Majjhima Nikaya 20

Vitakkasanthana Sutta

A Remoção de Pensamentos que Distraem

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1. Assim ouvi. Certa vez o Abençoado estava em Savathi, no bosque de Jeta no parque de Anathapindika. Lá ele se dirigiu aos monges desta forma: “Bhikkhus” - “ Venerável Senhor, “ eles responderam. O Abençoado disse o seguinte:

“Um bhikkhu dedicado ao treinamento da mente superior, no momento apropriado, deve dar atenção a cinco sinais. [1] Quais são esses sinais?

3. “Aqui, bhikkhus, quando um bhikkhu dá atenção a um determinado sinal e devido a esse sinal surgirem nele pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então, ele deve dar atenção a um outro sinal conectado com o que é benéfico. [2] Ao dar atenção a um outro sinal conectado com o que é benéfico, todos os pensamentos ruins e prejudiciais são abandonados por ele e diminuem. Com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Tal como um carpinteiro habilidoso ou seu aprendiz que para remover ou extrair uma cavilha mais grossa emprega uma cavilha mais fina, da mesma forma quando um Bhikkhu dá atenção a um outro sinal conectado com o que é benéfico, a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada.

4. Se enquanto ele estiver dirigindo sua atenção para um outro sinal conectado com o que é benéfico, ainda assim surgirem pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então ele deve examinar o perigo contido nesses pensamentos da seguinte forma: ‘Esses pensamentos são prejudiciais, são condenáveis, eles levam ao sofrimento.’ [3] Quando ele examina o perigo contido nesses pensamentos, os pensamentos ruins e prejudiciais são abandonados por ele e diminuem. Com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Tal como um homem ou uma mulher, jovens, vigorosos, que apreciam ornamentos, se sentiriam horrorizados, humilhados e enojados se a carcaça de uma cobra ou um cão ou um ser humano fosse pendurada no seu pescoço, da mesma forma quando um bhikkhu examina o perigo contido nesses pensamentos a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada.

5. Se enquanto ele estiver examinando o perigo contido nesses pensamentos, ainda assim surgirem pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então ele deve tentar esquecer esses pensamentos e não deve lhes dar atenção. Quando ele tenta esquecer esses pensamentos e não lhes dá atenção, os pensamentos ruins e prejudiciais são abandonados por ele e diminuem. Com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Tal como um homem com boa visão que não queira ver as formas que surgem no seu campo de visão fecha os olhos ou desvia o olhar, da mesma forma quando um bhikkhu tenta esquecer esses pensamentos e não lhes dá atenção a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada.

6. Se enquanto ele estiver tentando esquecer esses pensamentos e não lhes der atenção, ainda assim surgirem pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então ele deve silenciar a fonte desses pensamentos prejudiciais. [4] Quando ele silencia a fonte desses pensamentos prejudiciais, os pensamentos ruins e prejudiciais são abandonados por ele e diminuem. Com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Tal como um homem caminhando rapidamente considera o seguinte: ‘Por que estou caminhando rapidamente ? E se eu caminhar devagar?’ e ele caminha devagar; em seguida ele considera o seguinte: ‘Por que estou caminhando devagar ? E se eu ficar parado?’ e ele fica parado; em seguida ele considera o seguinte: ‘Por que estou parado? E se eu sentar?’ e ele senta; em seguida ele considera o seguinte: ‘Por que estou sentado? E se eu deitar?’ e ele deita. Agindo dessa maneira ele estará substituindo uma postura grosseira por uma postura mais sutil, da mesma forma, quando um bhikkhu silencia a fonte desses pensamentos prejudiciais a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada.

7. Se enquanto ele estiver silenciando a fonte desses pensamentos, ainda assim surgirem pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então, com os dentes cerrados e pressionando a língua contra o céu da boca, ele abate, força e subjuga a mente com a mente. [5] Quando com os dentes cerrados e pressionando a língua contra o céu da boca, ele abate, força e subjuga a mente com a mente, os pensamentos ruins e prejudiciais são abandonados por ele e diminuem. Com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Tal como um homem forte agarra um homem mais fraco pela cabeça ou pelos ombros e o abate, força e subjuga, da mesma forma, quando um bhikkhu abate, força e subjuga a mente com a mente, a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada.

