Majjhima Nikaya 76

Sandaka Sutta

Para Sandaka

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1. Assim ouvi. Em certa ocasio o Abenoado estava em Kosambi no Parque de Ghosita.

2. Agora naquela ocasio o errante Sandaka estava na Caverna da rvore Pilakkha com uma grande assemblia de errantes.

3. Ento ao anoitecer, o venervel Ananda saiu da meditao e se dirigiu aos bhikkhus da seguinte forma: Venham, amigos, vamos at o Lago Devakata para ver a caverna, Sim, amigo, aqueles bhikkhus responderam. Ento o venervel Ananda foi at o lago Devakata com um grupo de bhikkhus.

4. Agora naquela ocasio o errante Sandaka estava sentado com uma grande assemblia de errantes que estavam fazendo uma grande baderna, conversando em voz alta e aos berros sobre muitos assuntos inteis, [1] tal como falar sobre reis, ladres, ministros de estado, exrcitos, alarmes e batalhas; comida e bebida, roupas, moblia, ornamentos e perfumes, parentes; veculos; vilarejos, vilas, cidades, o campo; mulheres e heris; as fofocas das ruas e do poo; contos dos mortos; contos da diversidade (discusses filosficas do passado e futuro), a criao do mundo e do mar e falar sobre a existncia ou no das coisas. Ento o errante Sandaka viu o venervel Ananda vindo distncia. Ao v-lo, ele silenciou a assemblia dizendo o seguinte: Senhores, fiquem quietos; senhores, no faam rudo. Ali vem o contemplativo Ananda, um discpulo do contemplativo Gotama, um dos discpulos do contemplativo Gotama que est em Kosambi. Esses venerveis gostam do silncio; eles so disciplinados no silncio; eles recomendam o silncio. Talvez, se ele encontrar a nossa assemblia em silncio, ele pensar em juntar-se a ns. Ento os errantes ficaram em silncio.

5. O venervel Ananda foi at o errante Sandaka que lhe disse: Venha Mestre Ananda! Bem vindo Mestre Ananda! J faz muito tempo desde que o Mestre Ananda encontrou uma oportunidade para vir aqui. Que o Mestre Ananda sente; este assento est preparado.

O venervel Ananda sentou no assento que havia sido preparado e o errante Sandaka tomou um assento mais baixo ao lado. Tendo feito isso, o venervel Ananda perguntou: Qual o assunto que faz com que vocs estejam sentados juntos aqui agora, Sandaka? E qual a discusso que foi interrompida?

Mestre Ananda, deixemos de lado a discusso pela qual estamos aqui sentados juntos. O Mestre Ananda poder ouv-la mais tarde. Seria bom se o Mestre Ananda pudesse discursar sobre o Dhamma do seu mestre.

Ento, Sandaka, oua e preste muita ateno quilo que eu vou dizer.

Sim, senhor, ele respondeu. O venervel Ananda disse o seguinte:

6. Sandaka, esses quatro modos que impossibilitam viver a vida santa foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado e tambm esses quatro tipos de vida santa insatisfatria foram declarados, nos quais um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico. [2]

Mas, Mestre Ananda, quais so esses quatro modos que impossibilitam viver a vida santa, que foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, nos quais um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico?

7. Nesse caso, Sandaka, um mestre possui uma doutrina e entendimento desta forma: [3] 'No existe nada que dado, nada que oferecido, nada que sacrificado; no existe fruto ou resultado de aes boas ou ms; no existe este mundo, nem outro mundo; no existe me, nem pai; nenhum ser que renasa espontaneamente; no existem no mundo brmanes nem contemplativos bons e virtuosos que, aps terem conhecido e compreendido diretamente por eles mesmos, proclamem este mundo e o prximo. Uma pessoa consiste dos quatro grandes elementos. Quando ela morre, a terra retorna e vai para o corpo da terra, a gua retorna e vai para o corpo da gua, o fogo retorna e vai para o corpo do fogo, o ar retorna e vai para o corpo do ar; as faculdades so transferidas para o espao. Quatro homens com o atade como quinto levam o corpo embora. As oraes funerrias duram at chegar no cemitrio; os ossos branqueiam; as oferendas queimadas terminam como cinzas. A generosidade uma doutrina dos tolos. Qualquer um que afirme uma doutrina de que a generosidade existe, isso vazio, falsa tagarelice. Tolos e sbios so da mesma forma extintos e aniquilados com a dissoluo do corpo; depois da morte eles no existem.

8. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre possui esta doutrina e entendimento: No existe nada que dado...depois da morte eles no existem. Se as palavras desse bom mestre forem verdadeiras, ento com respeito a esse ensinamento eu fiz a minha tarefa ao no faz-la, com respeito a esse ensinamento eu vivi a vida santa ao no viv-la. [4] Com respeito a esse ensinamento ns dois somos absolutamente iguais, ambos alcanamos a igualdade, no entanto eu no digo que ns dois seremos extintos e aniquilados com a dissoluo do corpo, que depois da morte ns no existiremos. Mas desnecessrio que esse bom mestre ande por a nu, sem barbear, que ele se esforce numa posio agachada e que arranque o seu cabelo e barba, visto que eu, que vivo numa casa cheia de crianas, gozando do sndalo de Benares, usando grinaldas, perfumes e ungentos, recebendo ouro e prata, irei colher exatamente o mesmo destino, o mesmo curso que esse bom mestre. O que que sei e vejo, que me levaria a viver a vida santa sob a orientao desse mestre? Assim, ao descobrir que esse modo impossibilita viver a vida santa, ele se afasta dele e o abandona.

9. Esse o primeiro modo que impossibilita viver a vida santa, que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, no qual um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico.

10. Novamente, Sandaka, um mestre possui uma doutrina e entendimento desta forma: [4a] Agindo ou fazendo com que outros ajam, mutilando ou fazendo com que outros mutilem, torturando ou fazendo com que outros torturem, causando sofrimento ou fazendo com que outros causem sofrimento, atormentando ou fazendo com que outros atormentem, intimidando ou fazendo com que outros intimidem, matando, tomando o que no dado, arrombando casas, pilhando riquezas, roubando, emboscando nas estradas, cometendo adultrio, dizendo mentiras - a pessoa no faz o mal. Se com uma lmina afiada como uma navalha algum convertesse todos os seres vivos sobre a terra num nico amontoado de carne, uma nica pilha de carne, no haveria mal por isso, nenhum resultado do mal. Mesmo se algum fosse ao longo da margem direita do rio Gnges, matando e fazendo com que outros matem, mutilando e fazendo com que outros mutilem, torturando e fazendo com que outros torturem, no haveria mal por isso, nenhum resultado do mal. Mesmo se algum fosse ao longo da margem esquerda do rio Gnges, dando ddivas e fazendo com que outros dem ddivas, dando oferendas e fazendo com que outros dem oferendas, por causa disso no haveria mrito e nenhum resultado do mrito. Atravs da generosidade, do autocontrole, da conteno e dizendo a verdade no h mrito por essa causa, nenhum resultado do mrito.

11. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre possui esta doutrina e entendimento: Agindo ou fazendo com que outros ajam...no h mrito por essa causa, nenhum resultado do mrito. Se as palavras desse bom mestre forem verdadeiras, ento com respeito a esse ensinamento eu fiz a minha tarefa ao no faz-la, com respeito a esse ensinamento eu vivi a vida santa ao no viv-la. Com respeito a esse ensinamento ns dois somos absolutamente iguais, ambos alcanamos a igualdade, no entanto, eu no digo que, o que quer que ns dois faamos, nenhum mal ser feito. Mas desnecessrio que esse bom mestre ande por a nuO que que sei e vejo, que me levaria a viver a vida santa sob a orientao desse mestre? Assim ao descobrir que esse modo impossibilita viver a vida santa, ele se afasta dele e o abandona.

