4. O Formato Padro

Contedo:

Os principais fatores

a. Ignorncia e desejo-apego

b. Formaes e ser/existir

c. Conscincia at sensaes; nascimento, envelhecimento e morte

 


 

O formato padro de apresentao do princpio da Origem Dependente bastante complexo, um tema mais para o especialista do que para o leitor casual, requerendo conhecimentos abrangentes de Budismo e um vocabulrio abrangente de termos em Pali para permitir a sua compreenso completa. Existem tambm escrituras dedicadas exclusivamente ao assunto. [3] Aqui irei resumir os fatores bsicos.

Os principais fatores[4]

Os principais fatores j foram mencionados no Captulo da Viso Geral da Origem Dependente, portanto aqui eles sero mencionados apenas de forma breve, mencionados primeiro no idioma Pali e seguidos das definies em Portugus:

Avijja => sankhara => viana => namarupa => salayatana => phassa => vedana => tanha => upadana => bhava => jati => jaramarana ...soka parideva dukkha domanassa upayasa => Dukkha samudaya.

Ignorncia => formaes => conscincia => mentalidade-materialidade (nome e forma) => seis bases dos sentidos => contato => sensao => desejo => apego => ser/existir => nascimento => envelhecimento e morte ... tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero => A origem do sofrimento.

A seqncia da cessao prossegue de acordo com os mesmos ttulos.

Como o princpio da Origem Dependente revolve sob a forma de um ciclo, sem incio e sem fim, uma forma de representao mais acurada est demonstrada na figura abaixo.


1. Avijja = Desconhecimento ou ignorncia de dukkha, sua causa, sua cessao e o caminho que conduz sua cessao (as Quatro Nobres Verdades); e de acordo com o Abhidhamma, desconhecer o que ocorreu antes (o passado), o que vir depois (o futuro), o que ocorreu tanto antes como depois, (o passado e o futuro), e o princpio da Origem Dependente.

2. Sankhara = Formaes ou Impulsos Volitivos: formaes corporais ou aes intencionais; formaes verbais ou linguagem intencional; formaes mentais ou pensamentos [5]; e de acordo com o Abhidhamma: formaes meritrias ou kamma bom, (puabhisankhara), formaes no meritrias ou kamma ruim, (apuabhisankhara), e formaes fixas ou inamovveis ou kamma meritrio especial, (anejabhisankhara).

3. Viana = Conscincia atravs do olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente, (incluindo a conscincia de renascimento ou religao, patisandhi viana). (As seis conscincias).

4. Namarupa = Mentalidade-materialidade (nome e forma): nama, (nome ou mente): sensao, percepo, inteno, contato, ateno, ou de acordo com o Abhidhamma: os khandhas da sensao, percepo e formaes; e rupa, (forma ou materialidade): os quatro elementos, terra, gua, fogo e ar e todos os elementos derivados destes.

5. Salayatana = Os seis meios ou bases dos sentidos: olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente.

6. Phassa = Choque ou contato: contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na lngua, contato no corpo contato na mente.[6]

7. Vedana = Sensaes (de prazer, dor e indiferentes) que surgem do contato no olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente. [7]

8. Tanha = Desejo por vises; desejo por sons; desejo por aromas; desejo por sabores; desejo por sensaes corporais; desejo por objetos mentais: os seis desejos. [8]

9. Upadana = Apego a objetos sensuais, (kamupadana), isto , vises, sons, aromas, sabores e sensaes corporais; apego a idias, (ditthupadana); apego a preceitos e rituais, (silabbatupadana); apego idia de um eu, (attavadupadana).

10. Bhava = Ser/existir, as condies que levam ao nascimento; tambm os reinos de existncia: o reino sensual, (kamabhava); o reino da matria sutil, (rupabhava); o reino imaterial, (arupabhava).

Uma definio alternativa: Kammabhava, o plano da ao, ou aes que condicionam o renascimento: aes meritrias, (puabhisankhara); aes demeritrias, (apuabhisankhara); aes imperturbveis, (anejabhisankhara); e Upapattibhava, os reinos de renascimento: o reino sensual; o reino da matria sutil; o reino imaterial.

11. Jati = Nascimento, o surgimento dos khandhas e das bases dos sentidos, nascimento; o aparecimento ou origem das coisas [9].

