Majjhima Nikaya 30

Culasaropama Sutta

O Pequeno Discurso sobre o Smile do Cerne

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1. Assim ouvi. Em certa ocasio o Abenoado estava em Savatthi no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika.

2. Ento, o brmane Pingalakoccha foi at o Abenoado e ambos se cumprimentaram. Depois que a conversa amigvel e corts havia terminado, ele sentou a um lado e disse para o Abenoado:

Mestre Gotama, esses contemplativos e brmanes, lderes de ordens, lderes de grupos, mestres de grupos, conhecidos e famosos fundadores de seitas religiosas, considerados como santos por muitos, como Purana Kassapa, Makkhali Gosala, Ajita Kesakambalin, Pakudha Kaccayana, Sanjaya Belatthiputta e o Nigantha Nataputta[1] - todos eles realizaram a verdade como cada um deles cr ou nenhum deles a realizou, ou alguns realizaram e outros no? J basta, no importa se todos ou nenhum, ou alguns realizaram a verdade. Vou ensinar para voc o Dhamma, brmane. Oua e preste muita ateno quilo que eu vou dizer. [2] Sim, senhor, o brmane Pingalakoccha respondeu. O Abenoado disse o seguinte:

3. Suponha, brmane, que um homem, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegasse at uma grande rvore que possusse um cerne. Ignorando o cerne, o alburno, a casca interna e a casca externa ele cortasse os galhos e folhas e os levasse embora, pensando que fossem o cerne. Ento, um homem com boa viso, vendo aquilo, poderia dizer: Esse bom homem no sabe o que o cerne, o alburno, a casca interna, a casca externa ou os galhos e folhas. E assim, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegou at uma grande rvore que possua um cerne. Ignorando o cerne, o alburno, a casca interna e a casca externa, ele cortou os galhos e folhas e os levou embora, pensando que fossem o cerne. O que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

4. Suponham que um homem, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegasse at uma grande rvore que possusse um cerne. Ignorando o cerne, o alburno e a casca interna, ele cortasse a casca externa e a levasse embora, pensando que fosse o cerne. Ento, um homem com boa viso, vendo aquilo, poderia dizer: Esse bom homem no sabe o que o cerne ... ou os galhos e folhas. E assim, precisando do cerne de uma rvore ... ele cortou a casca externa e a levou embora, pensando que fosse o cerne. O que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

5. Suponham que um homem, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegasse at uma grande rvore que possusse um cerne. Ignorando o cerne e o alburno, ele cortasse a casca interna e a levasse embora, pensando que fosse o cerne. Ento, um homem com boa viso, vendo aquilo, poderia dizer: Esse bom homem no sabe o que o cerne ... ou os galhos e folhas. E assim, precisando do cerne de uma rvore ... ele cortou a casca interna e a levou embora, pensando que fosse o cerne. O que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

6. Suponham que um homem, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegasse at uma grande rvore que possusse um cerne. Ignorando o cerne, ele cortasse o alburno e o levasse embora, pensando que fosse o cerne. Ento, um homem com boa viso, vendo aquilo, poderia dizer: Esse bom homem no sabe o que o cerne ... ou os galhos e folhas. E assim, precisando do cerne de uma rvore ... ele cortou o alburno e o levou embora, pensando que fosse o cerne. O que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

7. Suponham que um homem, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegasse at uma grande rvore que possusse um cerne, e cortando apenas o cerne, ele o levasse embora, sabendo que era o cerne. Ento, um homem com boa viso, vendo aquilo, poderia dizer: Esse bom homem sabe o que o cerne, o alburno, a casca interna, a casca externa e os galhos e folhas. Portanto, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chegou at uma grande rvore que possua um cerne e cortando apenas o cerne, ele o levou embora, sabendo que era o cerne. O que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito ser satisfeito.

8. Da mesma forma, brmane, aqui, um membro de um cl com base na f deixa a vida em famlia e segue a vida santa, considerando: Eu sou uma vtima do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; eu sou uma vtima do sofrimento, uma presa do sofrimento. Com certeza, um fim a toda essa massa de sofrimento pode ser apreendido. E quando ele segue a vida santa, ele obtm ganho, honraria e fama. Ele fica satisfeito com esse ganho, honraria e fama e a inteno dele realizada. Por conta disso, ele elogia a si mesmo e menospreza os outros assim: Eu obtive ganho, honraria e fama, mas esses outros bhikkhus so desconhecidos, sem importncia. Assim, ele no desperta o desejo de agir, ele no faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes que o ganho, honraria e fama; ele hesita e fraqueja. [3] Eu digo que essa pessoa igual ao homem que precisava do cerne de uma rvore, chegou at uma grande rvore que possua cerne e, ignorando o cerne, o alburno, a casca interna e a casca externa, ele cortou os galhos e folhas e os levou embora, pensando que fossem o cerne; e assim o que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

