Digha Nikaya 23

Payasi Sutta

Debate com um Ctico

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1. Assim ouvi. Em certa ocasio, o Venervel Kumara-Kassapa [1] estava perambulando pela regio de Kosala, com uma grande Sangha de bhikkhus, com quinhentos bhikkhus, e ele acabou chegando numa cidade denominada Setavya. Ele ficou ao norte de Setavya na Floresta de Simsapa. [2] Agora, naquela ocasio, o Prncipe Payasi vivia em Setavya, uma propriedade real com muitos habitantes, rica em pastagens, rvores, rios e gros, uma concesso real, uma doao sagrada que lhe havia sido dada pelo rei Pasenadi de Kosala.

2. Uma idia perniciosa havia surgido na mente do Prncipe Payasi: No existe outro mundo, no h seres que renascem espontaneamente, no existe fruto ou resultado de aes boas ou ms. [3] E ao mesmo tempo, os brmanes chefes de famlia de Setavya ouviram: O contemplativo Kumara-Kassapa, um discpulo do contemplativo Gotama, estava perambulando pela regio de Kosala, com uma grande Sangha de bhikkhus, com quinhentos bhikkhus; ele chegou a Setavya e est ao norte de Setavya na Floresta de Simsapa; e acerca desse venervel Kassapa existe essa boa reputao: Ele estudado, experiente, sbio, bem informado, um excelente orador, capaz de dar boas respostas, um venervel, um arahant. bom poder encontrar algum to nobre. Assim, os brmanes chefes de famlia de Setavya, saram de Setavya pelo porto ao norte em grupos e bandos e se dirigiram para a Floresta de Simsapa.

3. Agora, naquela ocasio, o Prncipe Payasi havia se retirado para o andar superior do seu palcio para a sesta. Ento, ele viu os brmanes chefes de famlia de Setavya, saindo de Setavya em grupos e bandos e se dirigindo para a Floresta de Simsapa. Ao v-los ele perguntou ao seu ministro porque estava ocorrendo aquilo. O ministro disse: Senhor, o contemplativo Kumara-Kassapa, um discpulo do contemplativo Gotama ... e acerca desse venervel Kassapa existe essa boa reputao ... por isso que eles esto indo v-lo. - Muito bem, ento ministro, v at os brmanes chefes de famlia de Setavya e diga: Senhores, o Prncipe Payasi diz o seguinte: Por favor, esperem, senhores. O Prncipe Payasi tambm ir ver o contemplativo Kassapa. Esse contemplativo Kumara-Kassapa ensinar esses tolos e inexperientes Brmanes chefes de famlia de Setavya que existe um outro mundo, que h seres que renascem espontaneamente e que existe fruto ou resultado de aes boas ou ms. Mas esse tipo de coisas no existe. - Muito bem, venervel senhor, disse o ministro, e assim ele comunicou a mensagem.

4. O Prncipe Payasi, junto com os Brmanes chefes de famlia de Setavya, foi at a Floresta de Simsapa onde estava o Venervel Kumara-Kassapa e ambos se cumprimentaram. Quando a conversa corts e amigvel havia terminado ele sentou a um lado. E alguns homenagearam o Venervel Kumara-Kassapa e sentaram a um lado; alguns trocaram saudaes corteses com ele e aps a troca de saudaes sentaram a um lado; alguns ajuntaram as mos em respeitosa saudao e sentaram a um lado; alguns anunciaram o seu nome e cl e sentaram a um lado. Alguns permaneceram em silncio e sentaram a um lado.

5. Ento, o Prncipe Payasi disse para o Venervel Kumara-Kassapa: Venervel Kassapa, eu acredito nesta doutrina e idia: no existe outro mundo, no h seres que renascem espontaneamente, no existe fruto ou resultado de aes boas ou ms.
Muito bem, Prncipe, eu nunca vi ou ouvi uma doutrina ou idia como essa que voc afirma. E assim, Prncipe, eu o questionarei sobre isso e voc responda como considerar adequado. O que voc pensa, Prncipe, o sol e a lua esto neste mundo ou noutro, eles so devas ou humanos?

Venervel Kassapa, eles esto noutro mundo e eles so devas, no humanos. Da mesma forma, Prncipe, voc deveria considerar: Existe um outro mundo, h seres que renascem espontaneamente, existe fruto ou resultado de aes boas ou ms.

6. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, eu tenho amigos, companheiros e parentes, que tiram a vida de outros seres, tomam o que no dado, se comportam de forma imprpria em relao aos prazeres sensuais, dizem mentiras, empregam a linguagem maliciosa, grosseira e frvola, que so cobiosos, possuem m vontade e tm entendimento incorreto. Com o tempo eles se enfermam e sofrem adoentados. E quando tenho certeza de que eles no iro se recuperar, eu vou at eles e digo: H certos contemplativos e Brmanes que declaram e acreditam que aqueles que tiram a vida ... tm entendimento incorreto, iro, com a dissoluo do corpo, aps a morte, renascer num estado de privao, num destino infeliz, nos reinos inferiores, at mesmo no inferno. Agora, vocs fizeram essas coisas e se aquilo que aqueles contemplativos e Brmanes dizem for verdade, para l que vocs iro. Agora, se com a dissoluo do corpo vocs renascerem num estado de privao, ... venham at mim e declarem que existe um outro mundo, que h seres que renascem espontaneamente, que existe fruto ou resultado de aes boas ou ms. Vocs, senhores, so responsveis e confiveis e aquilo que vocs virem ser como se eu mesmo tivesse visto, assim ser. Mas embora eles concordem, eles no vm para me contar e tampouco mandam um mensageiro. Essa, Venervel Kassapa, a razo para a afirmao: No existe outro mundo, no h seres que renascem espontaneamente, no existe fruto ou resultado de aes boas ou ms.

