Digha Nikaya 22

Mahasatipatthana Sutta

Os Fundamentos da Ateno Plena

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1. Assim ouvi.[1] Certa ocasio, estava o Abenoado entre os Kurus numa cidade denominada Kammasadhamma.[2] L ele se dirigiu aos monges desta forma: "Bhikkhus." "Venervel Senhor," eles responderam. O Abenoado disse o seguinte:

2. " Bhikkhus, este o caminho direto [3] para a purificao dos seres, para superar a tristeza e a lamentao, para o desaparecimento da dor e da angstia, [3a] para alcanar o caminho verdadeiro, para a realizao de Nibbana isto , os quatro fundamentos da ateno plena.[4]

3. " Quais so os quatro? Aqui, bhikkhus, um bhikkhu[5] permanece contemplando o corpo como um corpo, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo.[6] Ele permanece contemplando as sensaes como sensaes, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando a mente como mente, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo.[7]

( Contemplao do Corpo )

( 1. Ateno Plena na Respirao )

4. " E como, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo? Aqui um bhikkhu, dirigindo-se floresta ou sombra de uma rvore ou a um local isolado; senta-se com as pernas cruzadas, mantm o corpo ereto e estabelecendo a plena ateno sua frente, [7a] ele inspira com ateno plena justa, ele expira com ateno plena justa. [7b] Inspirando longo, ele compreende : Eu inspiro longo; ou expirando longo, ele compreende: Eu expiro longo. Inspirando curto, ele compreende: Eu inspiro curto; ou expirando curto, ele compreende: Eu expiro curto. [8] Ele treina dessa forma: Eu inspiro experienciando todo o corpo [da respirao]; ele treina dessa forma: Eu expiro experienciando todo o corpo [da respirao]. [9] Ele treina dessa forma: Eu inspiro tranqilizando a formao do corpo [da respirao]: ele treina dessa forma: Eu expiro tranqilizando a formao do corpo [da respirao].[10] Da mesma forma como um torneiro habilidoso ou seu aprendiz, quando faz uma volta longa, compreende: Eu fao uma volta longa; ou, quando faz uma volta curta, compreende: Eu fao uma volta curta; da mesma forma, inspirando longo, um Bhikkhu compreende: Eu inspiro longo... ele treina dessa forma: Eu devo expirar tranqilizando a formao do corpo.

(Insight)

5. " Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo externamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo tanto interna como externamente. [11] Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem no corpo, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem no corpo, ou ele permanece contemplando ambos, fenmenos que surgem e fenmenos que desaparecem no corpo. [12] Ou ento, a ateno plena de que existe um corpo se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. [13] E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

( 2. As Quatro Posturas )

6. " Novamente, bhikkhus, quando caminhando, um bhikkhu compreende: Eu estou caminhando; quando em p, ele compreende: Eu estou em p; quando sentado, ele compreende: Eu estou sentado; quando deitado, ele compreende: Eu estou deitado; ou ele compreende a postura do corpo conforme for o caso. [14]

7. " Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, externamente, tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

( 3. Plena Conscincia )

8. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu age com plena conscincia ao ir para a frente e retornar; [15] age com plena conscincia ao olhar para frente e desviar o olhar; age com plena conscincia ao dobrar e estender os membros; age com plena conscincia ao carregar o manto externo, o manto superior, a tigela; age com plena conscincia ao comer, beber, mastigar e saborear; age com plena conscincia ao urinar e defecar; age com plena conscincia ao caminhar, ficar em p, sentar, dormir, acordar, falar e permanecer em silncio.

9. " Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, externamente, tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

( 4. Repulsa As Partes do Corpo )

10. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu examina esse mesmo corpo para cima, a partir da sola dos ps e para baixo, a partir do topo da cabea, limitado pela pele e repleto de muitos tipos de coisas repulsivas, portanto: Neste corpo existem cabelos, plos do corpo, unhas, dentes, pele, carne, tendes, ossos, tutano, rins, corao, fgado, diafragma, bao, pulmes, intestino grosso, intestino delgado, contedo do estmago, fezes, blis, fleuma, pus, sangue, suor, gordura, lgrimas, saliva, muco, lquido sinovial e urina. [16] Como se houvesse um saco com uma abertura em uma extremidade cheio de vrios tipos de gros, como arroz sequilho, arroz vermelho, feijes, ervilhas, milhete e arroz branco, e um homem com vista boa o abrisse e examinasse: Isto arroz sequilho, arroz vermelho, feijes, ervilhas, milhete e arroz branco; da mesma forma, um bhikkhu examina esse mesmo corpo ... repleto de muitos tipos de coisas repulsivas: Neste corpo existem cabelos ... e urina.

11. " Dessa maneira, ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, externamente, tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

( 5. Elementos )

12. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu examina esse mesmo corpo que, no importando a sua posio ou postura, consiste de elementos da seguinte forma: Neste corpo h o elemento terra, o elemento gua, o elemento fogo, e o elemento ar. [17] Do mesmo modo, como se um aougueiro habilidoso ou seu aprendiz tivesse matado uma vaca e estivesse sentado numa encruzilhada com a vaca em pedaos; assim tambm um bhikkhu examina esse mesmo corpo que ... consiste de elementos, portanto: Neste corpo h o elemento terra, o elemento gua, o elemento fogo e o elemento ar.

13. " Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, externamente, tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

( 6. As Nove Contemplaes do Cemitrio )

14. " Novamente, bhikkhus, como se ele visse um cadver jogado em um cemitrio, [17a] um, dois, ou trs dias depois de morto, inchado, lvido e esvaindo matria, um bhikkhu compara seu corpo com ele: Este corpo tambm tem a mesma natureza, se tornar igual, no est isento desse destino. [18]

15. " Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, externamente, tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

16. " Novamente, como se ele visse um cadver jogado num cemitrio, sendo devorado por corvos, gavies, abutres, ces, chacais ou vrios tipos de vermes, um bhikkhu compara seu mesmo corpo com ele: Este corpo tambm tem a mesma natureza, se tornar igual, no est isento desse destino.

17. "...Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

18-24." Novamente, bhikkhus, como se ele visse um cadver jogado num cemitrio, um esqueleto com carne e sangue, que se mantm unido por tendes ... um esqueleto descarnado lambuzado de sangue, que se mantm unido por tendes...um esqueleto descarnado e sem sangue, que se mantm unido por tendes...ossos desconectados espalhados em todas as direes aqui um osso da mo, ali um osso do p, aqui um osso da perna, ali um osso da coxa, aqui um osso da bacia, ali um osso da coluna vertebral, aqui uma costela, ali um osso do peito, aqui um osso do brao, ali um osso do ombro, aqui um osso do pescoo, ali um osso da mandbula, aqui um dente, ali um crnio - um Bhikkhu compara seu corpo com ele, portanto: Este corpo tambm tem a mesma natureza, se tornar igual, no est isento desse destino. [19]

25. "...Assim tambm como um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo.

26-30." Novamente, bhikkhus, como se ele visse um cadver jogado num cemitrio, os ossos brancos desbotados, a cor de conchas...ossos amontoados, com mais de um ano ... ossos apodrecidos e esfarelados convertidos em p, um bhikkhu compara seu corpo com ele, portanto: Este corpo tambm tem a mesma natureza, se tornar igual, no est isento desse destino.

(Insight)

31. "Dessa forma ele permanece contemplando o corpo como um corpo internamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo externamente, ou ele permanece contemplando o corpo como um corpo tanto interna como externamente. Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem no corpo, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem no corpo, ou ele permanece contemplando ambos, fenmenos que surgem e fenmenos que desaparecem no corpo. Ou ento, a ateno plena de que existe um corpo se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um Bhikkhu permanece contemplando o corpo no corpo.

( Contemplao das Sensaes )

32. " E como, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando sensaes como sensaes? [20] Aqui, sentindo uma sensao prazerosa, um bhikkhu compreende: Eu sinto uma sensao prazerosa [20a]; quando sente uma sensao dolorosa, ele compreende: Eu sinto uma sensao dolorosa [ 20b]; quando sente uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa, ele compreende: Eu sinto uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa. [20c] Quando sente uma sensao prazerosa mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao prazerosa mundana; quando sente uma sensao prazerosa no mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao prazerosa no mundana; quando sente uma sensao dolorosa mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao dolorosa mundana; quando sente uma sensao dolorosa no mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao dolorosa no mundana; quando sente uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa mundana; quando sente uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa no mundana, ele compreende: Eu sinto uma sensao nem prazerosa, nem dolorosa no mundana

(Insight)

33. " Dessa forma ele permanece contemplando as sensaes como sensaes internamente ou ele permanece contemplando as sensaes como sensaes externamente, [20d] ou ele permanece contemplando as sensaes como sensaes tanto interna como externamente. Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem nas sensaes, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem nas sensaes, ou ele permanece contemplando ambos fenmenos que surgem e fenmenos que desaparecem nas sensaes. [21] Ou ento, a ateno plena de que existem sensaes se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando sensaes como sensaes.

( Contemplao da Mente )

34. " E como, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando a mente como mente? [22] Aqui um bhikkhu compreende a mente afetada pelo desejo como mente afetada pelo desejo e a mente no afetada pelo desejo como mente no afetada pelo desejo. Ele compreende a mente afetada pela raiva como mente afetada pela raiva e a mente no afetada pela raiva como mente no afetada pela raiva. Ele compreende a mente afetada pela deluso como mente afetada pela deluso e a mente no afetada pela deluso como mente no afetada pela deluso. Ele compreende a mente contrada como mente contrada e a mente distrada como mente distrada. Ele compreende a mente transcendente como mente transcendente e a mente no transcendente como mente no transcendente. Ele compreende a mente supervel como mente supervel e a mente no supervel como mente no supervel. Ele compreende a mente concentrada como mente concentrada e a mente no concentrada como mente no concentrada. Ele compreende a mente libertada como mente libertada e a mente no libertada como mente no libertada. [23]

(Insight)

35. " Dessa forma ele permanece contemplando a mente como mente internamente ou ele permanece contemplando a mente como mente externamente, ou ele permanece contemplando a mente como mente tanto interna como externamente. Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem na mente, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem na mente, ou ele permanece contemplando ambos, os fenmenos que surgem como os fenmenos que desaparecem na mente.[24] Ou ento, a ateno plena de que existe a mente se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando a mente como mente.

