5. Outras Interpretaes

Contedo:

Definio preliminar

Como os elos se conectam

Exemplos

Um exemplo da Origem Dependente na vida cotidiana

 


 

A descrio da Origem Dependente dada no captulo anterior aquela encontrada com mais freqncia nas escrituras e comentrios. Ela busca explicar a Origem Dependente como samsaravatta, o ciclo de renascimentos, mostrando as conexes entre trs vidas o passado, o presente e o futuro.

Aqueles que no concordarem com essa interpretao, ou que preferirem algo mais imediato, podero encontrar outras alternativas no s no Abhidhamma Pitaka, onde o princpio da Origem Dependente mostrado na sua totalidade em um momento mental, como tambm podero interpretar as mesmas palavras do Buda empregadas para sustentar o modelo padro sob um ngulo distinto, proporcionando um quadro bastante diferente do princpio da Origem Dependente, algo que defendido pelos ensinamentos e referncias textuais de outras fontes.

Os argumentos empregados para defender tais interpretaes so muitos. Por exemplo, o conhecimento direto do fim do sofrimento e a vida sem aflies do Arahant so estados que podem surgir nesta presente vida. No necessrio morrer antes de realizar a cessao do nascimento, envelhecimento e morte e do mesmo modo com a tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero. Essas coisas podem ser superadas nesta mesma vida. O ciclo todo da Origem Dependente, tanto na origem do sofrimento como na sua cessao, diz respeito vida presente. Se o ciclo puder ser claramente compreendido da forma como opera no presente, conseqentemente o passado e o futuro tambm sero compreendidos de forma clara, porque eles so todos parte do mesmo ciclo.

Como referncia, considere as palavras do Buda:

Udayin, se algum fosse recordar as suas muitas vidas passadas, isto , um nascimento, dois nascimentos... assim, nos seus modos e detalhes, se ele se recordasse das suas muitas vidas passadas, ento um dos dois, ou ele me perguntaria uma questo sobre o passado, ou eu poderia perguntar-lhe uma questo sobre o passado, e ele poderia satisfazer a minha mente com a resposta minha questo ou eu poderia satisfazer a mente dele com a minha resposta questo dele. Se algum por meio do olho divino, que purificado e sobrepuja o humano, v seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados... e compreende como os seres continuam de acordo com as suas aes, ento um dos dois, ou ele me perguntaria uma questo sobre o futuro, ou eu poderia perguntar a ele uma questo sobre o futuro, e ele poderia satisfazer a minha mente com a resposta minha questo ou eu poderia satisfazer a mente dele com a minha resposta questo dele. Mas deixemos de lado o passado, Udayin, deixemos de lado o futuro. Eu lhe ensinarei o Dhamma: Quando existe isso, aquilo existe; Com o surgimento disso, aquilo surge. Quando no existe isso, aquilo tambm no existe; Com a cessao disto, aquilo cessa. [M.II.31](MN 79)

* * *

Ento, o chefe tribal Bhadraka foi at o Abenoado e depois de cumpriment-lo sentou a um lado e disse: "Seria bom, venervel senhor, se o Abenoado me ensinasse sobre a origem e a cessao do sofrimento."

O Abenoado respondeu, Chefe tribal, se eu lhe ensinasse a origem e a cessao do sofrimento referindo-me ao passado assim, assim era no passado, a dvida e a perplexidade surgiriam em voc por conta disso. Se eu lhe ensinasse a origem e a cessao do sofrimento referindo-me ao futuro assim, assim ser no futuro, a dvida e a perplexidade surgiriam em voc por conta disso. Ao invs disso, chefe tribal, enquanto estou sentado exatamente aqui, e voc est sentado exatamente a, eu lhe ensinarei a origem e a cessao do sofrimento." [SN.IV.327] (SN XLII.11)

* * *

Produzidas por distrbios da blis, Sivaka, surgem certos tipos de sensaes. Que isso acontece, pode ser compreendido pela prpria pessoa e tambm no mundo aceito como verdadeiro. Produzidas por distrbios da fleuma ... dos ventos ... de um desequilbrio [dos trs] ... pela mudana de clima .. pelo comportamento descuidado ... pela violncia ... pelos resultados de Kamma por meio de tudo isso, Sivaka, surgem certos tipos de sensaes. Que isso acontece, pode ser compreendido pela prpria pessoa e tambm no mundo aceito como verdadeiro.

Agora quando esses contemplativos e brmanes possuem esta doutrina e entendimento: Tudo aquilo que uma pessoa experimentar, quer seja prazer, dor ou nem prazer, nem dor, tudo causado pelas aes passadas, ento eles vo alm daquilo que conhecem por si mesmos e daquilo que aceito no mundo como verdadeiro. Portanto, eu digo que esses contemplativos e brmanes esto equivocados. [SN.IV.230](SN.XXXVI.21)

* * *

Bhikkhus, aquilo que algum intenciona, aquilo que algum planeja, e qualquer coisa pela qual algum tenha preferncia: isto se torna uma base para a manuteno da conscincia. Quando h uma base, haver um suporte para o estabelecimento da conscincia. Quando a conscincia se estabelece e cresce, h a produo de uma renovada existncia futura. Quando h a produo de uma renovada existncia futura, o futuro nascimento, e morte, lamentao, dor, angstia e desespero surgem. Essa a origem de toda essa massa de sofrimento. [SN.II.65] (SN XII.38)

Embora esta interpretao do princpio da Origem Dependente deva ser entendida pelo que ela , apesar disso no descartamos a forma estabelecida pelo modelo padro. Ento, antes de explorar o seu significado deveramos primeiro reiterar o modelo padro, adaptando as definies de acordo com esta interpretao.