7. Quanto a isso, Prncipe, eu lhe farei uma pergunta em retorno. Responda como quiser. O que voc pensa, Prncipe? Suponha que trouxessem sua presena um ladro pego em flagrante e dissessem: Este homem, Senhor, um ladro pego em flagrante. Sentencie-o a qualquer punio que voc desejar. E voc poder dizer: Prendam os braos deste homem para trs com uma corda forte, raspem a cabea dele e conduzam-no ao rufar dos tambores pelas ruas e praas e para fora da cidade pelo porto sul, l, dem um fim nele aplicando a pena capital, decepando a sua cabea! E eles, dizendo: Muito bem, assentindo, poderiam ... conduzi-lo pelo porto sul e l decepar a cabea dele. Agora, se aquele ladro dissesse para os carrascos: Estimados carrascos, nesta cidade ou vilarejo eu tenho amigos, companheiros e parentes, por favor esperem at que eu os tenha visitado, ele obteria o seu desejo? Ou eles simplesmente decepariam a cabea daquele ladro tagarela? - Ele no obteria o seu desejo, Venervel Kassapa. Eles simplesmente decepariam a cabea dele.

Portanto, Prncipe, aquele ladro no conseguiria sequer que os seus carrascos esperassem enquanto ele visitava os seus amigos e parentes. Ento, como poderiam os seus amigos, companheiros e parentes que praticaram todas essas aes inbeis, tendo morrido e renascido no inferno, persuadir os guardies do inferno, dizendo: Estimados guardies do inferno, por favor, esperem enquanto relatamos ao Prncipe Payasi que existe um outro mundo, que h seres que renascem espontaneamente, que existe fruto ou resultado de aes boas ou ms? Por conseguinte, Prncipe, admita que existe um outro mundo ...

8. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, eu tenho amigos ... que se abstm de tirar a vida de outros seres, de tomar o que no dado, que no se comportam de forma imprpria em relao aos prazeres sensuais, no dizem mentiras, no empregam a linguagem maliciosa, grosseira e frvola, que no so cobiosos, no possuem m vontade e tm entendimento correto. Com o tempo eles se enfermam ... E quando tenho certeza que eles no iro se recuperar, eu vou at eles e digo: H certos contemplativos e Brmanes que declaram e acreditam que aqueles que se abstm de tirar a vida ... tm entendimento correto, iro, com a dissoluo do corpo, aps a morte, renascer num destino feliz, no paraso. Agora, vocs fizeram essas coisas e se aquilo que aqueles contemplativos e Brmanes dizem for verdade, para l que vocs iro. Agora, se com a dissoluo do corpo vocs renascerem num destino feliz ... venham at mim e declarem que existe um outro mundo ... Vocs, senhores, so responsveis e confiveis e aquilo que vocs virem ser como se eu mesmo tivesse visto, assim ser. Mas embora eles concordem, eles no vm para me contar e tampouco mandam um mensageiro. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo ...

9. Muito bem, ento, Prncipe, eu explicarei com um smile, pois alguns sbios compreendem o significado de um enunciado atravs de um smile. Suponha que um homem casse de cabea numa fossa e voc dissesse para os seus auxiliares: Tirem aquele homem da fossa! E eles dissessem: Muito bem, e assim fizessem. Ento, voc lhes diria que limpassem por completo o corpo daquele homem com raspadeiras feitas de bambu e depois lhe dessem um banho triplo com marga amarela. Depois voc lhes diria que friccionassem o corpo dele com leo e depois o limpassem trs vezes com sabo em p fino. E voc os instruiria para que aparassem o cabelo e barba dele e o enfeitassem com finas grinaldas, perfumes e roupas. Por fim, voc lhes diria que o conduzissem ao seu palcio e permitissem que ele desfrutasse dos prazeres dos cinco sentidos, e assim fariam eles. O que voc pensa, Prncipe? Aquele homem, depois de banhado, com a barba e cabelo aparados, engrinaldado e adornado, vestido de branco, depois de ter sido conduzido ao palcio, desfrutado e gozado dos prazeres dos cinco sentidos, gostaria de ser novamente mergulhado naquela fossa? - No, Venervel Kassapa. - Porque no? - Porque aquela fossa imunda, ftida, horrvel, nojenta e em geral assim considerada.

Exatamente da mesma maneira, Prncipe, os seres humanos so imundos, ftidos, horrveis e nojentos e em geral so assim considerados pelos devas. Ento, porque deveriam os seus amigos ... que no praticaram aes inbeis ... (igual ao verso 8), e que com a dissoluo do corpo, aps a morte, renasceram num destino feliz, no paraso, retornar e dizer: Existe um outro mundo ... existe fruto ou resultado de aes boas ou ms? Por conseguinte, Prncipe, admita que existe um outro mundo ...

10. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, eu tenho amigos que se abstm ... de dizer mentiras, do lcool, vinho e outros embriagantes. Com o tempo eles se enfermam ... H certos contemplativos e Brmanes que declaram e acreditam que aqueles que se abstm de tirar a vida ... e do lcool, vinho e outros embriagantes ... iro, com a dissoluo do corpo, aps a morte, renascer num destino feliz, no paraso, como companheiros dos devas do Trinta e Trs ... Mas embora eles concordem, eles no vm para me contar e tampouco mandam um mensageiro. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo ...