( Contemplao dos Objetos Mentais )

( 1. Os Cinco Obstculos )

36. " E como, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais? [25] Aqui um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos cinco obstculos. [26] E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos cinco obstculos? Aqui, havendo nele desejo sensual, um bhikkhu compreende: Existe em mim desejo sensual; ou no havendo nele desejo sensual, ele compreende: No existe em mim desejo sensual; e ele tambm compreende como se despertam os desejos sensuais que ainda no despertaram e como acontece o abandono de desejos sensuais despertos e como acontece para que desejos sensuais abandonados no despertem no futuro. [26a]

"Havendo nele m vontade ... havendo nele preguia e torpor ... havendo nele inquietao e ansiedade ... havendo nele dvida, um bhikkhu compreende: Existe dvida em mim; ou no havendo dvida nele, ele compreende: No existe dvida em mim; e ele compreende como se desperta a dvida que ainda no se despertou e como acontece o abandono da dvida desperta e como acontece para que a dvida abandonada no desperte no futuro.

(Insight)

37. " Dessa forma ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais internamente ou ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais externamente, ou ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais tanto interna como externamente. Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem nos objetos mentais, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem nos objetos mentais, ou ele permanece contemplando ambos, os fenmenos que surgem como os fenmenos que desaparecem nos objetos mentais. Ou ento, a ateno plena de que existem os objetos mentais se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais.

( 2. Os Cinco Agregados )

38. "Novamente, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos cinco agregados influenciados pelo apego. [27] E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos cinco agregados influenciados pelo apego? Aqui um bhikkhu compreende: Assim a forma material, essa a sua origem, essa a sua cessao; assim a sensao, essa a sua origem, essa a sua cessao; assim a percepo, essa a sua origem, essa a sua cessao; assim so as formaes volitivas, essa a sua origem, essa a sua cessao; assim a conscincia, essa a sua origem, essa a sua cessao.

39. " Dessa forma ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais internamente, externamente e tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais em termos dos cinco agregados do apego.

( 3. As Seis Bases )

40. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes s seis bases internas e externas.[28] E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes s seis bases internas e externas? Aqui um bhikkhu compreende o olho, ele compreende as formas e ele compreende o grilho que surge na dependncia de ambos; ele tambm compreende como surge o grilho que ainda no surgiu, como se abandona o grilho que j surgiu e como o grilho abandonado no surgir no futuro.

" Ele compreende o ouvido, ele compreende os sons ... ele compreende o nariz, ele compreende os aromas ... ele compreende a lngua, ele compreende os sabores ... ele compreende o corpo, ele compreende os tangveis ... ele compreende a mente, ele compreende os objetos mentais e ele compreende o grilho que surge na dependncia de ambos; ele tambm compreende como surge o grilho que ainda no surgiu, como se abandona o grilho que j surgiu e como o grilho abandonado no surgir no futuro.

41. " Dessa forma ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais internamente, externamente e tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes as seis bases internas e externas.

( 4. Os Sete Fatores da Iluminao )

42. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos sete fatores da iluminao. [29] E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais referentes aos sete fatores da iluminao? Aqui, estando presente nele o fator da iluminao da ateno plena, um bhikkhu compreende: O fator da iluminao da ateno plena est em mim; ou se o fator da iluminao da ateno plena no estiver presente nele, ele compreende: O fator da iluminao da ateno plena no est em mim; e ele tambm compreende como estimular o fator da iluminao da ateno plena que no est estimulado e como o fator da iluminao da ateno plena que est estimulado alcana a sua plenitude atravs do desenvolvimento.

" Estando presente nele o fator da iluminao da investigao dos fenmenos [30] ... Estando presente nele o fator da iluminao da energia ... Estando presente nele o fator da iluminao do xtase ... Estando presente nele o fator da iluminao da tranqilidade ... Estando presente nele o fator da iluminao da concentrao ... Estando presente nele o fator da iluminao da equanimidade, um bhikkhu compreende: O fator da iluminao da equanimidade est em mim; ou se o fator da iluminao da equanimidade no estiver presente nele, ele compreende: O fator da iluminao da equanimidade no est em mim; e ele tambm compreende como estimular o fator da iluminao da equanimidade que no est estimulado e como o fator da iluminao da equanimidade que est estimulado alcana a sua plenitude atravs do desenvolvimento. [31]

43. " Dessa forma ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais internamente, externamente e tanto interna como externamente ... E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais em relao aos sete fatores da iluminao.

( 5. As Quatro Nobres Verdades )

44. " Novamente, bhikkhus, um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais em relao s quatro nobres verdades. E como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais em relao s quatro nobres verdades? Aqui um bhikkhu compreende como na verdade : Isto sofrimento; ele compreende como na verdade : Isto a origem do sofrimento; ele compreende como na verdade : Esta a cessao do sofrimento; ele compreende como na verdade : Este o caminho que leva cessao do sofrimento. [32]

45. E o que, amigos, a nobre verdade do sofrimento? O nascimento sofrimento; o envelhecimento sofrimento; a morte sofrimento; tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero so sofrimento; no obter o que se deseja sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego so sofrimento.  

E o que, amigos, nascimento? O nascimento dos seres nas vrias classes de seres, o prximo nascimento, o estabelecimento [num ventre], a gerao, a manifestao dos agregados, a obteno das bases para contato a isto se denomina nascimento.