12. Jaramarana = Envelhecimento e morte: jara: o processo de envelhecimento, a diminuio das faculdades; e marana: a desintegrao dos khandhas, a dissoluo do princpio vital, morte; ou como alternativa a dissipao e dissoluo dos fenmenos. [10]

A seguir encontram-se alguns exemplos:

(Asava) =>Avijja Ignorncia: Acreditar que exatamente este eu ir renascer em vrios estados devido a certas aes em particular; que aps a morte no h nada; que a vida um processo aleatrio no qual as aes boas ou ms no produzem nenhum fruto; que simplesmente aderindo a uma certa religio a pessoa estar salva de forma automtica; que a riqueza material ir trazer a verdadeira felicidade ... E disto ...

=> Sankhara Formaes: Pensar e intencionar de acordo com essas crenas; considerar e planejar aes, (kamma), de acordo como essas intenes, algumas boas, algumas ms e algumas neutras. E disto

=> Viana Conscincia: a percepo e conscincia das sensaes que estaro relacionadas com intenes determinadas. A mente ou conscincia configurada de certas qualidades especficas atravs da inteno. Na morte, o momentum dos formaes propulsionados pela lei de kamma, induzem a conscincia de religao, (patisandhi vnana), assim moldada a assumir uma esfera de renascimento e nvel de existncia que lhe seja adequada. Isto o renascimento. E disto

=> Namarupa Mentalidade-materialidade (nome e forma): O processo de renascimento prossegue para criar uma forma de vida pronta para gerar mais kamma. Como resultado, surgem os khandhas rupa, vedana, saa e sankhara na sua totalidade, completos com suas qualidades e defeitos distintos que lhes foram providos por meio da influncia modeladora das condies ou kamma e restringidos pelas limitaes daquela esfera de existncia em particular, (bhava), quer seja humana, animal, divina, etc.

=> Salayatana As seis bases dos sentidos: Um ser senciente tem que ter os meios para se comunicar com o seu meio ambiente para poder funcionar e se desenvolver dentro dele. Dessa forma, suportado pelo corpo e mente e em conformidade com o momentum do kamma, o organismo prossegue no desenvolvimento das seis bases dos sentidos, os rgos dos sentidos do olho, nariz, ouvido, lngua, corpo e mente. E disto

=> Phassa - Contato: O processo da conscincia agora opera atravss do contato ou choque de trs fatores. Eles so: o rgo do sentido interno (olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente), o objeto do sentido externo, (vises, sons, aromas, sabores, sensaes corporais e objetos mentais), e a conscincia, (conscincia no olho, conscincia no ouvido, conscincia no nariz, conscincia na lngua, conscincia nas sensaes tangveis e conscincia na mente). Na dependncia desse contato. Ir ocorrer

=> Vedana Sensao: as sensaes ou o reconhecimento das qualidades dos contatos sensuais, quer sejam agradveis, (sukhavedana sensaes prazerosas); desagradveis ou dolorosas, (dukkhavedana sensaes desprazerosas); ou indiferentes, equanimidade, (adukkhamasukha-vedana sensao neutra; ou upekkhavedana sensao equnime). De acordo com a natureza dos seres no iluminados, o processo no para aqui, mas segue para

=> Tanha Desejo: Sensaes agradveis tendem a produzir a alegria e o prazer, desejo e busca por mais sensaes agradveis; quanto s sensaes estressantes ou desagradveis existe o desprazer, o desejo de destru-las ou elimin-las. A sensao neutra neste contexto considerada como uma forma sutil de sensao prazerosa porque ela no perturba a mente e evoca um certo contentamento. E disto

=> Upadana Apego: medida que o desejo se intensifica, ele se transforma no agarramento ou apego ao objeto em questo. Enquanto um objeto ainda no tiver sido alcanado, haver desejo; assim que o objeto for alcanado, ele ser agarrado com firmeza pelo apego. Isso se refere no somente aos objetos sensuais, (kamupadana), mas tambm a idias e opinies, (ditthupadana), mtodos de prtica ou tcnicas, (silabbatupadana), e a idia de um eu, (attavadupadana). Por conta desse apego segue-se

