Jhanas, Concentrao e Sabedoria

Por

Ajaan Thanissaro

Somente para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser impresso para distribuio gratuita.
Este trabalho pode ser re-formatado e distribudo para uso em computadores e redes de computadores
contanto que nenhum custo seja cobrado pela distribuio ou uso.
De outra forma todos os direitos esto reservados.

 


 

Observamos que alguns dos grupos que fazem parte do conjunto das Asas do Despertar, (bodhi-pakkhiya-dhamma), indicam que jhana uma condio para a sabedoria, enquanto que outros indicam que a sabedoria uma condio para jhana. Se colocarmos essas duas asseres dentro do contexto da condicionalidade isto/aquilo, elas transmitiro a idia de que jhana e sabedoria na prtica se suportam mutuamente. O Dhammapada menciona este ponto de modo explcito:

No existe concentrao, (jhana), sem sabedoria, (paa), e no existe sabedoria sem concentrao. Aquele que tem ambos, concentrao e sabedoria, est mais prximo de Nibbana. (Dhp 372)

J o Samadhi Sutta (AN IV.94) e o Yuganaddha Sutta (AN IV.170) mostram que a diferena entre os dois padres causais est relacionada com diferenas entre os meditadores: alguns desenvolvem fortes poderes de concentrao antes de desenvolver a sabedoria, enquanto que outros obtm uma slida compreenso terica do Dhamma antes de desenvolver uma forte concentrao. Em ambos os casos, tanto a forte concentrao como a slida sabedoria so necessrias para concretizar o Despertar. O Mahasalayatanika Sutta (MN 149) assevera que quando a prtica atinge o cume do seu desenvolvimento, a concentrao e a sabedoria agem em combinao. Os pargrafos que seguem tratam deste tpico com mais detalhes.

O papel de jhana como condio para a sabedoria transcendente um dos temas mais controversos na tradio Theravada. Trs posies bsicas tm sido advogadas nos textos modernos. Uma, seguindo a tradio dos comentrios, afirma que jhana no necessrio para qualquer um dos quatro nveis do Despertar e que h uma classe de indivduos denominados meditadores de dry insight, (insight seco) que so libertados atravs da sabedoria apoiados num nvel de concentrao inferior ao jhana. Uma segunda posio, mencionando um texto do Cnone, (AN III.88), afirma que a maestria na concentrao obtida apenas no nvel de no retorno, e defende que jhana necessrio para alcanar os nveis de no retorno e Arahant, mas no para os primeiros nveis do Despertar. A terceira posio afirma que alcanar a realizao, pelo menos, do primeiro nvel de jhana essencial para todos os quatro nveis do Despertar.

A evidncia do Cnone suporta a terceira posio, mas no as outras duas. Tal como indicado no Mahacattarisaka Sutta (MN 117), a realizao do sotapanna, (aquele que entrou na correnteza), possui oito fatores, um dos quais a concentrao correta, definida como jhana. Na verdade, de acordo com esse discurso, jhana se encontra no ncleo do caminho do sotapanna. Em segundo lugar, no h nenhum trecho no Cnone que descreva o desenvolvimento da sabedoria transcendente sem pelo menos alguma habilidade relacionada a jhana. A afirmao de que a maestria na concentrao obtida apenas no nvel de no retorno deve ser interpretada luz da distino entre maestria e realizao. Um sotapanna pode haver alcanado jhana sem obter a completa maestria; a sabedoria desenvolvida no processo da obteno completa da maestria, na prtica de jhana, ir ento conduzir o meditador ao nvel de no retorno. Quanto ao termo libertados atravs da sabedoria, o Kitagiri Sutta (MN 70) mostra que isto se refere queles que se tornaram Arahants sem experimentar as realizaes imateriais, (jhanas imateriais). No denota algum que no tenha experimentado jhana.

Parte da controvrsia, com relao a essa questo, pode ser explicada pelo fato de que os comentrios definem jhana de uma forma que contm pouca semelhana com a descrio do Cnone. O Visudhimagga, (O Caminho para a Purificao) - que a pedra angular dos comentrios toma como paradigma, para a prtica da meditao, um mtodo denominado kasina, no qual o meditador fixa os olhos num objeto externo at que a imagem do objeto esteja estampada na mente dele. Essa imagem, ento, d origem a um contra-sinal que dito ser o indicador da realizao da concentrao de acesso, um preldio necessrio ao jhana. O texto, ento, tenta encaixar todos os demais mtodos de meditao dentro do molde da prtica com a kasina, de maneira que eles tambm dem origem a contra-sinais, mas o prprio texto admite que a meditao com a respirao no se encaixa bem nesse molde: com os demais mtodos, quanto mais forte for o foco da pessoa, mais vvido se tornar o objeto e mais prximo ele estar de produzir o contra-sinal; mas com a respirao, quanto mais forte for o foco da pessoa, mais difcil se tornar a deteco do objeto. Como resultado, o texto diz que apenas os Budas e os discpulos dos Budas vm na respirao um objeto apropriado para alcanar jhana.

