Majjhima Nikaya 38

Mahatanhasankhaya Sutta

O Grande Discurso sobre a Destruio do Desejo

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(Ambiente)

1. Assim ouvi. Em certa ocasio o Abenoado estava em Savathi, no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika.

2. Agora, naquela ocasio uma idia perniciosa havia surgido na mente de um bhikkhu chamado Sati, filho de um pescador: Da forma como eu entendo, o Dhamma ensinado pelo Abenoado a mesma conscincia que se move e perambula pelo ciclo de renascimentos e no uma outra. [1]

3. Muitos bhikkhus, tendo ouvido isso, foram at o bhikkhu Sati e perguntaram: Amigo Sati, verdade que essa idia perniciosa surgiu na sua mente?

Exatamente, amigos. Da forma como eu entendo, o Dhamma ensinado pelo Abenoado a mesma conscincia que se move e perambula pelo ciclo de renascimentos e no uma outra.

Ento aqueles bhikkhus, desejando que ele deixasse de lado aquela idia perniciosa, o pressionaram, questionaram e examinaram desta forma: Amigo Sati, no diga isto. No deturpe o Abenoado; no bom deturpar o Abenoado. O Abenoado no falaria dessa forma. Pois, em muitos discursos o Abenoado declarou que a conscincia possui origem dependente, j que sem uma condio no existe a origem da conscincia.

Apesar disso, mesmo tendo sido pressionado, questionado e examinado por eles desta forma, o bhikkhu Sati, filho de um pescador, ainda assim, obstinadamente manteve a sua idia perniciosa e continuou insistindo nela.

4. Visto que os bhikkhus foram incapazes de fazer com que ele se separasse dessa idia perniciosa, eles se dirigiram at o Abenoado e depois de cumpriment-lo, sentaram a um lado e relataram o que havia ocorrido, adicionando: Venervel senhor, visto que fomos incapazes de fazer com que o bhikkhu Sati, filho de um pescador, se separasse dessa idia perniciosa, ns estamos reportando este assunto ao Abenoado.

5. Ento, o Abenoado se dirigiu a um certo bhikkhu desta forma: Venha, bhikkhu, diga em meu nome, ao bhikkhu Sati, filho de um pescador, que o Mestre o chama. Sim, venervel senhor, ele respondeu e foi at o bhikkhu Sati e lhe disse: O Mestre o chama, amigo Sati.

Sim, Amigo, ele respondeu, e foi at o Abenoado, aps cumpriment-lo, sentou a um lado. O Abenoado ento lhe perguntou: Sati, verdade que a seguinte idia perniciosa surgiu em voc: Da forma como eu entendo, o Dhamma ensinado pelo Abenoado a mesma conscincia que se move e perambula pelo ciclo de renascimentos e no uma outra?

Exatamente isso, venervel senhor. Da forma como eu entendo, o Dhamma ensinado pelo Abenoado a mesma conscincia que se move e perambula pelo ciclo de renascimentos e no uma outra.

O que essa conscincia, Sati?

Venervel senhor, aquilo que fala e sente e experimenta aqui e ali o resultado de boas e ms aes. [2]

Homem tolo, para quem voc me viu ensinar o Dhamma dessa forma? Homem tolo, eu no declarei em muitos discursos que a conscincia possui origem dependente, j que sem uma condio no existe a origem da conscincia? Mas voc, homem tolo, nos deturpou com o seu entendimento incorreto, causou prejuzo para si mesmo e acumulou muito demrito; pois isto lhe causar dano e sofrimento por um longo tempo.

6. Ento, o Abenoado se dirigiu aos bhikkhus desta forma: Bhikkhus, o que vocs pensam? Este bhikkhu Sati, filho de um pescador, proporcionou algum lampejo de sabedoria para este Dhamma e Disciplina?

Como poderia ele, venervel senhor? No, venervel senhor.

Quando isto foi dito, o bhikkhu Sati, filho de um pescador, permaneceu sentado em silncio, consternado, com os ombros cados e a cabea baixa, deprimido e sem resposta. Ento, vendo isso, o Abenoado lhe disse: Homem tolo, voc ser reconhecido por sua prpria idia perniciosa. Eu questionarei os bhikkhus sobre este assunto.