9. Aqui, brmane, um membro de um cl com base na f deixa a vida em famlia e segue a vida santa, considerando: Eu sou uma vtima do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; eu sou uma vtima do sofrimento, uma presa do sofrimento. Com certeza, um fim a toda essa massa de sofrimento pode ser apreendido. E quando ele segue a vida santa, ele obtm ganho, honraria e fama. Ele no fica satisfeito com esse ganho, honraria e fama, e a inteno dele no realizada. Por conta disso, ele no elogia a si mesmo e no menospreza os outros. Ele desperta o desejo de agir, ele faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes que os ganho, honraria e fama; ele no hesita e no fraqueja. Ele alcana a perfeio da virtude. Ele fica satisfeito com a perfeio da virtude e a inteno dele realizada. Por conta disso, ele elogia a si mesmo e menospreza os outros assim: Eu sou virtuoso, com bom carter, mas esses outros bhikkhus so imorais, com carter ruim. Assim, ele no desperta o desejo de agir, ele no faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes do que a perfeio da virtude; ele hesita e fraqueja. Eu digo que essa pessoa igual ao homem que precisava do cerne de uma rvore ... ignorando o cerne, o alburno, a casca interna, ele cortou a casca externa e a levou embora, pensando que fosse o cerne; e assim o que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

10. Aqui, brmane, um membro de um cl com base na f deixa a vida em famlia e segue a vida santa, considerando: Eu sou uma vtima do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; eu sou uma vtima do sofrimento, uma presa do sofrimento. Com certeza, um fim a toda essa massa de sofrimento pode ser apreendido. E quando ele segue a vida santa, ele obtm ganho, honraria e fama. Ele no fica satisfeito com esse ganho, honraria e fama, e a inteno dele no realizada. Ele alcana a perfeio da virtude. Ele fica satisfeito com a perfeio da virtude, mas a inteno dele no realizada. Por conta disso, ele no elogia a si mesmo e no menospreza os outros. Ele desperta o desejo de agir, ele faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes que a perfeio da virtude; ele no hesita e no fraqueja. Ele alcana a perfeio da concentrao. Ele fica satisfeito com a perfeio da concentrao e a inteno dele realizada. Por conta disso, ele elogia a si mesmo e menospreza os outros assim: Eu tenho concentrao, minha mente est unificada, mas esses outros bhikkhus no tm concentrao, as mentes deles esto dispersas. Assim, ele no desperta o desejo de agir, ele no faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes do que a perfeio da concentrao; ele hesita e fraqueja. Eu digo que essa pessoa igual ao homem que precisava do cerne de uma rvore ... ignorando o cerne, o alburno, ele cortou a casca interna e a levou embora, pensando que fosse o cerne; e assim o que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

11. Aqui, brmane, um membro de um cl com base na f deixa a vida em famlia e segue a vida santa, considerando: Eu sou uma vtima do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; eu sou uma vtima do sofrimento, uma presa do sofrimento. Com certeza, um fim a toda essa massa de sofrimento pode ser apreendido. E quando ele segue a vida santa, ele obtm ganho, honraria e fama. Ele no fica satisfeito com esse ganho, honraria e fama, e a inteno dele no realizada ... Ele alcana a perfeio da virtude. Ele fica satisfeito com a perfeio da virtude, mas a inteno dele no realizada ... Ele alcana a perfeio da concentrao. Ele fica satisfeito com a perfeio da concentrao, mas a inteno dele no realizada. Por conta disso, ele no elogia a si mesmo e no menospreza os outros. Ele desperta o desejo de agir, ele faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes do que a perfeio da concentrao; ele no hesita e no fraqueja. Ele alcana o conhecimento e viso. Ele fica satisfeito com o conhecimento e viso, e a inteno dele realizada. Por conta disso, ele elogia a si mesmo e menospreza os outros assim: Eu vivo com o conhecimento e viso, mas esses outros bhikkhus vivem sem conhecer nem ver. Assim, ele no desperta o desejo por agir, ele no faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes que o conhecimento e viso; ele hesita e fraqueja. Eu digo que essa pessoa igual ao homem que precisava do cerne de uma rvore ... ignorando o cerne, ele cortou o alburno e o levou embora, pensando que fosse o cerne; e assim, o que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito no ser satisfeito.

12. Aqui, brmane, um membro de um cl com base na f deixa a vida em famlia e segue a vida santa, considerando: Eu sou uma vtima do nascimento, envelhecimento e morte, da tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero; eu sou uma vtima do sofrimento, uma presa do sofrimento. Com certeza, um fim a toda essa massa de sofrimento pode ser apreendido. E quando ele segue a vida santa, ele obtm ganho, honraria e fama. Ele no fica satisfeito com esse ganho, honraria e fama, e a inteno dele no realizada ... Ele alcana a perfeio da virtude. Ele fica satisfeito com a perfeio da virtude, mas a inteno dele no realizada ... Ele alcana a perfeio da concentrao. Ele fica satisfeito com a perfeio da concentrao, mas a inteno dele no realizada ... Ele alcana o conhecimento e viso. Ele fica satisfeito com o conhecimento e viso, mas a inteno dele no realizada. Por conta disso, ele no elogia a si mesmo e no menospreza os outros. Ele desperta o desejo de agir, ele faz esforo para a realizao daqueles outros estados que so mais elevados e sublimes do que o conhecimento e viso; ele no hesita e no fraqueja.