E o que, amigos, o envelhecimento? O envelhecimento dos seres nas vrias categorias de seres, a sua idade avanada, os dentes quebradios, os cabelos grisalhos, a pele enrugada, o declnio da vida, o enfraquecimento das faculdades a isto se denomina envelhecimento.

E o que, amigos, a morte? O falecimento de seres nas vrias categorias de seres, a sua morte, a dissoluo, o desaparecimento, o morrer, a finalizao do tempo, a dissoluo dos agregados, o cadver descartado a isto de denomina morte.

E o que, amigos, a tristeza? A tristeza, entristecimento, sofrimento, tristeza interior, arrependimento interior, de algum que sofreu alguma desgraa ou que est afetado por alguma situao dolorosa a isto se denomina tristeza.

E o que, amigos, a lamentao? O pranto e o lamento, chorar e lamentar, o choro e a lamentao de algum que sofreu alguma desgraa ou que est afetado por alguma situao dolorosa a isto se denomina lamentao.

E o que, amigos, a dor? Dor no corpo, desconforto corporal, a sensao dolorosa e desconfortvel que surge do contato corporal a isto se denomina dor.

E o que, amigos, a angstia? Dor mental, desconforto mental, a sensao dolorosa e desconfortvel que surge do contato mental a isto se denomina angstia.

E o que, amigos, o desespero? A confuso e o desespero, a tribulao e a desesperao de algum que sofreu alguma desgraa ou que est afetado por alguma situao dolorosa a isto se denomina desespero.

E o que, amigos, no obter o que se deseja sofrimento? Para os seres sujeitos ao nascimento surge o desejo: Ah, que ns no estivssemos sujeitos ao nascimento! Que o nascimento no viesse para ns! Mas isto no pode ser obtido pelo desejo e no obter o que se deseja sofrimento. Para os seres sujeitos ao envelhecimento ... sujeitos enfermidade ... sujeitos morte ... sujeitos tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero, surge o desejo: Ah, que ns no estivssemos sujeitos tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero! Que a tristeza, lamentao, dor, angstia e desespero no surjam para ns! Mas isto no pode ser obtido pelo desejo e no obter o que se deseja sofrimento.

E o que, amigos so os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, so sofrimento? Eles so: o agregado da forma material influenciado pelo apego, o agregado da sensao influenciado pelo apego, o agregado da percepo influenciado pelo apego, o agregado das formaes volitivas influenciado pelo apego e o agregado da conscincia influenciado pelo apego. Esses so os cinco agregados influenciados pelo apego que, em resumo, so sofrimento. A isto se denomina a nobre verdade do sofrimento.

46. E o que, amigos, a nobre verdade da origem do sofrimento? o desejo que conduz a uma renovada existncia, acompanhado pela cobia e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto , o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por no ser/existir. [33]

E onde surge e se estabelece esse desejo? Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.

E o que no mundo cativante e tentador? O olho no mundo cativante e tentador. O ouvido ... O nariz ... A lngua ... O corpo ... A mente no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo so cativantes e tentadores, nisso surge e se estabelece o desejo.

Conscincia no olho, conscincia no ouvido, conscincia no nariz, conscincia na lngua, conscincia no corpo, conscincia na mente no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.

Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na lngua, contato no corpo, contato na mente no mundo cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.

Sensao tendo como condio o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na lngua, contato no corpo, contato na mente no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.

Percepo de formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.

Inteno por formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo.

Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.

Pensamento aplicado [34] s formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo.

Pensamento sustentado [35] nas formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso surge e se estabelece o desejo. A isto se denomina a nobre verdade da origem do sofrimento.

47. E o que, amigos, a nobre verdade da cessao do sofrimento? o desaparecimento e cessao sem deixar nenhum vestgio daquele mesmo desejo, abrir mo, descartar, libertar-se, despegar desse mesmo desejo. E como ocorre o abandono desse desejo, como ocorre a sua cessao? [35A]

Qualquer coisa no mundo que seja cativante e tentadora, nisso ocorre a cessao. E o que no mundo cativante e tentador. O ouvido ... O nariz ... A lngua ... O corpo ... A mente no mundo cativante e tentadora, nisso surge e se estabelece o desejo. Formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo so cativantes e tentadores, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Conscincia no olho, conscincia no ouvido, conscincia no nariz, conscincia na lngua, conscincia no corpo, conscincia na mente no mundo cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na lngua, contato no corpo, contato na mente no mundo cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Sensao tendo como condio o contato no olho, contato no ouvido, contato no nariz, contato na lngua, contato no corpo, do contato na mente no mundo cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Percepo de formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentadora, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Inteno por formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Desejo por formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Pensamento aplicado s formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao.

Pensamento sustentado nas formas, sons, aromas, sabores, tangveis, objetos mentais no mundo cativante e tentador, nisso ocorre o abandono desse desejo, nisso ocorre a sua cessao. A isto se denomina a nobre verdade da cessao do sofrimento.

48. E o que, amigos, a nobre verdade do caminho que conduz cessao do sofrimento? justamente este Nobre Caminho ctuplo; isto , entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ao correta, modo de vida correto, esforo correto, ateno plena correta e concentrao correta. [36]

E o que, amigos, entendimento correto? Entendimento do sofrimento, entendimento da origem do sofrimento, entendimento da cessao do sofrimento e entendimento do caminho que conduz cessao do sofrimento a isto se denomina entendimento correto.