7. Ento, o Abenoado se dirigiu aos bhikkhus desta forma: Bhikkhus, vocs entendem o Dhamma que eu ensino da mesma forma que este bhikkhu Sati, filho de um pescador, entende quando ele nos deturpa com o seu entendimento incorreto e causa dano para si mesmo e acumula muito demrito?

No, venervel senhor. Pois em muitos discursos o Abenoado declarou que a conscincia possui origem dependente, j que sem uma condio no existe a origem da conscincia.

Muito bem, bhikkhus. bom que vocs entendam dessa forma o Dhamma que eu ensino. Pois em muitos discursos eu declarei que a conscincia possui origem dependente, j que sem uma condio no existe a origem da conscincia. Mas este bhikkhu Sati, filho de um pescador, nos deturpa com o seu entendimento incorreto e causa prejuzo para si mesmo e acumula muito demrito; pois isto levar esse homem tolo ao dano e sofrimento por um longo tempo.

(Condicionalidade da Conscincia)

8. Bhikkhus, a conscincia designada pela condio particular de dependncia, dependendo do que ela surge. Quando a conscincia surge na dependncia do olho e das formas, ela designada a conscincia no olho; quando a conscincia surge na dependncia do ouvido e dos sons, ela designada a conscincia no ouvido; quando a conscincia surge na dependncia do nariz e dos aromas, ela designada a conscincia no nariz; quando a conscincia surge na dependncia da lngua e dos sabores, ela designada a conscincia na lngua; quando a conscincia surge na dependncia do corpo e dos tangveis, ela designada a conscincia no corpo; quando a conscincia surge na dependncia da mente e dos objetos mentais, ela designada a conscincia na mente. Da mesma forma como o fogo designado pela condio particular de dependncia, dependendo do que ele arde quando o fogo arde na dependncia de lenha, ele designado um fogo de lenha; quando o fogo arde na dependncia de gravetos, ele designado um fogo de gravetos; quando o fogo arde na dependncia de capim, ele designado um fogo de capim; quando um fogo arde na dependncia de estrume de vaca ele designado um fogo de estrume de vaca; quando um fogo arde na dependncia de palha, ele designado como um fogo de palha; quando um fogo arde na dependncia de lixo, ele designado um fogo de lixo assim tambm a conscincia designada pela condio particular de dependncia, dependendo do que ela surge.[3] Quando a conscincia surge na dependncia do olho e das formas, ela designada a conscincia no olho ... quando a conscincia surge na dependncia da mente e dos objetos mentais, ela designada a conscincia na mente.

(Questionrio Geral sobre o Ser/Existir)

9. Bhikkhus, vocs vm: Isto surgiu?[4] Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs vm: A sua origem ocorre tendo aquilo como alimento? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs vm: Com a cessao daquele alimento, aquilo que surgiu est sujeito a cessar? Sim, venervel senhor.

10. Bhikkhus, a dvida surge quando existe esta incerteza: Isto surgiu ou no? Sim, venervel senhor. - Bhikkhus, a dvida surge quando existe esta incerteza: A sua origem ocorre tendo aquilo como alimento, ou no? - Sim, venervel senhor. - Bhikkhus, a dvida surge quando existe esta incerteza: Com a cessao daquele alimento, aquilo que surgiu est sujeito a cessar, ou no? - Sim, venervel senhor.

11. Bhikkhus, a dvida abandonada naquele que v, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: Isto surgiu? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, a dvida abandonada naquele que v, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: A sua origem ocorre tendo aquilo como alimento? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, a dvida abandonada naquele que v, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: Com a cessao daquele alimento, aquilo que surgiu est sujeito a cessar? Sim, venervel senhor.

12. Bhikkhus, vocs esto isentos de dvidas com relao a isto: Isto surgiu? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs esto isentos de dvidas com relao a isto: A sua origem ocorre tendo aquilo como alimento? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs esto isentos de dvidas com relao a isto: Com a cessao daquele alimento, aquilo que surgiu est sujeito a cessar? Sim, venervel senhor.

13. Bhikkhus, vocs viram bem, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: Isto surgiu? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs viram bem, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: A sua origem ocorre tendo aquilo como alimento? Sim, venervel senhor. Bhikkhus, vocs viram bem, como na verdade , com correta sabedoria, da seguinte forma: Com a cessao daquele alimento, aquilo que surgiu est sujeito a cessar? Sim, venervel senhor.

