Todos Nós
Assediados pelo Nascimento, Envelhecimento e Morte
Por
Ayya Khema
Somente para distribuição gratuita.
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contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuição ou uso.
De outra forma todos os direitos estão reservados.
Meu agradecimento vai para
todas as monjas, anagarikas e pessoas leigas que ouviram tantas vezes as minhas
exposições dos ensinamentos do Buda.
Sem eles, estas palestras
não teriam ocorrido e este livro não existiria.
Um “muito obrigado”
especial para os meus amigos, que sempre encorajaram e apoiaram o meu trabalho
e a publicação deste livro, através da sua sempre presente compreensão e
generosidade.
Àqueles que datilografaram
o manuscrito a partir das fitas gravadas dos discursos, que ofereceram
livremente o seu tempo, energia e amor para a propagação do Dhamma.
Que todos aqueles
conectados com este esforço conjunto possam colher os frutos do excelente kamma
resultante da sua generosidade.
Ayya Khema
Ilha das Monjas Parappuduwa
Dodanduwa, Sri Lanka
1 Janeiro 1987
Este pequeno livro é
oferecido a todas as pessoas em todos os lugares, que compreendem que dukkha
não é somente sofrimento, dor e angústia, mas tudo aquilo de insatisfatório que
todos nós experimentamos durante as nossas vidas.
É aquela ânsia insatisfeita
no coração e na mente que nos empurra em tantas direções para encontrar a
felicidade última.
Quando nos dermos conta de que
todos os caminhos que tentamos nos levaram a um beco sem saída, terá chegado o
momento correto de voltarmo-nos para os ensinamentos do Buda e ver por nós
mesmos se a promessa dele:
“Apenas
uma coisa eu ensino,
e isso é o sofrimento
e como dar um fim nisso”
pode ser vivenciada, e se a
felicidade é possível.
À medida que a prática
avança, descobriremos que ao abandonarmos as nossas idéias preconcebidas sobre
como e onde dukkha pode ser evitado, penetraremos um território
desconhecido dentro de nós mesmos, o que nos proporcionará um conceito,
propósito, valor e realidade última da vida, totalmente novos.
Que possam existir muitos
com “pouco pó sobre os olhos”, que reverterão o fluxo de dukkha e
alcançarão a libertação.
Ayya Khema
I. O Dhamma do Abençoado
é Exposto com Perfeição
“ O
Dhamma do Abençoado
é exposto com perfeição,
visível no aqui e agora,
com efeito imediato.”
A primeira linha deste
enunciado proclama a fé verdadeira no Dhamma. E isso não significa a crença em
tudo sem uma investigação, mas um relacionamento íntimo de confiança. Quando
uma pessoa tem fé em alguém, ela também confia nessa pessoa, ela se coloca nas
mãos dela ou dele, com uma profunda conexão e abertura interior. Isso é ainda
mais verdadeiro em relação à fé no ensinamento do Buda. Aqueles aspectos do
Dhamma que você ainda não compreende podem ser deixados em suspenso. No
entanto, isso não abala a sua fé e confiança.
Se sentirmos que ele “é
exposto com perfeição,” então somos muito afortunados, pois conhecemos uma
coisa neste universo que é perfeita. Não existe nada mais que possa ser
encontrado sem máculas, nem existe algo que esteja no processo de tornar-se
perfeito. Se tivermos essa confiança, fé e amor em relação ao Dhamma e
acreditarmos que ele é exposto com perfeição, então teremos encontrado algo que
supera qualquer comparação. Seremos abençoados com uma riqueza interior.
“Visível no aqui e agora,”
cabe a cada um de nós. O Dhamma foi esclarecido pelo Abençoado que o ensinou por
compaixão, mas nós temos que vê-lo por nós mesmos com a nossa visão interior.
“Aqui e agora,” precisa ser
enfatizado, porque isso significa o não esquecimento, mas estar atento ao
Dhamma a cada momento. Essa atenção nos ajuda a vigiar as nossas reações antes
que elas resultem em palavras ou ações inábeis. Vendo o que há de positivo em
nós e cultivando-o, vendo o negativo e substituindo-o. Quando acreditamos em
todos os nossos pensamentos e os justificamos, não estamos vendo o Dhamma. Não
existem justificativas, existem apenas fenômenos que surgem e que cessam.
“Com efeito imediato,”
significa que não dependemos de que um Buda esteja vivo para praticar o Dhamma; embora essa seja uma
crença amplamente difundida, é bem possível praticar agora. Algumas pessoas
pensam ser necessário ter uma situação perfeita ou um mestre perfeito ou uma
meditação perfeita. Nada disso é verdadeiro. Os fenômenos mentais e corporais, (dhammas),
estão constantemente surgindo e desaparecendo, mudando sem cessar. Quando nos
agarramos aos fenômenos e os consideramos como nossos, então iremos acreditar
em todas as histórias que as nossas mentes nos contarem, sem discriminação.
Consistimos de um corpo, sensações, percepções, formações mentais e
consciência, aos quais nos agarramos com firmeza e acreditamos serem “eu” e “meu.” Precisamos dar um passo atrás,
ser um observador neutro de todo o processo.
“Que
convida ao exame,
que conduz para adiante.”
O
entendimento do Dhamma nos conduz ao nosso íntimo mais profundo. Não somos
convidados a examinar uma sala de meditação ou uma estátua do Buda, um pagode
ou um santuário. Somos convidados a examinar os fenômenos, (dhammas), que estão surgindo dentro de nós. As
contaminações bem como as purificações são encontradas dentro do próprio coração
e mente.
As nossas mentes estão
sempre muito ocupadas, sempre com recordações, planejamentos, esperanças ou
julgamentos. Este corpo também poderia estar muito ocupado pegando pequenas
pedras e arremessando-as n’água durante todo o dia. Mas consideramos isso um desperdício tolo de energia e por isso
dirigimos o corpo para algo mais útil. Precisamos fazer o mesmo com a mente. Ao
invés de ficar pensando nisto e naquilo, permitindo que as contaminações
surjam, poderíamos também dirigir nossas mentes para algo mais benéfico tal
como a investigação dos nossos gostos e desgostos, nossos desejos e rejeições,
nossas idéias e opiniões.
Quando a mente investiga,
ela não se envolve com as suas próprias criações. Ela não é capaz de fazer as
duas coisas ao mesmo tempo. À medida que ela se tornar cada vez mais
observadora, ela permanecerá com objetividade por períodos de tempo mais
longos. É por isso que o Buda ensinou que a atenção plena é o único caminho
para a purificação dos seres. A observação clara e lúcida de todos os fenômenos
que surgem mostra que estes são apenas fenômenos manifestando-se como mente e
corpo, que estão em constante expansão e contração da mesma forma que o
universo. A menos que nos tornemos observadores muito diligentes, não veremos
esse aspecto da mente e corpo e não compreenderemos o Dhamma “aqui e agora,”
muito embora tenhamos sido convidados “para o exame.”
“Para
ser experimentado pelos sábios,
por eles mesmos.”
Ninguém é
capaz de compreender o Dhamma por outrem. Podemos salmodiar, ler, discutir e
ouvir, mas a menos que observemos tudo aquilo que surge, não compreenderemos o
Dhamma por nós mesmos. Existe apenas um lugar no qual o Dhamma pode ser
compreendido, no próprio coração e mente. Tem que ser uma experiência pessoal
que sucede através da observação constante de si mesmo. A meditação ajuda. A
não ser que a pessoa investigue as suas próprias reações e saiba porque deseja
uma coisa e rejeita outra, ela não terá visto o Dhamma. E assim a mente também
obterá uma clara percepção da impermanência, (anicca), porque os nossos
desejos e aversões estão mudando constantemente. Veremos que a mente que está
pensando e o corpo que está respirando são ambos dolorosos, (dukkha).
Quando a mente não opera
com uma consciência elevada, transcendente, ela cria sofrimento, (dukkha).
Somente uma mente ilimitada, iluminada, está livre disso. O corpo com certeza
produz dukkha de muitas formas devido à sua inabilidade de permanecer
estável. E a visão clara desse fato nos proporciona uma forte determinação de
compreender o Dhamma por nós mesmos.
A sabedoria surge do íntimo
e provém da compreensão daquilo que é experimentado. Nem o conhecimento, nem o
ouvir podem produzi-la. A sabedoria também significa maturidade, que não tem
nada a ver com a idade. Algumas vezes o envelhecimento pode ajudar, mas nem
sempre esse é o caso. A sabedoria é um conhecimento interior que cria a autoconfiança.
Não precisamos buscar a confirmação e a boa vontade de outrem, nós sabemos com
certeza.
Quando salmodiamos algo, é
essencial que saibamos o significado das palavras e investiguemos se elas
possuem alguma conexão conosco.
pamadamulako
lobho, lobho vivadamulako,
dasabyakarako lobho, lobho paramhi petiko,
tam lobham parijanantam vande'ham vitalobhakam
A cobiça é a raiz da negligência, a cobiça é a raiz das disputas,
A cobiça produz a escravidão e um futuro nascimento como fantasma;
Aquele que conheceu o fim da cobiça, eu honro Aquele que está liberto da
cobiça
vihaññamulako
doso, doso virupakarako.
vinasakarako doso, doso paramhi nerayo,
tam dosam parijanantam vande'ham vitadosakam
A raiva é a
raiz da turbulência, a causa da feiúra,
A raiva causa muita destruição e um futuro nascimento no inferno;
Aquele que conheceu o fim da raiva, eu honro Aquele que está liberto da raiva.
sabbaghamulako
moho, moho sabbitikarako,
sabbandhakarako moho, moho paramhi
svadiko tam moham parijanantam vande'ham vitamohakam
A
delusão é a raiz de todos os males, a delusão só cria problemas,
Toda cegueira vem da delusão, bem como um futuro nascimento como animal;
Aquele que conheceu o fim da delusão, eu honro Aquele que está liberto da
delusão.
O Buda
disse:
“Melhor
do que mil palavras insignificantes,
é uma palavra com significado,
ao ouví-la se obtém a paz.”
Dhp. 100
Se pudermos
praticar um verso do Dhamma, isso terá mais valor do que saber de cor todo o
livro de cânticos.
A origem e a cessação dos
fenômenos, que são os nossos mestres, nunca descansam. O Dhamma nos está sendo
ensinado constantemente. Enquanto estamos acordados, todos os nossos momentos são
professores do Dhamma, se assim nós os fizermos. O Dhamma é a verdade exposta
pelo Iluminado, que é a lei da natureza que nos cerca e que está arraigada
dentro de nós.
Certa vez o Buda disse:
“Ananda, é contando comigo como um bom amigo que os seres sujeitos ao
nascimento se libertam do nascimento." (SN
XLV.2).
Todos nós precisamos de um
bom amigo, que tenha abnegação suficiente, não somente provendo auxílio, mas também
chamando a atenção quando estivermos decaindo.Trilhar o caminho do Dhamma é
como caminhar na corda bamba. Ele segue numa linha reta e cada vez que alguém
escorrega, se machuca. Se sentirmos no íntimo uma sensação dolorosa, não
estaremos mais sobre a corda bamba do Dhamma. Nosso bom amigo, (kalyanamitta),
poderá então nos dizer: “Você se desviou em demasia para a direita ou para a
esquerda, (seja qual for o caso). Você não foi cuidadoso e por isso caiu em
depressão e no sofrimento. Eu chamarei sua atenção da próxima vez que você
estiver se desviando.” Só poderemos aceitar isso de alguém em quem tenhamos
confiança e segurança.
Uma pessoa pode ser
enganada pelas belas palavras ou aparência esplêndida de alguém. O caráter de
uma pessoa se revela não somente através de palavras, mas nas pequenas
atividades do dia a dia. Um dos importantes indicadores do caráter de uma
pessoa é como ela reage quando as coisas vão mal. É fácil ser amoroso,
auxiliador e amigo quando tudo está indo bem, mas quando surgem as dificuldades
a nossa tolerância e paciência são postas à prova, bem como a nossa
equanimidade e determinação. Quanto menos autocentrada for a
pessoa, mais fácil será para ela lidar com todas as situações.
No início, caminhar sobre a
corda bamba do Dhamma poderá ser desconfortável. A pessoa não está habituada a
manter o próprio equilíbrio, e ao invés disso ela se deixa influenciar por
tudo, indo em todas as direções, onde quer que seja mais confortável. A pessoa
poderá se sentir limitada e coagida, sem permissão para viver de acordo com os
seus instintos naturais. E além disso, para caminhar sobre a corda bamba a
pessoa tem que se controlar de várias formas por meio da atenção plena. Essas
restrições podem no início ser irritantes, como grilhões ou amarras, mas mais
tarde elas se tornarão os fatores libertadores.
Para possuir essa jóia
perfeita do Dhamma nos nossos corações, precisamos estar despertos e
conscientes. Então poderemos provar por nós mesmos que “o Dhamma do Abençoado é
exposto com perfeição.” Não existe nenhuma outra jóia no mundo que se iguale ao
valor do Dhamma. Cada um de nós pode se tornar o dono dessa jóia preciosa.
