinta assentado e calmo e não, confuso ou sonolento. Esse é o único ponto no qual você irá realmente experimentar uma sensação estável da respiração. Esse ponto na verdade está no seu próprio processo mental, psicológico, cognitivo. Não é um ponto físico.
Onde você sente as energias convergindo? Vá para lá. Permita que a respiração atravesse este ponto, repetidas vezes. Você irá perceber que não estará esbarrando nem se afastando mas se tranqüilizando. Então, você começará a experimentar algum tipo de tom contínuo, que é uma outra metáfora. Ouça, se for algo que você experimentar como algo audível. Se for táctil, sinta-o. Se tiver uma base emocional, ressoe com ela. Se for visual, abra-se para a experiência. Esse é o "sinal" da meditação. A qualidade dessa experiência é bela. Note a beleza. O que é essa beleza? É aquilo com o que a mente se sente deliciada, encantada, emocionada. Essa é a felicidade.
Mas nós não podemos nos apoderar da beleza. O relacionamento com a beleza é algo semelhante à devoção. Nós não a possuímos; temos consciência dela de um modo que é amoroso e respeitoso. Entregue-se a isso. É claro que isso é algo que nós não estamos acostumados, então deve ser feito com cuidado. Essa não é uma experiência estouvada; é algo que requer confiança. Confie no seu corpo antes de mais nada. O corpo é algo em que se pode confiar muito mais do que na mente. E à medida que alguém aprende a confiar, ele receberá as bênçãos disso: aquilo que é bom, aquilo que conduz ao bem-estar do coração, aquilo que traz felicidade.
Desfrutar da felicidade é um outro modo de dizer deleite, e samadhi é a arte do deleite refinado. É o cuidadoso convocar-se para a felicidade do presente momento. A felicidade significa que não há medo, não há tensão, não há dever. Não há nada que devamos fazer a respeito. É só isso.
Fonte: Palestra dada no Insight Meditation Society, Barre, MA, no dia 10 de Março de 1999.
Revisado: 6 Fevereiro 2010
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