11. Quanto a isso, Prncipe, eu lhe farei uma pergunta em retorno. Responda como quiser. Aquilo, Prncipe, que para os humanos so cem anos para os devas do Trinta e Trs um dia e uma noite. Trinta dessas noites resultam num ms, doze desses meses, num ano e mil desses anos o tempo de vida dos devas do Trinta e Trs. Agora, suponha que eles pensassem: Depois que gozarmos dos prazeres dos sentidos por dois ou trs dias iremos at Payasi para contar-lhe que existe um outro mundo, que h seres que renascem espontaneamente, que existe fruto ou resultado de aes boas ou ms, eles fariam isso? - No, venervel Kassapa, porque ns j teramos morrido h muito tempo. Mas, venervel Kassapa, quem lhe disse que os devas do Trinta e Trs existem e que eles vivem por tanto tempo? Eu no acredito que os devas do Trinta e Trs existam ou que vivam por tanto tempo.

Prncipe, imagine um homem que seja cego de nascimento e que no possa ver objetos claros ou escuros ou objetos azuis, amarelos, vermelhos, ou carmesins, no possa ver o plano e o rugoso, no possa ver as estrelas e a lua. Ele poderia dizer: No existem objetos claros e escuros e ningum que possa v-los ... no existe o sol ou a lua e ningum que possa v-los. Eu no tenho conscincia disso e portanto, isso no existe. Ele estaria falando da forma correta, Prncipe? - No, venervel Kassapa. Existem objetos claros e escuros ..., existe um sol e uma lua e qualquer um que diga: Eu no tenho conscincia disso e portanto isso no existe no estaria falando da forma correta.

Bem, Prncipe, parece que a sua resposta igual resposta do homem cego ao me perguntar como sei dos devas do Trinta e Trs e da sua longevidade. Prncipe, o outro mundo no pode ser visto da forma como voc pensa, atravs do olho fsico. Prncipe, aqueles contemplativos e Brmanes que buscam nos lugares isolados na floresta, um local que seja tranqilo, com pouco rudo eles ali permanecem afastados, decididos, ardentes, purificando o olho divino e com esse olho divino purificado que supera o poder do olho humano, eles tanto vm este mundo como o mundo que est alm e os seres que renascem espontaneamente. Assim, Prncipe, como o outro mundo pode ser visto e no da forma como voc pensa, atravs do olho fsico. Por conseguinte, Prncipe, admita que existe um outro mundo, que h seres que renascem espontaneamente, que existe fruto ou resultado de aes boas ou ms.

12. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Bem, Venervel Kassapa, eu vejo aqui alguns contemplativos e Brmanes que observam a virtude e so bem comportados, que desejam viver, no querem morrer, que desejam o prazer e abominam a dor. E me parece que se esses bons contemplativos e Brmanes que so to virtuosos e bem comportados sabem que depois da morte eles desfrutaro de uma situao melhor, ento essas boas pessoas deveriam agora mesmo tomar veneno, tomar uma faca e se matar, enforcar-se ou pular de um penhasco. Mas, embora eles tenham esse conhecimento, eles ainda assim desejam viver, no querem morrer, eles desejam o prazer e abominam a dor. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo ...

13. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile, pois alguns sbios compreendem o significado de um enunciado atravs de um smile. Certa vez, Prncipe, certo Brmane tinha duas esposas. Uma tinha um filho de dez ou doze anos, enquanto que a outra estava grvida e prxima de dar luz quando o Brmane morreu. Ento, aquele jovem disse para a mulher grvida: Senhora, toda a riqueza e posses, prata ou ouro, que possa existir, ser tudo meu. Meu pai fez de mim o seu herdeiro. Em resposta, a senhora Brmane disse para o jovem: Espere, jovem, at que eu d luz. Se o beb for um menino, uma parte ser dele e se for uma menina, ela se tornar sua serva. O jovem repetiu as suas palavras uma segunda vez e recebeu a mesma resposta. Quando ele as repetiu pela terceira vez, a senhora tomou uma faca e indo para um cmodo privado, cortou a barriga, pensando: Se pelo menos pudesse descobrir se um menino ou menina! E assim ela destruiu a si mesma e o feto, bem como a riqueza, tal como fazem os tolos que buscam a sua herana sem sabedoria, desatentos aos perigos ocultos.

Do mesmo modo voc, Prncipe, ir tolamente enfrentar perigos ocultos ao buscar um outro mundo sem sabedoria, como aquela senhora Brmane ao buscar a sua herana. Mas, Prncipe, aqueles contemplativos e Brmanes que observam a virtude e so bem comportados no buscam acelerar o amadurecimento daquilo que ainda no est maduro, mas ao invs disso, com sabedoria eles aguardam o seu amadurecimento. A vida benfica para esses contemplativos e Brmanes, pois quanto mais tempo esses contemplativos e Brmanes virtuosos e bem comportados permanecerem vivos, mais mritos eles criaro; eles praticam para o bem-estar de muitos, para a felicidade de muitos, por compaixo pelo mundo, pelo bem-estar e felicidade de devas e humanos. Por conseguinte, Prncipe, admita que existe um outro mundo...

14. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, suponha que tragam minha presena um ladro pego em flagrante e digam: Este homem, Senhor, um ladro pego em flagrante. Sentencie-o a qualquer punio que voc desejar. E eu diga: Tomem esse homem e coloquem-no vivo dentro de uma jarra. Fechem a boca da jarra com uma pele umedecida coberta com uma grossa camada de argila mida, coloquem-na num forno e acendam o fogo. E assim eles fazem. Quando temos certeza que o homem est morto, removemos a jarra, quebramos a argila, destampamos a boca e observamos com cuidado: Talvez possamos ver a alma [4] dele escapando. Mas ns no vemos nenhuma alma escapando. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo...

15. Quanto a isso, Prncipe, eu lhe farei uma pergunta em retorno. Responda como quiser. Voc admite que ao ir para a sua sesta ao meio-dia voc teve vises prazerosas de parques, florestas, campinas e lagos com flores de ltus? - Eu tive, Venervel Kassapa. - E nessa ocasio voc no observado por corcundas, anes, meninas e donzelas? - Eu sou, venervel Kassapa. - E eles observam a sua alma entrando ou saindo do seu corpo? - No, venervel Kassapa. - Ento eles no vm a sua alma entrando ou saindo do seu corpo, mesmo voc estando vivo. Portanto, como poderia voc ver a alma de um homem morto entrando ou saindo do seu corpo? Por conseguinte, Prncipe, admita que existe um outro mundo ...

16. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, suponha que tragam minha presena um ladro ... E eu diga: Pesem este homem vivo na balana, depois o estrangulem e pesem-no outra vez. E assim eles fazem. E enquanto ele estava vivo, ele era mais leve, malevel e flexvel, mas depois de morto, ele ficou mais pesado, rgido e inflexvel. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo ...

17. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Suponha que um homem pesasse uma bola de ferro que tivesse sido aquecida durante todo um dia, inflamada, ardendo com intensidade, brilhando. E suponha que depois de algum tempo, quando ela tivesse esfriado, ele a pesasse novamente. Em qual momento a bola estaria mais leve, malevel e mais flexvel: quando estava quente, inflamada, ardendo com intensidade, brilhando ou quando estava fria e extinta?

Venervel Kassapa, quando a bola de ferro est quente, inflamada, ardendo com intensidade, brilhando, com o predomnio dos elementos do fogo e ar, ento ela estar mais leve, malevel e flexvel. Quando esses elementos no predominarem, ela tiver esfriado e extinta, ela se tornar mais pesada, rgida e inflexvel. - Bem ento, Prncipe, ocorre o mesmo com o corpo. Quando ele tem vida, calor e conscincia, o corpo fica leve, malevel e flexvel. Mas quando est privado da vida, calor e conscincia, o corpo fica pesado, rgido e inflexvel. Da mesma forma, Prncipe, voc deveria considerar: Existe um outro mundo ...

18. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, suponha que tragam minha presena um ladro ... E eu diga: Executem esse homem sem ferir a sua cutcula, pele, msculos, tendes, ossos ou medula, e assim eles fazem. Quando ele est meio morto, eu digo: Agora, deitem esse homem de costas e talvez possamos ver a sua alma emergindo. Eles assim fazem, mas no podemos ver a sua alma emergindo. Ento eu digo: Virem-no com a cara para baixo, ... para o lado, ... o outro lado, ... coloquem-no em p, ... coloquem-no de cabea para baixo, golpeiem-no com os punhos, ... atirem pedras nele, ... batam nele com paus, ... golpeiem-no com espadas, ... sacudam-no com isto ou aquilo e talvez possamos ver a sua alma emergindo. Eles fazem todas essas coisas, mas embora esse homem tenha olhos, ele no percebe objetos ou as suas bases, embora tenha ouvidos, ele no ouve sons ..., embora ele tenha nariz, no cheira aromas ..., embora ele tenha lngua, no saboreia sabores ..., embora ele tenha um corpo, no sente os tangveis ou as suas bases. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo...

19. Muito bem, ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, houve um trompetista que pegou o seu trompete e foi para um vilarejo na regio fronteiria. [5] Chegando, ele foi at o centro do vilarejo e soprou o seu trompete trs vezes e depois o colocou no cho e sentou-se. Ento, Prncipe, as pessoas pensaram: De onde vem esse som to delicioso, to doce, to embriagante, to convincente e cativante? Elas foram at o trompetista e perguntaram sobre isso. Amigos, deste trompete que provm esse som delicioso. Ento elas deitaram o trompete no cho e imploraram: Cante, senhor trompete, cante! Mas o trompete no emitiu nenhum som. Ento, eles o colocaram com a boca para baixo, ... de lado, ... do outro lado, ... em p, ... de cabea para baixo, ... golpearam-no com os punhos, ... atiraram pedras nele, ... bateram nele com paus, ... golpearam-no com espadas, ... sacudiram-no com isto ou aquilo, implorando: Cante, senhor trompete, cante! Mas o trompete no emitiu nenhum som. O trompetista pensou: Que tola essa gente fronteiria! Estupidamente eles procuram o som do trompete! E enquanto aquelas pessoas o observavam, ele tomou o trompete, soprou trs vezes e foi embora. E aquelas pessoas pensaram: Parece que quando o trompete acompanhado por um homem, pelo esforo e pelo vento, ento ele produz um som. Mas quando no acompanhado por um homem, pelo esforo e pelo vento, ento o trompete no produz nenhum som.