Definio preliminar

1. Ignorncia ignorncia da verdade, ou das coisas como elas so; estar deludido pelas realidades nominais; a ignorncia que est por detrs das crenas; falta de sabedoria; inabilidade em compreender o ciclo de causa e efeito.

2. Formaes atividades mentais, inteno deliberada, inteno e deciso e a sua gerao de aes; a organizao da maneira de pensar de acordo com hbitos acumulados, habilidades, preferncias e crenas; o condicionamento da mente e da maneira de pensar.

3. Conscincia a conscincia das sensaes, isto : viso, audio, olfato, paladar, toque e cognio, o estado bsico da mente de momento a momento.

4. Mentalidade-materialidade (nome e forma) (o organismo animado) a presena da corporalidade e mentalidade como parte da conscincia; o estado de coordenao entre o corpo e a mente para que funcionem de acordo com o fluxo da conscincia; as mudanas corporais e mentais como resultado dos estados mentais.

5. As seis bases do sentidos o funcionamento dos meios dos sentidos.

6. Contato o ponto de contato entre a conscincia e o mundo externo.

7. Sensao de prazer, de dor ou indiferena.

8. Desejo o desejo de buscar objetos sensuais prazerosos e de escapar dos desprazerosos. O desejo pode ser de trs tipos: desejo de ter e desfrutar, desejo de ser e desejo de destruir ou livrar-se.

9. Apego apego e agarramento a sensaes prazerosas ou desprazerosas, s condies de vida que arrojam essas sensaes e a avaliao e a atitude em relao a essas coisas com base no seu potencial para satisfazer desejos.

10. Ser/existir todo o processo de comportamento gerado para satisfazer o desejo e o apego (kammabhava - o processo ativo); e tambm as condies da vida que resultam dessas foras (upapattibhava o processo passivo).[14]

11. Nascimento claro reconhecimento da emergncia em um estado de existncia; identificao com estados de vida ou modos de conduta e a noo resultante de quem os desfruta, ocupa ou experimenta.

12. Envelhecimento e morte a conscincia da separao ou privao do eu de um estado de existncia ou identidade; a sensao de ameaa de aniquilao ou separao desses estados de ser; e da, a experincia resultante de tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero (mesmo nas suas formas mais sutis).

Como os elos se conectam

1 => 2. Ignorncia como fator determinante para as formaes: Sem conhecimento ou conscincia da verdade, sem a compreenso clara ou reflexo sbia sobre as experincias, o resultado o raciocnio confuso baseado na conjectura e na imaginao e condicionado pelas crenas, temores e traos de carter acumulados. Como conseqncia, isso condiciona todas as decises ao agir, falar ou pensar.

2 => 3. Formaes como fatores determinantes para a conscincia: Com a inteno, a conscincia condicionada como conseqncia. Temos a tendncia, (ou estamos condicionados), a ver, ouvir e cogitar de acordo com as influncias das nossas intenes arraigadas. Alm disso, o contexto dentro do qual vemos, ouvimos ou cogitamos tambm estar condicionado por essas intenes. A inteno ir conduzir a conscincia a repetidamente se recordar e proliferar acerca de certos eventos. A inteno tambm ir condicionar o estado de espirito bsico, ou conscincia, a assumir ou qualidades finas e boas, ou grosseiras e ms; a conscincia condicionada de acordo com as intenes boas ou ms.

3 => 4. Conscincia como fator determinante para a mentalidade-materialidade (nome e forma): A cognio, viso, audio e assim por diante, implicam as propriedades fsicas, (rupadhamma), e as propriedades mentais, (namadhamma), que conhecemos e vemos. Alm disso, quando a conscincia opera, as propriedades fsicas e mentais relevantes, (sendo elas a corte da conscincia os khandhas da forma, sensao, percepo e impulsos volitivos), tambm precisam funcionar de acordo e de modo coordenado com a natureza daquela conscincia. Por exemplo, quando a conscincia est moldada pela raiva, as percepes que surgem como resultado sero igualmente negativas. O corpo ir assumir caractersticas em conformidade com a inteno hostil, tais como expresses faciais agressivas, tenso nos msculos e presso sangnea alta. As sensaes sero desagradveis. Quando a conscincia assume qualquer caracterstica em particular de forma repetida e habitual, as propriedades mentais e fsicas subseqentes se tornaro os traos corporais e mentais de comportamento e carter correspondentes.

4 => 5. Mentalidade-materialidade (nome e forma) como fatores determinantes para as seis bases dos sentidos: Quando a mentalidade-materialidade (nome e forma) funciona, os meios dos sentidos relevantes so ativados para satisfazer a sua demanda, (buscando informao relevante ou desfrutando de sensaes). Essas portas dos sentidos iro funcionar de acordo com os estados corporais e mentais que as condicionam.