Mas quais, brmane, so os estados que so mais elevados e sublimes que o conhecimento e viso?

13. Aqui, brmane, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades no hbeis, entra e permanece no primeiro jhana, que caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o xtase e felicidade nascidos do afastamento. Esse um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso. [4]

14. Outra vez, abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que caracterizado pela segurana interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o xtase e felicidade nascidos da concentrao. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

15. Outra vez, abandonando o xtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que caracterizado pela felicidade sem o xtase, acompanhada pela ateno plena, plena conscincia e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: Ele permanece numa estada feliz, equnime e plenamente atento. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

16. Outra vez, com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a ateno plena e a equanimidade purificadas. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

17. Outra vez, com a completa superao das percepes da forma, com o desaparecimento das percepes do contato sensorial, sem dar ateno s percepes da diversidade, consciente de que o espao infinito, um bhikkhu entra e permanece na base do espao infinito. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

18. Outra vez, com a completa superao da base do espao infinito, consciente de que a conscincia infinita, um bhikkhu entra e permanece na base da conscincia infinita. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

19. Outra vez, com a completa superao da base da conscincia infinita, consciente de que no h nada, um bhikkhu entra e permanece na base do nada. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

20. Outra vez, com a completa superao da base do nada, um bhikkhu entra e permanece na base da nem percepo, nem no percepo. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso.

21. Outra vez, com a completa superao da base da nem percepo, nem no percepo, um bhikkhu entra e permanece na cessao da percepo e sensao. E as suas impurezas so destrudas ao ver com sabedoria. Esse tambm um estado mais elevado e sublime do que o conhecimento e viso. Esses so os estados mais elevados e sublimes do que o conhecimento e viso.

22. Eu digo que essa pessoa, brmane, como um homem que, precisando do cerne de uma rvore, em busca do cerne, perambulando em busca do cerne, chega at uma grande rvore que possui um cerne, e cortando apenas o cerne, ele o leva embora, sabendo que o cerne; e assim o que quer que seja que aquele bom homem tinha para fazer com o cerne, o seu propsito ser satisfeito.

23. Portanto, brmane, esta vida santa no tem o ganho, honraria e fama como seu benefcio, ou a perfeio da virtude como seu benefcio, ou a perfeio da concentrao como seu benefcio, ou o conhecimento e viso como seu benefcio. Mas a libertao inabalvel da mente que o objetivo desta vida santa, o seu cerne e o seu fim.

24. Quando isso foi dito, o brmane Pingalakoccha disse para o Abenoado: Magnfico , Mestre Gotama! Magnfico, Mestre Gotama! Mestre Gotama esclareceu o Dhamma de vrias formas, como se tivesse colocado em p o que estava de cabea para baixo, revelasse o que estava escondido, mostrasse o caminho para algum que estivesse perdido ou segurasse uma lmpada no escuro para aqueles que possuem viso pudessem ver as formas. Eu busco refgio no Mestre Gotama, no Dhamma e na Sangha dos bhikkhus. Que o Mestre Gotama me aceite como discpulo leigo que buscou refgio para o resto da vida.

 


 

Notas:

[1] Esses seis mestres, contemporneos sniores do Buda, estavam todos fora da ortodoxia tradicional do Bramanismo e as suas doutrinas so um indicativo da ousadia especulativa filosfica que prevalecia na poca do Buda. Os seis so freqentemente mencionados juntos no Cnone. Os seus ensinamentos, de acordo com a compreenso da comunidade Budista, esto descritos no DN 2. [Retorna]

[2] Exatamente a mesma questo formulada ao Buda na vspera do seu Parinibbana pelo errante Subhadda no DN 16.5.26-27. [Retorna]

[3] Esta sentena, empregada no lugar da sentena que comea com Ele fica embriagado..., que diferencia estes trechos deste sutta dos trechos correspondentes no sutta anterior Mahasaropama Sutta (MN 29). [Retorna]

[4] Embora os jhanas tambm possam ser includos como parte da perfeio da concentrao mencionada no verso 10, e o conhecimento e viso ter sido descrito como um estado superior ao da perfeio da concentrao, os jhanas agora se tornam superiores em relao ao conhecimento e viso porque esto sendo tratados como a base para a realizao da cessao e a destruio das impurezas (no verso 21). [Retorna]

 

 

Revisado: 18 Novembro 2006

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