E o que, amigos, pensamento correto? O pensamento da renncia, o pensamento da no m vontade e o pensamento da no crueldade a isto se denomina pensamento correto.

E o que, amigos, linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, abster-se da linguagem maliciosa, abster-se da linguagem grosseira e abster-se de linguagem frvola a isto se denomina linguagem correta.

E o que, amigos, ao correta? Abster-se de matar seres vivos, abster-se de tomar o que no seja dado e abster-se de conduta imprpria com relao aos prazeres sensuais a isto se denomina ao correta.

E o que, amigos, modo de vida correto? Aqui um nobre discpulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, ganha o seu po atravs do modo de vida correto a isto se denomina modo de vida correto.

E o que, amigos, esforo correto? Aqui um bhikkhu gera desejo para que no surjam estados ruins e prejudiciais que ainda no surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esfora. Ele gera desejo de abandonar estados ruins e prejudiciais que j surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esfora. Ele gera desejo para que surjam estados benficos que ainda no surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esfora. Ele gera desejo para a continuidade, o no desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realizao atravs do desenvolvimento de estados benficos que j surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esfora. A isto se denomina esforo correto.

E o que amigos, ateno plena correta? Aqui um bhikkhu permanece contemplando o corpo como um corpo, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando as sensaes como sensaes, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando a mente como mente, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. Ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais, ardente, plenamente consciente e com ateno plena, tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina ateno plena correta.

E o que, amigos, concentrao correta? Aqui, um bhikkhu afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades no hbeis, entra e permanece no primeiro jhana, que caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o xtase e felicidade nascidos do afastamento. Abandonando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que caracterizado pela segurana interna e perfeita unicidade da mente, sem o pensamento aplicado e sustentado, com o xtase e felicidade nascidos da concentrao. Abandonando o xtase, um bhikkhu entra e permanece no terceiro jhana que caracterizado pela felicidade sem o xtase, acompanhada pela ateno plena, plena conscincia e equanimidade, acerca do qual os nobres declaram: Ele permanece numa estada feliz, equnime e plenamente atento. Com o completo desaparecimento da felicidade, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento, com a ateno plena e a equanimidade purificadas. A isto se denomina concentrao correta.

A isto se denomina a nobre verdade do caminho que conduz cessao do sofrimento.

(Insight)

49. " Dessa forma ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais internamente ou ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais externamente, ou ele permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais tanto interna como externamente. Ou ento, ele permanece contemplando fenmenos que surgem nos objetos mentais, ou ele permanece contemplando fenmenos que desaparecem nos objetos mentais, ou ele permanece contemplando ambos, os fenmenos que surgem como os fenmenos que desaparecem nos objetos mentais. Ou ento, a ateno plena de que existem os objetos mentais se estabelece somente na medida necessria para o conhecimento e para a continuidade da ateno plena. E ele permanece independente, sem nenhum apego a qualquer coisa mundana. Assim como um bhikkhu permanece contemplando os objetos mentais como objetos mentais em relao s Quatro Nobres Verdades.

( Concluso )

50. " Bhikkhus, qualquer um que desenvolver esses quatro fundamentos da ateno plena dessa maneira durante sete anos, um de dois resultados pode ser esperado: ou o conhecimento supremo aqui e agora, ou o no-retorno [37] se ainda houver algum resduo de apego.

" Sem falar em sete anos, bhikkhus. Qualquer um que desenvolver esses quatro fundamentos da ateno plena dessa maneira durante seis anos ... cinco anos ... quatro anos ... trs anos ... dois anos ... um ano, um de dois resultados pode ser esperado: ou o conhecimento supremo aqui e agora, ou o no-retorno se ainda houver algum resduo de apego.

" Sem falar em um ano, bhikkhus. Qualquer um que desenvolver esses quatro fundamentos da ateno plena dessa maneira durante sete meses ... seis meses ... cinco meses ... quatro meses ... trs meses ... dois meses ... um ms ... meio ms, um de dois resultados pode ser esperado: ou o conhecimento supremo aqui e agora, ou o no-retorno se ainda houver algum resduo de apego.

" Sem falar em meio ms, bhikkhus. Qualquer um que desenvolver esses quatro fundamentos da ateno plena dessa maneira durante sete dias, um de dois resultados pode ser esperado: ou o conhecimento supremo aqui e agora, ou o no-retorno se ainda houver algum resduo de apego.

51. " Assim, foi em referncia a isto que foi dito: Bhikkhus, este o caminho direto para a purificao dos seres, para superar a tristeza e lamentao, para o desaparecimento da dor e angstia, para alcanar o caminho verdadeiro, para a realizao de Nibbana - isto , os quatro fundamentos da ateno plena"

Isto foi o que o Abenoado disse. Os bhikkhus ficaram satisfeitos e contentes com as palavras do Abenoado.

 


 

Notas:

Veja o comentrio de Ajaan Thanissaro.

