3. O Homem e a Natureza

 


 

Todos organismos vivos so compostos dos cinco khandhas (grupos): rupa ou forma material; vedana, sensao; saa, percepo; sankhara, formaes ou impulsos volitivos; e viana, conscincia. No existe um dono ou diretor dos khandhas, quer seja como parte deles ou no seu exterior. Em qualquer investigao da vida, os cinco khandhas so uma base suficientemente abrangente para realizar o trabalho. Os cinco khandhas prosseguem em conformidade com o princpio da Origem Dependente, existindo como parte do contnuo de fatores determinados inter-relacionados e interdependentes.

Nesse contexto, os cinco khandhas, ou vida, esto sujeitos s Trs Caractersticas: eles se encontram numa condio de aniccata impermanentes e instveis; anattata no possuem um eu ou essncia intrnseca; e dukkhata sendo constantemente oprimidos pela origem e cessao e prontos a causar o sofrimento sempre que com eles nos associemos por meio da ignorncia. Os cinco khandhas, prosseguindo dessa forma com mudanas constantes e livre de qualquer entidade intrnseca, esto sujeitos apenas ao fluxo contnuo natural dos fatores determinantes inter-relacionados. Mas para a maioria das pessoas, a resistncia ao fluxo resulta do apego equivocado a uma ou outra caracterstica desse contnuo como sendo o eu e do desejo que esse eu prossiga de um certo modo especfico. Quando as coisas no obedecem aos desejos, o estresse resultante causa frustrao e posteriormente um apego ainda mais intenso. A vaga noo da inevitabilidade da mudana nesse eu to querido, ou a suspeita de que ele possa na verdade no existir, fazem com que esse apego e desejo se tornem ainda mais desesperados, e o medo e a ansiedade fincam razes profundas na mente.

Os estados mentais so avijja a ignorncia da verdade, vendo as coisas como sendo o eu; tanha desejo de que esse eu imaginrio obtenha vrias coisas ou estados; e upadana - apego e adeso a essas idias equivocadas e tudo aquilo que elas implicam. Essas contaminaes esto arraigadas na mente, de onde elas dirigem o nosso comportamento, moldam a identidade e influenciam as mudanas de curso nas nossas vidas, tanto de modo explcito como velado. Em geral, essas so as causas do sofrimento para todos seres no iluminados.

Em essncia estamos lidando com a desarmonia entre dois processos:

1. O processo natural da vida, que prossegue de acordo com a lei fixa, natural, das trs Caractersticas. Estas so expressas atravs do nascimento (jati), envelhecimento (jara) e morte (marana), tanto no seu sentido mais bsico como no mais profundo.

2. O processo fabricado do desejo e apego, baseado na ignorncia da verdadeira natureza da vida, que provoca a percepo equivocada de, e um apego a, um eu criando um eu por meio do qual obstruir o fluxo da natureza. Essa uma vida limitada pela ignorncia, vivida com apego, em cativeiro, em contradio com a lei da Natureza e vivida com medo e sofrimento.

A vida, sob o ponto de vista da tica, pode-se dizer que compreende dois tipos de eu. Qualquer contnuo vital em particular, prosseguindo de acordo como o seu curso natural condicionado, embora despojado de uma essncia duradoura, pode apesar disso ser identificado como um contnuo distinto dos demais. Isso chamado de eu convencional e essa conveno pode ser empregada de forma hbil em relao conduta moral.

Depois existe o eu fabricado, produzido pela ignorncia e agarrado com fora pelo desejo e apego. O eu convencional no fonte de problemas quando entendido como tal, de forma clara. O eu fabricado, no entanto, oculto dentro do eu convencional, o eu do apego, que tem que se sujeitar s vicissitudes do primeiro eu e por isso produz o sofrimento. Em outras palavras, um processo em dois nveis: num nvel est o eu convencional, no outro nvel est o apego deludido ao eu convencional, como se este fosse uma realidade absoluta. Se o apego deludido se transformar em compreenso e entendimento, o problema ser solucionado.

Um modo de vida fundamentado no apego noo de um eu implanta medo e ansiedade de forma profunda na psique, de onde estes controlam o comportamento e escravizam a pessoa mundana inocente. Uma perspectiva de vida baseada no apego ao conceito de um eu traz muitas repercusses prejudiciais, tais como:

Apego a desejos egostas, (kamupadana), a busca interminvel pela satisfao destes e a sede ambiciosa pelos objetos do desejo;

A identificao e a aderncia inquebrantvel s idias (ditthupadana), avaliando-as como sendo o eu ou como pertencendo ao eu. como construir uma parede que obstrua a verdade ou mesmo fugir dela de forma completa. Esse tipo de apego produz uma deficincia na fluidez dos poderes de raciocnio e conduz arrogncia e intolerncia;

Apego a preceitos e rituais (silabbatupadana). Percebendo apenas uma relao mstica ou tnue em tais prticas, no se pode nunca estar verdadeiramente seguro delas, mas o medo e a preocupao com o eu fabricado produzem um esforo desesperado para se agarrar a qualquer coisa que possa servir como fonte de segurana, no importando quo mstica ou obscura esta seja;

A noo de um eu independente, (attavadupadana), que firmemente agarrada, mantida e protegida do dano ou destruio. O sofrimento ento surge como resultado das inquietaes postas sobre esse eu do apego oprimido.