12. Esse o segundo modo que impossibilita viver a vida santa que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

13. Novamente, Sandaka, um mestre possui uma doutrina e entendimento desta forma:[4b] No existem causas e condies para a contaminao dos seres. Os seres so contaminados sem causas e condies. No h causas e condies para a purificao dos seres. Os seres so purificados sem causas e condies. A realizao de uma dada condio, de qualquer carter, no depende quer seja das prprias aes, ou das aes dos outros, ou do esforo humano. No h tal coisa como o poder ou energia, nem o poder humano ou a energia humana. Todos os animais, todas as criaturas, todos os seres, todas as almas, no tm fora, poder e energia por si mesmos. Eles se inclinam nesta ou naquela direo de acordo com o seu destino, moldado de acordo com as circunstncias e natureza da classe qual pertencem, de acordo com a sua respectiva natureza: e de acordo com a sua posio numa dessas seis classes que eles experimentam o prazer e a dor.

14. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre possui esta doutrina e entendimento: No existem causas e condies para a contaminao dos seres...numa dessas seis classes que eles experimentam o prazer e a dor. Se as palavras desse bom mestre forem verdadeiras, ento com respeito a esse ensinamento eu fiz a minha tarefa ao no faz-la, com respeito a esse ensinamento eu vivi a vida santa ao no viv-la. Com respeito a esse ensinamento ns dois somos absolutamente iguais, ambos alcanamos a igualdade, no entanto eu no digo que ns dois seremos purificados sem causa e condio. Mas desnecessrio que esse bom mestre ande por a nuO que que sei e vejo, que me levaria a viver a vida santa sob a orientao desse mestre? Assim ao descobrir que esse modo impossibilita viver a vida santa, ele se afasta dele e o abandona.

15. Esse o terceiro modo que impossibilita viver a vida santa que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

16. Novamente, Sandaka, um mestre possui uma doutrina e entendimento desta forma: [5] Existem sete elementos - no feitos, no causados, no criados, sem um criador, estreis como o pico de uma montanha, plantados firmes como um pilar - que no se alteram, no mudam, no interferem uns com os outros, so incapazes de causar um ao outro o prazer, a dor, ou ambos. Quais sete? O elemento terra, o elemento gua, o elemento fogo, o elemento ar, prazer, dor e alma como stimo. Esses so os sete elementos no feitos, no causados, no criados, sem um criador, estreis como o pico de uma montanha, plantados firmes como um pilar que no se alteram, no mudam, no interferem uns com os outros, so incapazes de causar um ao outro o prazer, a dor, ou ambos. Portanto no h matador ou morto, ouvinte ou falante, conhecedor ou explicador. Quando algum com uma espada afiada corta a cabea de outra pessoa, no tirada a vida de ningum, a espada simplesmente passa no espao entre os sete elementos. Existem 1.400.000 tipos principais de nascimento, 6.000 outros, e mais 600; existem 500 tipos de kamma, ou 5 tipos e 3 tipos, e meio kamma; existem 62 caminhos (modos de conduta), 62 ciclos csmicos intermedirios, 6 classes (diferenas entre os seres humanos), 8 estgios na existncia humana, 4.900 ocupaes, 4.900 tipos de errantes, 4.900 moradas dos Nagas, 2.000 existncias sencientes, 3.000 infernos, 36 lugares com poeira, 7 classes de renascimento de seres com conscincia, 7 sem conscincia, 7 classes de seres livres dos grilhes, 7 tipos de divindades, 7 tipos de seres humanos, 7 tipos de demnios, 7 lagos, 7 ns, 7 grandes e 7 pequenos precipcios, 7 grandes e 7 pequenos tipos de sonhos. Existem 8 milhes e 400 mil grandes ciclos csmicos durante os quais, ambos os sbios e os tolos, transmigrando e perambulando atravs do ciclo de renascimentos daro um fim ao sofrimento da mesma forma. Embora os sbios aspirem: Atravs desta virtude ou observncia ou ascetismo ou desta vida santa eu amadurecerei o kamma que no est maduro e aniquilarei o kamma amadurecido na medida em que ele surgir. Embora os tolos tenham a mesma aspirao, nenhum deles ser capaz de fazer isso. O prazer e a dor so repartidos e no podem ser alterados ao longo da transmigrao, no pode haver o seu incremento nem a sua diminuio, nao h excesso nem falta. Tal como uma bola de linha, quando arremessada, chega ao seu fim simplesmente desenrolando, da mesma forma, tendo transmigrado e perambulado atravs do ciclo de renascimentos, durante o tempo determinado, e somente depois disso, ambos os sbios e os tolos daro um fim ao sofrimento. [6]

17. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre possui esta doutrina e entendimento: Existem sete elementos...os sbios e os tolos daro um fim ao sofrimento. Se as palavras desse bom mestre forem verdadeiras, ento com respeito a esse ensinamento eu fiz a minha tarefa ao no faz-la, com respeito a esse ensinamento eu vivi a vida santa ao no viv-la. Com respeito a esse ensinamento ns dois somos absolutamente iguais, ambos alcanamos a igualdade, no entanto eu no digo que ns dois daremos um fim ao sofrimento transmigrando e perambulando atravs do ciclo de renascimentos. Mas desnecessrio que esse bom mestre ande por a nuO que que sei e vejo, que me levaria a viver a vida santa sob a orientao desse mestre? Assim ao descobrir que esse modo impossibilita viver a vida santa, ele se afasta dele e o abandona.

18. Esse o quarto modo que impossibilita viver a vida santa, que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

19. Esses, Sandaka, so os quatro modos que impossibilitam viver a vida santa, que foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, nos quais um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico. [A]

20. maravilhoso, Mestre Ananda, admirvel, como os quatro modos que impossibilitam viver a vida santa foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado ... Mas, Mestre Ananda, quais so os quatro tipos de vida santa insatisfatria que foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, nos quais um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico?

21. Nesse caso, Sandaka, um mestre declara ser onisciente e capaz de ver tudo, reivindica ter conhecimento completo e viso desta forma: Quer eu esteja caminhando ou em p, ou dormindo, ou desperto, o conhecimento e viso esto presentes em mim de forma contnua e ininterrupta. [7] Ele entra numa casa vazia, ele no obtm comida esmolada, um cachorro o morde, ele encontra um elefante selvagem, um cavalo selvagem, um touro selvagem, ele pergunta o nome e o cl de uma mulher ou um homem, ele pergunta o nome de um vilarejo ou cidade e o caminho para chegar l. Ao ser questionado: Como isso? ele responde: Eu tinha que entrar numa casa vazia, por isso que entrei. Eu no tinha que obter comida esmolada, por isso que no obtive. Eu tinha que ser mordido por um cachorro, por isso que fui mordido. Eu tinha que encontrar um elefante selvagem, um cavalo selvagem, um touro selvagem, por isso que os encontrei. Eu tinha que perguntar o nome e o cl de uma mulher ou um homem, por isso que perguntei. Eu tinha que perguntar o nome de um vilarejo ou cidade e o caminho para chegar l, por isso que perguntei.

22. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre declara ser onisciente e capaz de ver tudo, reivindica ter conhecimento completo e viso desta forma ... Ao ser questionado: Como isso? ele responde: Eu tinha que ... por isso que perguntei. Assim ao descobrir que esta vida santa insatisfatria, ele se afasta dela e a abandona.

23. Esse o primeiro tipo de vida santa insatisfatria, que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, no qual um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico.

24. Novamente, Sandaka, um mestre um tradicionalista, que considera a tradio oral como verdade; ele ensina o Dhamma por meio da tradio oral, atravs de lendas que foram transmitidas, atravs do que foi registrado nas escrituras. Mas quando um mestre um tradicionalista, que considera a tradio oral como verdade, algumas coisas so lembradas da forma correta e algumas so lembradas da forma incorreta, algumas so verdadeiras outras no.

25. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre um tradicionalista ... algumas so verdadeiras outras no. Assim ao descobrir que esta vida santa insatisfatria, ele se afasta dela e a abandona.

26. Esse o segundo tipo de vida santa insatisfatria, que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

27. Novamente, Sandaka, um mestre um racionalista, um investigador. Ele ensina um Dhamma elaborado com o raciocnio seguindo uma linha de investigao conforme ela lhe ocorrer. Mas quando um mestre um racionalista, um investigador, algumas coisas so raciocinadas da forma correta e algumas so raciocinadas da forma incorreta, algumas so verdadeiras outras no.

28. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre um racionalista ... algumas so verdadeiras outras no. Assim ao descobrir que esta vida santa insatisfatria, ele se afasta dela e a abandona.

29. Esse o terceiro tipo de vida santa insatisfatria que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

30. Novamente, Sandaka, um mestre tolo e confuso. Porque ele tolo e confuso, ao ser questionado, ele recorre evaso verbal, contorcendo-se como uma enguia: Eu no digo que dessa forma. E eu no digo que daquela forma. E eu no digo que de outra forma. E eu no digo que no dessa forma. E eu no digo que no no dessa forma. [8]

31. Com relao a isso um homem sbio considera o seguinte: Este bom mestre tolo e confuso ... ele recorre evaso verbal, contorcendo-se como uma enguia. Assim ao descobrir que esta vida santa insatisfatria, ele se afasta dela e a abandona.

32. Esse o quarto tipo de vida santa insatisfatria, que foi declarado pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado...

33. Esses, Sandaka, so os quatro tipos de vida santa insatisfatria, que foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado, nos quais um homem sbio com certeza no viveria a vida santa, ou se ele a vivesse, no realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico.

34. maravilhoso, Mestre Ananda, admirvel, como os quatro tipos de vida santa insatisfatria foram declarados pelo Abenoado que sabe e v, um arahant, perfeitamente iluminado ... Mas, Mestre Ananda, o que esse mestre afirma, o que ele declara, atravs do que um homem sbio com certeza viveria a vida santa, e enquanto a vivesse, realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico?

35-42. Neste caso, Sandaka, um Tathagata surge no mundo, um arahant, perfeitamente iluminado ... (igual ao MN 51, versos 12-19) ... ele purifica a mente da dvida.

43. Tendo assim abandonado esses cinco obstculos, imperfeies da mente que enfraquecem a sabedoria, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades no hbeis, entra e permanece no primeiro jhana, que caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o xtase e felicidade nascidos do afastamento. Um homem sbio com certeza viveria a vida santa sob a orientao de um mestre com o qual um discpulo obtm to eminente distino, e enquanto a vivesse ele realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico.

44-46. Alm disso, abandonando o pensamento aplicado e sustentado, ele entra e permanece no segundo jhana ... Abandonando o xtase ... ele entra e permanece no terceiro jhana ... Com o completo desaparecimento da felicidade ... ele entra e permanece no quarto jhana. Um homem sbio com certeza viveria a vida santa sob a orientao de um mestre com o qual um discpulo obtm to eminente distino ...

47. "Com a sua mente assim concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexvel, malevel, estvel e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento da recordao de vidas passadas. Ele se recorda das suas muitas vidas passadas, isto , um nascimento, dois nascimentos ... (igual ao MN 51, verso 24) ... Assim ele se recorda das suas muitas vidas passadas nos seus modos e detalhes. Um homem sbio com certeza viveria a vida santa sob a orientao de um mestre com o qual um discpulo obtm to eminente distino ...

48. "Com a sua mente assim concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexvel, malevel, estvel e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento do falecimento e reaparecimento dos seres ... (igual ao MN 51, verso 25) ... Dessa forma - por meio do olho divino, que purificado e sobrepuja o humano - ele v seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios e ele compreende como os seres continuam de acordo com as suas aes. Um homem sbio com certeza viveria a vida santa sob a orientao de um mestre com o qual um discpulo obtm to eminente distino ...

49. "Com a sua mente assim concentrada, purificada, luminosa, pura, imaculada, livre de defeitos, flexvel, malevel, estvel e atingindo a imperturbabilidade, ele a dirige para o conhecimento do fim das impurezas mentais. Ele compreende como na verdade que: Isto sofrimento ... (igual ao MN 51, verso 26) ... ele compreende como na verdade que: este o caminho que conduz cessao das impurezas.

50. Ao conhecer e ver, a sua mente est livre da impureza do desejo sensual, da impureza de ser/existir, da impureza da ignorncia. Quando ela est libertada surge o conhecimento, Libertada. Ele compreende que O nascimento foi destrudo, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, no h mais vir a ser a nenhum estado. Um homem sbio com certeza viveria a vida santa sob a orientao de um mestre com o qual um discpulo obtm to eminente distino e enquanto a vivesse ele realizaria o caminho verdadeiro, o Dhamma que benfico.