=> Bhava Ser/existir: inteno e ao deliberada para produzir e controlar as coisas de acordo com as diretrizes do apego, levando a mais um ciclo de todo o processo de conduta, (kammabhava), sendo kamma bom, kamma ruim ou kamma neutro, dependendo das qualidades do desejo e apego que os condicionaram. Por exemplo, algum que deseje renascer no paraso ir fazer aquelas coisas que cr iro conduz-lo ao renascimento no paraso, dessa forma assentando a base para que os cinco khandhas reapaream no plano, (bhava), apropriado quelas aes, (kamma), (upapattibhava). Com o processo de criao de kamma em plena operao, este elo d origem ao seguinte, que ...

=> Jati Nascimento: comea com a conscincia de religao, a qual dotada de caractersticas que dependem do momentum do kamma, e conecta com um estado que lhe apropriado; os cinco khandhas surgem em um novo contnuo vital, compreendendo, mentalidade-materialidade (nome e forma), as seis bases dos sentidos, contato e sensao. Quando h o nascimento, o que segue de forma inevitvel

=> Jaramarana Envelhecimento e morte: a decadncia e dissoluo daquele contnuo vital. Para o ser no iluminado essas coisas esto a cada instante ameaando a vida de forma explcita ou dissimulada. Portanto, na vida do ser no iluminado, a velhice e a morte trazem consigo de forma inevitvel

=> Soka - tristeza; parideva - lamentao; ddukkha dor; domanassa angstia e upayasa desespero, que no seu conjunto podem ser resumidas simplesmente como sofrimento. Dessa forma temos as palavras finais da frmula do princpio da Origem Dependente: Assim a origem de toda essa massa de sofrimento.

No entanto, como o princpio da Origem Dependente funciona como um ciclo, ele no para por a. O ltimo fator se torna um elo crucial na continuao do ciclo. De modo mais especfico, a tristeza, lamentao e assim por diante so todos manifestaes das impurezas. Essas impurezas so quatro em nmero, isto : a preocupao com a satisfao dos desejos dos cinco sentidos, (kamasava); apego a idias e crenas, num exemplo em que o corpo um eu ou pertence a um eu, (ditthasava); desejo por vrios estados de ser e a aspirao de alcan-los e mant-los, (bhavasava); e a ignorncia em relao ao modo como as coisas so, (avijjasava).

O envelhecimento e a morte causam um efeito inflamatrio nas impurezas: em relao a kamasava, eles causam sentimentos de separao das pessoas amadas e estimadas; em relao a ditthasava, eles confrontam a crena inata no eu e o apego ao corpo; em relao a bhavasava, eles significam a separao de estados de ser muito queridos; em relao a avijjasava, a ausncia de compreenso no nvel fundamental, (tal como no compreender a natureza da vida, envelhecimento e morte e como devemos nos relacionar com isso), o envelhecimento e a morte fazem com que o ser no iluminado experimente medo, melancolia, desespero e o apego a supersties. Essas impurezas so, portanto, os fatores determinantes para que tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero surjam assim que o envelhecimento e a morte apaream.

A tristeza e o sofrimento influenciam a mente de forma negativa. Sempre que o sofrimento surge, a mente fica confusa e embaralhada. O surgimento do sofrimento portanto proporcional ao surgimento da ignorncia, tal como mencionado no Visuddhimagga (Vism):

Tristeza, dor, angstia e desespero so inseparveis da ignorncia e a lamentao a norma para o ser deludido. Por essa razo, quando a tristeza est completamente manifestada, assim tambm a ignorncia est completamente manifestada. [Vism.576]

* * *

Quanto ignorncia, saiba que ela surge da tristeza... [Vism.577]

* * *

A ignorncia est presente enquanto a tristeza estiver presente. [Vism.529]

* * *

Com o surgimento das impurezas existe o surgimento da ignorncia. [MN.I.54] (MN 9)

Portanto, pode-se dizer que para o ser no iluminado, o envelhecimento e morte, junto com o seu squito tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero so fatores para produzir mais ignorncia, dessa forma girando o ciclo mais uma vez.