14. Bhikkhus, esse entendimento purificado e luminoso, se vocs aderirem a ele, amando-o e entesourando-o, e se o tratarem como se fosse uma posse, vocs ento compreendero o Dhamma que foi ensinado como semelhante a uma balsa, para ser utilizado para cruzar (a torrente) e no com o propsito de agarrar-se a ele? [5] No, venervel senhor. - Bhikkhus, esse entendimento purificado e luminoso, se vocs no aderirem a ele, no o amarem, no o entesourarem, e no o tratarem como se fosse uma posse, vocs ento compreendero o Dhamma que foi ensinado como semelhante a uma balsa, para ser utilizado para cruzar (a torrente), no com o propsito de agarrar-se a ele? Sim, venervel senhor.

(Alimento e Origem Dependente)

15. Bhikkhus, existem esses quatro tipos de alimentos para a manuteno dos seres que j nasceram e para o sustento daqueles que esto em busca de um nascimento. Quais quatro? Eles so: o alimento comida, grosseira ou sutil, o contato como o segundo, a volio mental como o terceiro e a conscincia como o quarto.[6]

16. Agora, bhikkhus, o que esses quatro tipos de alimento possuem como origem, qual o seu princpio, de que eles nascem e so produzidos? Esses quatro tipos de alimento possuem o desejo como origem, desejo como o seu princpio; eles nascem e so produzidos pelo desejo. E esse desejo o que possui como origem ... ? O desejo possui a sensao como origem ... E essa sensao o que possui como origem ... ? A sensao possui o contato como origem ... E esse contato o que possui como origem ... ? O contato possui as seis bases como origem ... E essas seis bases o que possuem como origem? As seis bases possuem a mentalidade-materialidade (nome e forma) como origem ... E essa mentalidade-materialidade (nome e forma) o que possui como origem ... ? A mentalidade-materialidade (nome e forma) possui a conscincia como origem ... E essa conscincia o que possui como origem ... ? A conscincia possui as formaes volitivas como origem ... E essas formaes volitivas o que possuem como origem, qual o seu princpio, de que elas nascem e so produzidas? As formaes volitivas possuem a ignorncia como sua origem, ignorncia como o seu princpio; elas nascem e so produzidas pela ignorncia.

(Explicao do Surgimento para Adiante)

17. Portanto, bhikkhus, com a ignorncia como condio, as formaes volitivas (surgem); com as formaes volitivas como condio, a conscincia; com a conscincia como condio, a mentalidade-materialidade (nome e forma); com a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, as seis bases; com as seis bases como condio, o contato; com o contato como condio, a sensao; com a sensao como condio, o desejo; com o desejo como condio, o apego; com o apego como condio, o ser/existir; com o ser/existir como condio, o nascimento; com o nascimento como condio, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero surgem. Essa a origem de toda essa massa de sofrimento.

(Questionrio sobre o Surgimento em Ordem Reversa)

18. Com o nascimento como condio, envelhecimento e morte: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o envelhecimento e morte possuem, ou no, o nascimento como condio, vocs aceitam isso?

Envelhecimento e morte possuem o nascimento como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com o nascimento como condio, envelhecimento e morte.

Com o ser/existir como condio, nascimento: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o nascimento possui, ou no, o ser/existir como condio, vocs aceitam isso?

O nascimento possui o ser/existir como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com o ser/existir como condio, nascimento.

Com o apego como condio, ser/existir: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o ser/existir possui, ou no, o apego como condio, vocs aceitam isso?

O ser/existir possui o apego como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com o apego como condio, ser/existir.

Com o desejo como condio, apego: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o apego possui, ou no, o desejo como condio, vocs aceitam isso?

O apego possui o desejo como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com o desejo como condio, apego.

Com a sensao como condio, desejo: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o desejo possui, ou no, a sensao como condio, vocs aceitam isso?

O desejo possui a sensao como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a sensao como condio, desejo.

Com o contato como condio, sensao: assim foi dito. Agora, bhikkhus, a sensao possui, ou no, o contato como condio, vocs aceitam isso?

A sensao possui o contato como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com o contato como condio, sensao.

Com as seis bases como condio, contato: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o contato possui, ou no, as seis bases como condio, vocs aceitam isso?

O contato possui as seis bases como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com as seis bases como condio, contato.

Com a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, as seis bases: assim foi dito. Agora, bhikkhus, as seis bases possuem, ou no, a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, vocs aceitam isso?

As seis bases possuem a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, as seis bases.

