Majjhima Nikaya 58

Abhaya Sutta

Para o Príncipe Abhaya

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Introdução (por Thanissaro Bhikkhu)

Neste discurso, o Buda mostra os fatores que decidem o que deve ser dito e o que não deve ser dito. Os principais fatores são três: se uma afirmação é verdadeira ou não, se é benéfica ou não e, se é agradável para os outros ou não. O próprio Buda afirmaria somente aquelas coisas que são verdadeiras e benéficas, e tinha uma noção do momento em que coisas agradáveis e desagradáveis deviam ser ditas. Observe que a possibilidade que uma afirmação sendo falsa possa no entanto ser benéfica não é considerada.

Este discurso também mostra, na prática, o ensinamento do Buda acerca dos quatro tipos de perguntas e como estas devem ser respondidas. O Príncipe lhe faz duas perguntas e em ambos os casos ele responde primeiro com uma contra pergunta, antes de dar uma resposta analítica à primeira pergunta e uma resposta categórica à segunda. Cada contra pergunta tem um duplo propósito: dar ao Príncipe um ponto de referência conhecido para entender a resposta que virá em seguida e também, para lhe dar a oportunidade de expressar o seu próprio entendimento e bons motivos. Isto também dá ao Príncipe a oportunidade de salvar sua honra após ter sido frustrado no seu desejo de superar o Buda na argumentação. O Comentário observa que o Príncipe havia colocado o seu filho pequeno no colo como um truque barato de alguém que irá participar de um debate: se o Buda o colocasse em uma posição desconfortável durante o debate, o Príncipe beliscaria o seu filho provocando o seu choro e dessa forma efetivamente pararia o debate. O Buda, no entanto, usa a presença da criança para remover qualquer noção de que haverá um debate e também para fazer uma observação eficaz. Tomando a idéia do Nigantha Nataputta de um objeto perigoso entalado na garganta, ele o aplica à criança, e então faz a observação de que, ao contrário dos Niganthas – que não veriam problema em deixar alguém com um objeto perigoso entalado na garganta – o desejo do Buda é de remover tais objetos, por compaixão. Dessa forma ele traz o Príncipe para o seu lado, convertendo um oponente em potencial em um discípulo.

Assim este discurso não é somente sobre linguagem correta mas também mostra a linguagem correta sendo empregada.

 


 

1. Assim ouvi. Em certa ocasião o Abençoado estava em Rajagaha, no Bambual, no Santuário dos Esquilos.

2. Então o Príncipe Abhaya [1] foi até o Nigantha Nataputta e depois de cumprimentá-lo sentou a um lado e o Nigantha Nataputta disse:

3. "Venha, Príncipe, refute as palavras do contemplativo Gotama, e este admirável relato a seu respeito irá se espalhar por grandes distâncias: 'A doutrina do contemplativo Gotama – que é tão forte e poderoso – foi refutada pelo Príncipe Abhaya!'"

"Mas como, venerável senhor, refutarei a sua doutrina?"

"Venha, Príncipe, vá até o contemplativo Gotama e chegando diga o seguinte: 'Venerável senhor, o Tathagata diria palavras que são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas?' Se o contemplativo Gotama, perguntado dessa forma, responder 'O Tathagata diria palavras que são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas,' então você diria, 'Então, venerável senhor, qual é a diferença entre você e as pessoas comuns? Pois as pessoas comuns também dizem palavras que são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas.’ Porém se o contemplativo Gotama, perguntado dessa forma, responder, 'O Tathagata não diria palavras que são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas,' então você diria, 'Então como, venerável senhor, você falou acerca de Devadatta que "Devadatta está destinado aos estados de privação, Devadatta está indo em direção ao inferno, Devadatta irá permanecer [no inferno] por um éon, Devadatta é incorrigível?" Pois Devadatta ficou zangado e insatisfeito com essas suas palavras.' Quando essa questão com duas pontas for colocada para o contemplativo Gotama, ele não terá como engoli-la ou cuspi-la. Tal como se uma pedaço de ferro com duas pontas ficasse entalado na garganta de um homem, ele não conseguiria engoli-lo ou cuspi-lo. Da mesma forma, quando essa questão com duas pontas for colocada para o contemplativo Gotama, ele não será capaz de engoli-la ou cuspi-la."

4. "Sim, venerável senhor," respondeu o Príncipe Abhaya. Então, ele levantou do seu assento, e depois de homenagear o Nigantha Nataputta, mantendo-o à sua direita, partiu e se dirigiu até o Abençoado. Depois de cumprimentá-lo, ele sentou a um lado, olhou para o Sol e pensou, "Hoje é muito tarde para refutar a doutrina do Abençoado. Amanhã na minha própria casa eu irei refutar a doutrina do Abençoado." Então ele disse para o Abençoado: "Venerável senhor, que o Abençoado, juntamente com outros três, aceite o meu convite para a refeição de amanhã." O Abençoado concordou em silêncio.

5. Então, sabendo que o Abençoado havia concordado, o Príncipe Abhaya levantou do seu assento, e depois de homenagear o Abençoado, mantendo-o à sua direita, partiu. Então, quando havia terminado a noite, ao amanhecer, o Abençoado se vestiu e carregando a sua tigela e o manto externo foi até a casa do Príncipe Abhaya, sentando num assento que havia sido preparado. Então, com as próprias mãos, o Príncipe Abhaya serviu e satisfez o Abençoado com vários tipos de boa comida. Em seguida, quando o Abençoado havia terminado de comer e retirado a mão da sua tigela, o Príncipe Abhaya sentou a um lado, num assento mais baixo, e disse para o Abençoado:

6. "Venerável senhor, um Tathagata diria palavras que são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas?"