Do mesmo modo, Prncipe, quando este corpo tem vida, calor e conscincia, ento, ele vai e regressa, fica em p e senta e deita, v coisas com os olhos, ouve sons com os ouvidos, cheira aromas com o nariz, saboreia sabores com a lngua, toca tangveis com o corpo e percebe os objetos mentais com a mente. Mas quando no tem vida, calor ou conscincia, ele no faz nenhuma dessas coisas. Da mesma forma, Prncipe, voc deveria considerar: Existe um outro mundo...

20. No importa o que voc diga com relao a isso, Venervel Kassapa, eu ainda penso que no existe outro mundo ... - Voc tem alguma outra justificativa para essa afirmao, Prncipe? - Eu tenho, Venervel Kassapa. - Qual , Prncipe?

Venervel Kassapa, suponha que tragam minha presena um ladro ... E eu diga: Arranquem a pele externa desse homem e talvez possamos ver a sua alma emergindo. Ento, digo para que arranquem a pele interna, os msculos, tendes, ossos, medula ... mas ns no vemos nenhuma alma escapando. Essa, Venervel Kassapa, a razo para afirmar: No existe outro mundo ...

21. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, houve um asceta com o cabelo emaranhado e sujo que adorava o fogo [6] e que vivia na floresta numa cabana feita de folhas. Certa tribo estava migrando e o seu lder ficou, por uma noite, prximo da moradia do adorador do fogo e depois partiu. Ento, o adorador do fogo pensou que ele poderia ir at o local para ver se encontraria algo que pudesse ser til para ele. Ele levantou cedo e foi at o local e l ele encontrou um pequeno beb, menino, deitado de costas, abandonado. Ao v-lo ele pensou: No seria correto que eu o ignorasse deixando que um ser humano morra. melhor que eu leve essa criana para a minha cabana, tome conta dela, alimente-a e crie-a. E assim ele fez. Quando o menino tinha dez ou doze anos, o asceta com alguns assuntos para tratar na vizinhana, disse para o menino: Eu irei at a vizinhana, meu filho. Voc tome conta do fogo e no permita que ele apague. Se ele apagar, aqui est um machado, aqui esto alguns gravetos para acender o fogo para que voc possa reacend-lo e cuidar dele. Depois de instruir o menino dessa forma, o asceta foi at a vizinhana. Mas o menino, entretido com os seus brinquedos, deixou que o fogo se apagasse. Ento, ele pensou: O meu pai disse: ... aqui est um machado... para que voc possa reacender o fogo e cuidar dele. Agora melhor que eu faa isso! Ento, ele picou os gravetos com o machado, pensando: Espero que consiga acender o fogo desse modo. Mas ele no conseguiu acender o fogo. Ele cortou os gravetos para acender o fogo em dois, trs, quatro, cinco, dez, cem pedaos, ele os lascou, ele os moeu num almofariz, ele os peneirou ao vento, pensando: Espero que consiga acender o fogo desse modo. Mas ele no conseguiu acender o fogo, e quando o asceta regressou, depois de ter concludo os seus assuntos, ele disse: Filho, porque voc deixou o fogo apagar? e o menino relatou aquilo que havia acontecido. O asceta pensou: Que estpido esse menino, que falta de bom senso! Que maneira mais impensada de tentar acender um fogo! Assim, enquanto o menino observava, ele tomou os gravetos para acender o fogo e o reacendeu, dizendo: Filho, esse o modo para reacender um fogo, no a maneira incorreta, estpida e tola que voc tentou!

Do mesmo modo, Prncipe, voc est procurando um outro mundo de modo incorreto, estpido e tolo. Prncipe, abandone essa idia perniciosa, deixe-a de lado! No permita que ela lhe traga desgraa e sofrimento por muito tempo!

22. Muito embora voc diga isso, venervel Kassapa, eu ainda no suporto abandonar essa idia perniciosa. O Rei Pasenadi de Kosala conhece as minhas idias e assim tambm os reis no estrangeiro. Se eu abandonar essas idias, eles diro: Que tolo o Prncipe Payasi, estupidamente ele se agarrava a idias incorretas! Eu permanecerei apegado a essas idias com raiva, desdm e ressentimento!

23. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, Prncipe, uma grande caravana com mil carroas estava viajando do leste para o oeste. E aonde quer que fossem eles rapidamente consumiam todo o capim, madeira e toda a vegetao. Agora, essa caravana tinha dois lderes, cada um responsvel por quinhentas carroas. E eles pensaram: Esta uma grande caravana com mil carroas. Onde quer que ns vamos, consumimos todas as provises. Talvez devssemos dividir a caravana em dois grupos com quinhentas carroas cada um, e assim eles fizeram. Ento, um dos lderes juntou capim, madeira e gua em abundncia e partiu. Depois de dois ou trs dias de jornada ele viu vindo na sua direo um homem escuro com os olhos vermelhos, tremendo e com uma coroa de nenfares brancos, com as roupas e o cabelo molhados, conduzindo uma carroa puxada por um burro cujas rodas estavam salpicadas pela lama. Ao ver aquele homem, o lder disse: De onde voc vem, senhor? - De tal e qual lugar. - E para onde voc vai? - Para tal e qual lugar. - Tem chovido muito na floresta que est mais frente? - Ah, sim senhor, tem chovido muito na floresta que est mais frente; as estradas esto bem umedecidas e h capim, madeira e gua em abundncia. Jogue fora o capim, madeira e gua que voc traz consigo, senhor! Voc avanar com maior rapidez com as carroas mais leves, e assim os bois no se cansaro! O lder da caravana disse para os carroceiros aquilo que o homem havia dito: Joguem fora o capim, madeira e gua ..., e assim eles fizeram. Mas no acampamento seguinte eles no encontraram nenhuma capim, madeira e gua, nem no segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto ou stimo, e assim eles acabaram arruinados e aniquilados. E todos que faziam parte da caravana, homens e gado, foram devorados por aquele yakkha, [7] s restando os seus ossos. [8]