51. Mas, Mestre Ananda, quando um bhikkhu um arahant com as impurezas destrudas, aquele que viveu a vida santa, fez o que devia ser feito, deps o fardo, alcanou o objetivo verdadeiro, destruiu os grilhes da existncia e est completamente libertado atravs do conhecimento supremo, poderia ele desfrutar de prazeres sensuais?

Sandaka, quando um bhikkhu um arahant com as impurezas destrudas ... completamente libertado atravs do conhecimento supremo, ele incapaz de transgresso em cinco casos. Um bhikkhu cujas impurezas foram destrudas incapaz de deliberadamente tirar a vida de um outro ser vivo; ele incapaz de tomar aquilo que no for dado, isto , de roubar; ele incapaz de entregar-se a uma relao sexual; ele incapaz de dizer uma mentira; ele incapaz de desfrutar de prazeres sensuais armazenando-os como ele antes fazia na vida mundana. [9] Quando um bhikkhu um arahant com as impurezas destrudas...ele incapaz de transgresso em cinco casos [10]

52. Mas, Mestre Ananda, quando um bhikkhu um arahant com as impurezas destrudas ... o seu conhecimento e viso de que as impurezas foram destrudas esto presentes nele de forma contnua e ininterrupta quer ele esteja andando ou em p, ou dormindo, ou desperto?

Quanto a isso, Sandaka, eu explicarei com um smile pois alguns sbios compreendem o significado de um enunciado atravs de um smile. Suponha que as mos e os ps de um homem tenham sido cortados. Ele saberia que Minhas mos e ps foram cortados de forma contnua e ininterrupta quer ele estivesse andando ou em p, ou dormindo, ou desperto, ou ele saberia que Minhas mos e ps foram cortados apenas quando ele revisasse esse fato?

O homem, Mestre Ananda, no saberia que Minhas mos e ps foram cortados de forma contnua e ininterrupta; ao invs disso, ele saberia que Minhas mos e ps foram cortados apenas quando ele revisasse esse fato.

Da mesma forma, Sandaka, quando um bhikkhu um arahant com as impurezas destrudas ... o seu conhecimento e viso de que as impurezas foram destrudas no esto presentes nele de forma contnua e ininterrupta quer ele esteja andando ou em p, ou dormindo, ou desperto; ao invs disso, ele sabe que Minhas impurezas foram destrudas apenas quando ele revisa esse fato.

53. Quantos emancipados existem nesse Dhamma e Disciplina, Mestre Ananda?

No existem apenas cem, Sandaka, ou duzentos, trezentos, quatrocentos ou quinhentos, mas muitos mais emancipados do que isso neste Dhamma e Disciplina.

maravilhoso, Mestre Ananda, admirvel! No existe o enaltecimento do prprio Dhamma nem a crtica do Dhamma dos outros; existe o ensino do Dhamma em toda a sua extenso e existem tantos emancipados. Mas os Ajivakas, aqueles natimortos, enaltecem a si mesmos e criticam os outros e eles reconhecem apenas trs emancipados, isto , Nanda Vaccha, Kisa Sankicca e Makkhali Gosala. [11]

54. Ento o errante Sandaka se dirigiu sua prpria assemblia: Vo, senhores. A vida santa deve ser vivida sob a orientao do contemplativo Gotama. No fcil para ns renunciarmos aos ganhos, honrarias e fama.

Assim foi como o errante Sandaka exortou a sua prpria assemblia a viver a vida santa sob a orientao do Abenoado.