Com a conscincia como condio, mentalidade-materialidade (nome e forma): assim foi dito. Agora, bhikkhus, a mentalidade-materialidade (nome e forma) possui, ou no, a conscincia como condio, vocs aceitam isso?

A mentalidade-materialidade (nome e forma) possui a conscincia como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a conscincia como condio, mentalidade-materialidade (nome e forma).

Com as formaes volitivas como condio, conscincia: assim foi dito. Agora, bhikkhus, a conscincia possui, ou no, as formaes volitivas como condio, vocs aceitam isso?

A conscincia possui as formaes volitivas como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com as formaes volitivas como condio, conscincia.

Com a ignorncia como condio, formaes volitivas: assim foi dito. Agora, bhikkhus, as formaes volitivas possuem, ou no, a ignorncia como condio, vocs aceitam isso?

As formaes volitivas possuem a ignorncia como condio, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a ignorncia como condio, formaes volitivas.

(Recapitulao do Surgimento)

19. Muito bem, bhikkhus. Assim vocs o dizem e eu tambm assim o digo: Quando existe isso, aquilo existe; Com o surgimento disso, aquilo surge.[7] Isto , com a ignorncia como condio, formaes volitivas (surgem); com as formaes volitivas como condio, conscincia; com a conscincia como condio, mentalidade-materialidade (nome e forma); com a mentalidade-materialidade (nome e forma) como condio, as seis bases; com as seis bases como condio, contato; com o contato como condio, sensao; com a sensao como condio, desejo; com o desejo como condio, apego; com o apego como condio, ser/existir; como o ser/existir como condio, nascimento; com o nascimento como condio, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero surgem. Essa a origem de toda essa massa de sofrimento.

(Explicao da Cessao para Adiante)

20. Mas com o completo desaparecimento sem deixar vestgios e cessao da ignorncia ocorre a cessao das formaes volitivas; com a cessao das formaes volitivas, cessa a conscincia; com a cessao da conscincia, cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma); com a cessao da mentalidade-materialidade (nome e forma), cessam as seis bases; com a cessao das seis bases, cessa o contato; com a cessao do contato, cessa a sensao; com a cessao da sensao, cessa o desejo; com a cessao do desejo, cessa o apego; com a cessao do apego, cessa o ser/existir; com a cessao do ser/existir, cessa o nascimento; com a cessao do nascimento, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero cessam. Essa a cessao de toda essa massa de sofrimento.

(Questionrio sobre a Cessao em Ordem Reversa)

21. Com a cessao do nascimento, cessam o envelhecimento e morte: assim foi dito. Agora, bhikkhus, o envelhecimento e morte cessam, ou no, com a cessao do nascimento, vocs aceitam isso?

Envelhecimento e morte cessam com a cessao do nascimento, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a cessao do nascimento, cessam o envelhecimento e morte.

Com a cessao do ser/existir, cessa o nascimento ... Com a cessao do apego, cessa o ser/existir ... Com a cessao do desejo, cessa o apego ... Com a cessao da sensao, cessa o desejo ... Com a cessao do contato, cessa a sensao ... Com a cessao das seis bases, cessa o contato ... Com a cessao da mentalidade-materialidade (nome e forma), cessam as seis bases ... Com a cessao da conscincia, cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma) ... Com a cessao das formaes volitivas, cessa a conscincia ... Com a cessao da ignorncia, cessam as formaes volitivas: assim foi dito. Agora, bhikkhus, as formaes volitivas cessam, ou no, com a cessao da ignorncia, vocs aceitam isso?

As formaes volitivas cessam com a cessao da ignorncia, venervel senhor. Isso ns aceitamos: Com a cessao da ignorncia, cessam as formaes volitivas.

(Recapitulao da Cessao)

22. Muito bem, bhikkhus. Assim vocs o dizem e eu tambm assim o digo: Quando no existe isso, aquilo tambm no existe; Com a cessao disto, aquilo cessa. Isto , com a cessao da ignorncia, cessam as formaes volitivas; com a cessao das formaes volitivas, cessa a conscincia; com a cessao da conscincia, cessa a mentalidade-materialidade (nome e forma); com a cessao da mentalidade-materialidade (nome e forma), cessam as seis bases; com a cessao das seis bases, cessa o contato; com a cessao do contato, cessa a sensao; com a cessao da sensao, cessa o desejo; com a cessao do desejo, cessa o apego; com a cessao do apego, cessa o ser/existir; com a cessao do ser/existir, cessa o nascimento; com a cessao do nascimento, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero cessam. Assim a cessao de toda essa massa de sofrimento.