E quando o lder da segunda caravana estava seguro que a primeira caravana havia avanado o suficiente, ele se abasteceu de capim, madeira e gua em abundncia. Depois de dois ou trs dias de jornada este lder viu, vindo na sua direo, um homem escuro com os olhos vermelhos ... que o aconselhou a jogar fora as suas provises de capim, madeira e gua. Ento, o lder disse para os carroceiros: Este homem est-nos dizendo que joguemos fora o capim, madeira e gua que temos. Mas ele no um dos nossos amigos ou parentes, ento porque deveramos confiar nele? Portanto, no joguem fora o capim, madeira e gua que temos; que a caravana continue o seu caminho com as provises que trouxemos e no joguem fora nada! Os carroceiros concordaram e fizeram aquilo que ele disse. E no acampamento seguinte eles no encontraram nenhum capim, madeira e gua, nem no segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto ou stimo, mas neste ltimo eles viram que a outra caravana havia sido arruinada e aniquilada, e eles viram os ossos daqueles homens e do gado que haviam sido devorados pelo yakkha. Ento, o lder da caravana disse para os carroceiros: Aquela caravana foi arruinada e aniquilada devido estupidez do seu lder. Agora deixemos para trs aquelas mercadorias de pouco valor que trazemos e tomemos da outra caravana o que h de mais valor. E assim eles fizeram. E com aquele lder sbio eles atravessaram a floresta em segurana.

Do mesmo modo, Prncipe, voc ser arruinado e aniquilado se continuar procurando um outro mundo de modo incorreto, estpido e tolo. Aqueles que pensam, que podem confiar em qualquer coisa que ouvirem, esto destinados runa e aniquilao, como aqueles carroceiros. Prncipe, abandone essa idia perniciosa, deixe-a de lado! No permita que ela lhe traga desgraa e sofrimento por muito tempo!

24. Muito embora voc diga isso, venervel Kassapa, eu ainda no suporto abandonar essa idia perniciosa... Se eu abandon-la, eles diro: Que tolo o Prncipe Payasi...

25. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, um pastor de porcos estava indo do seu vilarejo para um outro vilarejo. Ento, ele viu um monte de esterco seco que havia sido jogado fora e ele pensou: Aqui h bastante esterco seco que algum jogou fora, isso alimento para os meus porcos. Eu devo levar isso comigo. Ele abriu a sua capa, recolheu nela o esterco, fez uma trouxa colocando-a sobre a cabea e seguiu o seu caminho. No caminho de volta caiu uma pesada chuva, mas sem deixar de carregar a trouxa de esterco ele seguiu o seu caminho, salpicado com o esterco que se esvaia e pingava por todos os lados at a ponta dos seus dedos. Aqueles que o viam diziam: Voc deve estar louco! Voc deve estar maluco! Porque voc est carregando essa trouxa com esterco que est se esvaindo e pingando por todos os lados at a ponta dos seus dedos? - Vocs que esto loucos! Vocs que esto malucos! Isto comida para os meus porcos. Prncipe, voc fala como o carregador de esterco na minha histria. Prncipe, abandone essa idia perniciosa, deixe-a de lado! No permita que ela lhe traga desgraa e sofrimento por muito tempo!

26. Muito embora voc diga isso, venervel Kassapa, eu ainda no suporto abandonar essa idia perniciosa ... Se eu abandon-la, eles diro: Que tolo o Prncipe Payasi ...

27. Muito bem ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, dois jogadores estavam usando nozes no lugar de dados. Um deles, sempre que a jogada no o favorecia, engolia a noz. O outro se deu conta do que ele estava fazendo e disse: Tudo bem, meu amigo, voc o vencedor! Passe me as nozes para que eu lhes faa uma oferenda. - Est bem, disse o primeiro e lhe deu as nozes. Ento, o segundo recheou as nozes com veneno e depois disse: Venha, vamos jogar! O outro concordou e eles jogaram novamente e uma vez mais o primeiro jogador, sempre que a jogada no o favorecia, engolia a noz. O segundo ficou s observando o outro fazer isso e depois recitou este verso:

Os dados esto besuntados com algo que queima,
porm ele engole sem saber.
Engula, trapaceiro, engula bem -
o amargor ser igual ao inferno!

Prncipe, voc fala igual ao jogador na minha histria. Prncipe, abandone essa idia perniciosa, deixe-a de lado! No permita que ela lhe traga desgraa e sofrimento por muito tempo!

28. Muito embora voc diga isso, venervel Kassapa, eu ainda no suporto abandonar essa idia perniciosa ... Se eu abandon-la, eles diro: Que tolo o Prncipe Payasi ...