Podemos nos considerar como os mais afortunados por ter essa oportunidade.
Quando despertarmos pela manhã, que este seja o nosso primeiro pensamento: “Que
boa fortuna tenho em poder praticar o Dhamma.”
É um fenômeno estranho a
dificuldade que as pessoas têm de amar a si mesmas. Alguém pensaria que é a
coisa mais fácil do mundo porque estamos constantemente preocupados conosco.
Estamos sempre interessados em quanto podemos ganhar, quão bem poderemos
desempenhar algo, quão confortável algo pode ser. O Buda mencionou num discurso
que “Ele não encontra em nenhum lugar alguém mais querido do que ele mesmo.” Então,
com base nisso, porque na verdade é tão difícil amar a si mesmo?
Amar a si mesmo com certeza
não significa se entregar ao desejo. Amar de verdade é uma atitude em relação a
si próprio, que a maioria das pessoas não possui, porque elas conhecem uma quantidade
razoável de coisas sobre si mesmas que não são atraentes. Todas as pessoas têm
inúmeras atitudes, reações, gostos e desgostos sem os quais elas estariam em
melhor situação. Uma opinião é formada a respeito das atitudes de alguém e
enquanto as positivas são apreciadas, as outras causam antipatia. Com base
nisso, surge a supressão daqueles aspectos de si mesmo com os quais não existe
satisfação. A pessoa não quer saber deles e também não os reconhece. Essa é uma
das formas de lidar consigo mesmo, que é prejudicial ao crescimento.
Um outro jeito inábil é
desgostar daquela parte de si mesmo que se mostra negativa e cada vez que ela
surge a pessoa critica a si mesma, o que faz com que a situação fique ainda pior do que antes. Com isso, surge o medo
e com freqüência a agressão. Se alguém quiser lidar consigo mesmo de uma forma
equilibrada, não traz nenhum benefício fazer de conta que a parte desagradável
não existe, aquelas tendências agressivas, irritantes, sensuais e presunçosas,
fazendo de conta que está distante da realidade, colocando uma fenda dentro de
si. Muito embora uma pessoa assim possa estar mentalmente sã, a impressão que
ela transmite é de não ser totalmente verdadeira. Todos nós já topamos com
pessoas assim, que são demasiado doces para serem verdadeiras, como resultado
da fantasia e da supressão.
Criticar a si mesmo também
não funciona. Em ambos os exemplos a pessoa transfere as suas próprias reações
para outras pessoas. A pessoa critica os outros por suas deficiências, reais ou
imaginárias, ou a pessoa não os vê como seres humanos comuns. Todos vivemos num
mundo irreal, devido à delusão do ego, mas neste caso é particularmente irreal,
porque tudo é considerado ou como perfeitamente maravilhoso, ou como
absolutamente terrível.
A única coisa real é que
temos dentro de nós seis raízes. Três raízes benéficas, (hábeis), e três raízes
prejudiciais, (inábeis). As últimas três são a cobiça, a raiva e a delusão, mas
nós também possuímos os seus opostos: generosidade, amor bondade e sabedoria.
Desenvolva o interesse por este assunto. Se você fizer uma investigação a
respeito disto e não ficar ansioso, então poderá com facilidade aceitar as seis
raízes em todas as pessoas, sem nenhuma dificuldade, desde que você tenha visto
essas raízes em si mesmo. São raízes
subjacentes ao comportamento de todos. Só então poderemos olhar para nós mesmos
de uma forma um pouco mais realista, isto é, sem nos criticarmos devido às
raízes inábeis, nem nos elogiarmos devido às raízes hábeis, ao invés disso,
aceitar a existência delas dentro de
nós. Poderemos também aceitar os outros com uma visão mais clara e ter uma
maior facilidade nos nossos relacionamentos.
Não sofreremos devido aos
desapontamentos e não faremos críticas, porque não viveremos num mundo onde só
exista o branco ou o negro, ou as três raízes daquilo que é inábil, ou os seus
opostos. Tal mundo não existe em lugar nenhum e a única pessoa que é assim é um
Arahant. Para as demais pessoas é em grande parte uma questão de grau.
Os graus de benéfico e prejudicial são ajustados com tamanha precisão,
existindo muito pouca diferença de graduação em cada um de nós, de forma que
isso acaba por não ter importância. Todos possuem a mesma tarefa, cultivar as
tendências hábeis e extirpar as tendências inábeis.
Aparentemente somos todos
muito distintos. Isso também é uma ilusão. Todos enfrentamos os mesmos
problemas e também possuímos as mesmas faculdades para lidar com eles. A única
diferença é o tempo de treinamento que tenhamos tido. Um treinamento que tenha
ocorrido ao longo de muitas vidas terá resultado em um pouco mais de lucidez,
isso é tudo.
A lucidez do pensamento
provém da purificação das próprias emoções, que é uma tarefa difícil que
precisa ser feita. Mas ela só será realizada com êxito quando não for uma comoção
emocional, mas um trabalho claro e honesto que a pessoa realiza consigo mesmo.
Quando for considerado como nada mais do que isso, o tormento será eliminado. A
imputação “Eu sou tão maravilhoso” ou “Eu sou terrível” será neutralizada. Nós
não somos nem maravilhosos, nem terríveis. Todos somos seres humanos com todo o
potencial e todas as obstruções. Se alguém puder amar este ser humano, que é
este “eu” com todas as suas faculdades e tendências, então poderá amar aos
outros de forma realista, benéfica e auxiliadora. Mas se alguém fizer uma pausa
no meio e amar aquela parte que seja agradável e tiver antipatia por aquela
parte que não é muito agradável, ele nunca irá se confrontar honestamente com a
realidade. Algum dia ele terá que vê-la, tal como ela é. Essa é uma “área de
trabalho,” uma kammatthana. É um assunto simples e interessante que diz
respeito ao coração de cada um.
Se olharmos para nós mesmos
dessa maneira, aprenderemos a nos amar de uma forma benéfica. “Tal qual uma
mãe, colocando em risco a própria vida, ama e protege o seu filho, o seu único
filho…” Torne-se a sua própria mãe! Se quisermos ter um relacionamento conosco
que seja realista e que conduza ao crescimento, então precisamos nos tornar
nossa própria mãe. Uma mãe sensata sabe distinguir entre aquilo que é benéfico
para o seu filho e aquilo que é prejudicial. Mas ela não deixa de amar o seu
filho quando ele se comporta de modo prejudicial. Esse pode ser o aspecto mais
importante a ser observado em nós mesmos. Todos nós, em uma ocasião ou outra,
nos comportamos de modo prejudicial com o pensamento ou com a linguagem, ou com
a ação. Mais freqüentemente com o pensamento, com freqüência razoável com a
linguagem e não tão freqüentemente com a ação. Então o que fazer com relação a
isso? O que uma mãe faria? Ela diria ao seu filho para não fazer mais aquilo,
continuaria amando a criança tanto quanto sempre amou e daria seguimento à
tarefa de criar o seu filho. Talvez possamos começar a criar a nós mesmos.
A totalidade deste
treinamento é uma questão de amadurecimento. Amadurecer é sabedoria, que
infelizmente não está ligada à idade. Se estivesse, seria muito fácil. A pessoa
teria uma certeza. Como não existe isso, a tarefa é árdua, um trabalho a ser
feito. Primeiro vem o reconhecimento,
depois aprender a não condenar, mas compreender: “Assim é como são as coisas.”
O terceiro passo é a mudança. O reconhecimento pode ser a parte mais difícil
para a maioria das pessoas, não é fácil ver aquilo que ocorre no nosso
interior. Essa é a parte mais importante e o aspecto mais interessante da
contemplação.
Levamos uma vida
contemplativa, mas isso não significa sentarmos em meditação durante o dia
todo. Uma vida contemplativa significa que a pessoa considera cada aspecto
daquilo que ocorre como parte do aprendizado. A pessoa permanece introspectiva
em todas as circunstâncias. Quando a pessoa se torna extrovertida, com aquilo
que o Buda chamava de “exuberância da juventude,” a pessoa se dirige ao mundo
com os próprios pensamentos, linguagem e ação. A pessoa precisa controlar-se e
regressar para o seu íntimo. Uma vida contemplativa em algumas ordens
religiosas é uma vida de orações. No nosso caminho é uma combinação de
meditação e estilo de vida. A vida contemplativa prossegue no nosso íntimo. A
pessoa pode realizar a mesma tarefa com ou sem a recordação disso. A
contemplação é o aspecto mais importante da introspecção. Não é necessário
ficar sentado durante o dia todo observando a própria respiração. Cada
movimento, cada pensamento, cada palavra pode fazer surgir a compreensão de si
mesmo.
Este tipo de trabalho
consigo mesmo irá resultar numa profunda segurança interna, que estará
enraizada na realidade. A maioria das pessoas deseja e anseia por esse tipo de
segurança, mas não é nem mesmo capaz de expressar o seu desejo. Vivendo num
mito, desejando ou temendo constantemente, é o oposto de ter força interior. A
sensação de segurança surge quando a pessoa vê a realidade dentro de si mesma,
e por causa disso, a realidade em todos os demais, passando a aceitá-la.
Aceitemos o fato de que o
Buda conhecia a verdade ao afirmar que todos possuímos sete tendências latentes
ou obsessões: desejo sensual, má vontade, idéias especulativas, dúvida,
presunção, desejo por ser/existir, ignorância. Encontre-as em você mesmo.
Sorria para elas, não desate a chorar por causa delas. Sorria e diga: “Bem, aí
estão. Vou tomar uma atitude em relação a vocês.”
A vida contemplativa é
vivida com freqüência de forma opressiva. Uma certa falta de alegria pode ser
compensada pela extroversão. Mas isso não funciona. A pessoa deveria cultivar
um certo contentamento, mas manter-se introspectivo. Não há nada com o que se
preocupar ou temer, nada que seja tão difícil. Dhamma significa a lei da
natureza e essa lei está manifestada em nós todo o tempo. De que devemos
escapar? Não podemos fugir da lei da natureza. Onde quer que estejamos, somos o
Dhamma, somos impermanentes, (anicca), insatisfeitos, (dukkha),
sem uma essência,(anatta). Não importa se estamos sentados aqui ou na
lua. É sempre a mesma coisa. Então precisamos ter uma abordagem serena em
relação às nossas próprias dificuldades e às dos demais, mas sem exuberância e
efusão. Preferivelmente, uma constante introspecção que contenha um tanto de
alegria. Isso é o mais eficaz. Se alguém tiver senso de humor em relação a si
mesmo, será mais fácil amar a si mesmo de forma apropriada. Também será muito
mais fácil amar a todos os demais.
Havia um programa na
televisão americana chamado “As Pessoas são Engraçadas.” Nós realmente temos as
mais estranhas reações que ao serem observadas e analisadas muitas vezes
parecem absurdas. Nós temos desejos e anseios bem estranhos e imagens irreais
de nós mesmos. É bem verdade que “as pessoas são engraçadas,” então porque não
ver esse lado em nós mesmos? Isso facilita aceitar aquilo que nos parece ser
tão inaceitável em nós mesmos e nos outros.
Existe um aspecto da
existência humana que não podemos mudar, isto é, que continua ocorrendo a cada
momento. Nós já estamos meditando aqui faz algum tempo. O mundo se preocupa com
isso? Ele continua o seu caminho. O único que se importa, que fica perturbado,
é o nosso próprio coração e mente. Quando há perturbação, agitação, irrealismo
e absurdidade, então existe também a infelicidade. Isso é na verdade
desnecessário. Tudo apenas é. Se aprendermos a abordar todas as ocorrências com
mais equanimidade, com aceitação, então a tarefa de purificação será muito mais
fácil. Essa é a nossa tarefa, nossa própria purificação, e só pode ser
realizada por nós mesmos.
Um dos melhores aspectos com
respeito a isso é que se alguém tiver atenção naquilo que estiver fazendo, se
insistir nisso dia após dia sem esquecimento e continuar meditando sem esperar
grandes resultados, pouco a pouco eles surgirão. Isso, também, é assim. Enquanto o empenho nessa tarefa persistir,
ocorrerá um constante desgaste das impurezas e dos pensamentos irreais, pois
não existe felicidade neles e poucos vão querer ficar agarrados à infelicidade.
Finalmente, a pessoa esgota aquelas coisas por fazer que estão fora de si mesma.
Os livros, dizem todos as mesmas coisas, as cartas, foram todas escritas, as
flores, foram todas aguadas, não resta mais nada por fazer, exceto olhar para
dentro de si. E com a freqüente repetição disso, uma mudança ocorre. Ela poderá
ser lenta, mas já que estivemos aqui por tantas vidas, o que é um dia, um mês,
um ano, dez anos? Eles estão todos transcorrendo, de qualquer maneira.