5 => 6. As seis bases dos sentidos como fatores determinantes para o contato: Com o funcionamento das vrias portas dos sentidos, o contato, (phassa), o choque com elas ou a plena conscincia das sensaes, surge na dependncia da porta do sentido em questo estar funcionando naquele momento.

6 => 7. Contato como fator determinante para a sensao: Juntamente com a conscincia tem que haver sensaes de um tipo ou outro: se no prazerosa ou desprazerosa, ento neutra.

7 => 8. Sensao como fator determinante para o desejo: Com a experincia de sensaes prazerosas segue o deleite e o apego. Isto o desejo sensual, (kamatanha). Algumas vezes h o desejo por uma posio da qual ser possvel controlar e desfrutar dessas sensaes prazerosas. Este o desejo de ser ou por estados de ser, (bhavatanha). As experincias que produzem sensaes de desconforto ou sofrimento em geral provocam pensamentos de averso e o desejo de se livrar da fonte daquelas sensaes. Este o desejo por no ser, (vibhavatanha). Entre as sensaes neutras, tais como a indiferena ou embotamento, existe um apego sutil, de tal forma que a indiferena considerada como uma forma sutil de sensao agradvel, propensa a evoluir para o desejo por formas mais aparentes de prazer a qualquer instante.

8 => 9. Desejo como fator determinante para o apego: medida que o desejo se torna mais forte, ele se transforma em apego, um tipo de preocupao mental, criando uma atitude para com o objeto do desejo e a avaliao desse objeto; (com vibhavatanha, uma avaliao negativa ser formada). Uma posio fixa adotada em relao s coisas: se houver atrao esta precipitar um efeito aglutinante, uma identificao com o objeto da atrao. Qualquer coisa conectada com aquele objeto parecer boa. Quando existe repulsa, o objeto daquela repulsa parece afrontar o eu. Qualquer posio adotada em relao a essas coisas tende a reforar o apego, que ser dirigido para, e por outro lado ir reforar o valor de:

        Objetos sensuais (kama)

        Idias e crenas (ditthi)

        Sistemas, modelos, prticas e assim por diante (silavatta)

        A crena num eu, (attavada), que ir alcanar ou ser impedida de alcanar os seus desejos

9 => 10. Apego como fator determinante para o ser/existir: O apego condiciona bhava, estados de vida, tanto no nvel de comportamento, (kammabhava), como em relao ao carter e propriedades fsicas e mentais, (upapattibhava). Estes poderiam por exemplo ser o padro de comportamento, (kammabhava), e traos de carter, (upapattibhava), de algum que aspira ficar rico ou que deseja o poder, fama, beleza, ou que odeia a sociedade e assim por diante.

10 => 11. Ser/existir como fator determinante para o nascimento: Dada uma situao de vida para ser ocupada e possuda, um ser surge para preench-la como desfrutador ou experimentador. Essa a sensao distinta de ocupar ou possuir aquela situao de vida. Existe a percepo daquele que age e do que colhe os frutos das aes, daquele que tem xito e do que fracassa, daquele que ganha e daquele que perde.

11 => 12. Nascimento como fator determinante para o envelhecimento e morte: O nascimento num certo estado traz consigo de modo inevitvel as experincias de prosperidade e declnio que so parte dele. Estas incluem a iminente degenerao desse estado, as experincias de adversidade e runa dentro dele, a separao e a destruio dele. Existe a constante ameaa do perigo e a necessidade constante de proteger e manter o eu. A inevitabilidade do declnio e da dissoluo, junto com a constante ansiedade e esforo para proteger esse estado desses fatores, se combinam para causar tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero, ou, o sofrimento.

Exemplos

1 => 2. Ignorncia...formaes: Sem conhecer a verdade, conseqentemente a mente prolifera e imagina, como um homem que, acreditando em fantasmas, (ignorncia), amedrontrado, (impulso volitivo), pela luz refletida dos olhos de um animal noite; ou como uma pessoa que especula acerca do que outra pessoa tem no seu punho cerrado; ou como uma pessoa que acredita que os seres celestiais so capazes de criar qualquer coisa que queiram e inventa cerimonias ou frases msticas como splicas; ou como algum que, desconhecendo a verdadeira natureza das coisas condicionadas, que so instveis e sujeitas a fatores determinantes, as v como atraentes e desejveis e deseja obt-las e control-las. Enquanto algum trao de ignorncia ainda estiver presente, impulsos volitivos ou proliferao sero produzidos.

2 => 3. Formaes ...conscincia: Com cetana, (inteno), e com a colorao mental, a conscincia como viso, audio e assim por diante, condicionada em conformidade. Sem a inteno ou interesse, a conscincia poder no surgir, mesmo numa situao em que isso seja possvel. Por exemplo, quando estamos lendo um livro envolvente, a nossa ateno no se distrai, mas apenas admite para a conscincia o assunto que est sendo objeto de leitura. At mesmo um rudo forte ou mordidas de mosquitos podem passar desapercebidos. Quando estamos atentados em buscar um objeto em particular, poderemos no notar outros objetos.

O mesmo objeto visto em circunstncias distintas, com intenes distintas, poder ser encarado de forma distinta, dependendo do contexto da inteno. Por exemplo, um terreno vazio para uma criana pode parecer um timo lugar para brincar; para um homem que tenha a inteno de construir uma casa pode parecer um bom local para aposentadoria; para um agricultor, outras caractersticas sero importantes, enquanto que para um industrial, ainda outras caractersticas sero proeminentes.