"Príncipe, não existe uma resposta única para essa pergunta."

"Então, venerável senhor, neste caso os Niganthas perderam."

"Mas Príncipe, porque você diz isto: 'Então, venerável senhor, neste caso os Niganthas perderam'?" [2]

O Príncipe Abhaya então relatou ao Abençoado toda a conversa com o Nigantha Nataputta.

7.Agora, naquela ocasião um bebê menino estava deitado no colo do Príncipe com o rosto para cima. Então o Abençoado disse ao Príncipe, "O que você pensa, Príncipe: se enquanto você ou a ama-seca não estivessem prestando atenção, essa criança colocasse um graveto ou uma pedra na própria boca, o que você faria?"

"Eu o tiraria, venerável senhor. Se eu não conseguisse tirar com facilidade, então segurando a sua cabeça com a minha mão esquerda e curvando um dedo da mão direita, eu o tiraria, mesmo se com isso ele se machucasse. Por que isso? Porque eu tenho compaixão pelo jovem bebê."

8. "Da mesma forma, Príncipe: no caso de palavras que o Tathagata sabe que não correspondem aos fatos, não são verdadeiras, não são benéficas e que também são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas: essas palavras, ele não as diz. No caso de palavras que o Tathagata sabe que correspondem aos fatos, são verdadeiras, não são benéficas e que também são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas: essas palavras, ele não as diz. No caso de palavras que o Tathagata sabe que correspondem aos fatos, são verdadeiras, são benéficas, porém são antipáticas e desagradáveis para outras pessoas: o Tathagata tem a noção do momento mais apropriado para dizê-las.[3] No caso de palavras que o Tathagata sabe que não correspondem aos fatos, não são verdadeiras, não são benéficas, porém são simpáticas e agradáveis para outras pessoas: essas palavras ele não as diz. No caso de palavras que o Tathagata sabe que correspondem aos fatos, são verdadeiras, não são benéficas, porém são simpáticas e agradáveis para outras pessoas: essas palavras ele não as diz. No caso de palavras que o Tathagata sabe que correspondem aos fatos, são verdadeiras e benéficas e que também são simpáticas e agradáveis para outras pessoas: o Tathagata tem a noção do momento mais apropriado para dizê-las. Por que isso? Porque o Tathagata tem compaixão pelos seres vivos."

9. "Venerável senhor, quando nobres sábios, brâmanes sábios, chefes de família sábios e contemplativos sábios, tendo formulado uma questão procuram o Abençoado e lhe perguntam, o pensamento já está na mente do Abençoado - 'Se aqueles que me procuram perguntarem isto, eu – perguntado dessa forma – responderei assim' – ou o Tathagata encontra a resposta no momento?"

10. "Nesse caso, Príncipe, eu lhe farei uma contra pergunta. Responda como quiser. O que você pensa: você conhece bem as partes de uma carruagem?"

"Sim, venerável senhor, eu conheço bem as partes de uma carruagem."

"E o que você pensa, Príncipe? Quando as pessoas o procuram e perguntam: 'Qual é o nome desta parte da carruagem?' O pensamento já está na sua mente - 'Se aqueles que me procuram perguntarem isto, eu – perguntado dessa forma – responderei assim' – ou você encontra a resposta no momento?"

"Venerável senhor, eu sou famoso por conhecer bem todas as partes de uma carruagem. Todas as partes de uma carruagem me são bem familiares. Eu encontro a resposta no momento."

11. "Da mesma forma, Príncipe, quando nobres sábios, brâmanes sábios, chefes de família sábios e contemplativos sábios, tendo formulado uma questão procuram o Abençoado e lhe perguntam, ele encontra a resposta na hora. Por que isso? Porque o elemento natureza das coisas foi completamente penetrado pelo Tathagata, através dessa completa penetração, ele encontra as respostas no momento." [4]

12. Quando isso foi dito, o Príncipe Abhaya disse ao Abençoado: "Magnífico, venerável senhor! Magnífico, venerável senhor! O Abençoado esclareceu o Dhamma de várias formas, como se tivesse colocado em pé o que estava de cabeça para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para alguém que estivesse perdido ou segurasse uma lâmpada no escuro para aqueles que possuem visão pudessem ver as formas. Nós buscamos refúgio no Abençoado, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que a partir de hoje o Abençoado se recorde de mim como um discípulo leigo que nele buscou refúgio para o resto da sua vida."

 


 

Notas

[1] Príncipe Abhaya era filho do rei Bimbisara de Magadha, porém não era o herdeiro ao trono. [Retorna]

[2] Os dois lados do dilema propostos por Nigantha Nataputta assume que o Buda daria uma resposta única. Tendo a resposta única sido rejeitada, o dilema já não se aplica.[Retorna]

[3] O Buda não hesita em censurar e admoestar os seus discípulos quando ele vê que esse tipo de linguagem irá promover o bem deles. [Retorna]

[4] MA diz que dhammadhatu (“elemento natureza das coisas”) se refere ao conhecimento onisciente do Buda. Neste caso dhammadhatu não deve ser confundido com o mesmo termo que é usado para descrever o elemento objeto mental que é parte dos dezoito elementos, também não contém o significado de um princípio cósmico abrangente que esse termo adquire no Budismo Mahayana. [Retorna]

 

 

Revisado: 5 Novembro 2007

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