[1] Este um dos suttas mais importantes no Cnone em Pali, contendo a explicao mais completa do caminho mais direto para alcanar o objetivo Budista. Um sutta praticamente idntico encontrado no MN 10, que no entanto apresenta uma anlise mais resumida das Quatro Nobres Verdades. [Retorna]

[2] Alguns estudiosos afirmam que essa cidade se localizava nas proximidades de Deli. [Retorna]

[3] O texto em Pali diz ekayano ayam bhikkhave maggo, praticamente todos tradutores entendem que esta uma declarao que sustenta que satipatthana um caminho nico. Dessa forma ele o Venervel Soma diz: Este o nico caminho (only way), e o Venervel Nyanaponika: Este o nico caminho (sole way). O Bhikkhu Nnamoli no entanto destaca que ekayana magga no MN 12.37-42 tem o significado contextual preciso de um caminho que leva a uma nica direo, assim, ele tambm utilizou essa interpretao neste trecho. A expresso utilizada aqui, o caminho direto, tem como objetivo preservar o mesmo significado utilizando uma expresso mais resumida. MA explica ekayana magga como um s caminho, no como um caminho dividido; como um caminho que cada um deve trilhar, sem um companheiro; e como um caminho que leva a um objetivo somente, Nibbana. Embora o Cnone ou os Comentrios no suportem esta opinio, uma interpretao contempornea seria que satipatthana denominado ekayana magga, o caminho direto, para distingu-lo da prtica meditativa que passa pelos jhanas ou brahmaviharas. [Retorna]

[3a] Domanassa, que tambm pode ser interpretado como tristeza, desprazer; uma sensao de dor mental. [Retorna]

[4] A palavra satipatthana um termo composto. A primeira parte, sati, originalmente significava memria, porm nos textos Budistas em Pali o significado mais freqente a qualidade da ateno dirigida ao momento presente - da o termo ateno plena. A segunda parte explicada de duas maneiras: ou como uma abreviao de upatthana, significando preparando ou estabelecendo (a ateno plena ); ou como patthana, significando domnio ou fundamento (novamente da ateno plena). Dessa forma os quatro satipatthanas podem ser entendidos ou como as quatro formas de estabelecer a ateno plena, ou como os quatro domnios da ateno plena, o que ser elaborado em mais detalhe no restante do sutta. A primeira interpretao parece ser a derivao etimolgica mais correta (confirmado pelo Sanskrito sm tyupasthana), porm os Comentaristas em Pali, embora aceitando ambas as interpretaes, tiveram uma predileo pela ltima. [Retorna]

[5] MA define que neste contexto, bhikkhu um termo que indica a pessoa que se dedica com seriedade prtica dos ensinamentos: Quem quer que empreenda esta prticaest includo sob o termo bhikkhu. [Retorna]

[6] A repetio na frase contemplando o corpo como um corpo ( kaye kayanupassi ), de acordo com MA, tem o propsito de determinar com preciso o objeto de contemplao e isol-lo de outros com os quais possa ser confundido. Assim, na prtica, o corpo deve ser observado como corpo e no as sensaes, idias ou sentimentos ligados ao corpo. A frase tambm significa que o corpo deve ser contemplado simplesmente como um corpo e no como um homem, uma mulher, um eu, ou um ser humano. As mesmas consideraes se aplicam s demais repeties no caso dos outros trs fundamentos da ateno plena.

Nett correlaciona a frase ardente (atapi), plenamente consciente (sampajanna), e com ateno plena (sati), tendo colocado de lado a cobia e o desprazer pelo mundo, (vineyya abhijjhadomanassa), com respectivamente as faculdades da energia (viriya), sabedoria (paa), ateno plena (sati), e concentrao (samadhi).

O grau de concentrao necessrio para a prtica de satipatthana um ponto controverso. MA diz que cobia e desprazer significam o desejo sensual e a m vontade que so os principais obstculos, descritos no verso 36, que precisam ser superados para que a prtica seja bem sucedida. Nett explica que deixar de lado a cobia e desprazer significa a faculdade da concentrao. Com relao integrao da concentrao com satipatthana veja tambm o SN XLVII.4 e SN XLVII.10. Isto pode levar concluso que a prtica da concentrao precede satipatthana. No entanto se esse fosse o caso, as contemplaes da mente e dos obstculos no fariam sentido. A remoo da cobia e do desprazer tambm aparecem nos suttas como parte do treinamento gradual de um bhikkhu no item da conteno dos sentidos (veja por exemplo o MN 39.8). Ento o que parece mais provvel que o pr-requisito para a prtica de satipatthana seria a remoo da cobia e desprazer num grau semelhante conteno dos sentidos, de modo a evitar que o impacto sensorial provoque o surgimento da cobia e desprazer o que ir impedir manter a mente num estado de equilbrio imparcial que necessrio para a prtica de satipatthana. Num estgio mais avanado da prtica, no qual satipatthana est bem estabelecido, (veja o MN 51.3, SN LII.9), pode ser entendido que a cobia e o desprazer so completamente removidos e a concentrao estar bem estabelecida. [Retorna]

[7] A estrutura deste sutta relativamente simples. Em seguida ao prembulo, o corpo do discurso se divide em quatro partes seguindo os quatro fundamentos da ateno plena:

Contemplao do corpo, que compreende catorze exerccios: ateno plena na respirao; contemplao das quatro posturas; plena conscincia; contemplao das coisas repulsivas no corpo; contemplao dos elementos; e nove contemplaes do "cemitrio" - refletindo sobre corpos em diferentes estados de decomposio.

Contemplao das sensaes, considerado como um exerccio.