Se olharmos para o mesmo objeto em momentos distintos, no contexto de pensamentos distintos, diferentes caractersticas iro se destacar mais. Ao pensar pensamentos benficos, a mente influenciada por esses pensamentos, e interpreta o objeto da ateno nesse contexto. Ao pensar de forma grosseira e prejudicial, a mente toma nota disso e se dirige e interpreta o significado dos objetos associados ateno luz desses pensamentos destrutivos. Por exemplo, dentre uma coleo de objetos colocados juntos podem estar uma faca e algumas flores. Um amante das flores poder apenas notar as flores e nenhum dos demais objetos que estejam colocados junto. Quanto mais intenso for o interesse e a atrao por aquelas flores, mais intensa ser a ateno dirigida a elas excluindo todo o restante. Uma outra pessoa que esteja buscando uma arma poder apenas notar a faca. No caso de vrias pessoas vendo a mesma faca, uma poder ter a percepo de uma arma, enquanto que outra poder ter a percepo de um utenslio de cozinha, enquanto que uma outra poder v-la como uma pea de ferro velho, tudo dependendo do referencial e da inteno do observador.

3 => 4. Conscincia...Mentalidade-materialidade (nome e forma): A conscincia e a mentalidade-materialidade (nome e forma) so interdependentes, tal como dito pelo Venervel Sariputta:

como se dois feixes de junco estivessem em p se apoiando um no outro. Da mesma forma, da mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, a conscincia [surge], da conscincia como condio, a mentalidade-materialidade (nome e forma). Se algum tirasse um dos feixes de junco, o outro cairia. Se algum tirasse o outro, o primeiro cairia. Da mesma forma, da cessao da mentalidade-materialidade (nome e forma), cessa a conscincia. Da cessao da conscincia, cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma). [SN.II.114] (SN.XII.67)

Nesse contexto, com o surgimento da conscincia, a mentalidade-materialidade (nome e forma) surge e tem que surgir. Como os impulsos volitivos condicionam a conscincia, estes tambm condicionam a mentalidade-materialidade (nome e forma), mas como a mentalidade-materialidade (nome e forma) depende da conscincia para sua existncia, pois so propriedades da conscincia, diz-se que: os impulsos volitivos condicionam a conscincia e a conscincia condiciona a mentalidade-materialidade (nome e forma). Assim podemos analisar a forma como a conscincia condiciona a mentalidade-materialidade (nome e forma) da seguinte forma:

1. Quando se diz que a mente percebe alguma sensao em particular, tal como ao ver ou ouvir, na verdade apenas a cognio da mentalidade-materialidade (nome e forma) (especificamente os khandhas da forma, sensao, percepo e impulsos volitivos). Tudo que existe no nvel experiencial aquilo que percebido pela conscincia momento a momento, as propriedades fsicas e mentais aparentes para os sentidos. Quando h cognio, as propriedades mentais e fsicas relativas que so experimentadas existem. A existncia de uma rosa, por exemplo, a cognio pelo sentido visual naquele momento. Exceto por isso, no h uma rosa como tal, a no ser como um conceito na mente. A rosa no independente das sensaes, percepes e conceitos que ocorrem naquele momento. Assim, quando h conscincia, a mentalidade-materialidade (nome e forma) tambm estar ali de forma simultnea e independente.

2. A mentalidade-materialidade (nome e forma), especialmente as qualidades mentais que dependem de um certo momento de conscincia iro assumir qualidades em harmonia com aquela conscincia. Sempre que as atividades mentais, ou impulsos volitivos forem positivos (benficos ou hbeis), a conscincia resultante deles ser por conseqncia clara e alegre e a expresso corporal ser espirituosa. Quando os impulsos volitivos so negativos (prejudiciais ou inbeis) eles levam percepo de sensaes sob uma perspectiva dura e prejudicial. O estado mental ser negativo e a expresso corporal e o comportamento sero influenciados de forma correspondente. Nesse estado, os fatores constituintes, tanto mentais como fsicos, esto num estado de alerta para agir em conformidade com os impulsos volitivos que condicionam a conscincia. Quando h um sentimento de amor e afeio (impulso volitivo) surge a cognio de sensaes prazerosas (conscincia), a mente (nama) estar brilhante e alegre, como a expresso facial (rupa). Com a raiva existe a cognio de sensaes desprazerosas, a mente ficar deprimida e a expresso facial ser mal humorada e agressiva.

No campo esportivo, o jogador de futebol foca sua ateno e interesse no jogo em disputa. A sua ateno surge e cessa com intensidade proporcional fora do interesse dele no jogo. Todos os componentes necessrios do corpo e mente esto preparados para funcionar e realizar as suas tarefas tal como direcionado. A inter-relao neste caso se refere e inclui o contnuo surgimento e cessao de mentalidade-materialidade (nome e forma) (ou propriedades fsicas e mentais). As propriedades ativas da mentalidade-materialidade (nome e forma) convergem para formar o estado geral do ser conforme direcionado pela conscincia e pelos impulsos volitivos (observe a similaridade com bhava).