Não há mais nada por fazer
e nenhum outro lugar para ir. A terra se move num círculo, a vida se move do
nascimento para a morte sem que tenhamos, sequer, que nos mover. Tudo acontece
sem a nossa interferência. A única coisa que precisamos fazer é estar
conectados com a realidade. E quando fizermos isso, descobriremos que
amar-nos e amar os outros é uma
conseqüência natural; porque estamos interessados na realidade e essa é a
verdadeira tarefa do coração – amar. Mas só se também tivermos visto o outro
lado da moeda em nós mesmos, e se tivermos feito o trabalho de purificação.
Neste caso, não será mais um esforço ou um empreendimento deliberado, mas se
tornará uma função natural dos nossos sentimentos mais íntimos, dirigido para
dentro, mas luminoso no exterior.
A direção para dentro é um
aspecto importante da nossa vida contemplativa. Qualquer coisa que ocorra no
nosso íntimo tem repercussões diretas naquilo que ocorre no exterior. A
luminosidade e pureza interior não podem ser disfarçadas, nem as impurezas.
Algumas vezes pensamos que
podemos representar algo que não somos. Isso não é possível. O Buda disse que
apenas conhecemos uma pessoa depois de tê-la ouvido falar muitas vezes e de ter
vivido com ela durante muito tempo. As pessoas em geral tentam vender uma
imagem melhor do que aquilo que elas na verdade são. Assim, é claro, elas ficam
desapontadas consigo mesmas ao fracassarem e igualmente desapontadas com os
outros. Conhecer a si mesmo de forma realista possibilita o amor verdadeiro.
Esse tipo de emoção proporciona o contentamento necessário para esta tarefa na
qual estamos engajados. Ao aceitarmos a nós mesmos como na verdade somos e aos
outros, nossa tarefa de purificação, de ir desgastando as impurezas, será muito
mais fácil.
III. Para Controlar a
própria Mente
Nosso velho amigo dukkha
surge na mente como insatisfação causada por todos os tipos de estímulos. Pode ser disparado
pelo desconforto corporal, mas mais freqüentemente é causado pelas próprias
aberrações e convulsões da mente. A mente cria dukkha e é por isso que
realmente precisamos vigiar e cuidar das nossas mentes.
A nossa própria mente pode
fazer com que sejamos felizes, a nossa própria mente pode fazer com que sejamos
infelizes. Não existe nenhuma pessoa ou coisa em todo o mundo que possa fazer
isso por nós. Todas as ocorrências funcionam para nós como estímulos que
constantemente nos pegam de surpresa. Por conseguinte, precisamos desenvolver
uma atenção intensa em relação aos nossos momentos mentais.
Temos uma boa oportunidade
de fazer isso na meditação. Pode haver duas orientações na meditação,
tranqüilidade, (samatha), e insight, (vipassana). Se pudermos
alcançar um certo nível de tranqüilidade é uma indicação de que a concentração
está melhorando. Mas a não ser que essa habilidade valiosa seja empregada para
o insight, será uma perda de tempo. Se a mente se tranqüiliza, freqüentemente
surge a felicidade, mas precisamos observar o quão passageira e impermanente é
essa felicidade, e como até mesmo o êxtase é em essência apenas uma condição
que pode ser perdida com facilidade. Apenas o insight é irreversível. Quanto
mais firme a tranqüilidade estiver estabelecida, melhor será a resistência às
perturbações. No início, qualquer ruído, desconforto ou pensamento irá
interrompê-la. Especialmente se a mente não esteve num estado de calma durante
o dia.
A impermanência, (anicca),
precisa ser vista com clareza em tudo aquilo que acontece, quer seja na
meditação ou fora dela. O fato da constante mudança deve e precisa ser usado
para a obtenção do insight da realidade. A atenção plena é o núcleo da
meditação Budista e o insight é o seu objetivo. Nós despendemos nosso tempo de
formas variadas e uma parte dele em meditação, mas todo o nosso tempo pode ser
empregado para obter algum insight das nossas próprias mentes. É ali que todo o
mundo está acontecendo para nós. Nada, exceto aquilo que estejamos pensando,
existe para nós.
Quanto mais observarmos a
nossa mente e virmos o que ela faz por nós e para nós, mais estaremos
inclinados a cuidar bem dela e tratá-la com respeito. Um dos maiores erros que
podemos cometer é não nos darmos conta da importância da mente. A mente tem a
capacidade de criar para nós o bem e também o mal, e apenas quando formos
capazes de permanecer felizes e equânimes não importando que condições estejam
surgindo, somente então poderemos dizer que temos um pouco de controle. Até que
isso ocorra, estaremos descontrolados e os nossos pensamentos é que estarão no
controle.
“Qualquer
dano que um inimigo faça a um inimigo,
ou aquele que odeia ao odiado,
a mente direcionada de forma inábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior dano.
Aquilo que nem uma mãe,
tampouco um pai,
nem qualquer outro ente querido pode fazer,
a mente direcionada de forma hábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior benefício.”
Dhp. 42, 43
Acima, as
palavras do Buda mostram com clareza que não existe nada mais valioso do que uma
mente controlada e direcionada de forma hábil. A domesticação da própria mente
não ocorre apenas na meditação, esse é apenas um treinamento específico. Pode
ser comparado com o aprender a jogar tênis. A pessoa treina com um instrutor,
repetidamente, até que tenha desenvolvido equilíbrio e aptidão e possa na
prática jogar numa competição de tênis. A nossa competição para domesticar a
mente ocorre na vida diária, em todas as situações com as quais nos deparemos.
O maior apoio que podemos
ter é a atenção plena, que significa estar totalmente presente em cada momento.
Se a mente permanecer centrada ela não poderá criar histórias acerca da
injustiça do mundo ou dos amigos, ou acerca dos próprios desejos, ou das
próprias lamentações. Todas essas histórias fabricadas pela mente caberiam em
muitos tomos, mas quando estamos plenamente atentos essas verbalizações se
acabam. “Atenção Plena” é estar totalmente absorto no momento, não deixando
espaço para nada mais. Estaremos preenchidos com os acontecimentos momentâneos,
quer estejamos em pé ou sentados ou deitados, confortáveis ou desconfortáveis,
sentindo prazer ou desprazer. O que quer que seja, estaremos com a consciência
isenta de críticas, “apenas percebendo,” sem julgamento.
A plena consciência induz o
julgamento. Compreendemos o propósito do nosso pensamento, palavra ou ação, se
estamos empregando meios hábeis ou não, e se na verdade alcançamos o resultado
necessário. É necessário ter uma certa distância de si mesmo para poder julgar
com isenção. Se estivermos totalmente envolvidos é muito difícil ter uma
perspectiva objetiva. A atenção plena combinada com a plena consciência
proporcionam a necessária distância, objetividade e desapego.
Qualquer dukkha que
tenhamos, pequeno, médio ou grande, contínuo ou intermitente, tudo isso é
criado pela própria mente. Nós somos os criadores de tudo aquilo que nos
ocorre, formando nosso próprio destino, ninguém mais está envolvido. Cada um
está desempenhando o seu próprio papel, é um acaso que estejamos próximos de
algumas pessoas e distantes em outras ocasiões. Mas tudo aquilo que fizermos,
tudo é feito pelos nossos momentos mentais.
Quanto mais observarmos os
nossos pensamentos durante a meditação, mais insight poderá surgir, se houver
um entendimento objetivo daquilo que estiver ocorrendo. Quando observamos os
momentos mentais surgirem, permanecerem e cessarem, o distanciamento do nosso
processo pensante irá ocorrer, o que resulta em desapego. Os pensamentos surgem
e desaparecem a todo momento, como a respiração. Se nos agarrarmos a eles e
tentarmos possuí-los, aí é quando todos os problemas têm início. Queremos
possuí-los e realmente fazer algo com eles, especialmente se forem negativos, o
que com certeza irá criar dukkha.
Vale a pena lembrar a
fórmula do Buda para o esforço correto: “Não permitir que um pensamento
prejudicial/inábil, que ainda não tenha surgido, surja. Não manter um
pensamento prejudicial/inábil que já tenha surgido. Estimular um pensamento
benéfico/hábil que ainda não tenha surgido. Manter um pensamento benéfico/hábil
que já tenha surgido.”
Quanto mais rápido pudermos
nos tornar proficientes no esforço correto, melhor. Isso faz parte do
treinamento ao qual nos submetemos durante a meditação. Quando tivermos
aprendido a abandonar com rapidez qualquer coisa que esteja surgindo na
meditação, poderemos fazer o mesmo com os pensamentos prejudiciais na vida
diária. Durante a meditação estamos vigilantes em relação aos pensamentos
prejudiciais, podemos usar essa mesma habilidade para proteger as nossas mentes
em todas as situações. Quanto mais aprendermos a fechar a porta da mente a tudo
aquilo de negativo que perturba a nossa paz interior, mais fácil será a nossa
vida. Paz mental não é indiferença. Uma mente em paz é uma mente compassiva.
Reconhecer e abandonar não é supressão.
Dukkha é criado por nós mesmos e
perpetuado por nós mesmos. Se formos sinceros no nosso desejo de eliminá-lo,
temos de observar a mente com cuidado, para obter o insight daquilo que
realmente está ocorrendo no nosso íntimo. O que nos está estimulando? Existem
inúmeros estímulos, mas existem apenas duas reações. Uma é a equanimidade e a
outra é o desejo.
Podemos aprender com tudo.
Hoje muitos anagarikas tiveram que esperar muito tempo na fila do caixa
no banco, o que foi um exercício de paciência. Se o exercício foi bem sucedido
ou não, não importa tanto quanto o fato de que foi uma oportunidade para o
aprendizado. Tudo aquilo que fazemos é um exercício, esse é o nosso propósito
como seres humanos. É a única razão de estarmos aqui, isto é, usar o tempo
neste nosso pequeno planeta para aprender e crescer. Pode ser chamado de sala
de aula para a educação de adultos. Qualquer outra coisa que pensemos como
sendo o propósito da vida é um entendimento incorreto.
Aqui somos apenas
convidados, desempenhando um papel limitado aos convidados. Se usarmos o nosso
tempo para obter o insight de nós mesmos, utilizando os nossos gostos e
desgostos, nossas resistências, nossas rejeições, nossas preocupações, nossos
medos, então estaremos passando por esta vida com o melhor benefício. É uma
grande habilidade viver dessa forma. O Buda chamava isso de “urgência”, (samvega),
a percepção de que temos de trabalhar com nós mesmos agora sem deixar isso para
um futuro indeterminado, quando poderemos ter mais tempo disponível. Tudo pode
ser uma oportunidade de aprendizado e agora é o momento correto.
Ao encontrarmos o nosso
velho amigo dukkha, perguntaremos: “De onde você vem?” Ao obtermos uma
resposta deveríamos perguntar outra vez, indo cada vez mais fundo no tema.
Existe apenas uma resposta verdadeira, mas nós não a obteremos de imediato.
Precisamos vasculhar várias respostas até que cheguemos ao fundo do poço, que é
o “ego.” Quando tivermos chegado nele, saberemos que chegamos ao fim das
perguntas e ao início do insight. Poderemos então tentar investigar como o ego
produziu novamente dukkha. Como isso ocorreu, qual foi a reação? Ao
vermos a causa, é possível que
abandonemos aquele entendimento incorreto em particular. Tendo visto
causa e efeito por nós mesmos, nunca mais esqueceremos isso. De gota em gota se
enche um balde, pouco a pouco nos purificamos. Cada momento vale a pena.
Quanto mais experimentarmos
cada momento como digno do nosso esforço, tempo e interesse, mais energia
haverá. Não existirão momentos inúteis, cada momento será importante, se for
usado com habilidade. Uma energia incrível surgirá a partir disso, porque tudo
se soma numa vida que é vivida da melhor maneira possível.
Ser feliz também significa
estar em paz, mas quase sempre as pessoas não querem realmente dirigir a sua
atenção para isso. Existe uma conotação de “não interessante” em relação a
isso, ou “nada acontecendo.” É óbvio que não haveria proliferações mentais, (papañca),
ou excitação. A paz é considerada como a perfeição neste mundo, sob a
perspectiva política, social e pessoal.
No entanto, é muito difícil
encontrar a paz em qualquer lugar que seja. Uma das razões para isso deve ser,
não só porque é difícil de ser alcançada, mas também por que muito poucas
pessoas se empenham em tal realização. É como se isso fosse uma negação da
vida, da supremacia de cada um. Só aqueles que se dedicam a uma prática
espiritual estariam preocupados em dirigir as suas mentes para a paz.
Uma tendência natural é
cultivar a própria superioridade, o que com freqüência conduz ao outro extremo,
a própria inferioridade. Quando se tem em mente a própria superioridade é
impossível encontrar a paz. A única coisa
que pode ser encontrada é um jogo de poder, “O que quer que você faça, eu farei
melhor.” Ou, em certas ocasiões, quando é evidente que esse não é o caso, então
“o que quer que você faça, eu não posso fazer tão bem.” Na nossa vida, existem
momentos em que temos de aceitar a verdade, quando vemos com clareza que não
podemos fazer tudo tão bem quanto a pessoa que está ao lado, quer seja varrer o
chão ou escrever um livro.