Contemplao da mente, tambm um exerccio.

Contemplao dos objetos mentais, que possui cinco subdivises - os cinco obstculos; os cinco agregados; as seis bases dos sentidos; os sete fatores de iluminao; e as Quatro Nobres Verdades.

Dessa forma ele o sutta expe no total vinte um exerccios de contemplao. Cada exerccio por sua vez possui dois aspectos: o exerccio bsico, explicado primeiro, e uma seo complementar respeito do insight (que essencialmente a mesma para todos os exerccios), que indica como a contemplao deve ser desenvolvida para aprofundar o entendimento do fenmeno que est sendo investigado. Finalmente, o sutta conclui com um comentrio do prprio Buda em que ele assegura a eficcia do mtodo declarando que o fruto colhido da prtica ser o estado de arahant ou de no retorno. [Retorna]

[7a] sua frente, parimukham, pode ser entendido no sentido literal ou figurativo. Com o sentido literal, sua frente indica a rea das narinas como sendo a mais apropriada para a ateno na respirao. Com o sentido figurado, sua frente pode ser compreendido como o firme estabelecimento da ateno plena, colocando-a mentalmente frente de todo o restante, no sentido da compostura meditativa e ateno. [Retorna]

[7b] Veja o SN LIV.12 nota 2. [Retorna]

[8] A prtica da ateno plena na respirao, (anapanasati), no envolve um esforo deliberado para controlar a respirao, como no hatha yoga, mas um esforo sustentado de manter a ateno na respirao enquanto ela se move para dentro e para fora, no seu ritmo natural. A ateno plena dirigida s narinas ou ao lbio superior, aonde o impacto da respirao sentido de maneira mais distinta; a extenso da respirao compreendida porm no conscientemente controlada. O desenvolvimento completo deste mtodo de meditao est exposto no MN 118. Para uma coletnea dos textos acerca deste assunto, veja Bhikkhu Nnamoli - Mindfulness of Breathing. Veja tambm Vsm VIII, 145-244. [Retorna]

[9] MA: a frase experienciando todo o corpo [da respirao], (sabba-kyapatisamvedi), siginifica que o meditador est consciente de cada inspirao e expirao subdivididas em suas trs fases de comeo, meio e fim. [Retorna]

[10] A formao do corpo, (kayasankhara), definido no MN 44.13 como a inspirao e a expirao em si. Portanto, como explicado no MA, com o desenvolvimento adequado desta prtica, a respirao do meditador se tornar cada vez mais calma, tranqila e pacfica. [Retorna]

[11] MA: Internamente: contemplando a respirao no seu prprio corpo. Externamente: contemplando a respirao que ocorre no corpo de outra pessoa. Internamente e externamente: contemplando a respirao no seu prprio corpo e no corpo de outra pessoa alternadamente, sem interrupo da ateno. Uma explicao similar se aplica ao refro que segue a cada uma das demais sees, exceto que na contemplao das sensaes, mente e objetos mentais a contemplao externa, excetuando aqueles que possuem poderes supra-humanos, ter de ser inferida. [Retorna]

[12] MA: Os fenmenos que surgem, (samudayadhamma), so o surgimento a cada momento de fenmenos materiais no corpo e as condies, (com base na origem dependente), pelas quais surgiu o corpo, isto , ignorncia, desejo, kamma e alimento. No caso da ateno plena na respirao, um fator adicional de surgimento mencionado nos comentrios o aparelho fisiolgico da respirao. Os fenmenos que desaparecem, (vayadhamma), so a cessao dos fenmenos materiais no corpo e das condies pelas quais surgiu o corpo. Veja tambm o SN XXII.126. [Retorna]

[13] MA: Com o propsito de um conhecimento, (ana), e ateno cada vez mais amplos e profundos. A palavra corpo, (kaya), ocorre com frequncia neste sutta e deve ser interpretada de acordo com o seu contexto. Neste caso trata-se da seo da respirao. Portanto, a palavra corpo neste caso significa corpo da respirao. [Retorna]

[14] O entendimento das posturas do corpo, mencionado neste exerccio, no se refere ao nosso conhecimento ordinrio das atividades do corpo, mas ateno minuciosa, constante e cuidadosa do corpo em qualquer posio, combinado com um exame analtico com a inteno de dissipar a deluso de um eu como o agente do movimento corporal. [Retorna]

[15] Sampajanna, traduzido como plena conscincia, mas tambm pode ser interpretado como plena ou clara compreenso ou tambm poder ser interpretado como introspeco o contnuo exame minucioso dos fenmenos mentais e corporais. Os comentrios analisam quatro tipos: (1) plena conscincia do propsito, discernir um propsito benfico na ao intencionada; (2) plena conscincia da adequao dos meios utilizados, discernir que os meios utilizados para alcanar os objetivos so adequados; (3) plena conscincia do domnio, no abandonar o objeto da meditao durante a rotina diria; (4) plena conscincia como no deluso, discernir que as prprias aes so processos condicionados desprovidos de um eu substancial. [Retorna]

[16] Em obras em Pali posteriores o crebro adicionado a essa lista para formar as trinta e duas partes. Os detalhes dessa prtica meditativa so explicados no Vsm VIII, 42-114. [Retorna]