Todos os eventos que ocorrem neste estgio so passos importantes na gerao de kamma e dos seus resultados. O ciclo, ou valla, completou uma pequena rotao (ignorncia contaminao ou kilesa; impulsos volitivos so kamma; a conscincia e a mentalidade-materialidade (nome e forma) so resultados de kamma ou vipaka ) e est se preparando para iniciar um novo ciclo. Este um estgio importante na formao de hbitos e caractersticas.

4 => 5. Mentalidade-materialidade (nome e forma)...seis bases dos sentidos: A mentalidade-materialidade (nome e forma) precisa funcionar atravs da conscincia do mundo exterior, e junto com a experincia adquirida previamente ser por sua vez usada a servio da inteno ou impulsos volitivos. Assim, os componentes da mentalidade-materialidade (nome e forma) que servem como transmissores e receptores das sensaes, (os meios dos sentidos), esto num estado de alerta para funcionar de acordo com os seus fatores determinantes. Por exemplo, no caso do jogador de futebol no campo, os rgos dos sentidos responsveis por receber as sensaes diretamente concernentes ao esporte que est sendo praticado, tais como o olho e o ouvido, sero preparados para receber essas sensaes. Ao mesmo tempo, aqueles sentidos no concernentes de imediato, como o paladar ou o olfato, estaro dormentes ou num estado de atividade suspensa.

5 => 6. As seis bases dos sentidos...contato: A ateno surge atravs dos meios dos sentidos, baseada na coordenao de trs fatores: os meios dos sentidos internos, (olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente); objetos sensuais externos, (vises, sons, aromas, sabores, tangveis e impresses mentais); e conscincia (atravs do olho, ouvido, nariz, lngua, corpo e mente). A ateno surge em conformidade com cada meio do sentido em particular.

6 => 7. Contato...sensao: Sempre que h o contato tem que haver a experincia de um entre trs tipos de sensaes: conforto ou prazer, (sukhavedana); desconforto ou dor (dukkhavedana); ou indiferena, nem prazer nem dor, (upekkha ou adukkhamasukhavedana). Do terceiro ao stimo elo, isto , de conscincia at sensao, conhecido como o segmento vipaka, ou resultado de kamma, do ciclo da Origem Dependente. Os elos 5, 6 e 7, em particular, no so nem benficos nem prejudiciais em si mesmos, mas podem ser os catalisadores para o surgimento de pensamentos e aes benficas ou prejudiciais.

7 => 8. Sensao...desejo: Quando uma sensao prazerosa experimentada, o desejo em geral vem em seguida. Com a sensao desprazerosa, a reao de estresse, o desejo de fazer com que o objeto desagradvel seja removido ou aniquilado. Tambm h o desejo de buscar a distrao nas sensaes prazerosas. As sensaes neutras, ou indiferentes, induzem a uma condio de embotamento ou complacncia. Ambos so formas sutis e deludidas de sensaes prazerosas s quais a mente tende a se apegar. Elas tambm podem agir como catalisadoras para a gerao de desejo por mais sensaes prazerosas.

O desejo pode ser dividido em trs tipos distintos, assim:

1. Kamatanha Desejo por objetos sensuais.

2. Bhavatanha Desejo de ser, desejo por situaes de vida em particular; num nvel mais profundo, isto inclui o instinto pela vida e o desejo em manter uma certa condio ou identidade.

3. Vibhavatanha Desejo de no ser, o desejo de escapar ou se ver livre de objetos ou situaes desagradveis; este tipo de desejo em geral se expressa por meio de sentimentos como o desespero, depresso, dio de si mesmo e auto-piedade.[15]

O desejo, portanto, aparece sob trs formas principais: como desejo por objetos sensuais, desejo por situaes de vida e desejo de se livrar de situaes desagradveis. Esta ltima forma de desejo particularmente evidente quando os desejos so frustrados ou contrapostos e se expressa por meio do ressentimento, raiva e agresso.

8 => 9. Desejo...apego: Os objetos do desejo se tornam objetos de apego, quanto mais intenso for o desejo, tanto mais intenso ser o apego. O desejo evolve para atitudes e valores especficos. Com a sensao desagradvel, o apego se manifesta como uma averso obsessiva em relao ao objeto daquela sensao e um desejo obsessivo de encontrar uma escapatria dele. Dessa forma, existe apego a objetos dos sentidos, a situaes de vida que podem proporcion-los, a identidades, opinies, teorias e mtodos de como obt-los e ao conceito ou imagem de um eu que desfruta ou sofre com essas situaes.

9 => 10. Apego...ser/existir: O apego naturalmente afeta a vida de uma forma ou de outra e os seus efeitos ocorrem em dois nveis. Primeiro, o apego amarra o eu ou faz com que ele se identifique com situaes particulares na vida, que se acredita poderem ou satisfazer os desejos, ou proporcionar os meios para escapar das coisas que no so desejadas. Se existem situaes desejadas, naturalmente existiro situaes no desejadas. Esse tipo de situaes de vida que so agarradas so chamadas upapattibhava.

O apego a qualquer situao de vida ir produzir pensamentos ou intenes ou para que ela se torne realidade, ou para evit-la. Esses pensamentos incluiro as maquinaes para inventar meios e maneiras de realizar aqueles desejos. Todos esses pensamentos e atividades so moldados pela direo e forma de apego. Isto , eles operam sob a influncia de atitudes, crenas, entendimentos, valores e gostos ou desgostos acumulados.

