Pasaada

Por

Michael Beisert

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Ajaan Thanissaro no ensaio Afirmando as Verdades do Coração define Pasaada como claridade e serena confiança. Pasaada é um termo que aparece nos suttas com uma sentido mais complexo. Pasaada é uma atitude mental e emotiva que compreende um sentimento profundo abrangendo ao mesmo tempo o apreço intelectual, a satisfação, a claridade de pensamentos, a serenidade e a confiança.

Pasaada não é uma qualidade mental que tem sido objeto de atenção de muitos autores, tanto que o texto de Ajaan Thanissaro mencionado é o único texto publicado no Acesso ao Insight no qual aparece o termo Pasaada. Os leitores desse texto em geral acabam se focando mais no termo Samvega - senso de urgência - e Pasaada acaba ficando quase desapercebido. No entanto, como pretendo explicar, Pasaada é um termo muito relevante em duas atividades que fazem parte do comportamento típico de um Budista: a prática da generosidade e o desenvolvimento da mente.

Objetos de Pasaada

Como surge essa qualidade mental na mente de um praticante Budista? Há objetos que são identificados como "objetos de Pasaada" (Pasadika), ou seja objetos capazes de eliciar a atitude mental de Pasaada. São objetos que atraem a atenção e o interesse e produzem encantamento que gera um sentimento de satisfação e serenidade.

Como regra Pasaada é ativada na mente através da visão, são objetos "dignos de serem vistos" e também "objetos que nunca nos cansamos de ver". Como exemplo, para ilustrar essa última característica, são mencionados o mar ou uma montanha rochosa. Em geral o Buda, os seus discípulos, e paccekabuddhas são considerados como Pasadika. Por extensão as estupas que contêm relíquias do Buda ou de seus discípulos, também são consideradas como Pasadika. Mas também Pasaada pode ser estimulada com a leitura de um texto inspirador, ou ouvindo um puja em pali.

Os objetos podem ser vistos fisicamente ou serem criados pela mente, como por exemplo numa prática de contemplação das qualidades do Buda, do Dhamma e da Sangha. Ou seja o cultivo de Pasaada pode ser ativo envolvendo algum tipo de prática contemplativa ou passivo em que apenas a visão do objeto é suficiente, sem qualquer tipo de estímulo adicional.

Pasaada e a Generosidade

Para os praticantes leigos o surgimento de Pasaada está intimamente associado com dana, a prática da generosidade. Pasaada é um dos agentes estimuladores da generosidade. No Dana Sutta Sariputta questiona o Buda:

"Pode haver o caso em que uma pessoa dá uma oferenda de um certo tipo e ela não produz grandes frutos e grandes benefícios, enquanto que outra pessoa dá uma oferenda do mesmo tipo e ela produz grandes frutos e grandes benefícios?"

O Buda responde que sim e explica que os frutos da generosidade dependem do estado mental do doador sendo que o nível mais baixo de recompensa ocorre justamente para quem pratica a generosidade esperando algo em troca:

"A pessoa dá uma oferenda buscando seu próprio benefício, com sua mente apegada [à recompensa], pensando em acumulá-la para si mesma [com o pensamento], 'Eu a desfrutarei após a morte' - na dissolução do corpo, após a morte, ela renasce no mundo dos devas dos Quatro Grandes Reis." (O mundo dos devas dos Quatro Grandes Reis é o primeiro mundo dos devas na esfera sensual)

Já o renascimento no sexto mundo dos devas, que é o mundo mais alto dos devas da esfera sensual ocorre no caso em que:

"A pessoa dá uma oferenda com o pensamento, ‘Quando esta minha oferenda é dada, a minha mente fica clara com serena confiança. Surgem a satisfação e a alegria’ - na dissolução do corpo, após a morte, ela renasce no mundo dos devas Paranimmita-vasavatti."

Ou seja, Pasaada como motivação para a generosidade pode conduzir a um renascimento num plano superior. Como foi mencionado, Pasaada pode ocorrer naturalmente ao se deparar com um objeto de Pasaada, como por exemplo a visão de um bhikkhu, de uma estupa, ou de uma imagem do Buda; ou pode ser estimulada através de uma prática contemplativa como a recordação das qualidades do Buda, Dhamma e Sangha.

Nos países em que predomina o Budismo Theravada a comunidade leiga pratica aquilo que pode ser denominado como "Budismo Cármico". Ou seja a prática de atos que visam gerar kamma favorável considerando que quanto mais kamma favorável for acumulado maior a probabilidade de que os frutos desse kamma favorável amadureçam durante o processo de renascimento e conduzam a um renascimento favorável. A prática da generosidade, principalmente provendo a Sangha com os requisitos para a sua manutenção, é a prática mais comum no Budismo Cármico.