(Conhecimento Pessoal)

23. Bhikkhus, sabendo e vendo dessa forma, vocs voltariam ao passado assim: Existimos no passado? No existimos no passado? O que fomos no passado? Como ramos no passado? Tendo sido que, no que nos tornamos no passado? No, venervel senhor. Sabendo e vendo dessa forma, vocs se dirigiriam ao futuro assim: Existiremos no futuro? No existiremos no futuro? O que seremos no futuro? Como seremos no futuro? Tendo sido que, no que nos tornaremos no futuro? No, venervel senhor. Sabendo e vendo dessa forma, vocs estariam no seu ntimo perplexos sobre o presente assim: Ns somos? Ns no somos? O que somos? Como somos? De onde veio este ser? Para onde iremos? [8] No, venervel senhor.

24. Bhikkhus, sabendo e vendo dessa forma, vocs falariam assim: Ns respeitamos o Mestre. Falamos desta forma por respeito ao Mestre? No, venervel senhor. Sabendo e vendo dessa forma, vocs falariam assim: O Contemplativo diz isso e assim tambm outros contemplativos, mas ns no falamos dessa forma? No, venervel senhor. - Sabendo e vendo dessa forma, vocs reconheceriam um outro mestre? No, venervel senhor. - Sabendo e vendo dessa forma, vocs retomariam as observncias, debates tumultuados e sinais auspiciosos dos brmanes e contemplativos comuns, tomando-os como sendo o ncleo (da vida santa)? No, venervel senhor. Vocs falam apenas sobre aquilo que vocs conheceram, viram e compreenderam por si mesmos? Sim, venervel senhor.

25. Muito bem, bhikkhus. Portanto, vocs foram guiados por mim com este Dhamma, que visvel aqui e agora, com efeito imediato, que convida ao exame, que conduz para adiante, para ser experimentado pelos sbios, por eles mesmos. Pois foi com referncia a isso que foi dito: Bhikkhus, este Dhamma, visvel aqui e agora, com efeito imediato, convida ao exame, conduz para adiante, para ser experimentado pelos sbios, por eles mesmos.

(O Ciclo de Existncia: da Concepo at a Maturidade)

26. Bhikkhus, a concepo de um embrio num ventre ocorre atravs da unio de trs coisas. [9] Aqui, existe a unio da me e do pai, mas no o perodo frtil da me e o ser que ir renascer [10] no se encontra presente neste caso no existe a concepo de um embrio no ventre. Aqui, existe a unio da me e do pai e o perodo frtil da me, mas o ser que ir renascer no se encontra presente neste caso tambm no existe a concepo de um embrio no ventre. Mas quando existe a unio da me e do pai e o perodo frtil da me e o ser que ir renascer se encontra presente, atravs da unio dessas trs coisas ocorre a concepo de um embrio no ventre.

27. A me ento carrega o feto no seu ventre por nove ou dez meses com muita ansiedade, como um pesado fardo. Ento, ao final de nove ou dez meses, a me d luz com muita ansiedade, como um pesado fardo. Ento, quando o beb nasce, ela o alimenta com o seu prprio sangue; pois na Disciplina dos Nobres o leite materno chamado de sangue.

28. Ao crescer e com o amadurecimento das faculdades, a criana brinca com arados de brinquedo, moinhos de vento de brinquedo, carros de brinquedo, arco e flecha de brinquedo, d cambalhotas.

29. Ao crescer e com (ainda mais) o amadurecimento das faculdades, o jovem goza, provido e dotado com os cinco faculdades dos prazeres sensuais, as formas percebidas pelo olho ... sons percebidos pelo ouvido ... aromas percebidos pelo nariz ... sabores percebidos pela lngua ... tangveis percebidos pelo corpo que so desejveis, agradveis e fceis de serem gostados, conectados com o desejo sensual e que provocam a cobia.