Alguns exemplos simples:

        Desejo pelo renascimento num plano celestial ir causar o apego a ensinamentos, crenas ou prticas que se acredita serem capazes de efetuar tal renascimento, e o comportamento ser condicionado de modo correspondente.

        O desejo pela fama ir produzir o apego aos valores e ao comportamento relevante que se pressupe necessrios para alcanar a fama, e ao eu que ir alcan-la. O comportamento resultante ser condicionado por aquele apego.

        O desejo de adquirir posses que pertencem a outrem ir condicionar os pensamentos de forma correspondente. O apego habitua o padro de pensamento que poder em algum momento, para aquele que lhe falte circunspeco ou conscincia moral, levar ao roubo. O objetivo original de se tornar um proprietrio se transforma na realidade na existncia de um ladro. Dessa forma, atravs da busca para obter objetos dos desejos, as pessoas iro ou criar aes inbeis e desenvolver hbitos ruins, ou criar aes hbeis e desenvolver a virtude, dependendo da natureza das suas crenas e entendimento.

O padro de comportamento especfico resultante da influncia do apego, incluindo a natureza dos eventos tambm condicionados, chamado kammabhava (aes que condicionam o renascimento). As situaes de vida que resultam desses modos de comportamento, quer sejam desejadas ou no, so chamadas upapattibhava (estados de renascimento).

Este estgio do ciclo da Origem Dependente essencial na criao de kamma e dos seus resultados, e a longo prazo desempenha um papel crucial no desenvolvimento de hbitos e traos de carter.

10 => 11. Ser/existir...nascimento: Neste ponto surge o distinto sentimento de um eu, uma identificao com uma certa situao ou condio, desejada ou no desejada. Na linguagem do Dhamma poderamos dizer que um ser surgiu dentro daquele estado (bhava), resultando no sentimento de algum que um ladro, um proprietrio, um sucesso, um fracasso, um joo ningum e assim por diante. No caso da pessoa comum, o nascimento, ou o surgimento da noo do eu, pode ser observado com mais facilidade em tempos de discrdia, quando o apego tende a surgir de maneiras extremadas. Nas discusses, mesmo em debates intelectuais, se as contaminaes forem usadas no lugar da sabedoria, uma distinta noo de um eu surgir na forma de pensamentos tais como, eu sou superior, eu sou o chefe, ele o meu subordinado, ele inferior, essa a minha opinio, minha opinio est sendo refutada, minha autoridade est sendo questionada e assim por diante. Todas essas so situaes em que a identidade est sendo desacreditada ou ameaada. O nascimento portanto mais evidente nos momentos de jaramarana, decadncia e morte.

11=> 12. Nascimentoenvelhecimento e morte: Dado um eu que ocupa ou assume uma certa posio, segue que esse eu ser cedo ou tarde privado ou separado daquela posio. O eu ameaado pela alienao, frustrao, desgraa, conflito e fracasso. Embora ele busque manter sua posio de modo indefinido, tudo que surge tem que experimentar a decadncia e a dissoluo de forma inevitvel. Mesmo antes da dissoluo ter incio, o eu estar cercado pela ameaa da perdio iminente. Isso intensifica o apego a situaes de vida. O temor da morte surge da conscincia do perigo. O temor da morte e da dissoluo esto incrustados profundamente dentro da mente e esto sempre influenciando o comportamento humano, causando neuroses, insegurana, a luta desesperada e intensa por situaes de vida desejadas e o desespero face ao sofrimento e a perda. Assim, para a pessoa comum, o medo da morte assombra toda a felicidade.

Nesse contexto, quando o eu emerge em qualquer situao de vida no desejada, est privado de uma situao desejada ou ameaado por essa possibilidade, ele fica com o desapontamento e a frustrao ou, no idioma Pali, soka (tristeza), parideva (lamentao), dukkha (dor), domanassa (angstia) e upayasa (desespero). Cercado por todo esse sofrimento, o resultado a distrao e a confuso que so funes da ignorncia. A maioria dos esforos para aliviar o sofrimento so portanto dirigidos pela ignorncia e assim o ciclo continua.

Um exemplo simples: Para uma pessoa comum que vive num mundo competitivo, o sucesso no se esgota no mero fenmeno social do sucesso, com todos os seus adornos, mas inclui o apego identidade de ser uma pessoa bem sucedida, que um ser/existir, ou estado de vida (bhava). s vezes o sentimento do eu ir se manifestar atravs de pensamentos como eu sou um sucesso, que na verdade significa eu nasci (jati) como uma pessoa bem sucedida. No entanto, esse sucesso, no seu sentido mais completo, depende de condies externas, tais como a fama, elogio, alcanar privilgios especiais, admirao e reconhecimento. Nascimento como um sucesso, ou ser bem sucedido, depende no somente do reconhecimento e admirao dos outros, mas da presena de um derrotado, algum custa da qual o sucesso ser obtido. Assim que um ser bem sucedido nasce, ele ou ela est ameaado com o desaparecimento, anonimidade e perda. Nessa situao, todos os sentimentos de depresso, preocupao e decepo que no foram tratados de forma adequada por meio da ateno plena e da plena conscincia iro se acumular no subconsciente e iro exercer influncia no comportamento subseqente de acordo com o ciclo da Origem Dependente.