Particularmente em Myanmar é muito comum observar nos templos ilustrações de ações e os seus respectivos frutos, ou em pali kamma e vipaka. Essas ilustrações tomam por base um texto denominado Divyavadana que surgiu na Índia nos primeiros séculos da era Cristã. São histórias que descrevem o processo de causa e efeito da lei de kamma. Algumas dessas histórias também são encontradas no Vinaya do Theravada e do Mulasarvastivada.

Essas histórias também colocam ênfase na importância de Pasaada na prática da generosidade, como sendo a motivação mais nobre que é capaz de conduzir a um renascimento no mundo mais elevado dos devas da esfera sensual, tal como foi descrito acima no Dana Sutta. Vale lembrar que o renascimento nos mundos dos devas acima desse nível só pode ser alcançado com o desenvolvimento dos jhanas.

Pasaada e o Desenvolvimento da Mente

A importância de Pasaada no desenvolvimento da mente é ilustrada no Vatthupama Sutta que diz o seguinte:

“Quando um bhikkhu compreendeu que a cobiça e os desejos inábeis são corrupções que contaminam a mente e os abandonou, quando um bhikkhu compreendeu que a má vontade, raiva, rancor, desprezo, insolência, inveja, avareza, dissimulação, trapaça, teimosia, rivalidade, presunção, arrogância, vaidade, negligência é uma corrupção que contamina a mente e a abandonou, ele adquire perfeita claridade, serenidade e confiança no Buda assim: ‘O Abençoado é um arahant, perfeitamente iluminado, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta, bem-aventurado, conhecedor dos mundos, um líder insuperável de pessoas preparadas para serem treinadas, mestre de devas e humanos, desperto, sublime.’"

“Ele adquire perfeita claridade, serenidade e confiança no Dhamma assim: ‘O Dhamma é bem proclamado pelo Abençoado, visível no aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos sábios por eles mesmos.’"

“Ele adquire perfeita claridade, serenidade e confiança na Sangha assim: ‘A Sangha dos discípulos do Abençoado pratica o bom caminho, pratica o caminho reto, pratica o caminho verdadeiro, pratica o caminho adequado, isto é, os quatro pares de pessoas, os oito tipos de indivíduos; esta Sangha dos discípulos do Abençoado é merecedora de dádivas, merecedora de hospitalidade, merecedora de oferendas, merecedora de saudações com reverência, um campo inigualável de mérito para o mundo.’"

“Quando, em parte, ele abriu mão, expulsou, libertou, abandonou e abdicou das corrupções da mente, ele considera o seguinte:

‘Eu possuo perfeita claridade, serenidade e confiança no Buda ... no Dhamma ... na Sangha’ e ele obtém inspiração do significado, obtém inspiração do Dhamma, obtém satisfação do Dhamma. Estando satisfeito, o êxtase surge nele; naquele que está em êxtase, o corpo se torna tranqüilo; naquele, cujo corpo está tranqüilo, sente felicidade; naquele que sente felicidade, a mente fica concentrada."

O que pode ser verificado é que a contemplação do Buda, Dhamma e Sangha conduz ao desenvolvimento de Pasaada (perfeita claridade, serenidade e confiança) que por seu turno condiciona o surgimento da satisfação (pamojja) que na sequência conduz à concentração (samadhi).

Essa mesma sequência de condicionalidade, em que a satisfação conduz a samadhi, é encontrada no Upanisa Sutta bem como no Cetanakaraniya Sutta, e muitos outros suttas.

Em resumo, considerando o desenvolvimento da mente, o cultivo de Pasaada, quer seja visualizando objetos que estimulem esse sentimento ou através da prática da recordação das qualidades do Buda, Dhamma e Sangha, é um meio hábil para estimular a satisfação que é uma condição essencial para atingir samadhi.

Iluminação Instantânea

Em alguns suttas, como por exemplo no Upali Sutta, vemos o Buda transmitindo o ensino gradual para algum chefe de família e apenas com base nesse discurso essa pessoa realiza o olho do Dhamma. Nesses discursos o estado mental do ouvinte que está preparado para ouvir o Dhamma é descrito como:

"Quando o Abençoado percebeu que a mente do chefe de família estava pronta, receptiva, livre de obstáculos, satisfeita, clara, com serena confiança, ele explicou o ensinamento particular dos Budas: o sofrimento, a sua origem, a sua cessação e o caminho."

"Tal como um pano limpo, com todas as manchas removidas, irá absorver um corante de modo adequado, assim também, enquanto o chefe de família estava ali sentado, a visão o imaculada do Dhamma surgiu nele: 'Tudo que está sujeito ao surgimento está sujeito ˆ cessação.'"