Nesse contexto, o estresse e sofrimento surgem no somente no indivduo, mas tambm radiam para o exterior, para toda a sociedade. Assim, a condio do apego (upadana) pode ser identificada como a fonte principal de todos os problemas gerados pelo homem na sociedade.

O ciclo de Origem Dependente mostra a origem dessa vida estressante, auto-centrada, e o seu inevitvel resultar em sofrimento. Com o rompimento do ciclo, a vida estressante transformada completamente, resultando numa vida vivida com sabedoria, em harmonia com a natureza e libertada do apego a um eu.

Viver com sabedoria significa viver com a plena conscincia de como as coisas so e de saber como se beneficiar da natureza; beneficiar-se da natureza significa viver em harmonia com a natureza; viver em harmonia com a natureza viver com liberdade; viver com liberdade estar livre do poder do desejo e do apego; viver sem apego significa viver com sabedoria, entender e relacionar-se com as coisas por meio da compreenso do processo de causa e efeito.

De acordo com os ensinamentos do Buda, no existe nada que exista alm ou separado da natureza, quer seja como um poder mstico controlando os eventos do exterior, ou relacionado ou envolvido de alguma outra forma nas ocorrncias da natureza. Tudo aquilo que esteja associado com a natureza no pode ser separado da natureza, mas tem que ser um componente dela. Todos os eventos na natureza prosseguem de acordo com a orientao da inter-relao dos fenmenos naturais. No existem acidentes, nem existe uma fora criativa independente de causas. Eventos aparentemente impressionantes e miraculosos surgem inteiramente a partir de causas, mas como algumas vezes as causas esto obscurecidas do nosso conhecimento, esse eventos podem parecer miraculosos. No entanto, qualquer noo de perplexidade ou assombro desaparece com rapidez uma vez que a causa de tais eventos seja compreendida. A palavra sobrenatural simplesmente um artifcio de linguagem que se refere ao que excede a nossa compreenso naquele momento, mas na verdade no existe nada que seja verdadeiramente sobrenatural.

O mesmo se aplica nossa relao com a natureza. O modo de falar, que descreve os seres humanos como separados da natureza ou controlando a natureza, simplesmente um artifcio de linguagem. Os seres humanos so parte da natureza, no esto separados dela. Dizer que controlamos a natureza simplesmente quer dizer que nos tornamos fatores determinantes dentro do processo de causa e efeito. O elemento humano contm fatores mentais, incluindo a inteno, que esto envolvidos no processo de ao e resultado que juntos so conhecidos como criao. No entanto, a humanidade no capaz de criar algo a partir do nada, independente das causas naturais. Nosso assim chamado controle da natureza surge da nossa habilidade em reconhecer os fatores requeridos para produzir um resultado em particular e de saber como manipul-los.

Existem dois estgios nesse processo. O primeiro o conhecimento que leva ao segundo estgio, tornando-se um catalisador para os outros fatores. Desses dois estgios, o conhecimento o crucial. Atravs desse conhecimento, o homem capaz de utilizar e participar no processo de causa e efeito. Somente ao interagir e influenciar as coisas de modo sbio pode-se dizer que o homem controla a natureza. Neste caso, o conhecimento humano, as habilidades e as aes se tornam fatores adicionais dentro do processo natural.

Este princpio se aplica tanto aos fenmenos fsicos como aos mentais. A afirmao, beneficiar-se da natureza tambm viver em harmonia com a natureza, est baseada na realidade da natureza interdependente de ambos os fenmenos, fsicos e mentais. Poderamos dizer igualmente, controlando os aspectos mentais da natureza ou controlando a mente e isso tambm seria vlido. A sabedoria em relao tanto aos fenmenos fsicos como aos mentais essencial para que realmente se possa beneficiar da natureza.

Uma vida com sabedoria pode ser encarada sob duas perspectivas:

Interiormente, caracterizada pela serenidade, alegria, ateno e liberdade. Ao experimentar uma sensao agradvel a mente no embriagada ou deludida por ela. Quando privada de confortos, a mente permanece firme, inabalvel e imperturbvel. A felicidade e o sofrimento no esto mais empossados em objetos externos.

O nvel externo caracterizado pela fluncia, eficincia, flexibilidade e liberdade de complexos incmodos e deluses.