O ciclo da Origem Dependente tambm conhecido como a Roda do Ser/existir, (bhavacakka), ou Roda do Samsara. Esse modelo abrange trs vidas a ignorncia e as formaes esto numa vida, a conscincia at o ser/existir numa segunda vida, enquanto que o envelhecimento e morte (com tristeza, lamentao e assim por diante) em uma terceira. Tomando a vida intermediria como sendo a presente, podemos dividir os trs perodos de vida, com o conjunto completo dos doze elos do ciclo da Origem Dependente, em trs perodos de tempo da seguinte forma:

1. Vida Passada Ignorncia, formaes

2. Vida Presente Conscincia, mentalidade-materialidade (nome e forma), bases dos sentidos, contato, sensao, desejo, apego, ser/existir.

3. Vida Futura Nascimento, envelhecimento e morte (tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero).

Dentre esses trs perodos, o perodo do meio, o presente, a nossa base. Sob essa perspectiva, vemos a relao do perodo passado como sendo puramente causal, isto , resultados no presente so derivados de causas do passado (causas do passado => resultados no presente), enquanto que o perodo futuro mostra especficamente resultados que se estendem de causas no presente para resultados no futuro (causas no presente => resultados no futuro). Assim o perodo do meio, o presente, contm ambas as condies, causais e resultantes. Podemos agora descrever o ciclo completo em quatro sees:

1. Causa Passada = Ignorncia, formaes.

2. Resultado Presente = Conscincia, mentalidade-materialidade (nome e forma), bases dos sentidos, contato, sensao.

3. Causa Presente = Desejo, apego, ser/existir.

4. Resultado Futuro = Nascimento, envelhecimento, morte (tristeza, lamentao, etc.)

Alguns dos elos nesse ciclo possuem significados que se correlacionam e eles podem ser agrupados da seguinte forma:

a. Ignorncia e desejo-apego

Da descrio da ignorncia, (avijja), parece que o desejo, (tanha), e o apego, (upadana), esto envolvidos, especialmente o apego ao eu, que est presente em todos momentos. No compreender a verdade da vida, e acreditar de forma equivocada num eu, conduz ao desejo em nome desse eu, junto com as suas formas variadas de apego. Nas palavras Com o surgimento das impurezas existe o surgimento da ignorncia, kamasava, (a impureza do desejo sensual), bhavasava, (a impureza do desejo por ser), e ditthasava, (a impureza do apego a idias), so todos tipos de desejo e apego. Portanto, ao falar da ignorncia, o significado sempre inclui o desejo e o apego.

O mesmo se aplica a todas as descries do desejo e do apego a ignorncia est sempre conectada com eles. A premissa deludida de que as condies so entidades reais o fator determinante para que o desejo e o apego surjam. Quanto mais desejo e apego houver, mais o discernimento ser colocado de lado e a ateno plena e o comportamento racional sero comprometidos. Portanto, ao falar do desejo e do apego, a ignorncia est implcita de forma automtica.

Sob essa perspectiva, a ignorncia como causa do passado e o desejo e apego como causas no presente, significam em grande parte a mesma coisa. Mas a ignorncia classificada como um fator determinante do passado, enquanto que o desejo e o apego so classificados como fatores determinantes no presente para mostrar cada um desses fatores na sua relao proeminente com os demais fatores na Roda do Ser/existir.

b. Formaes e ser/existir

Formaes, (sankhara), aparecem no segmento da vida passada enquanto que ser/existir, (bhava), ocorre no segmento da vida presente, mas cada um desempenha um papel decisivo no reino, ou bhava, no qual a vida ir aparecer, e dessa forma eles possuem significados similares, diferindo apenas em termos de nfase. Sankhara se refere especificamente ao fator da inteno, (cetana), que o fator predominante na criao de kamma. Bhava tem um significado mais amplo, incorporando ambos, kammabhava e upapattibhava. Kammabhava, como sankhara, tem a inteno como principal fora motivadora, mas difere de sankhara ao abranger o processo completo de gerao das aes. Upapattibhava se refere aos cinco khandhas que surgem como resultado de kammabhava.

c. Conscincia at sensaes; nascimento, envelhecimento e morte

O segmento do ciclo da conscincia at as sensaes a vida presente, descrita ponto por ponto para esclarecer as relaes de causa e efeito dos fatores envolvidos. Nascimento, juntamente com envelhecimento e morte, so resultados futuros. O ciclo nesse ponto nos diz que as causas no presente precisam gerar resultados no futuro, neste caso envelhecimento e morte. Esta uma repetio, em forma condensada, do segmento do ciclo da conscincia at sensaes, enfatizando a origem e a cessao do sofrimento. Envelhecimento e morte tambm atuam como pontos de conexo para um novo ciclo. Pode ser dito, no entanto, que os segmentos da conscincia at sensaes e do nascimento at envelhecimento e morte, so praticamente sinnimos.