Sempre que ocorre o surgimento do conceito de um eu, existe a ocupao de espao; onde existe ocupao de espao, tem que haver uma fronteira ou limite; quando h limite, tem que haver separao; quando h separao tem que haver a dualidade de eu e outro. O eu ir crescer e se estender para fora atravs do desejo para realizar, para agir e impressionar os demais. No entanto, no possvel que o eu cresa indefinidamente de acordo com os seus desejos. O eu em expanso ir de modo inevitvel encontrar obstculos de uma forma ou de outra e os desejos sero frustrados, se no por parte do exterior, ento por parte do interior. Se a pessoa tiver alguma sensibilidade para com a auto-estima dos outros, o obstculo ir surgir sob a forma dos prprios escrpulos. Se no houver a supresso desses desejos e se for permitido que eles se expressem totalmente, a oposio ir surgir de fontes externas. Mesmo se fosse possvel se entregar a cada desejo na sua totalidade, tal atividade causaria o enfraquecimento. Ela apenas serve para aumentar o poder do prprio desejo, junto com o seu assistente, o sentimento de vazio. O desejo no somente cresce na dependncia de fatores externos, mas ele tambm faz crescer o conflito interno. Quando os desejos no so satisfeitos, a tenso, conflito e desespero so o resultado natural.

Um exemplo da Origem Dependente na vida cotidiana

Tomemos um exemplo simples de como o princpio da Origem Dependente opera na vida cotidiana. Suponha que existem dois colegas de escola chamados Joo e Jos. Sempre que eles se encontram na escola eles sorriem e dizem Ol um ao outro. Um dia Joo v Jos e se aproxima dele com uma saudao amigvel preparada, e s obtm o silncio e uma expresso azeda como resposta. Joo se aborrece com isso e deixa de conversar com Jos. Neste caso, a cadeia de reaes poderia evoluir da seguinte forma:

1. Ignorncia (avijja): Joo desconhece a verdadeira razo da careta e do silncio de Jos. Ele falha na ateno com sabedoria sobre o assunto e na averiguao das verdadeiras razes para o comportamento de Jos, que poderia no ter nenhuma relao com os sentimentos dele por Joo.

2. Formaes (sankhara): Como resultado, Joo prossegue pensando e formulando teorias na sua mente, condicionadas pelo seu temperamento e essas do origem dvida, raiva, ressentimento, mais uma vez na dependncia do seu temperamento.

3. Conscincia (viana): Sob a influncia dessas contaminaes, Joo segue pensando. Ele presta muita ateno e interpreta o comportamento e as aes de Jos de acordo com essas impresses anteriores; quanto mais ele pensa a respeito, mais certeza ele tem; cada gesto de Jos parece ofensivo.

4. Mentalidade-materialidade (nome e forma) (namarupa): Os sentimentos, pensamentos, estados de esprito, expresses faciais e gestos de Joo, isto , o corpo e mente combinados, comeam a assumir as caractersticas gerais de uma pessoa enraivecida e ofendida, preparada para agir de acordo com essa conscincia.

5. Bases dos sentidos (salayatana): Os rgos dos sentidos de Joo esto preparados para receber uma informao que est relacionada e condicionada pela mentalidade-materialidade (nome e forma) no seu estado de raiva e mgoa.

6. Contato (phassa): O choque nos rgos dos sentidos ser das atividades ou atributos de Jos que parecem ser em particular relevantes ao caso, tais como olhares carrancudos, gestos hostis e assim por diante.

7. Sensao (vedana): Sensaes, condicionadas pelo contato sensual, so do tipo desagradvel.

8. Desejo (tanha): Vibhavatanha, desejo de no ser, surge o desgosto ou averso em relao quela imagem ofensiva, o desejo que ela desaparea ou seja destruda.

9. Apego (upadana): Segue o apego e o pensamento obsessivo em relao ao comportamento de Jos. O comportamento de Jos interpretado como um desafio direto; ele visto como um disputador e aquela situao exige algum tipo de ao corretiva.

10. Ser/existir (bhava): O comportamento subseqente de Joo est sob a influncia do apego e as suas aes se tornam antagnicas.

11. Nascimento (jati): medida que o sentimento de inimizade se torna mais distinto, ele assumido como uma identidade. A distino entre eu e ele se torna mais evidente e existe um eu que obrigado a responder de alguma forma situao.

12. Envelhecimento e morte (jaramarana): Esse eu, ou condio de inimizade, existe e prospera dependendo de certas condies, tais como o desejo de aparentar ser duro, preservar a honra e o orgulho e de ser o vitorioso, sendo que todos possuem o seu respectivo oposto, tais como sentimentos de inutilidade, inferioridade e fracasso. Assim que aquele eu surge, ele confrontado com a falta de qualquer garantia de vitria. Mesmo se ele obtiver a vitria que deseja, no h garantia por quanto tempo Joo ser capaz de preservar a sua supremacia. Ele pode, na verdade, no ser o vencedor duro que deseja ser, mas ao invs disso o derrotado, o fracote, aquele que se ridiculariza. Essas possibilidades de sofrimento brincam com o estado de esprito de Joo e produzem estresse, insegurana e preocupao. E estas por seu turno alimentam a ignorncia, comeando assim uma nova rotao do ciclo. Esses estados negativos so como feridas supuradas que no foram tratadas e assim continuam a desprender o seu efeito venenoso na conscincia de Joo, influenciando todo o seu comportamento e causando problemas tanto para ele mesmo como para os outros. No caso de Joo, ele poder se sentir infeliz por todo aquele dia, falando de forma grosseira com quem quer que tenha contato com ele e assim aumentando a possibilidade de mais incidentes desagradveis.