(A Continuidade do Ciclo)

30. Ao ver uma forma com o olho, ele deseja a forma prazerosa e repele a forma des-prazerosa. Ele permanece sem estabelecer a ateno plena no corpo, com a mente limitada e ele no compreende, como na verdade , a libertao da mente e a libertao atravs da sabedoria por meio da qual os estados ruins e prejudiciais cessam sem deixar vestgio. Engajado, como est, em desejar e repelir todas as sensaes que sente quer sejam prazerosas, dolorosas ou nem prazerosas, nem dolorosas ele se delicia com aquelas sensaes, ele as recebe com prazer e permanece apegado a elas. [11] Agindo assim, o deleite surge nele. Agora, o deleite com as sensaes apego. Com esse seu apego como condio, ser/existir (surge); com o ser/existir como condio, nascimento; com o nascimento como condio, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero surgem. Essa a origem de toda essa massa de sofrimento.

Ao ouvir um som com o ouvido ... Ao cheirar um aroma com o nariz ... Ao saborear um sabor com a lngua ... Ao tocar um tangvel com o corpo ... Ao conscientizar um objeto mental com a mente, ele deseja o objeto mental prazeroso e repele o objeto mental des-prazeroso ... Agora, o deleite com as sensaes apego. Com esse seu apego como condio, ser/existir (surge); com o ser/existir como condio, nascimento; com o nascimento como condio, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero surgem. Essa a origem de toda essa massa de sofrimento.

(O Fim do Ciclo: o Treinamento Gradual)

31-38. Aqui, bhikkhus, um Tathagatta surge no mundo, um arahant, perfeitamente iluminado ... (como no MN 27, versos 11-18) ... ele purifica a mente da dvida.

39. Tendo assim abandonado esses cinco obstculos, imperfeies da mente que enfraquecem a sabedoria, afastado dos prazeres sensuais, afastado de estados prejudiciais, ele entra e permanece no primeiro jhana ... Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, ele entra e permanece no segundo jhana ... Abandonando o xtase ... ele entra e permanece no terceiro jhana ... Com o completo desaparecimento da felicidade ... ele entra e permanece no quarto jhana ... que possui nem felicidade nem sofrimento, com a ateno plena e a equanimidade purificadas.

(O Fim do Ciclo: Completa Cessao)

40. Ao ver uma forma com o olho, ele no deseja a forma prazerosa e no repele a forma des-prazerosa. Ele permanece com a ateno plena estabelecida no corpo, com a mente ilimitada e ele compreende, como na verdade , a libertao da mente e a libertao atravs da sabedoria por meio da qual esses estados ruins e prejudiciais cessam sem deixar vestgio. [12] Tendo dessa forma abandonado o desejar e o repelir, todas as sensaes que sente quer sejam prazerosas, dolorosas ou nem prazerosas, nem dolorosas ele no se delicia com aquela sensao, no a recebe com prazer e no permanece apegado a ela. [13] Agindo assim, o deleite com as sensaes cessa nele. Com a cessao desse deleite ocorre a cessao do apego; com a cessao do apego, cessa o ser/existir; com a cessao do ser/existir, cessa o nascimento; com a cessao do nascimento, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero cessam. Assim a cessao de toda essa massa de sofrimento.

Ao ouvir um som com o ouvido ... Ao cheirar um aroma com o nariz ... Ao saborear um sabor com a lngua ... Ao tocar um tangvel com o corpo ... Ao conscientizar um objeto mental com a mente, ele no deseja o objeto mental prazeroso e no repele o objeto mental des-prazeroso ... Com a cessao desse deleite ocorre a cessao do apego; com a cessao do apego, cessa o ser/existir; com a cessao do ser/existir, cessa o nascimento; com a cessao do nascimento, envelhecimento e morte, tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero cessam. Assim a cessao de toda essa massa de sofrimento.

(Concluso)

41. Bhikkhus, lembrem-se desta libertao atravs da destruio do desejo da forma resumida como ensinei. Porm, o bhikkhu Sati, filho de um pescador, est preso numa vasta rede de desejo, est atado pelo desejo.

Isso foi o que disse o Abenoado. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abenoado.