8. Bhikkhus, quando um bhikkhu dá atenção a algum sinal e, devido a esse sinal, surgem pensamentos ruins e prejudiciais conectados com o desejo, com a raiva, com a delusão, então ele dirige sua atenção para um sinal conectado com o que é benéfico, de forma que os pensamentos prejudiciais sejam abandonados por ele e diminuam e, com esse abandono a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Quando ele examina o perigo contido nesses pensamentos ... Quando ele tenta esquecer esses pensamentos e não lhes dá atenção … Quando ele silencia a fonte desses pensamentos ... Quando com os dentes cerrados e pressionando a língua contra o céu da boca, ele abate, força e subjuga a mente com a mente, abandonando os pensamentos ruins e prejudiciais … a mente dele se firma no interior, se estabiliza e se torna concentrada e unificada. Esse bhikkhu é chamado de mestre dos caminhos do pensamento. Ele pensará somente aquilo que quiser pensar e não pensará aquilo que não quiser pensar. Ele cortou o desejo, rompeu os grilhões e penetrando completamente a presunção deu um fim ao sofrimento.” [6]

Isto foi o que o Abençoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abençoado

 


 

Notas:

[1] A mente superior, (adhicitta), é a mente com os 8 predicados adquiridos na meditação, (jhanas), e que são a base para o desenvolvimento do insight; tem a denominação de “superior“ porque está num plano superior em relação à mente sadia comum. Os cinco “sinais”, (nimittta), podem ser entendidos como métodos práticos para a remoção dos pensamentos que distraem. Eles devem ser utilizados apenas quando as distrações se tornarem persistentes e intrusas; em outras ocasiões o meditador deve permanecer com o seu sinal de meditação principal. [Retorna]

[2] Quando surgirem pensamentos sensuais em relação a outros seres vivos, o “outro sinal” é a atenção para a repulsa (veja MN 10.10); quando os pensamentos forem dirigidos a coisas inanimadas, o “outro sinal” é a atenção sobre a impermanência. Quando surgirem pensamentos de raiva em relação a outros seres vivos, o “outro sinal” é a meditação sobre o amor bondade, (metta ); quando forem dirigidos a objetos inanimados, o “outro sinal” é a atenção sobre os elementos (veja MN 10.12). O remédio para pensamentos correlacionados com a delusão é receber a orientação de um mestre, estudar o Dhamma, investigar o seu significado, escutar o Dhamma, investigar as suas causas. [Retorna]

[3] Este método está ilustrado pela reflexão do Bodisatva contida no MN 19. Trazendo para a mente o ultraje em relação aos pensamentos prejudiciais produz um sentimento de vergonha de cometer transgressões, (hiri); trazer para a mente as suas perigosas conseqüências estimula o temor de cometer transgressões, (ottappa). [Retorna]

[4] Vitakka-sankhara-santhanam. Neste caso sankhara significa condição, causa ou raiz e o composto significa “parando a causa do pensamento.” Isto se alcança pela investigação; quando um pensamento prejudicial surge: “Qual é a sua causa? Qual é a causa da causa?” etc.. Esse tipo de investigação irá reduzir a intensidade e por fim cessar por completo o fluxo de pensamentos prejudiciais. [Retorna]

[5] Ele deve subjugar o estado mental prejudicial com um estado mental benéfico. [Retorna]

[6] A presunção num nível mais sutil é a presunção de que “eu sou”, que permanece no contínuo da mente até atingir o estado de arahant. A “penetração da presunção”, (manabhisamaya), significa ver a presunção por dentro e abandoná-la, e ambos são alcançados com o caminho do arahant. O bhikkhu deu “um fim ao sofrimento” no sentido de que ele deu fim ao sofrimento do ciclo do samsara, (vattadukkha). [Retorna]

 

 

Revisado: 21 Janeiro 2006

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