Novamente vemos Pasaada - "satisfeita, clara, com serena confiança" - como uma das qualidades que permite a mente absorver o Dhamma em profundidade.

Sotapanna

Entrar na Correnteza (sotapanna) é o primeiro dos quatro níveis do Despertar ou Libertação, Iluminação. Esta denominação tem origem no fato de que a pessoa que tenha conquistado este nível “entrou na correnteza” que flui inevitavelmente em direção a Nibbana. A pessoa obtém a certeza de alcançar o pleno Despertar em no máximo sete vidas e nesse meio tempo tem a garantia de que não irá renascer em nenhum dos planos inferiores (infernos, reino animal, mundo dos petas e dos asuras).

O sotapanna abandonou os primeiros três grilhões que aprisionam a mente ao ciclo de renascimentos (samsara). Os três primeiros grilhões são a idéia da existência de um eu (identidade) (sakkaya-ditthi), a dúvida (vicikiccha), e o apego a preceitos e rituais (silabbata-paramasa).

O Sotapatti-samyutta, um dos capítulos do Samyutta Nikaya, contém uma coleção de 74 suttas nos quais são descritos os quatro fatores que definem um sotapanna: a perfeita claridade, serenidade e confiança no Buda, Dhamma e Sangha e as “virtudes apreciadas pelos nobres”. A perfeita claridade, serenidade e confiança, ou Pasaada em pali, é a convicção arraigada na validação pessoal da verdade do Dhamma, também chamada de olho do Dhamma. Em outras palavras, esses suttas demonstram que Pasaada é uma qualidade mental que justamente caracteriza o sotapanna.

Confiança

Uma das características de Pasaada é a confiança, sendo que os principais objetos onde depositar confiança são o Buda, Dhamma e Sangha. Depositar confiança significa dar crédito, acreditar na confiabilidade e probidade de algo ou alguém.

O Buda já não está mais presente, mas no Mahahatthipadopama Sutta o Buda diz que quem vê o Dhamma vê o Buda, portanto a maneira de depositar confiança no Buda, Dhamma e Sangha é através do entendimento do Dhamma.

Para obter o entendimento do Dhamma, o Canki Sutta recomenda estudar o Dhamma de fontes confiáveis, que pode ser um mestre qualificado, que de acordo com esse sutta significa alguém com a mente purificada da cobiça, raiva e delusão, ou estudar o Dhamma diretamente da fonte, nos discursos do Buda e dos seus discípulos diretos. Além de estudar, o Canki Sutta recomenda refletir, investigar e colocar o Dhamma em prática. Assim é que se obtém confiança no Dhamma.

Saddha

Dada a importância de pasaada uma pergunta que surge é sobre o papel no desenvolvimento da mente da fé ou saddha em pali.

Tomando como referência os suttas do Majjhima Nikaya há 3 instâncias em que a fé é mencionada:

MN 26, 85
ye sotavanto pamuñcantu saddham
que aqueles com ouvidos mostrem agora a sua fé.

MN 27, 38, 51, 94, 101, 112, 125
so tam dhammam sutva tathagate saddham patilabhati
Um chefe de família ou o filho de um chefe de família ou alguém nascido em algum outro clã ouve o Dhamma. Ouvindo o Dhamma ele adquire convicção no Tathagata. Possuindo essa fé ...

MN 95
Ao tê-lo examinado e visto que ele está purificado de estados baseados na delusão (igual para cobiça, raiva), então ele deposita fé nele; cheio de fé ele o visita e o homenageia; ao homenageá-lo, ele lhe dá ouvidos; ao dar ouvidos, ele ouve o Dhamma; ao ouvir o Dhamma, ele o memoriza e examina o significado dos ensinamentos que ele memorizou; ao examinar o significado, ele aceita esses ensinamentos com base na reflexão ...

Baseado nessas ocorrências fica claro que saddha está associada a ouvir os ensinamentos, ou no nosso mundo moderno também poderia ser ao ler os ensinamentos. Saddha é a emoção que faz com que alguém deposite confiança naquilo que foi ouvido/lido e a tomar as ações apropriadas. Portanto saddha ocorre num estágio bastante inicial quando alguém entra em contato com os ensinamentos.

Por outro lado, como vimos acima, pasaada ocorre num nível totalmente diferente. É um estado mental mais maduro e desenvolvido que é condição para a iluminação e que caracteriza o ser iluminado tal como descrito nos sutas do Sotapatti-samyutta.

 


 

Nota:

No topo desta página há um link "Pasadika Random" - são páginas com fotos de Myanmar, Sri Lanka e Tailândia. As imagens podem servir como objetos de contemplação/objetos de Pasaada.

Veja também o Pasadika Sutta e o Aggappasada Sutta.

 

 

Revisado: 15 Outubro 2014

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