A seguir encontra-se um ensinamento do Buda que ilustra as diferenas entre a vida vivida com apego e a vida vivida com sabedoria:

Bhikkhus, uma pessoa comum sem instruo sente sensaes prazerosas, sente sensaes dolorosas, sente sensaes nem dolorosas, nem prazerosas. Um nobre discpulo bem instrudo tambm sente sensaes prazerosas, sente sensaes dolorosas, sente sensaes nem dolorosas, nem prazerosas. Ento, bhikkhus, qual a variao, qual a distino, qual a diferena que distingue o nobre discpulo bem instrudo de uma pessoa comum sem instruo?

Bhikkhus, quando a pessoa comum sem instruo tocada por uma sensao dolorosa, ela fica triste, angustiada e lamenta, bate no peito, chora e fica perturbada. Dessa maneira, ela sente duas dores, corporal e mental. Como se ela fosse atingida por uma flecha e, logo em seguida, fosse atingida por outra flecha, de modo que ela sentiria a sensao de dor de duas flechas. Da mesma forma, a pessoa comum sem instruo tocada por uma sensao dolorosa, ela fica triste, angustiada e lamenta, bate no peito, chora e fica perturbada. Dessa maneira ela sente duas dores, corporal e mental.

Ao ser tocada por essa mesma sensao dolorosa, ela sente averso pela sensao de dor. Sentindo averso pela sensao dolorosa, a tendncia subjacente averso aquilo que est por detrs disso. Ao ser tocada pela sensao dolorosa, ela busca prazer nos prazeres sensuais. Por qual razo? Porque a pessoa comum sem instruo no sabe como escapar das sensaes dolorosas, exceto atravs dos prazeres sensuais. Quando ela busca prazer nos prazeres sensuais, a tendncia subjacente ao desejo sensual aquilo que est por detrs disso. Ela no compreende como na verdade a origem e a cessao, a gratificao, o perigo e a escapatria dessas sensaes. Quando ela no compreende essas coisas, a tendncia subjacente ignorncia em relao sensao nem dolorosa, nem prazerosa aquilo que est por detrs disso.

Se ela sentir uma sensao prazerosa, ela sente isso com apego. Se ela sentir uma sensao dolorosa, ela sente isso com apego. Se ela sentir uma sensao nem dolorosa, nem prazerosa, ela sente isso com apego. Essa, bhikkhus, uma pessoa comum sem instruo que est apegada ao nascimento, envelhecimento, morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; ela est apegada ao sofrimento, eu digo.

Bhikkhus, quando um nobre discpulo bem instrudo tocado por uma sensao dolorosa, ele no fica triste, angustiado e lamenta, no bate no peito, chora e fica perturbado. Ele sente apenas uma sensao - corporal, no a sensao mental. Como se ele fosse atingido por uma flecha e, no fosse atingido por outra flecha, de modo que ele sentiria a sensao de dor de uma flecha s. Da mesma forma, um nobre discpulo bem instrudo tocado por uma sensao dolorosa, ele no fica triste, angustiado e lamenta, no bate no peito, chora e fica perturbado. Ele sente apenas uma sensao - corporal, no a sensao mental.

Ao ser tocado por essa mesma sensao dolorosa, ele no sente averso pela sensao de dor, a tendncia subjacente averso no est por detrs disso. Ao ser tocado pela sensao dolorosa, ele no busca prazer nos prazeres sensuais. Por qual razo? Porque o nobre discpulo bem instrudo sabe como escapar das sensaes dolorosas de outro modo que atravs dos prazeres sensuais. Visto que ele no busca prazer nos prazeres sensuais, a tendncia subjacente ao desejo sensual no est por detrs disso. Ele compreende como na verdade a origem e a cessao, a gratificao, o perigo e a escapatria dessas sensaes. Visto que ele compreende essas coisas, a tendncia subjacente ignorncia em relao sensao nem dolorosa, nem prazerosa no est por detrs disso.

Se ele sentir uma sensao prazerosa, ele sente isso desapegado. Se ele sentir uma sensao dolorosa, ele sente isso desapegado. Se ele sentir uma sensao nem dolorosa, nem prazerosa, ele sente isso desapegado. Esse, bhikkhus, um nobre discpulo bem instrudo que est desapegado do nascimento, envelhecimento, morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; ele est desapegado do sofrimento, eu digo.

Essa, bhikkhus, a distino, a disparidade, a diferena entre o nobre discpulo bem instrudo e a pessoa comum sem instruo. [SN.IV.207-210] (SNXXXVI.6)

 

Incio >> 2. Interpretando a Origem Dependente >> 4. O Formato Padro

 

 

Revisado: 20 Junho 2005

Copyright © 2000 - 2021, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flavio Maia: designer.