Com isso em mente, os quatro estgios de causa e efeito podem ser divididos assim:

1. Cinco Causas Passadas: Ignorncia, formaes, desejo, apego, ser/existir.

2. Cinco Resultados Presentes: Conscincia, mentalidade-materialidade (nome e forma), bases dos sentidos, contato, sensao (= nascimento, envelhecimento e morte).

3. Cinco Causas Presentes: Ignorncia, formaes, desejo, apego, ser/existir.

4. Cinco Resultados Futuros: Conscincia, mentalidade-materialidade (nome e forma), bases dos sentidos, contato, sensao (= nascimento, envelhecimento e morte).

Devido relao entre os doze elos do ciclo da Origem Dependente, eles podem ser divididos em trs grupos, chamados vatta [11], ou ciclos.

1. Ignorncia-desejo-apego, (avijja-tanha-upadana) Essas so kilesa (contaminaes), as foras que incitam os vrios tipos de pensamentos e aes deludidas. Esta seo por conseqncia chamada de kilesavatta.

2. Formaes (sankhara e as aes que condicionam o renascimento ([ kamma-] bhava) Esses so kamma, o processo das aes baseadas nas kilesa que condicionam a vida. Este segmento chamado de kammavatta.

3. Conscincia, mentalidade-materialidade (nome e forma), seis bases dos sentidos, contato, sensao (viana, namarupa, salayatana, phassa, vedana) Esses so vipaka, os eventos da vida que resultam dos efeitos de kamma. Vipaka ento se tornam alimento para as kilesa, que por seu turno se tornam causa para a criao de mais kamma. Assim, este segmento chamado vipakavatta.

Esses trs vatta esto de forma contnua impulsionando uns aos outros em torno do ciclo da vida. Atravs de um diagrama, eles podem ser representados como mostrado a seguir:


 


Como as contaminaes (kilesa) so as principais motivadoras das condies da vida, elas esto posicionadas no ponto inicial do ciclo. Dessa forma, podemos distinguir dois pontos iniciais, ou agentes de ativao, na roda da vida:

1. A ignorncia o agente do passado que influencia o presente at a sensao.

2. Desejo o agente no presente, estendendo o ciclo da sensao para o futuro, envelhecimento e morte.

A razo pela qual a ignorncia aparece na primeira seo enquanto que o desejo aparece na ltima que a ignorncia segue depois de tristeza, lamentao e assim por diante, enquanto que o desejo segue depois da sensao. A ignorncia e o desejo so as contaminaes predominantes em cada caso respectivamente.

Este modelo do ciclo da Origem Dependente faz as seguintes distines na forma como o renascimento ocorre, dependendo de se o fator decisivo for a ignorncia ou o desejo (por ser):

A ignorncia a causa principal de nascimento nos estados miserveis, porque a mente envolvida pela ignorncia incapaz de distinguir entre o bem e o mal, certo e errado, benfico e prejudicial. Como resultado no existe um padro de comportamento, as aes so aleatrias e existe maior probabilidade que o resultado seja o kamma ruim do que o kamma bom.

Desejo por existir, (bhavatanha), tem maior probabilidade de resultar num nascimento em estados prazerosos. Quando esta for a fora motivadora, existir a aspirao por uma melhor situao de vida. Quanto a existncias futuras, o desejo poder ser pelo renascimento num plano divino ou celestial. No que diz respeito existncia presente, a aspirao pode ser pela riqueza, fama ou reputao. As aes seguem a partir dessas aspiraes iniciais. Se a aspirao for pelo renascimento num estado divino, poder envolver o desenvolvimento de estados meditativos refinados; se a aspirao for pelo renascimento num plano celestial, ento poder envolver a observao de preceitos morais e a realizao de aes generosas; se a aspirao for pela riqueza, ento seguir a diligncia requerida para esse fim; se a aspirao for por uma boa reputao, ento haver a realizao de boas aes para ajudar os outros e assim por diante. Todas essas aes tm que estar baseadas em uma certa medida de auto-disciplina, dedicao e diligncia. Como resultado, as boas aes tm maior probabilidade de surgir do que no caso de uma vida vivida sob o controle exclusivo da ignorncia.