Esse tipo de atitude, que é
bastante comum, é o oposto da paz. Uma exibição das próprias habilidades, ou
ausência delas, irá produzir inquietação ao invés de paz. Existe sempre a busca, o desejo por um
resultado sob a forma de reconhecimento pelas outras pessoas da nossa
superioridade ou a negação desta. Quando ela é negada, surge o conflito. Ao
admiti-la, é a vitória.
A vitória em relação a
outras pessoas tem como causa subjacente uma batalha. Na guerra nunca há um
vencedor, apenas perdedores. Não importa quem assine primeiro o armistício,
ambos os lados perdem. O mesmo se aplica a este tipo de atitude. Existem apenas
perdedores, muito embora um deles possa obter uma vitória momentânea, tendo
sido aceito como aquele que sabe mais, ou como o mais forte ou o mais esperto.
As batalhas e a paz não combinam.
Por fim nos perguntamos,
alguém na verdade deseja a paz? Ninguém parece tê-la. Existe alguém realmente
se esforçando para consegui-la? As pessoas conseguem na vida aquilo que buscam
com forte determinação. É importante investigar no íntimo do nosso coração se a
paz é realmente aquilo que queremos. A investigação do próprio coração é algo
difícil de ser feito. A maioria das pessoas possui uma porta de aço grossa
fechando a porta do seu coração. Elas são incapazes de entrar para descobrir o
que ocorre ali dentro. Mas, tanto quanto possível, todos precisam tentar entrar
e descobrir quais são as suas próprias prioridades.
Nos momentos de extrema
agitação ou confusão, quando a pessoa não está obtendo a supremacia desejada,
ou ela se sente realmente inferior,
então tudo aquilo que ela deseja é a paz. Que tudo se aplaque outra vez, e que
nem a superioridade nem a inferioridade sejam muito distinguíveis, mas então o
que acontece? É realmente a paz que se quer? Ou o que se quer é ser alguém
especial, alguém importante ou cativante?
Um “alguém” nunca terá paz.
Existe um símile interessante sobre uma mangueira: um rei estava cavalgando
pela floresta quando se deparou com uma mangueira carregada de frutos. Ele
disse aos seus serviçais: “Venham ao anoitecer e colham as mangas,” porque ele
queria as frutas para a ceia real. Os serviçais regressaram para a floresta e
voltaram ao palácio com as mãos vazias dizendo ao rei: “Desculpe-nos senhor,
todas as mangas se foram, não havia nenhuma manga na mangueira.” O rei pensou
que os serviçais tinham tido preguiça de ir até a floresta e assim ele mesmo
foi até lá. O que ele viu, ao invés da bela mangueira carregada de frutas, foi
uma árvore patética, dilapidada, que havia sido agredida e despojada das suas
frutas e folhas. Alguém, incapaz de alcançar todos os galhos, quebrou-os e
levou todas as frutas. Assim que o rei caminhou um pouco mais, ele encontrou
uma outra mangueira, bela no seu esplendor verdejante, mas sem nenhuma fruta.
Ninguém teve interesse de se aproximar dela, já que não havia frutos, e assim
ela foi deixada em paz. O rei voltou ao palácio, deu a coroa real e o cetro
para os seus ministros e disse: “O reino agora é de vocês, eu irei viver numa
cabana na floresta.”
Sendo ninguém e possuindo
nada, não há perigo de conflitos ou ataques, então existe paz. A mangueira
carregada de frutas não teve um momento de paz sequer: todos queriam os seus
frutos. Se realmente desejamos a paz, temos que ser ninguém. Nem importante,
nem esperto, nem belo, nem famoso, nem certo, nem no comando de nada.
Precisamos ser discretos e com tão poucos atributos quanto possível. A
mangueira sem frutos estava em paz em todo o seu esplendor e proporcionando
sombra. Ser ninguém não significa nunca fazer mais nada. Significa apenas agir
sem autopromoção e sem ambicionar resultados. A mangueira tinha sombra para
dar, mas ela não exibia os seus atributos ou se preocupava se alguém queria a
sua sombra ou não. Esse tipo de habilidade possibilita a paz interior. É uma
habilidade rara, porque a maioria das pessoas vacila de um extremo ao outro,
quer seja sem fazer nada e pensando, “vamos ver como eles se ajeitam sem mim”
ou assumindo o controle e projetando as suas idéias e opiniões.
Ser “alguém” parece estar
muito mais enraizado dentro de nós e ser muito mais importante do que ter paz. Então precisamos investigar
com muito cuidado o que estamos buscando na verdade. O que é que queremos da
vida? Se queremos ser importantes, queridos, amados, então também temos que
tomar em conta os seus opostos. Cada positivo traz consigo um negativo, tal como
o sol que cria as sombras. Se quisermos um, temos que aceitar o outro sem nos
queixarmos disso.
Mas se realmente quisermos
um coração e mente pacíficos, segurança e solidez internas, então temos que
desistir de ser alguém, qualquer um que seja. O corpo e a mente não
desaparecerão devido a isso, o que desaparece é a compulsão, a busca e a
afirmação da importância e da supremacia desta pessoa em particular, chamada
“eu.”
Cada ser humano se
considera importante. Existem bilhões de pessoas neste planeta, quantas irão se
enlutar por nós? Conte-os por um momento. Seis ou oito, doze ou quinze, de
todos esses bilhões? Essa ponderação pode nos mostrar que temos uma idéia muito
exagerada da nossa própria importância. Quanto mais considerarmos isso de forma
apropriada, mais fácil será a vida.
Querer ser alguém é
perigoso. É como brincar com o fogo em que se coloca as mãos a todo instante,
machucando o tempo todo. Ninguém irá jogar esse jogo de acordo com as nossas
próprias regras. As pessoas que realmente conseguem ser alguém, como por
exemplo os chefes de estado, invariavelmente precisam estar cercadas de fortes
guarda-costas porque as suas vidas estão sempre ameaçadas. Ninguém gosta de
admitir que outra pessoa é mais importante. Um dos maiores obstáculos à paz de espírito
é o “alguém” que nós mesmos criamos.
No mundo em que vivemos,
podemos encontrar pessoas, animais, a natureza e objetos feitos pelo homem.
Dentro de tudo isso, se quisermos ter controle sobre alguma coisa, a única
coisa sobre a qual poderemos exercer alguma influência é o nosso próprio
coração e mente. Se realmente quisermos ser alguém, poderíamos tentar ser
aquela pessoa rara, aquela que tem controle sobre o seu próprio coração e
mente. Ser alguém assim não somente é muito raro, mas também traz consigo os
mais benéficos resultados. Esse tipo de pessoa não cai na armadilha das
impurezas. Embora as impurezas não estejam ainda desenraizadas, ela não irá
cometer o erro de exibi-las e envolver-se com elas.
Há uma história sobre Ajaan
Chah, um famoso mestre de meditação da região do Nordeste da Tailândia. Ele foi
acusado de ter muita raiva. Ao que Ajaan Chah respondia: “Isso pode ser
verdade, mas eu não faço uso dela.” Uma resposta como essa provém de um
profundo entendimento da própria natureza, é por isso que uma resposta dessas
nos impressiona tanto. É uma pessoa rara aquela que não permite ser contaminada
por um pensamento, palavra ou ação. Essa pessoa é realmente alguém, e não
precisa provar isso para ninguém mais, principalmente por isso ser bem óbvio.
Em todo caso, esse tipo de pessoa não tem o desejo de provar nada. Existe
apenas uma aspiração permanente, que é a própria paz de espírito.
Quando temos como
prioridade a paz de espírito, tudo aquilo que vier à mente e que se manifestar
como linguagem ou ação será direcionado para isso. Qualquer coisa que não crie
a paz de espírito será descartada, no entanto não devemos confundir isso com
estar sempre certo ou ter a última palavra. Os outros não precisam estar de
acordo. A paz de espírito pertence a cada um e cada um tem que encontrá-la
através dos seus próprios esforços.
Guerra e paz são a saga
épica da humanidade. Elas representam tudo que os nossos livros de história
contêm porque são aquilo que está contido nos nossos corações.
Se você alguma vez leu Dom
Quixote, irá se lembrar que ele lutava contra moinhos de vento. Todos
estamos fazendo exatamente o mesmo, lutando contra moinhos de vento. Dom
Quixote, que foi a invenção da imaginação de um escritor, era um homem que
acreditava ser um grande guerreiro. Ele pensava que cada moinho de vento que
encontrava era um inimigo e começava a guerrear contra ele. É exatamente isso
que fazemos no íntimo dos nossos próprios corações e é por essa razão que essa
história tem um apelo imortal. É uma história sobre nós mesmos. Escritores e
poetas que sobreviveram além da sua própria era, sempre relataram aos seres
humanos histórias sobre eles mesmos. A maioria das pessoas não querem ouvir
porque não ajuda nada quando outras pessoas nos dizem o que existe de errado
conosco, e pouquíssimos se dão ao trabalho de ouvir. Cada um tem que descobrir
por si mesmo e a maioria das pessoas não quer fazer isso tampouco.
O que realmente significa
guerrear contra moinhos de vento? Significa lutar contra tudo que não seja
importante ou real, ou seja, só inimigos e batalhas imaginárias. Temas bem
insignificantes que convertemos em algo sólido e formidável nas nossas mentes.
Podemos dizer: “Eu não posso tolerar isso” e assim começamos a lutar, ou “Eu
não gosto dele” e uma batalha se desencadeia, ou “Eu me sinto tão infeliz” e a
guerra interior irrompe com furiosidade. Nós nem sabemos direito porque estamos
tão infelizes. O tempo, a comida, as pessoas, o trabalho, o lazer, o país,
qualquer coisa em geral serve como razão. Porque isso acontece conosco? Por
que resistimos à idéia de soltarmo-nos
verdadeiramente das coisas e tornarmo-nos aquilo que realmente somos, isto é,
nada. Ninguém quer ser nada.
Todos querem ser alguma
coisa ou alguém, mesmo que seja apenas um Dom Quixote lutando contra moinhos de
vento.Ou ainda, alguém que sabe e age, e que irá se tornar alguma outra coisa, alguém que possui certos
atributos, concepções, opiniões e idéias. Mesmo as idéias claramente
equivocadas são agarradas com firmeza, porque elas fazem com que o “eu” tenha
mais solidez. Parece negativo e depressivo ser ninguém e não ter nada. Temos
que descobrir por nós mesmos que essa é a sensação mais regozijadora e
libertadora que podemos ter. Mas porque tememos que moinhos de vento possam nos
atacar, não nos queremos soltar das nossas idéias.
Porque não podemos ter paz
no mundo? Porque ninguém quer se desarmar. Nenhum país quer assinar um acordo
de desarmamento, o que todos nós lamentamos. Mas alguma vez olhamos para ver se
nós mesmos na verdade nos desarmamos? Se nós mesmos não fizemos isso, porque
nos surpreendermos com o fato de que ninguém mais está preparado para fazer
isso também? Ninguém quer ser o primeiro
a não ter armas; os outros poderão vencer. Isso realmente importa? Se não
houver ninguém que possa ser conquistado? Como pode existir uma vitória sobre
ninguém? Deixe que aqueles que lutam vençam todas as guerras, tudo que importa
é ter paz no próprio coração. Enquanto resistirmos e rejeitarmos e continuarmos
a buscar todo tipo de desculpas racionais para continuar a agir dessa forma,
haverá guerras.
A guerra se manifesta no
exterior através da violência, agressão e morte. Mas como ela se revela
internamente? Nós temos um arsenal dentro de nós, não de armas e bombas
nucleares, mas que possui o mesmo efeito. E quem se fere é sempre aquele que
está atirando, isto é, nós mesmos. Algumas vezes alguma outra pessoa se
posiciona dentro da linha de tiro e se ela não for cuidadosa também será
ferida. Esse é um acidente deplorável. As principais explosões são as bombas
que explodem no próprio coração. A área de desastre é onde elas são detonadas.
O arsenal que carregamos
conosco consiste na nossa má vontade e raiva, nossos desejos e cobiças. O único
critério é que não nos sentimos em paz interiormente. Não precisamos acreditar
em nada, só necessitamos verificar se há paz e alegria no nosso coração. Se
estiverem ausentes, a maioria das pessoas tentará encontrá-las fora de si
mesmas. Assim é como todas as guerras começam. Sempre a culpa é do outro país,
e se não houver ninguém em quem colocar a culpa, então a justificativa é a
necessidade de mais território para expansão, maior soberania territorial. Em
termos pessoais, a pessoa precisa de mais diversão, mais prazer, mais conforto,
mais distrações para a mente. Se ela não puder encontrar ninguém mais para
culpar pela própria falta de paz, então a pessoa crê que essa é uma necessidade
não satisfeita.