29. Muito bem, ento, Prncipe, eu explicarei com um smile ... Certa vez, os habitantes de certa vizinhana migraram. E um homem disse para o seu amigo: Venha, vamos at aquela vizinhana, poderemos encontrar algo de valor! O amigo dele concordou e assim eles foram para aquela vizinhana e chegaram numa das ruas do vilarejo. L eles viram um monte de cnhamo que havia sido jogado fora e um deles disse: Veja este monte de cnhamo. Voc faz uma trouxa, eu fao outra e ns dois levaremos isso embora, o outro concordou e assim eles fizeram. Ento, chegando a uma outra rua do vilarejo, eles encontraram fios de cnhamo e um deles disse: Essa pilha de fios de cnhamo exatamente a razo pela qual queramos o cnhamo. Joguemos fora a trouxa de cnhamo e sigamos cada um com um monte de fios de cnhamo. - Eu j carreguei essa trouxa de cnhamo por uma longa distncia e ela est bem amarrada, isso ser o suficiente para mim quanto a voc, faa o que quiser! Assim o companheiro jogou fora o cnhamo e tomou o fio de cnhamo.

Chegando a uma outra rua do vilarejo eles encontraram panos feitos de cnhamo e um deles disse: Esta pilha de panos de cnhamo exatamente a razo pela qual queramos o cnhamo e os fios de cnhamo. Jogue fora a sua trouxa de cnhamo, que eu jogarei fora o meu monte de fios de cnhamo e ns seguiremos cada um com um monte de panos de cnhamo. Mas o outro respondeu do mesmo modo que antes, assim o companheiro jogou fora o monte de fios de cnhamo e tomou o monte de panos de cnhamo. Num outro vilarejo eles viram um monte de linho, ..., em outro, fios de linho, ..., em outro, panos de linho, ..., em outro, algodo, ..., em outro, fios de algodo, ..., em outro, panos de algodo, ... , em outro, ferro, ..., em outro, cobre, ... , em outro, estanho, ..., em outro, chumbo, ..., em outro, prata, ... , em outro, ouro. Ento um deles disse: Este monte de ouro exatamente a razo pela qual queramos o cnhamo, fios de cnhamo, panos de cnhamo, linho, fios de linho, panos de linho, algodo, fios de algodo, panos de algodo, ferro, cobre, estanho, chumbo, prata. Jogue fora a sua trouxa de cnhamo, que eu jogarei fora o meu monte de prata e ns seguiremos cada um com um monte de ouro. Eu j carreguei essa trouxa de cnhamo por uma longa distncia e ela est bem amarrada, isso ser o suficiente para mim quanto a voc, faa o que quiser! Assim o companheiro jogou fora o monte de prata e tomou o monte de ouro.

Ento, eles regressaram ao vilarejo deles. Aquele que voltou com uma trouxa de cnhamo no satisfez aos seus pais, nem sua esposa e filhos e tampouco aos seus amigos e companheiros, e ele no obteve para si mesmo nenhuma alegria ou felicidade. Mas aquele que voltou com um monte de ouro satisfez os seus pais, sua esposa e filhos, seus amigos e companheiros, e ele obteve para si mesmo muita alegria e felicidade.

Prncipe, voc fala como o carregador de cnhamo na minha histria. Prncipe, abandone essa idia perniciosa, deixe-a de lado! No permita que ela lhe traga desgraa e sofrimento por muito tempo!

30. Eu estava satisfeito e contente com o primeiro smile do venervel Kassapa, mas queria ouvir as suas respostas perspicazes a estas perguntas, porque supus que era um adversrio digno. Magnfico, venervel Kassapa! Magnfico, venervel Kassapa! O venervel Kassapa esclareceu o Dhamma de vrias formas, como se tivesse colocado em p o que estava de cabea para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para algum que estivesse perdido ou segurasse uma lmpada no escuro para aqueles que possuem viso pudessem ver as formas. Venervel Kassapa, eu busco refgio no Abenoado, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o venervel Kassapa me aceite como discpulo leigo que buscou refgio para o resto da vida. E, venervel Kassapa, eu gostaria de oferecer um grande sacrifcio. Instrua-me, venervel Kassapa, como isso deve ser feito para o meu bem-estar e felicidade por muito tempo.

31. Prncipe, quando um sacrifcio, onde so mortos touros, bois ou novilhos, bodes ou carneiros, ou vrios outros tipos de seres vivos, realizado; [9] e os participantes tm entendimento incorreto, pensamento incorreto, linguagem incorreta, ao incorreta, modo de vida incorreto, esforo incorreto, ateno plena incorreta e concentrao incorreta, ento, esse sacrifcio no traz grandes frutos ou benefcios, ele no muito brilhante e no tem luminosidade. Suponha Prncipe, que um agricultor fosse para a floresta com um arado e sementes, e l, num pedao de terra no cultivado, com solo pobre, onde os tocos no tivessem sido desenraizados, ele semeasse sementes que estivessem quebradas, apodrecidas, velhas, arruinadas pelo vento e pelo calor, e que elas fossem plantadas no solo da forma inadequada, e que os devas da chuva no mandassem as chuvas no momento apropriado essas sementes germinariam, se desenvolveriam e cresceriam, e o agricultor obteria uma colheita abundante? - No, venervel Kassapa..

Ento, Prncipe, ocorre o mesmo com um sacrifcio no qual so mortos touros ... os participantes tm entendimento incorreto ... concentrao incorreta. Mas quando nenhuma dessas criaturas morta e os participantes tm entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta, ento aquele sacrifcio traz grandes frutos ou benefcios, ele muito brilhante e tem luminosidade. Suponha, Prncipe, que um agricultor fosse para a floresta com um arado e sementes, e l, num pedao de terra bem cultivado com solo rico, do qual os tocos tivessem sido desenraizados, ele semeasse sementes que no estivessem quebradas, apodrecidas, ou velhas, arruinadas pelo vento e pelo calor, e que elas fossem plantadas no solo de forma adequada e que os devas da chuva mandassem as chuvas no momento apropriado essas sementes germinariam, se desenvolveriam e cresceriam, e o agricultor obteria uma colheita abundante? - Sim, venervel Kassapa.