Nenhuma dessas afirmaes encontra respaldo no Cnone. Embora a prtica chamada kasina seja mencionada de modo superficial em alguns dos discursos, o nico texto no qual ela descrita em algum nvel de detalhe, no Culasuata Sutta MN121, no faz meno fixao dos olhos num objeto e obteno de um contra-sinal. Se a meditao com base na respirao fosse apropriada apenas para os Budas e os seus discpulos, no haveria razo para o Buda t-la ensinado com tanta freqncia e para uma gama to variada de pessoas. Se a obteno de um contra-sinal fosse essencial para alcanar jhana, seria de se esperar que isso fosse includo nos passos da meditao baseada na respirao por meio dos smiles empregados para descrever jhana, mas esse no o caso. Alguns adeptos do Theravada insistem em que questionar os comentrios um sinal de desrespeito para com a tradio, mas parece ser um sinal de maior desrespeito para com o Buda ou com os escribas do Cnone ao assumir que ele, ou eles, deixaram de lado algo absolutamente essencial para a prtica.

Todos esses pontos parecem indicar que o significado de jhana nos comentrios algo completamente distinto daquilo que mencionado no Cnone. Devido a essa diferena, podemos afirmar que os comentrios esto certos em considerar o tipo de jhana que eles propem como desnecessrio para o Despertar, mas o Despertar no pode ser concretizado sem a realizao de jhana no sentido mencionado no Cnone.

No captulo anterior, fizemos um esboo de como jhana, no sentido referido pelo Cnone, pode agir como base para a sabedoria transcendente. Para recapitular: ao alcanar qualquer um dos primeiros sete nveis de jhana, o meditador se afasta ligeiramente do objeto de jhana entrando no quinto fator da nobre concentrao correta, (Samadhanga Sutta - AN V.28), para perceber como a mente se relaciona com o objeto. Ao fazer isso, o meditador observa o processo de causao enquanto este desempenha o seu papel de trazedor, trazendo a mente para o jhana, junto com os vrios elementos da fabricao mental necessrios para mant-la ali, (Dhatu-vibhanga Sutta MN 140). O Anupada Sutta MN 111 relaciona esses elementos num razovel nvel de detalhe. O fato de que esse discurso enfatiza as incrveis habilidades de Sariputta, o principal discpulo do Buda em relao sabedoria, significa que no necessrio que todos os meditadores percebam todos esses elementos em tal detalhe. O que essencial que o meditador desenvolva um senso de desapego em relao ao estado de jhana, vendo que mesmo a sensao relativamente estvel de refinado prazer e equanimidade proporcionada artificial e fruto da volio, inconstante e insatisfatria, (Dhatu-vibhanga Sutta MN 140), um estado fabricado de muitos eventos distintos e portanto, no merecendo que com ele nos identifiquemos. Jhana desse modo se torna um caso teste ideal para a compreenso das operaes de kamma e origem dependente na mente. A sua estabilidade proporciona ao discernimento uma base firme para ver com clareza; a refinada sensao de prazer e equanimidade permitem que a mente compreenda que mesmo os estados mundanos mais refinados envolvem a inconstncia e o estresse comum a todos os fenmenos frutos da volio. O Anuruddha Sutta (AN III.128) lista algumas aes verbais e mentais, que acompanham o exerccio de poderes supra-humanos, que podem ser vistas de forma semelhante, como tpicos a serem analisados para dar origem a um senso de desapego. O desapego que resulta em ambos os casos permite ao meditador experimentar o desaparecimento e a cessao das ltimas atividades restantes na mente, mesmo a prpria atividade do discernimento em si. Quando esse processo amadurece plenamente, ele conduz completa renncia, resultando na clara compreenso e libertao do Arahant.

Em contraste com o tema do papel de jhana como condio para a sabedoria, o papel da sabedoria como condio para jhana no apresenta controvrsias. A sabedoria auxilia jhana em dois nveis: mundano e transcendente. No nvel mundano, ela possibilita ao meditador a percepo dos vrios fatores que compem um determinado estado de jhana para que possa control-los e descartar os fatores que impedem o alcance de um nvel de jhana mais elevado. Isto novamente envolve a reflexo que constitui o quinto fator da nobre concentrao correta, mas neste caso os resultados se mantm no nvel mundano. Por exemplo, ao obter a maestria do primeiro nvel de jhana e refletindo sobre os elementos de estresse nele contidos, o meditador pode perceber que o pensamento aplicado e o pensamento sustentado devem ser abandonados porque se tornaram desnecessrios para manter a concentrao, exatamente como os moldes empregados para despejar o concreto se tornam desnecessrios depois que o correto endureceu. Ao abandonar esses fatores, o meditador ento passa para o segundo nvel de jhana. O Nibbana Sutta (AN IX.34) descreve os fatores que, em seqncia, so abandonados medida que se vai obtendo nveis cada vez mais elevados de concentrao.

Num nvel transcendente, a sabedoria que precipita o Despertar resulta num nvel de jhana supramundano chamado fruto do conhecimento, que descrito no Ananda Sutta (AN IX 37) um tipo de jhana independente de todas as percepes, (rtulos mentais), e processos baseados na volio, alm de todas as limitaes do cosmo, do tempo e do presente: o antegozo do Arahant, vivenciado nesta vida, o completo e absoluto Desatamento experimentado pela mente desperta aps a morte.

 


 

Extrado do: The Wings to Awakening, por Thanissaro Bhikkhu
Part III: The Basic Factors
F. Concentration and Discernment

 

 

Revisado: 10 Janeiro 2004

Copyright © 2000 - 2021, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flavio Maia: designer.