Quem é essa pessoa que
precisa ter mais? Uma invenção da nossa imaginação, lutando contra moinhos de
vento. Esse “mais” nunca tem fim. A pessoa poderá ir de país em país, de pessoa
em pessoa. Existem bilhões de pessoas neste planeta; é muito improvável que
queiramos ver cada uma delas, ou mesmo a centésima parte, uma vida inteira não
seria suficiente para isso. Podemos escolher vinte ou trinta pessoas e ir de
uma para outra e depois regressar, mudando de uma atividade para outra, de uma
idéia para outra. Estamos lutando contra o nosso próprio dukkha e não
queremos aceitar que os moinhos de vento no nosso coração são gerados por nós
mesmos. Acreditamos que alguém colocou-os ali contra nós, e se nos movermos
iremos escapar deles.
Poucas pessoas, por fim,
chegam à conclusão de que esses moinhos de vento são imaginários, que é
possível removê-los não lhes concedendo força e importância. Que podemos abrir
os nossos corações sem medo e de forma gentil, gradual e abandonar as nossas
noções e opiniões preconcebidas, concepções e idéias, repressões e respostas
condicionadas. Quando tudo isso é removido, o que resta? Um espaço amplo e
aberto, que pode ser preenchido com qualquer coisa que se queira. Se a pessoa
tiver bom senso, irá preenchê-lo com amor, compaixão e equanimidade. Então não
haverá nada mais pelo que lutar. Só o que fica é a felicidade e a paz, que não podem
ser encontradas fora de nós mesmos. É impossível tomar algo de fora e colocá-lo
dentro de nós. Não dispomos de uma abertura pela qual a paz possa entrar. Temos
que começar no nosso íntimo e a partir daí trabalhar para o exterior. A menos
que isso se torne claro para nós, estaremos sempre buscando uma nova cruzada.
Imagine como era na época
das cruzadas! Haviam os nobres cavaleiros que gastavam a sua fortuna para se
equipar com as armas mais modernas e avançadas, equipando cavalos e seguidores,
e então partindo para levar a religião aos infiéis. Muitos morriam ao longo do
caminho devido às dificuldades e às batalhas, e aqueles que chegavam ao fim da
jornada, a Terra Santa, ainda assim não obtinham nenhum resultado, apenas mais
guerra. Ao analisarmos isso na atualidade, parece algo absolutamente tolo,
quase chegando ao ridículo.
No entanto,
fazemos o mesmo com as nossas vidas. Se, por exemplo, tivéssemos escrito no
nosso diário algo que nos tivesse aborrecido há três ou quatro anos atrás e
fôssemos ler aquilo agora, pareceria bem absurdo. Não seríamos capazes de
lembrar por que razão aquilo poderia ter sido importante. Estamos
constantemente engajados nessas tolices com coisas menores e sem importância, e
gastamos a nossa energia tentando solucioná-las de forma a satisfazer o nosso
ego. Não seria muito melhor esquecer essas formações mentais e dar atenção
àquilo que é realmente importante? Existe apenas uma coisa que é importante
para todos os seres e isso é um coração feliz e em paz. Isso não pode ser comprado
e nem é dado de graça. Ninguém é capaz de dar isso para outrem e nem pode ser
achado. Ramana Maharshi, um sábio do sul da Índia, disse: “A paz e a felicidade
não são nosso patrimônio de nascença. Qualquer um que as tenha alcançado, assim
o fez através do esforço contínuo.”
Algumas pessoas têm a idéia
de que a paz e a felicidade são sinônimos de não fazer nada, não ter tarefas ou
responsabilidades, ser cuidado pelos outros. Isso é na verdade resultado de
preguiça. Para conquistar a paz e a felicidade é necessário esforço incansável
com o próprio coração. Não é possível alcançá-las através da proliferação,
tentando obter mais, só querendo menos. Mas tornando-nos cada vez mais vazios,
até que reste apenas um espaço vazio,
amplo, para ser preenchido pela paz e a felicidade. Enquanto os nossos corações
estiverem repletos com gostos e desgostos, como poderão a paz e a felicidade
encontrar algum espaço?
Uma pessoa pode encontrar
paz dentro de si mesma em qualquer situação, qualquer lugar, qualquer circunstância,
mas só através do esforço, não através da distração. O mundo oferece distrações
e contatos sensuais que são na maioria das vezes muito tentadores. Quanto mais
ação houver, mais distraída a mente ficará e menos teremos que observar o
próprio dukkha. Quando há tempo e oportunidade para a introspecção,
descobrimos que a realidade interior é distinta daquilo que tínhamos imaginado.
Muitas pessoas desviam o olhar com rapidez, elas não estão interessadas nisso.
Não é culpa de ninguém que dukkha existe. A única cura é a
renúncia. Na verdade é bem simples, mas poucas pessoas crêem nisso a ponto de
colocá-la em prática.
Existe um conhecido símile
da armadilha para macacos. O tipo que é usado na Ásia é um funil de madeira com
uma abertura estreita. Na extremidade mais ampla se encontra um doce. O macaco,
atraído pelo doce, enfia a pata através da abertura estreita e agarra o doce.
No momento de tirar a pata, ele não consegue fazer com que o punho com o doce
atravessem a abertura estreita. Ele fica assim aprisionado e o caçador vem e o
captura. O macaco não se dá conta que a única coisa que precisa fazer para se
libertar é soltar o doce.
Assim é a nossa vida. Uma
armadilha, porque queremos uma vida doce e agradável. Como não somos capazes de
renunciar, ficamos aprisionados no ciclo contínuo de felicidade-infelicidade,
sobe-desce, esperança-desespero. Ao invés de tentarmos por nós mesmos , para
ver se podemos nos soltar e ser livres, resistimos e rejeitamos essa idéia. No
entanto, todos estamos de acordo que aquilo que realmente importa é a paz e a
felicidade, que só podem existir numa mente e coração livres.
Existe uma história
encantadora de Nazrudin, um Mestre Sufi, que tinha um talento especial para
contar histórias absurdas. Certo dia, diz a história, ele enviou um dos seus
discípulos ao mercado e pediu que lhe comprasse uma saco de chiles. O discípulo
fez como lhe havia sido pedido e trouxe o saco para Nazrudin, que começou a
comer os chiles, um após o outro. Em pouco tempo a sua face ficou vermelha, o nariz
começou a escorrer, os olhos começaram a lacrimejar e ele estava engasgando. O
discípulo observou isso durante algum tempo cheio de temor e depois disse:
“Senhor, a sua face está ficando vermelha, os seus olhos estão lacrimejando e
você está engasgando. Porque você não para de comer esses chiles?” Nazrudin
respondeu: “Estou esperando encontrar um que seja doce.”
A ajuda pedagógica dos
chiles! Nós, também, estamos esperando por algo, algum lugar que vá criar para
nós a paz e a felicidade. Nesse meio tempo, não existe nada além de dukkha,
os olhos estão lacrimejando, o nariz está escorrendo, mas nós não paramos com
as nossas próprias criações. Deve haver no fundo do saco uma que seja doce! Não
adianta pensar, ouvir ou ler a respeito, a única forma efetiva é olhar para
dentro do próprio coração e vê-lo com compreensão. Quanto mais repleto estiver
o coração de desejos e cobiças, mais dura e difícil se tornará a vida.
Porque lutar contra todos
esses moinhos de vento? Eles são construídos por nós mesmos, e nós mesmos
podemos removê-los. É uma experiência muito recompensadora investigar o que
está criando confusão no próprio coração e mente. Descobrir uma emoção após a
outra, não para criar-lhes desculpas e justificativas, mas para compreender que
elas constituem os campos de batalha do mundo, e começar a desmantelar as armas
para que o desarmamento se torne uma realidade.
A verdade ocupa uma posição
muito importante nos ensinamentos do Buda. As Quatro Nobres Verdades
representam o cubo da roda do Dhamma. A verdade, (sacca), é uma das dez
perfeições que devem ser cultivadas para a auto-purificação.
A verdade pode ter
diferentes aspectos. Se quisermos dar um fim ao sofrimento, temos que buscar a
verdade no seu nível mais profundo. Os preceitos de virtude que incluem o “não
mentir” representam o treinamento básico sem o qual não se pode conduzir uma
vida espiritual.
Para chegar à verdade, é
necessário ir ao fundo de si mesmo e isso não é algo fácil de ser feito,
agravado pelo problema da falta de amor a si próprio. Em geral o que ocorre é
que se queremos aprender a amar a nós mesmos é porque a raiva deve estar
presente e estamos aprisionados no mundo da dualidade.
Enquanto estivermos
flutuando no mundo da dualidade, não seremos capazes de chegar ao fundo da
verdade, porque estaremos suspensos no movimento ondulante para frente e para
trás. Existe uma interessante advertência no Sutta Nipata, mencionando
que não se deve ter companheiros, pois
isso evita o desenvolvimento de apegos. Isso resultaria nem em amor, nem em
raiva, restando apenas a equanimidade, uma mente equilibrada em relação a tudo
que existe. Com a equanimidade não estamos mais suspensos entre o bem e o mal,
amor e raiva, amigo e inimigo, existe a capacidade da renúncia, de ir até o
fundo onde a verdade pode ser encontrada.
Se quisermos descobrir a
verdade básica, fundamental, de toda existência, precisamos praticar a
renúncia. Esta inclui os nossos apegos mais sutis e os mais poderosos, muitos
dos quais não são nem identificados como apegos.
Retornando ao símile da
verdade encontrada no fundo do nosso ser, podemos ver que se estivermos
apegados a algo, não seremos capazes de descer até o fundo. Estamos apegados às
coisas, pessoas, idéias e opiniões, que consideramos serem nossas e acreditamos
serem corretas e úteis. Esses apegos irão nos impedir de estabelecer contato
com a verdade absoluta.
As nossas reações, gostos e
desgostos, nos mantêm em suspenso. Apesar de ser mais agradável gostar de algo
ou de alguém do que desgostar, ambos são no entanto resultado de apegos. Esta
dificuldade está intimamente associada com as distrações na meditação. Do mesmo
modo que temos apego pela comida que obtemos para o corpo, assim também temos
apego pelo alimento para a mente, e assim os pensamentos vagueiam aqui e ali,
agarrando gulodices. Enquanto fazemos isso, somos novamente mantidos em
suspenso, movendo-nos dos pensamentos para a respiração e de volta para os
pensamentos, mantendo-nos no mundo da dualidade. Quando a mente se comporta
dessa maneira, ela não é capaz de alcançar a profundidade máxima.
O entendimento profundo
possibilita a libertação do sofrimento. Ao penetrarmos o nosso íntimo com mais e mais profundidade, nenhum
núcleo é encontrado e aprendemos a abandonar os apegos. Se encontrarmos ou não
qualquer coisa dentro de nós, que seja pura, desejável, admirável ou impura e desagradável, não faz nenhuma
diferença. Todos os estados mentais que possuímos e apreciamos nos mantêm na
dualidade, onde estaremos suspensos em pleno ar, sentindo-nos muito inseguros.
Eles não são capazes de dar um fim ao sofrimento. Num dado momento tudo parece
estar bem no nosso mundo e amamos a todos, mas cinco minutos mais tarde
poderemos reagir com raiva e rejeição.
Somos capazes de concordar
com as palavras do Buda ou considerá-las como plausíveis, mas sem a certeza da
experiência pessoal, isso nos trará um benefício limitado. Para obter o
conhecimento direto deveríamos ser como um objeto pesado que não deve estar
preso a nada, para que possamos mergulhar até o fundo de todas as obstruções,
para enxergarmos a verdade luminosa. A ferramenta para isso é uma mente
poderosa, uma mente de peso. Enquanto a mente estiver interessada em assuntos
insignificantes, ela não terá o peso para conduzí-la à profundidade do entendimento.
Para a maioria das pessoas,
a mente não faz parte da categoria de pesos pesados, e está mais para peso
galo. O murro de um peso pesado produz realmente um efeito, o de um peso galo
não é tão significativo. A mente peso galo tem apego aqui e ali a pessoas e às
opiniões delas, às suas próprias opiniões, a toda dualidade de pureza e
impureza, certo e errado.
Porque tomamos isso de modo
tão pessoal, quando é verdadeiramente universal? Essa parece ser a maior
diferença entre viver em paz e ser capaz de permitir que a mente penetre as
camadas mais profundas da verdade, ou de viver em desavença consigo mesmo
e com os outros. Nem a raiva, nem a
cobiça são manifestações pessoais, ninguém possui sobre elas um direito
singular, elas pertencem à humanidade.
Podemos aprender a
abandonar essa idéia personalizada sobre os nossos estados mentais, o que nos
libertaria de um sério impedimento. Cobiça, raiva e impurezas existem, da mesma
maneira a não-cobiça e a não-raiva também existem. Podemos possuir todos eles?
Ou será que possuímos esses estados em sucessão ou a cada cinco minutos cada
um? E porque possuir qualquer um deles?
Eles simplesmente existem e vendo isso, será possível permitir-nos mergulhar na
profundidade da visão do Buda.