 


 

Notas:

[1] Tiracchanakatha. Muitos tradutores interpretam esta expresso como conversa de animais. No entanto o sentido literal de tiracchana ir na horizontal, e embora este termo seja usado como uma designao para os animais, MA explica que no contexto deste sutta significa a conversa que segue na horizontal ou perpendicular em relao ao caminho que conduz ao paraso e libertao. [Retorna]

[2] Os quatro modos que impossibilitam viver a vida santa (abrahmacariyavasa) so ensinamentos que em princpio anulam a possibilidade de alcanar os frutos ltimos da disciplina espiritual. Como ser mostrado no sutta, os seu proponentes inconsistentes com os seus prprios princpios observavam o celibato e praticavam austeridades. Os quatro tipos de vida santa insatisfatria (anassasikani brahmacariyani) no subvertem os princpios da vida santa, mas eles tambm falham em oferecer a possibilidade de alcanar os frutos ltimos da disciplina espiritual. [Retorna]

[3] O trecho a seguir esclarece as premissas materialistas da doutrina niilista mencionada no MN 60.5. O Samannaphala Sutta (DN 2.23) atribui essa doutrina a Ajita Kesakambala. [Retorna]

[4] O ponto que mesmo se a pessoa no vive a vida santa, em ltima instncia ir colher as mesmas recompensas daquele que assim o faz. [Retorna]

[4a] O trecho a seguir esclarece as premissas da doutrina da no ao mencionada no MN 60.13. O Samannaphala Sutta (DN 2.16) atribui essa doutrina a Purana Kassapa. [Retorna]

[4b] O trecho a seguir esclarece as premissas da doutrina da no causalidade mencionada no MN 60.21. O Samannaphala Sutta (DN 2.19) atribui essa doutrina a Makkhali Gosala. [Retorna]

[5] No Samannaphala Sutta (DN 2.26) a doutrina descrita a seguir, at o espao entre os sete elementos, atribuda a Padukha Kaccayana. No entanto, naquele sutta o trecho que abrange um elaborado sistema de classificaes que vai at os sbios e os tolos daro um fim ao sofrimento, est conectado com a doutrina da no causalidade, ou purificao atravs do samsara, descrita no verso 13 e nota 4b acima. Essa doutrina atribuda a Makkhali Gosala. Como existem evidentes conexes entre a doutrina da purificao atravs do samsara e os itens do sistema de classificaes (ex.: a referncia s seis classes), e como conhecido que ambas eram tpicas do movimento Ajivaka liderado por Makkhali Gosala, parece que a incluso do sistema de classificaes neste sutta, sob a doutrina das sete substncias, ocorreu por um erro na transmisso oral. A verso correta seria aquela preservada no Samannaphala Sutta (DN 2). [Retorna]

[6] Esta afirmao reafirma a idia fatalista da libertao, formulada no verso 13. [Retorna]

[A] Os quatro modos que impossibilitam viver a vida santa podem ser resumidos da seguinte forma:
1. A doutrina do niilismo ou aniquilao (verso 7, nota 3).
2. A negao de valores morais (verso 10, nota 4a).
3. A negao da responsabilidade moral, isto , no h uma causa para a degenerao, regenerao ou salvao moral (verso 13, nota 4b).
4. A negao da livre escolha (verso 16, nota 5). [Retorna]

[7] Essa a declarao feita pelo mestre Jainista, o Nigantha Nataputta que aparece no MN14.17 e ambos, este ltimo e Purana Kassapa, no AN IX.38. O fato de que ele comete julgamentos incorretos e precisa fazer perguntas coloca em xeque a afirmativa de oniscincia. [Retorna]

[8] MA: Esta posio chamada de contorcer-se como uma enguia (amaravikkhepa) porque a doutrina vai de um lado ao outro, igual a uma enguia que entra e sai da gua e que devido a isso impossvel agarr-la. No Samannaphala Sutta (DN 2.32) esta doutrina atribuda a Sanjaya Belatthiputta. bem possvel que os adeptos desta doutrina fossem uma categoria de cticos radicais que questionavam a possibilidade de conhecimento apodtico sobre as questes ltimas. [Retorna]

[9] MA: Ele incapaz de armazenar alimentos e outros bens que proporcionam prazer para mais tarde desfrutar deles. [Retorna]

[10] No DN 29.26 so mencionadas outras quatro coisas que o arahant no capaz de fazer: ele incapaz de agir de forma incorreta devido ao desejo, raiva, medo e deluso. [Retorna]

[11] Sobre esses trs mentores dos Ajivakas veja o MN 36.5. [Retorna]

 

 

Revisado: 16 Abril 2013

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