 


 

Notas:

[1] De acordo com MA, atravs de um raciocnio falho baseado no renascimento, Sati chegou concluso de que uma conscincia contnua que transmigra de uma existncia para outra necessria para explicar o renascimento. A primeira parte deste sutta (at o verso 8) reproduz a abertura do MN 22 sendo que a nica diferena diz respeito idia que est sendo exposta. [Retorna]

[2] Esta a ltima das seis idias expostas no MN 2.8. [Retorna]

[3] MA: O objetivo deste smile mostrar que no existe transmigrao da conscincia atravs das portas dos meios dos sentidos. Tal como um fogo de lenha queima na dependncia da lenha e cessa quando o combustvel se extingue, sem transmigrar a gravetos e passar a ser designado como um fogo de gravetos, assim tambm, a conscincia que surgiu na porta do sentido do olho, na dependncia do olho e das formas, cessa quando essas condies so removidas, sem transmigrar para o ouvido, etc. Portanto nesse sentido o Buda afirma que: Quando a conscincia ocorre, nem mesmo a mera transmigrao de uma porta dos sentidos para outra existe, ento como pode esse tolo Sati falar de uma transmigrao de uma existncia para a outra?[Retorna]

[4] Bhutam idan ti. MA: Isto se refere aos cinco agregados. Tendo demonstrado a condicionalidade da conscincia, o Buda menciona este trecho para mostrar a condicionalidade dos cinco agregados, que surgem atravs de condies, do seu alimento, e deixam de existir atravs da cessao dessas condies. [Retorna]

[5] Isto dito para mostrar aos bhikkhus que eles no devem se apegar nem ao entendimento correto obtido atravs da meditao de insight. O smile da balsa se refere ao MN 22.13. [Retorna]

[6] Alimento, (ahara), deve ser compreendido em um sentido amplo como a condio proeminente para a manuteno da vida do ser. O alimento comida, (kabalinkara ahara), uma condio importante para o corpo fsico, o contato para a sensao, a volio mental para a conscincia e a conscincia para a mentalidade-materialidade (nome e forma), o organismo psicofsico na sua totalidade. O desejo denominado a origem do alimento no sentido de que o desejo na existncia anterior a fonte da presente individualidade que depende e consome continuamente os quatro alimentos nesta existncia. O Buda menciona este trecho e o seguinte conectando os alimentos com a origem dependente para demonstrar que ele conhece no somente os cinco agregados mas a cadeia completa de condies responsvel pela existncia daqueles. [Retorna]

[7] Esse o resumo da origem dependente representada pela frmula dos doze elos. O resumo da cessao dado no verso 22. [Retorna]

[8] Igual ao MN 2.7. De acordo com MA este voltar ao passado e dirigir-se ao futuro ocorre devido ao desejo e s idias. O trecho seguinte faz com que o ensinamento se torne absolutamente claro ao assegurar que os bhikkhus falem a partir do seu prprio conhecimento pessoal. [Retorna]

[9] A parte do discurso que segue, pode ser entendida como uma aplicao concreta da origem dependente, que at agora foi exposta apenas como uma frmula doutrinria no transcurso de uma existncia individual. Os versos 26-29 mostram os fatores, a partir da conscincia at a sensao, que so o resultado da ignorncia e formaes volitivas no passado. O verso 40 mostra como os fatores causais do desejo e do apego mantm a continuidade do ciclo do samsara. A seo seguinte, (versos 31-40), conectam a origem dependente apario do Buda e o seu ensinamento do Dhamma, mostrando que a prtica do Dhamma a maneira de dar um fim ao ciclo de renascimentos. [Retorna]

[10] Gandhaba. MA: O gandhaba o ser que ir renascer. No algum, (isto , um esprito desencarnado), que est ali olhando os seus futuros pais manterem uma relao sexual mas, impulsionado pelo mecanismo de kamma, um ser que ir renascer naquela ocasio. [Retorna]

[11] MA explica que ele se delicia com a sensao dolorosa apegando-se a esta com os pensamentos de eu e meu. Ao buscar confirmao sobre a afirmao de que uma pessoa poderia se deliciar com sensaes dolorosas, pensamos no somente no masoquismo, mas tambm na tendncia mais comum das pessoas de colocarem a si mesmas em situaes aflitivas como forma de reforar a sua noo de eu. [Retorna]

[12] MA: Uma mente ilimitada, (appamanacetaso), uma mente supramundana; isto significa que ele possui o caminho supramundano. [Retorna]

[13] Esta afirmao revela que a cadeia da origem dependente rompida no elo entre a sensao e o desejo. A sensao surge necessariamente, pois o corpo adquirido atravs do desejo no passado est sujeito maturao do kamma. No entanto, se ele no se deliciar com a sensao, o desejo no ter a oportunidade de surgir e disparar as reaes de gosto e desgosto que provem o ciclo de renascimentos com combustvel adicional, e dessa forma o ciclo ter um fim. [Retorna

 

 

Revisado: 2 Abril 2014

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