A verdade mais profunda que
o Buda ensinou foi que não existe uma pessoa individual. Isso tem que ser
aceito e experimentado no nível das emoções. Enquanto não abandonarmos a posse
do corpo e mente, não será possível aceitar que não somos na verdade essa
pessoa. Esse é um processo gradual. Na meditação aprendemos a abandonar as
idéias e histórias e a ocupar-nos com o objeto da meditação. Se não as
abandonarmos, não seremos capazes de mergulhar na meditação. Para isso a mente
também tem que ser um peso pesado.
Podemos comparar a mente
comum com os movimentos oscilantes que acompanham as ondas de pensamentos e
sensações. O mesmo ocorre na meditação, por conseguinte precisamos nos preparar
para obter a concentração. Podemos observar todos os estados mentais que surgem
durante o dia e aprender a abandoná-los. A tranqüilidade e leveza que surgem
desse processo se deve ao desapego. Se não praticarmos ao longo do dia, a nossa
meditação se ressentirá porque não viemos para a almofada de meditação com o
estado de espírito apropriado. Se alguém esteve durante o dia todo praticando o
desapego, a mente estará preparada e poderá se desapegar durante a meditação
também. E aí poderá experimentar a sua própria felicidade e pureza.
Algumas pessoas consideram
os ensinamentos como um tipo de terapia, o que sem dúvida é correto, mas esse
não é o objetivo último, apenas um dos seus aspectos secundários. Os
ensinamentos do Buda conduzem ao fim do sofrimento, de uma vez por todas, não
apenas por um instante quando as coisas não vão bem.
Ao termos uma experiência
de renúncia, mesmo que apenas uma única
vez, fica a prova, sem deixar nenhuma dúvida, de que isso significa
livrarmo-nos de um pesado fardo. Ter que carregar a própria raiva e cobiça por
todos os cantos é um fardo pesado, que, quando abandonado, nos resgata da
dualidade dos julgamentos. É prazeroso ver-se livre dos pensamentos; as
formações mentais são problemáticas.
Se formos bem sucedidos
mesmo que uma ou duas vezes ao longo do dia em nos soltarmos das nossas
reações, teremos tomado um grande passo e poderemos mais facilmente fazer o
mesmo outras vezes. Teremos compreendido que uma emoção que surgiu poderá ser
detida, não precisamos carregá-la conosco o dia todo. O alívio proveniente
disso será a prova de que uma grande descoberta interior foi realizada e de que
a simplicidade da não dualidade nos mostra o caminho para a verdade.
Para abraçar o caminho espiritual inteiramente,
ser capaz de nele crescer e percorrê-lo com uma sensação de segurança, é
necessário renunciar. Renúncia não significa necessariamente raspar o cabelo ou
vestir mantos. Renúncia significa abandonar todas as idéias e esperanças às
quais a mente desejaria se apegar e reter, ter interesse e desejo de
investigar. A mente deseja ter sempre mais do que quer que seja que esteja
disponível. Se ela não consegue obter mais, ela então produz fantasias e
imaginações e as projeta sobre o mundo. Isso nunca trará a verdadeira
satisfação, paz interior, que apenas podem ser conquistadas por meio da
renúncia. “Abandonar” é a palavra chave no caminho Budista, é a dissolução do
desejo. É necessário compreender de uma vez por todas que “mais” não é
“melhor.” É impossível chegar ao fim de “mais,” sempre há algo que está mais
além. Mas com certeza é possível chegar ao fim de “menos,” que é uma abordagem
muito mais inteligente.
Porque sentar isolado em
meditação e arruinar as possibilidades de todas as oportunidades que o mundo
oferece para o divertimento? Uma pessoa poderia viajar, dedicar-se a um trabalho
desafiador, conhecer pessoas interessantes, escrever cartas ou ler livros,
desfrutar um período agradável em algum outro lugar e realmente sentir-se
tranqüila – ela poderia até mesmo encontrar um caminho espiritual distinto.
Quando a meditação não alcança os resultados desejados, pode surgir o
pensamento: “O que é que eu estou fazendo, porque estou fazendo isso, para que,
qual o benefício disso tudo?” Então surge a idéia: “Eu na verdade não sou capaz
de fazer isso muito bem, talvez eu devesse tentar outra coisa.”
O mundo reluz e promete
tanto, mas nunca, nunca cumpre as suas promessas. Cada um de nós já
experimentou inúmeras vezes as suas tentações e nenhuma delas trouxe real
satisfação. A verdadeira satisfação, a plenitude da paz, sem faltar nada, a
completa tranqüilidade desprovida de cobiça, não pode ser satisfeita no mundo.
Não há nada que possa preencher os nossos desejos de forma completa e absoluta.
Dinheiro, posses materiais, uma outra pessoa, embora essas coisas possam trazer
alguma satisfação, no entanto, existe aquela dúvida incomodativa: “Talvez eu
encontre alguma outra coisa, mais confortável, mais fácil, não tão exigente e
acima de tudo algo novo.” Sempre, aquilo que é novo promete a satisfação.
A mente tem que ser
entendida tal como ela é, mais um meio dos sentidos que tem a sua base no
cérebro, da mesma forma como a visão tem a sua base no olho. Conforme os
momentos mentais surgem e o contato com eles é estabelecido, passamos a
acreditar naquilo que estamos pensando e até mesmo possuindo aquilo: “É meu.”
Devido a isso, temos muito interesse nos nossos pensamentos e desejamos cuidar
bem deles. É ponto pacífico que as pessoas cuidam melhor das suas coisas do que
das coisas dos outros e assim, seguimos os nossos momentos mentais e acreditamos
em todos eles. E no entanto, eles nunca trazem felicidade. O que eles trazem é
esperança, preocupação e dúvida. Algumas vezes eles proporcionam divertimento e
em outras depressão. Quando surgem as dúvidas e estas são levadas adiante, isto
é, são acolhidas, elas podem conduzir- nos até o ponto em que não restará
nenhuma prática espiritual que seja. No entanto, a única forma de provar que a
vida espiritual traz realização é através da prática. A prova do pudim consiste
em comê-lo. Ninguém poderá provar por nós; desejar que outrem prove de modo que apenas tenhamos que agarrar
aquilo e nos alimentarmos é uma abordagem equivocada.
A satisfação que estamos
buscando não é o que podemos conseguir para rechear esta mente e corpo. O
buraco é demasiado grande para ser preenchido. O único modo de encontrar
satisfação é abandonar as expectativas e desejos em relação a tudo aquilo que
ocorre na mente, sem deixar escapar nada. Então não restará nada para ser
preenchido.
O mal-entendido, que
constantemente se repete, é esta típica atitude de: “Quero que me dêem. Quero
que me dêem conhecimento, compreensão, amor bondade, consideração. Quero que me
dêem o despertar espiritual.” Não há nada que possa ser dado para ninguém,
exceto instruções e métodos. É necessário que cada um faça a sua tarefa diária
de prática, para que essa tarefa resulte em purificação. A ausência de
satisfação não pode ser remediada com o desejo de receber algo novo. Não temos
sequer uma idéia clara de onde isso deve vir. Talvez do Buda, ou do Dhamma, ou
podemos querer que venha do nosso mestre. Quiçá gostaríamos de obtê-lo da nossa
meditação, ou de um livro. A resposta não está em obter algo que esteja fora de
nós mesmos, mas sim em descartarmo-nos de tudo.
Do que precisamos nos
livrar primeiro? De preferência das convulsões da mente que constantemente nos
contam histórias fantásticas e inacreditáveis. No entanto, quando as ouvimos,
nós mesmos acreditamos nelas. Uma forma de encará-las e descrer delas é
escrevê-las. Elas parecerão absurdas quando estiverem escritas no papel. A
mente sempre pode imaginar novas histórias, não há um fim nisso. A renúncia é a
chave. Abandonar, soltar-se de tudo.
Renunciar também significa
entregarmo-nos àquele conhecimento subjacente, subconsciente, de que o jeito
mundano não funciona, de que há um outro jeito. Não podemos tentar permanecer
no mundo e agregar algo à nossa vida, mas, ao invés disso, deveríamos desistir
completamente das nossas ambições. Permanecer como somos e adicionar algo mais a isso – como é possível
que isso funcione? Se alguém possui uma máquina que não funciona direito e
apenas agrega uma peça a mais, não fará com que ela funcione. É necessário
recondicionar a máquina toda.
Isso significa aceitar o
nosso entendimento subjacente de que a forma tradicional de pensar não é útil.
Dukkha existe sempre, repetidamente. Nunca pára, não é mesmo?
Algumas vezes pensamos: “Deve ser devido a uma certa pessoa, ou talvez seja por
causa do tempo.” Então o tempo muda ou aquela pessoa se vai, mas dukkha
continua presente. Então não era aquilo e precisamos tentar encontrar outra
coisa. Ao invés disso, precisamos nos tornar flexíveis e moldáveis e estar
presentes com aquilo que realmente está surgindo sem todas as convulsões, conglomerações, proliferações da mente.
Aquilo que surge pode ser puro ou impuro e precisamos saber como lidar com cada
um.
Uma vez que comecemos a
explicar e racionalizar, todo o processo novamente deixa de funcionar. Não
precisamos pensar que devemos acrescentar algo para sermos perfeitos. Tudo deve
ser descartado, tudo que é identificável, então nos tornaremos uma pessoa
perfeita. A renúncia está em nos soltarmos da conceituação, do material mental
que reivindica ser a pessoa que sabe. Quem conhece essa pessoa que sabe? São só
idéias volteando, surgindo e desaparecendo. A renúncia não é uma manifestação
externa, esta é apenas o seu resultado. A causa é interior, que é o que
precisamos praticar. Se pensarmos num convento de monjas como o lugar para
meditar, nos daremos conta de que a meditação não ocorre sem renúncia.
No Sutta Nipata
encontramos um discurso do Buda intitulado “O
Chifre do Rinoceronte” onde ele compara o isolamento do sábio ao
rinoceronte indiano. O Buda elogia o estar só e o refrão em cada estrofe do
sutta é: “Viva só como um rinoceronte.”
Existem dois tipos de
isolamento, o mental, (citta-viveka), e o corporal, (kaya-viveka).
Todos estão familiarizados com o isolamento corporal. Afastamo-nos e sentamos
sozinhos num cômodo ou caverna, ou dizemos para as pessoas com as quais estamos
vivendo, que queremos ficar a sós. As pessoas em geral apreciam esse tipo de
isolamento por períodos curtos de tempo. Se esse isolamento é mantido, em geral
é porque essa pessoa não é capaz de se relacionar com os outros ou sente medo
em relação a eles, porque não existe amor suficiente no seu próprio coração.
Muito frequentemente há uma sensação de solidão, que é prejudicial ao
isolamento. A solidão é um estado mental negativo no qual a pessoa se sente
despojada de amizades.
Quando se vive em família
ou numa comunidade, algumas vezes é difícil obter o isolamento físico, pode até
nem ser muito prático. Mas o isolamento físico não é o único tipo de isolamento
que existe. O isolamento mental é um fator importante para a prática. A menos
que a pessoa seja capaz de despertar em si mesma o isolamento mental, ela não
será capaz de introspecção, de descobrir que mudanças dentro de si ela
necessita fazer.
O isolamento mental
significa antes de mais nada e principalmente não ser dependente da aprovação
de terceiros, da conversa social, de um relacionamento. Não significa que a
pessoa irá demonstrar inimizade em relação aos outros, apenas que a pessoa
possui independência mental. Se uma pessoa for gentil conosco, muito bem. Se
não for esse o caso, isso também está bem e tanto faz.
O chifre do rinoceronte é
reto e tão forte que não somos capazes de curvá-lo. Será que as nossas mentes
podem ser assim? O isolamento mental
elimina a conversa fútil que é prejudicial ao desenvolvimento espiritual.
Conversar sobre absolutamente nada, apenas para soltar vapor. Se permitirmos
que o vapor escape de uma panela não seremos capazes de cozinhar a comida. A
nossa prática pode ser comparada com a colocação de calor em nós mesmos. Se
deixarmos o vapor escapar repetidamente, esse processo interno será
interrompido. É muito melhor deixar que o vapor acumule e descobrir o que está
cozinhando. Essa é a tarefa mais importante que podemos realizar.
Todos deveriam ter a
oportunidade, todos os dias, de estar fisicamente sós por algum tempo, para que
possam se sentir realmente sós, totalmente isolados. Algumas vezes poderemos
pensar: “As pessoas estão falando a meu respeito.” Isso não importa, nós somos
os donos do nosso kamma. Se falarem a nosso respeito é o kamma deles. Mas se
ficamos preocupados, esse é o nosso kamma. Ter interesse naquilo que está sendo
dito é o suficiente para demonstrar que dependemos da aprovação de outras
pessoas. Quem está aprovando quem? Talvez os cinco khandhas, (corpo,
sensação, percepção, formações mentais e consciência), estejam aprovando. Ou
quiçá, os cabelos, os pelos do corpo, unhas, dentes e pele? Qual “eu” está
aprovando, o bom, o mau, o medíocre ou talvez o não-eu?