Do mesmo modo, Prncipe, um sacrifcio no qual no so mortos touros, ... os participantes tm entendimento correto, ... concentrao correta, ento, esse sacrifcio traz grandes frutos ou benefcios, ele muito brilhante e tem luminosidade.

32. Ento, o Prncipe Payasi estabeleceu uma caridade para contemplativos e Brmanes, peregrinos, mendigos e para os necessitados. A comida servida era arroz de segunda com mingau azedo e tambm a roupa oferecida era grosseira e spera. Um jovem brmane chamado Uttara foi colocado como responsvel pela distribuio. Em relao a isso ele dizia: Atravs desta caridade estou associado ao Prncipe Payasi neste mundo, mas no no mundo que est alm..

E o Prncipe Payasi depois de ouvir aquelas palavras pediu que ele viesse sua presena e a perguntou-lhe se ele havia dito aquilo. Sim, senhor. - Mas porque voc disse esse tipo de coisa? Amigo Uttara, ns, que desejamos ganhar mrito, no esperamos uma recompensa pela nossa caridade?

Mas, senhor, a comida que voc d - arroz de segunda com mingau azedo voc no iria querer toc-la nem com o p, quanto menos com-la! E as roupas grosseiras e speras voc no iria querer toc-las nem com o p, quanto menos vesti-las! Senhor, voc amvel e generoso conosco, mas como podemos reconciliar tal amabilidade e generosidade com a m vontade e mesquinhez? - Muito bem Uttara, ento, providencie para que a comida oferecida seja aquela que eu como e as roupas, as que eu visto. - Muito bem, senhor, Uttara disse e assim ele fez.

E o Prncipe Payasi, porque havia estabelecido aquela caridade com m vontade e no com as suas prprias mos, sem o cuidado apropriado, como se de modo descuidado jogasse algo fora, renasceu com a dissoluo do corpo, aps a morte, na companhia dos Quatro Grandes Reis, na manso vazia Serisaka. Mas Uttara, que havia dado a caridade sem m vontade, com as suas prprias mos e com o interesse apropriado, no de modo descuidado, com a dissoluo do corpo, aps a morte, renasceu num destino feliz, no paraso, na companhia dos devas do Trinta e Trs.

33. Agora, naquela ocasio, o venervel Gavampati tinha o hbito de ir at a manso vazia Serisaka para a sua sesta do meio-dia. E Payasi foi at o venervel Gavampati e depois de cumpriment-lo ficou em p a um lado. E o venervel Gavampati disse o seguinte: Quem voc, amigo? - Senhor, eu sou o Prncipe Payasi. - Amigo, voc no aquele que costumava dizer: No existe outro mundo, no h seres que renascem espontaneamente, no existe fruto ou resultado de aes boas ou ms? - Sim, senhor, eu sou aquele que costumava dizer isso, mas fui convertido dessa idia perniciosa pelo nobre Kumara-Kassapa. - E onde renasceu o jovem Brmane Uttara, que estava a cargo da distribuio da sua caridade?.

Senhor, ele que deu a caridade sem m vontade ... renasceu num destino feliz, no paraso, na companhia dos devas do Trinta e Trs, mas eu, que dei com m vontade ... renasci aqui na manso vazia Serisaka. Senhor, por favor, quando voc retornar para o mundo humano, diga para as pessoas darem sem m vontade ... e diga-lhes onde o Prncipe Payasi e o jovem Brmane Uttara renasceram.

34. E assim o Venervel Gavampati, ao retornar ao mundo humano, declarou: Vocs devem dar sem m vontade, com as prprias mos e com o cuidado apropriado, no de modo descuidado. O Prncipe Payasi no fez isso e com a dissoluo do corpo, aps a morte, ele renasceu na companhia dos Quatro Grandes Reis na manso vazia de Serisaka, enquanto que o administrador da sua caridade, o jovem Brmane Uttara, que deu sem m vontade, com as suas prprias mos e com o cuidado apropriado, no de modo descuidado, renasceu na companhia dos devas do Trinta e Trs.

 


 

Notas:

[1] Conhecido como o Jovem Kassapa para distingui-lo de outros Kassapa, como Maha-Kassapa, (DN 16.6.19). Descrito como o melhor pregador na Sangha, ele demonstra as suas habilidades neste debate com Payasi. [Retorna]

[2] Este no o mesmo bosque de Simsapa onde Buda discursou a conhecida parbola das folhas de simsapa (SN LVI.31), que ficava em Kosambi. [Retorna]

[3] As idias de Ajita Kesakambali expostas no DN 2.23. [Retorna]

[4] Jivam: veja o DN 6 e DN 7.[Retorna]

[5] As pessoas que viviam na regio fronteiria eram consideradas estpidas. [Retorna]

[6] Jatila. Pouco tempo depois da sua iluminao o Buda converteu os trs irmos Kassapa que eram adoradores do fogo. [Retorna]

[7] Neste caso o yakkha definitivamente uma criatura m, compare com o DN 18.9. [Retorna]

[8] Esta histria tambm relatada no Jataka 1, e uma histria parecida no Jataka 2.[Retorna]

[9] Veja o DN 5. [Retorna]

 

 

Revisado: 25 Maro 2008

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