Neste caso, se fosse para o Joo praticar da forma correta ele seria aconselhado a comear com o p direito. Vendo o mal humor do amigo, ele poderia usar sua inteligncia (yoniso-manasikara: aplicando a ateno com sabedoria de acordo com causas e condies) e refletir que Jos deveria ter algum problema em mente ele poderia ter sido censurado pela me, ele poderia estar precisando de dinheiro ou ele poderia simplesmente estar deprimido. Se Joo refletisse dessa maneira nenhum incidente teria ocorrido, a sua mente estaria despreocupada e ele poderia at mesmo ser levado a agir com compaixo e entendimento.

Uma vez que a cadeia de eventos tenha sido colocada em movimento, ela pode, no entanto, ser interrompida atravs da ateno plena em qualquer ponto. Por exemplo, se a cadeia de eventos prosseguisse at o contato sensual, onde as aes de Jos foram percebidas de forma negativa, Joo ainda poderia ter aplicado a ateno plena exatamente naquele ponto: ao invs de cair sob o poder do desejo de no ser, ele poderia, ao invs disso, considerar os fatos da situao e dessa forma obter um outro entendimento do comportamento de Jos. Ele poderia ento refletir de forma sbia em relao a ambas as atitudes, as suas e aquelas do seu amigo, de modo que a sua mente no ficasse oprimida por reaes emocionais negativas, mas ao invs disso, respondesse de uma forma mais clara e positiva. Esse tipo de reflexo, alm de no criar problemas para ele mesmo tambm poderia servir para encorajar o surgimento da compaixo.

Antes de deixarmos de lado este exemplo, poderia ser de ajuda reiterar alguns pontos importantes:

Na vida real, o ciclo completo ou cadeia de eventos, tais como aqueles mencionados neste exemplo, ocorrem com muita rapidez. Um estudante ao descobrir que no passou num teste, algum que recebe uma m notcia, como a morte de um ente querido, ou um homem que v a sua mulher com um amante, por exemplo, todos podem sentir uma enorme tristeza ou choque, at mesmo sentindo os joelhos fraquejarem, gritando ou desmaiando. Quanto mais intenso for o apego e a ligao emocional, mais intensa ser a reao.

Deve ser enfatizado uma vez mais que a inter-relao dentro dessa cadeia de eventos no tem que ser obrigatoriamente em ordem seqencial, da mesma forma como o giz, quadro negro e a escrita so todos fatores determinantes para as letras brancas na superfcie do quadro negro, mas no tm que aparecer em ordem seqencial.

O ensinamento da Origem Dependente objetiva esclarecer a mecnica da natureza, analisar o desdobramento dos eventos medida que estes ocorrem, para que as causas possam ser identificadas com mais facilidade e corrigidas. Quanto aos detalhes de como essa correo pode ser efetuada, isso no diz respeito aos ensinamentos da Origem Dependente, mas, ao invs disso, pertencem ao domnio de magga, (o Caminho), ou o Caminho do Meio.

Em todo caso, os exemplos dados aqui so bastante simplificados e podem parecer um tanto superficiais. Eles no esto detalhados o suficiente para transmitir a completa sutileza do princpio da Origem Dependente, em especial naquelas sees da ignorncia como fator determinante para os impulsos volitivos, e tristeza, lamentao e desespero condicionando mais uma rotao do ciclo. Olhando para o nosso exemplo, pode parecer que o ciclo apenas surge s vezes, que a ignorncia um fenmeno espordico e que a pessoa comum pode passar longos perodos da sua vida sem o surgimento da ignorncia. Na verdade, para o ser no iluminado, a ignorncia em graus variados se encontra por trs de cada pensamento, ao e palavra. O nvel mais bsico dessa ignorncia simplesmente a percepo de que existe um eu que est pensando, falando e agindo. Se esse aspecto no estiver presente na mente, a verdadeira relevncia dos ensinamentos para a vida diria ter sido negligenciada. Por essa razo alguns dos aspectos mais profundos dessa cadeia de eventos sero examinados a seguir em mais detalhe.

 

Incio >> 4. O formato padro>> 6. A Natureza das Contaminaes

 


 

Notas:

14. O termo upapattibhava provm do Abhidhamrna. Nos Suttas o termo patisandhipunnabhava (veja Nd2 569). [Retorna]

15. Os estudiosos esto divididos quanto interpretao de bhavatanha e vibhavatanha. Dois ou trs grupos de definies desses termos so dadas no Tipitaka e nos Comentrios (Vbh.365; Vism.567). Alguns estudiosos comparam bhavatanha com o instinto pela vida ou desejo pela vida Freudiano e vibhavatanha com o instinto pela morte ou desejo pela morte. (Veja M. Walshe, Buddhism for Today, Allen and Unwin, London, 1962, pag. 37-40). [Retorna]

 

 

Revisado: 16 Maro 2013

Copyright © 2000 - 2021, Acesso ao Insight - Michael Beisert: editor, Flavio Maia: designer.