A menos que possamos
encontrar dentro de nós mesmos uma sensação de solidez, do centro onde não há
movimento, sempre haverá a sensação de insegurança. Ninguém pode ser apreciado
por todos, nem mesmo o Buda. Como estamos tomados pelas contaminações, sempre
estamos vigiando as contaminações dos outros. Nada disso importa, e tudo isso
não tem a menor importância. A única coisa importante é ter atenção plena;
estar totalmente atento a cada passo do caminho, às ações praticadas, sensações
e pensamentos. É tão fácil esquecer isso. Sempre há uma outra pessoa com quem
conversar ou um outro café para beber. Assim é como o mundo vive, e no entanto
os seus habitantes são muito infelizes. Mas o caminho do Buda conduz para além
do mundo, para a felicidade independente.
Soltar o vapor, as
conversas fúteis e a busca por amizades, essas são as coisas erradas que não
devem ser feitas. Tentar descobrir o que as pessoas pensam a seu respeito é
insignificante e irrelevante e não tem nada a ver com o caminho espiritual. O
isolamento mental significa que a pessoa é capaz de estar só, ainda que no meio
da multidão. Mesmo no meio de uma grande multidão de pessoas agitadas, a pessoa ainda é capaz de operar a partir do
próprio centro, distribuindo amor e compaixão sem ser influenciada por aquilo
que está acontecendo à sua volta.
Isso pode ser chamado de
isolamento ideal e significa que a pessoa se afastou do futuro e do passado, o
que é necessário para permanecer só e íntegra. Se houver apego ao futuro, então
existe a preocupação, e se houver anseio pelo passado, então haverá ou desejo,
ou rejeição. Essa é a tagarelice constante da mente, que não conduz ao
isolamento mental.
O isolamento só pode ser
experimentado plenamente quando há paz interior. De outro modo a solidão irá
empurrar a pessoa para tentar remediar a sua sensação de vazio e perda. “Onde
estão todos? Como posso permanecer sem amizades? Preciso conversar sobre os
meus problemas.” A atenção plena é capaz de tomar conta disso tudo porque ela
tem que surgir no momento presente e não tem nada a ver com o futuro nem com o
passado. Ela nos mantém totalmente ocupados e evita que cometamos erros que
fazem parte da natureza dos seres humanos. E quanto mais acurada for a atenção
plena, menos freqüentes serão os erros. Erros no plano mundano também têm
repercussões no caminho supramundano, porque eles ocorrem devido à falta de
atenção plena, o que não permite que superemos o dukkha que nós mesmos
nos causamos. Tentaremos repetidamente encontrar alguém a quem possamos culpar,
ou alguém que nos possa entreter.
O isolamento ideal surge
quando uma pessoa pode estar só ou com outros e permanecer íntegra, sem ser
capturada pelos problemas dos outros. Poderemos responder da maneira
apropriada, mas não seremos afetados. Todos temos a nossa vida interior e só
poderemos conhecê-la bem quando a tagarelice mental for interrompida e pudermos
nos ocupar com as nossas emoções mais íntimas. Uma vez que tenhamos
testemunhado o que ocorre no nosso íntimo, vamos querer mudar isso. Apenas o
Perfeitamente Desperto, (Arahant), possui uma vida interior que não
necessita mudança. O nosso estresse interior e a falta de paz nos empurram para
fora para encontrar alguém que possa remover aquele momento de dukkha,
mas só nós, nós mesmos, podemos fazer isso.
O isolamento pode ser
físico, mas essa não é a sua função principal. A mente em isolamento é aquela
que é capaz de ter pensamentos profundos e originais. Uma mente dependente
pensa de modo rotineiro, como todos pensam, porque ela anseia aprovação. Esse
tipo de mente compreende de modo superficial, da mesma maneira que o mundo
compreende, e não é capaz de captar a profundidade dos ensinamentos do Buda. A
mente em isolamento está tranqüila porque não é influenciada.
É interessante que uma
mente tranqüila, que só depende de si mesma, também é capaz de memorizar. Como
uma mente assim não está repleta do desejo de eliminar dukkha, ela pode
relembrar sem muita dificuldade. Esse é um dos benefícios adicionais. O
principal benefício de uma mente em isolamento é a sua imperturbabilidade. Ela
não é abalada e se mantém sem nenhum apoio, como uma árvore sólida que não
necessita de suporte. Porque ela é poderosa por seus próprios méritos. Se a
mente não possuir vigor suficiente para depender apenas de si mesma, ela não
terá a força e determinação para realizar o Dhamma.
A nossa prática deve
incluir o estar a sós durante algum tempo todos os dias para a introspecção e
contemplação. Ler, ouvir e conversar diz respeito à comunicação com os outros,
que em certas ocasiões é necessário. Mas é essencial ter tempo para a
auto-investigação: “O que está ocorrendo no meu íntimo? O que estou sentindo?
Isso é benéfico ou não? Estou plenamente satisfeito sozinho? Quanta preocupação
tenho com o ego? O Dhamma é o meu guia ou estou confuso?” Se houver alguma
névoa na mente, tudo que precisamos é de uma lanterna para penetrá-la. E essa
lanterna é a concentração.
Saúde, riqueza e juventude
não significam não-dukkha. Elas são um disfarce. A enfermidade, pobreza
e velhice facilitam a compreensão da insatisfação na nossa existência. Quando
estamos sós, esse é o momento de nos conhecermos. Podemos investigar o
significado do Dhamma que ouvimos e sermos capazes de concretizá-lo nas nossas
vidas. Podemos utilizar aqueles aspectos do Dhamma com os quais nos
identificamos mais.
A mente solitária é uma
mente poderosa, porque ela sabe como permanecer imóvel. Isso não significa
deixar completamente de se associar com as pessoas, isso seria falta de amor
bondade, (metta). Uma mente solitária é capaz de estar sozinha e
introspectiva e também de amar os outros. Viver numa comunidade do Dhamma é o
ideal para a prática.
A meditação é o meio de
obter a concentração, que é a ferramenta para dissipar a névoa que envolve a
todos que não são um Arahant. Certas vezes, na vida em comunidade,
existe a união, o amor e a assistência. Isso deveria ser o resultado de metta
e não da tentativa de
evadir dukkha. Na próxima vez que iniciarmos uma conversa, deveríamos
investigar primeiro: “Porque estou tendo esta discussão? Ela é necessária ou
estou entediado e quero fugir dos meus problemas?”
A plena consciência é o
fator mental que se une com a atenção plena proporcionando direção e objetivo.
Examinamos se a nossa linguagem e ações possuem o propósito correto, se estamos
empregando meios hábeis e se o objetivo inicial foi alcançado. Se não tivermos
um rumo bem definido, a conversa fútil surgirá como conseqüência. Até mesmo na
meditação a mente faz isso, devido à falta de treinamento. Quando praticamos a
plena consciência, precisamos parar por um momento e examinar a situação
completa antes de seguir adiante. Esse poderá vir a ser um dos nossos hábitos
hábeis, nem sempre encontrado no mundo.
Um importante aspecto dos
ensinamentos do Buda é a combinação da plena consciência com a atenção plena. O
Buda com freqüência os recomenda como o caminho para o fim do sofrimento e nós
precisamos praticá-los nos nossos miúdos esforços diários. Eles podem consistir
em aprender algo novo, memorizar uma sentença do Dhamma, memorizar uma estrofe
de um sutta, um novo insight acerca de si mesmo, a compreensão de um aspecto da
realidade. Uma mente como essa obtém força e autoconfiança.
A renúncia é a maior ajuda
para conquistar a autoconfiança. A pessoa se dá conta de que é capaz de lidar
com praticamente tudo, por exemplo a comida, por um bom tempo. Certa vez o Buda
foi a um vilarejo no qual ninguém depositava fé nele. Ele não recebeu nenhum
alimento, ninguém no vilarejo deu a ele qualquer atenção. Ele foi para os
arredores e sentou sobre um pouco de palha e meditou. Um outro asceta que
passou por ali e viu que o Buda não havia recebido nenhum alimento se condoeu
dele: “Você deve estar se sentindo muito mal sem ter o que comer. Eu sinto
muito. Você nem mesmo tem um lugar adequado para dormir, apenas palha.” O Buda
respondeu: “Alimentamo-nos de felicidade. A felicidade interior pode alimentar-nos
por vários dias.”
Uma pessoa pode estar bem
sem muitas coisas, desde que elas tenham sido abandonadas voluntariamente. Se
alguém tomar as nossas posses e resistirmos, é dukkha. Mas quando
praticamos a renúncia, ganhamos força e criamos as condições para que a mente
seja auto-suficiente. A autoconfiança surge e cria uma espinha dorsal realmente
forte. A renúncia ao companheirismo mostra se somos auto-suficientes.
O Buda não advogava
práticas ascéticas exageradas e prejudiciais. Mas nós poderíamos abrir mão, por
exemplo, das conversas à tarde e ao invés disso meditar. Depois disso, a mente
irá se sentir satisfeita com o seu próprio esforço. Quanto mais esforço puder
ser feito, mais satisfação surgirá.
Nós precisamos de uma mente
solitária para a meditação, portanto precisamos praticá-la durante algum tempo
a cada dia. A mente em isolamento possui dois atributos; um é a atenção plena e
a plena consciência e o outro é a introspecção e a contemplação. Ambos fazem
com que a mente se unifique. Só a união produz a força e a unificação traz o
poder.
IX. Dukkha para Conhecimento e Visão
O ciclo da origem
dependente, (paticcasamuppada), começa com a ignorância, (avijja),
passando pelas formações cármicas, (sankhara), consciência de
renascimento, mentalidade-materialidade, contato nos sentidos, sensação, apego,
ser/existir, nascimento, terminando com a morte. Nascer significa morrer. Ao
longo dessa seqüência existe um ponto para a escapatória – da sensação para o
apego.
Enquanto esta é chamada de
origem dependente mundana, (lokiya),o Buda também ensinou uma série de
causa e efeito supramundana, transcendente, (lokuttara).A origem
dependente mundana inicia com o sofrimento/insatisfação, (dukkha). Dukkha
deve ser visto como aquilo que na verdade é, isto é, o melhor ponto de início
para a nossa jornada espiritual. A menos que tenhamos conhecido, tenhamos visto dukkha, não
teremos motivo para praticar. Se não tivermos reconhecido a abrangência de dukkha,
não teremos interesse de nos livrar das suas garras.
A origem dependente transcendente começa com a consciência e conhecimento do inescapável sofrimento da condição humana. Ao refletir sobre isso, não mais tentaremos encontrar uma saída através de intentos mundanos, seja através da obtenção de mais informações ou conhecimentos ou de mais riqueza, ou mais posses, ou mais amigos. Ao ver dukkha como uma condição da qual não se pode escapar, atada à existência, não nos sentimos mais oprimidos por ela. É certo que existem trovões e relâmpagos, assim não tentamos negar o tempo. Tem que haver trovões, relâmpagos e chuva, para que possamos cultivar alimentos.
Com dukkha é o mesmo. Sem isso, a condição humana não existiria. Não haveria renascimento, envelhecimento e morte. Ao ver dukkha dessa forma, a nossa resistência se desfaz. No momento em que não houver mais repulsa em relação a dukkha, o sofrimento diminuirá muito. É a nossa resistência que cria o desejo de nos livrarmos de dukkha, o que só faz com que ele piore.
Tendo compreendido dukkha
dessa forma, a pessoa poderá ser suficientemente afortunada para entrar em
contato com o verdadeiro Dhamma, o ensinamento do Buda. Isso se deve ao bom
kamma da pessoa. Existem inúmeras pessoas que nunca entram em contato com o
Dhamma. Elas podem até mesmo nascer num lugar em que o Dhamma seja ensinado,
mas elas não terão a oportunidade de ouví-lo. Existem ainda muitas outras
pessoas que não estão em busca do Dhamma, porque elas ainda buscam a rota de
escape através de intentos mundanos, procurando na direção errada. Ao chegar à
conclusão de que o mundo não irá proporcionar a verdadeira felicidade, ela
também terá que ter um bom kamma para ser capaz de ouvir o verdadeiro Dhamma.
Se essas condições surgirem então o resultado será a fé.
A fé tem que estar baseada
na confiança. Se esta estiver ausente, o caminho não se abrirá. A pessoa confia
como uma criança que segura a mão de um adulto para atravessar a rua. A criança
acredita que o adulto irá prestar atenção ao tráfego para que não ocorra um
acidente. A pequena criança não tem capacidade para julgar quando é seguro
atravessar, mas ela confia em alguém com mais experiência.
Nós somos como crianças
comparadas ao Buda. Se pudermos ter a inocência de uma criança, então será
possível entregarmo-nos com generosidade ao ensinamento e à prática, segurando
a mão do verdadeiro Dhamma que nos guiará. A vida e a prática são simplificadas
quando o julgamento e a ponderação das opções são removidas. Não mais: “Eu
deveria fazer isso de outra forma ou ir a outro lugar, ou descobrir como isso é
feito por outras pessoas.” Tudo isso são possibilidades, mas elas não favorecem
a boa prática nem nos ajudam a livrar-nos de dukkha. A confiança no
Dhamma ajuda a manter a mente equilibrada. A pessoa tem que descobrir por si
mesma se essa é a rota de escape correta, mas se não tentarmos, não saberemos.