Embora a ignorncia e o desejo por ser tenham sido colocados como pontos iniciais no ciclo, eles no so os principais responsveis pela sua movimentao. Isso est expresso nas palavras do Buda:

Nenhum incio pode ser encontrado, bhikkhus, para a ignorncia, desta forma: Antes deste ponto no havia ignorncia, mas ento ela surgiu. Nesse caso, apenas pode ser dito, Na dependncia disso, surge a ignorncia.[12]

Existem palavras similares para bhavatanha.[13]

Que a ignorncia e o desejo so fatores determinantes significativos e que surgem em conjunto no processo da Origem Dependente est expresso na seguinte afirmao:

Bhikkhus, para o sbio (e para o tolo), obstrudo pela ignorncia e aprisionado pelo desejo, este corpo surgiu. Agora, existem ambos, este corpo e a mentalidade-materialidade (nome e forma) externa. Aqui, na dependncia dessa dualidade, existe o contato nas seis bases. H apenas seis bases, atravs das quais pelo contato o sbio ( e o tolo) se torna sensvel ao prazer e dor.[SN.II.23] (SN.XII.19)

Em conjunto com as explicaes acima, as representaes esquemticas abaixo podero ser de utilidade: 

 


+


 


 

Incio >> 3. O Homem e a Natureza >> 5. Outras Interpretaes

 


 

Notas:

[3] Veja Paccayakara-vibhanga, Vbh.135ff.; Vism.517-586; Vbh.A.130-213; Abhidhammattha-sangaha, Captulo 8. [Retorna]

[4] Para referncia das descries a seguir, veja o SN.II.2-4; Vbh.135; para o comentrio veja o Vism.517-586; Vbh.A.130-213. [Retorna]

[5] Pubbanta-aparanta-pubbantaparanta: o passado, o futuro, e ambos, o passado e o futuro. [Retorna]

[6] Phassa significa contato que o encontro do rgo do sentido com o objeto do sentido e com a conscincia. [Retorna]

[7] Vedana tambm pode ser classificada em trs tipos: prazerosa, no prazerosa ou nem prazerosa, nem no prazerosa; ou em cinco tipos: sensao corporal prazerosa, sensao corporal no prazerosa, sensao mental prazerosa, sensao mental no prazerosa e sensao neutra ou indiferente. [Retorna]

[8] O desejo tambm pode ser classificado em trs tipos: desejo sensual, desejo por ser e desejo por no ser ou pela aniquilao. Quando esses trs so multiplicados pelo nmero das bases dos sentidos, (seis), temos dezoito; quando esse resultado novamente multiplicado por dois, (interno e externo), temos trinta e seis; quando esse resultado novamente multiplicado por trs, (passado, presente e futuro), o resultado equivale ao total de 108 tipos de desejo: MN.59. [Retorna]

[9] Vbh.145,159,191. Esta ltima interpretao usada para explicar o ciclo da Origem Dependente em um momento mental. [Retorna]

[10] Idem nota 9. [Retorna]

[11] Os trs vatta provm dos Comentrios. Eles explicam o princpio da Origem Dependente de uma forma bastante simplificada: quando h kilesa, tal como um desejo de obter algo, este seguido por kamma, a ao para obter aquilo, e vipaka, a sensao agradvel resultante ao obter aquilo ou a sensao desagradvel por no obter aquilo. A sensao agradvel ou desagradvel causa o surgimento de mais kilesa, mais desejo e averso, que por seu turno gera mais aes, kamma, conduzindo a um diferente tipo de vipaka e assim por diante [Retorna]

[12] Vism.525; a ignorncia alimentada pelos cinco obstculos. [Retorna]

[13] Vism.525; o desejo por ser alimentado pela ignorncia. [Retorna]

 

 

Revisado: 4 Setembro 2004

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