Se dukkha for ainda
considerado como uma calamidade, não teremos espaço suficiente na mente para
ter confiança. A mente estará repleta de tristeza, dor, lamentação, esquecendo
que todos nós estamos experimentando os resultados de kamma e nada mais. Isso
faz parte da condição humana, a sujeição ao próprio kamma.
A resistência a dukkha
drena a nossa energia e a mente fica sem condições de alcançar a sua plena
capacidade. Se dukkha for visto como o ingrediente necessário para
estimular o abandono de samsara, então a atitude positiva da pessoa
indicará a direção correta. Dukkha não é uma tragédia, mas um
ingrediente básico para o insight. Esse não deve ser apenas um processo
intelectual, mas para ser sentido com o próprio coração. É muito fácil pensar
nisso e não fazer nada a respeito. Mas quando o nosso coração é verdadeiramente
tocado, a confiança no Dhamma surge como a escapatória de todo o sofrimento.
O Dhamma se opõe totalmente
ao pensamento mundano, no qual o sofrimento é considerado como uma grande
desgraça. No Dhamma o sofrimento é visto como o primeiro passo para transcender
a condição humana. A compreensão de dukkha tem que ser sólida, para
despertar a confiança naquela parte dos ensinamentos que ainda não foram
experimentados por si próprio. Se a pessoa já tiver tentado muitas outras rotas
de escape e nenhuma delas funcionou, então será mais fácil depositar esse tipo
de confiança, como uma criança, caminhando ao longo dessa difícil senda sem se
desviar para a esquerda ou direita, sabendo que o ensinamento é verdadeiro e
permitindo que ele a guie. Esse tipo de fé produz satisfação, sem a qual o
caminho será um pesado fardo e não irá florescer. A satisfação é um ingrediente
necessário e essencial na vida espiritual.
A satisfação não deve ser
confundida com o prazer, excitação ou exuberância. A satisfação é uma sensação
de tranqüilidade e contentamento, é a sabedoria daquele que encontrou aquilo
que transcende todo o sofrimento. As pessoas algumas vezes têm a idéia
equivocada de que ser um santo ou devoto significa ter uma face tristonha e
caminhar desolado. No entanto, diz-se que o Buda nunca chorou, e em geral ele é
retratado com um ligeiro sorriso nos lábios. A santidade não é sinônimo de
tristeza, ela significa integridade. Sem satisfação não há integridade. A
satisfação interior traz consigo a certeza de que o caminho é irrepreensível, a
prática produz frutos e a conduta é apropriada.
Precisamos sentar para
meditar com uma sensação de satisfação, e assim toda a experiência de meditação
irá culminar em felicidade. Isso nos traz tranqüilidade, visto que não
precisamos mais procurar por satisfação no exterior. Sabemos que apenas
precisamos olhar para o nosso íntimo. Não há nenhum outro lugar para ir e nada
que fazer, tudo acontece no nosso íntimo. Essa tranqüilidade ajuda na meditação
da concentração, e cria a sensação de estar no lugar certo no momento correto.
Isso traz uma paz mental, que facilita a meditação e conduz à eliminação da
dúvida, (vicikicha).
A dúvida é a precursora da
inquietação, a satisfação produz calma. Não precisamos nos preocupar com o
nosso ou com o futuro do mundo, é apenas uma questão de tempo até que
compreendamos a realidade absoluta. Quando o caminho, a prática e o esforço se
unem, os resultados surgirão inevitavelmente. É essencial ter completa
confiança em tudo que o Buda disse. Não podemos selecionar as idéias nas quais
desejamos acreditar, porque coincidentemente elas estão de acordo com aquilo
que apreciamos, e descartar as demais. Não tem escolha, é tudo ou nada.
A tranqüilidade ajuda a
estabelecer a concentração. Dukkha em si pode nos levar à concentração
adequada se soubermos como manuseá-lo. Mas não devemos rejeitá-lo, pensando que
é uma peculiaridade do destino que nos trouxe toda essa tristeza, ou de pensar
que outras pessoas é que são as responsáveis. Se empregarmos dukkha para
nos empurrar na direção do caminho, então a concentração adequada poderá
surgir.
A concentração correta
permite que a mente desenvolva todo o seu potencial. A mente que é limitada,
obstruída e contaminada não é capaz de compreender a profundidade dos
ensinamentos. Ela pode ter indícios de que algo extraordinário está disponível,
mas será incapaz de penetrar a profundidade daquilo. Apenas a mente concentrada
é capaz de superar as suas limitações. Ao fazer isso, ela poderá experimentar o
“conhecimento e visão das coisas como estas realmente são.”
O Buda freqüentemente usava
essa frase “conhecimento e visão das coisas como elas realmente são”, (yatha-bhuta-ñana-dassana).
Isso é diferente de como nós pensamos que as coisas são ou poderiam ser, ou
como gostaríamos que fossem, esperançosos de que sejam confortáveis e
agradáveis. Mas ao invés disso, o nascimento, envelhecimento, enfermidade e
morte, não obter aquilo que se deseja, ou obter aquilo que não se deseja, a
constante percepção daquilo que não gostamos porque não apóia a nossa crença
num eu. Ao compreender e ver as coisas como elas realmente são, deixamos de
lado esse desgosto.
Veremos que dentro desse
plano de impermanência, insatisfação e ausência de uma essência, (anicca,
dukkha, anatta), não há nada que possa ser agarrado e reconhecido como
sólido e gratificante. Nenhuma pessoa, nenhuma possessão, nenhum pensamento,
nenhuma sensação. Nada a que nos apeguemos poderá ser reconhecido como estável
e que proporciona apoio.
Esse é o entendimento
correto que está além da nossa percepção comum do dia a dia. Ele resulta da
concentração correta e provém do lidar com dukkha de forma positiva,
acolhedora. Quando tentamos escapar de dukkha quer seja tentando
esquecê-lo, fugindo dele, culpando outra pessoa, ficando deprimido ou sentindo
pena de nós mesmos, estaremos criando mais dukkha. Todos esses métodos
estão baseados na auto-delusão. O conhecimento e visão das coisas como elas
realmente são é o primeiro passo no nobre caminho, todo o demais faz parte do
trabalho preliminar.
Algumas vezes o nosso
entendimento pode parecer com um daqueles quadros misteriosos com os quais as
crianças brincam. Você olha e vê o desenho, e em seguida ele desaparece. Quando
algum aspecto do Dhamma é claramente visível para nós, devemos continuar
ressuscitando essa visão. Se ela for correta, dukkha não nos
atormentará, será só dukkha. O envelhecimento, enfermidade e morte não
parecerão amedrontadores. Não há nada que temer, porque tudo se desfaz
continuamente. Este corpo se desintegra e a mente muda a cada momento.
Sem conhecimento e visão da
realidade, a prática será difícil. Depois de obter essa clara percepção, a
prática é a única coisa possível a ser feita. Todo o restante será apenas um
assunto secundário e uma distração. Do conhecimento e visão surge o
desencantamento com aquilo que o mundo tem para oferecer. Todo aquele brilho
que parece ser ouro, torna-se o ouro dos tolos, que não produz satisfação. Isso
nos dá prazer por um momento e desprazer no momento seguinte e tem que ser
buscado continuamente. O mundo dos sentidos tem nos ludibriado com tanta
freqüência que nós ainda estamos enredados nele, ainda experimentando dukkha,
a não ser que a verdadeira visão surja.
Existe um cartaz disponível
na Austrália em que se lê: “Vida, esteja nela.” Não seria melhor se dissesse,
“Vida, esteja fora dela?” A vida e a existência estão atadas pela constante
renovação dos contatos nos nossos sentidos, ver, ouvir, saborear, tocar,
cheirar e pensar. Apenas quando tivermos a clara percepção, o desencantamento
se estabelecerá e então o contato sensual mais maravilhoso não nos levará mais
a reagir. Esse contato existirá, mas não
tocará o nosso coração. Mara,o sedutor, terá perdido o controle e terá
sido conduzido até a porta de saída. Ele estará esperando na soleira da porta
para novamente se insinuar, na primeira oportunidade, mas ele não estará mais
assentado na parte de dentro, com todo conforto.
Isso traz muita segurança e
satisfação ao coração. A pessoa não estará inclinada a abandonar esse caminho
de prática. Quando Mara ainda estiver chamando, não haverá paz no
coração. Não é possível ter paz e satisfação, porque sempre há algo novo para
nos tentar. Com o conhecimento e visão das coisas como elas realmente são e o
subseqüente desencantamento, compreendemos que o caminho do Buda nos leva à
tranqüilidade, paz e o fim de dukkha.
Dukkha é realmente o nosso amigo mais
leal, nosso patrocinador mais fiel. Nunca encontraremos um outro amigo ou
companheiro igual, se dukkha for visto da forma correta, sem resistência
ou rejeição. Quando usamos dukkha como nosso incentivo para a prática, a
gratidão e o reconhecimento surgirão. Assim eliminamos o tormento da dor e a
transformamos na nossa experiência mais valiosa.
X. As Nossas Tendências Subjacentes
A maioria das pessoas tem a
tendência de recriminar a si mesmas ou os outros por tudo aquilo que consideram
errado. Algumas preferem criticar principalmente os outros, algumas preferem
criticar a si mesmas. Nenhuma dessas opções é benéfica, nem traz paz de
espírito. Pode ajudar muito, compreender a realidade que impera dentro de cada
ser humano através do conhecimento das tendências subjacentes, (anusaya).
Se compreendermos que todos
os seres humanos possuem essas tendências, então estaremos menos inclinados a
fazer críticas ou a ficarmos perturbados ou ofendidos e mais inclinados a
aceitar com equanimidade. Poderemos ficar mais propensos a trabalhar esses aspectos negativos se nos tornarmos
conscientes deles em nós mesmos.
As tendências subjacentes
são mais sutis que os cinco obstáculos, (pañca nivarana): os obstáculos
são mais toscos e se apresentam dessa forma. Desejo sensual: querer
aquilo que agrada aos sentidos. Má vontade: ficar irado, perturbado. Preguiça
e torpor: estar totalmente desprovido de energia. A preguiça se refere ao
corpo, o torpor à mente. Inquietação e ansiedade: sentir-se
constrangido, intranqüilo. Dúvida: não saber qual direção tomar. Esses
cinco são facilmente discerníveis em nós mesmos e nos outros. Mas as tendências
subjacentes são mais difíceis de serem determinadas com precisão. Elas são as
fontes ocultas das quais surgem os obstáculos, e para livrar-se delas é
necessário ter aguçada atenção plena e uma grande dose de discernimento.
Depois de lidar com os
cinco obstáculos dentro de si mesmo, e até certo ponto ter deixado de lado os
seus aspectos mais grosseiros, é possível começar a lidar com as tendências
subjacentes. A própria palavra sugere a característica dessas tendências, isto
é, as suas raízes são profundamente arraigadas e por isso difíceis de serem
vistas e eliminadas.
As duas primeiras
tendências são parecidas com os obstáculos, sensualidade e aversão, e são as
bases subjacentes para o desejo sensual e a má vontade. Mesmo quando o desejo sensual
foi em grande parte abandonado e a má vontade não mais surge, a disposição para
a sensualidade e má vontade ainda permanecem.
A
sensualidade é parte integrante do ser humano e se manifesta através do apego e
reação àquilo que é visto, ouvido, cheirado, saboreado, tocado e pensado. A
pessoa se preocupa com as suas sensações sem ter ainda compreendido que os
objetos sensuais são nada mais que fenômenos impermanentes que surgem e
desaparecem. Enquanto a ausência desse profundo insight ainda predominar, a
pessoa atribuirá importância às impressões que surgem através dos sentidos. A
pessoa é atraída por elas e busca nelas o prazer. Quando os sentidos ainda
desempenham um papel importante numa pessoa, existe a sensualidade. O homem é
um ser sensual. Há um verso que descreve a nobre Sangha como tendo “pacificado
os sentidos.” O “Discurso do Amor
Bondade”, (Karaniyametta Sutta – Sn I.8), descreve o bhikkhu ideal como aquele com “os sentidos
acalmados.” Em muitos suttas o Buda disse que a eliminação do desejo sensual é
o caminho para Nibbana.
A sensualidade como um elemento arraigado nos seres humanos tem que ser transcendida com um grande esforço e isso não pode ser feito sem insight. É impossível ter êxito só reconhecendo: “a sensualidade não é benéfica, eu vou abandoná-la.” É necessário que a pessoa obtenha o insight de que esses contatos sensuais não possuem valor intrínseco em si mesmos. Existe a junção da base sensual, (olho, ouvido, nariz, língua, pele, mente), com o objeto sensual, (visão, som, aroma, sabor, toque, pensamento), e a