[17] Esses quatro elementos so explicados na tradio Budista como os atributos primrios da matria - solidez, coeso, calor e distenso. A explicao detalhada encontrada no Vsm XI, 27-117. [Retorna]

[17a] Cemitrio neste caso se refere a um local onde os cadveres so descartados, sem que sejam enterrados ou cremados. [Retorna]

[18] A frase como se, (seyyathapi), sugere que esta contemplao e as demais a seguir, no necessitam tomar por base um corpo no estado de decomposio descrito mas, que podem ser realizadas como um exerccio da imaginao. Este corpo se refere logicamente ao corpo do prprio meditador. [Retorna]

[19] Cada um dos quatro tipos de corpos mencionados aqui e os trs tipos abaixo, podem ser tomados como uma contemplao separada e independente; ou todo o conjunto pode ser usado progressivamente para imprimir na mente a idia da impermanncia e insubstancialidade do corpo. [Retorna]

[20] Sensaes, (vedana), significam a qualidade emocional das experincias, fsicas e mentais, quer sejam prazerosas, dolorosas ou nem prazerosas nem dolorosas. Exemplos de sensaes mundanas e no mundanas so encontrados no MN 137.9-15 sob o tpico dos seis tipos de alegria, tristeza e equanimidade baseados respectivamente na vida leiga e na vida santa. [Retorna]

[20a] Sukham vedanam: pode ser corporal ou mental. [Retorna]

[20b] Dukkham vedanam: tambm pode ser corporal ou mental. [Retorna]

[20c] Adukkhamasukham vedanam: apenas mental. [Retorna]

[20d] O meditador infere, ou sabe por meio da telepatia, as sensaes dos outros. [Retorna]

[21] Os fenmenos que surgem e desaparecem nas sensaes so os mesmos do corpo, (veja nota 12), exceto que o alimento substitudo pelo contato j que contato a condio necessria para as sensaes ( veja MN 9.42 ). [Retorna]

[22] A mente, (citta), como objeto de contemplao refere-se ao estado e nvel geral da mente. J que a mente propriamente dita, em sua natureza, o simples conhecimento ou cognio de um objeto, a qualidade de um estado mental determinada pelos fatores mentais associados como desejo, raiva e deluso ou os seus opostos como mencionado no sutta. [Retorna]

[23] Os pares de exemplos de citta mencionados nesta passagem contrastam estados mentais benficos e prejudiciais ou desenvolvidos e no desenvolvidos. Todavia uma exceo o par contrada e distrada, em que ambos so prejudiciais, o primeiro devido preguia e ao torpor e o ltimo devido inquietao e ansiedade. MA explica que mente transcendente e mente no supervel refere-se mente no estado meditativo dos jhanas e das realizaes ou jhanas imateriais; mente no transcendente e "mente supervel como a mente relativa esfera da mente sensorial; mente libertada deve ser entendida como a mente que est parcialmente ou temporariamente livre das impurezas respectivamente atravs do insight ou dos jhanas. J que a prtica de satipatthana se refere fase preliminar do caminho que tem por objetivo os caminhos supramundanos da libertao, esta ltima categoria no deve ser entendida como a mente libertada atravs do atingimento dos caminhos supramundanos. [Retorna]

[24] Os fenmenos que surgem e desaparecem na mente so os mesmos do corpo (nota 12) exceto que o alimento substitudo por mentalidade-materialidade (nome e forma), j que esta a condio necessria para a conscincia ( veja DN 15.22). [Retorna]

[25] A palavra aqui interpretada como objetos mentais a polimorfa dhamma. Neste contexto dhamma pode ser entendido como todos os fenmenos classificados sob as categorias do Dhamma, os ensinamentos do Buda acerca da realidade. Esta contemplao atinge o seu clmax com a compreenso completa do ensinamento que o corao do Dhamma - as Quatro Nobres Verdades. [Retorna]

[26] Os cinco obstculos, (pancanivarana), so o pricipal impedimento interno para o desenvolvimento da concentrao e do insight. O desejo sensual surge ao dar ateno sem sabedoria a objetos atraentes e abandonado pela contemplao das coisas repulsivas (como no verso 10 e no verso 14-30); a m-vontade surge ao dar ateno sem sabedoria a um objeto que causa averso, e abandonada com a meditao do amor-bondade; preguia e torpor surgem atravs da submisso ao tdio e preguia, e so abandonados com o despertar da energia; inquietao e ansiedade surgem ao dar ateno sem sabedoria a pensamentos perturbadores, e so abandonados com a ateno com sabedoria para a tranqilidade; a dvida surge ao dar ateno sem sabedoria a assuntos suspeitos e abandonada atravs do estudo, investigao e inqurito. Os obstculos s sero totalmente erradicados com os caminhos supramundanos. Para um tratamento completo veja The Way of Mindfulness, pag. 119-130; Nyanaponika Thera, The Five Mental Hindrances; The Four foundations of Mindfulness pg. 96-111 e tambm MN 27.18 e MN 39.13-14. [Retorna]

[26a] DA identifica seis mtodos para eliminar a o desejo sensual: (1) refletir sobre um objeto repulsivo (asubha); (2) desenvolver os jhanas visto que estes suprimem os obstculos entre os quais est o desejo sensual; (3) Guardar as portas dos sentidos; (4) moderao ao comer; (5) o apoio de amigos admirveis; (6) conversao apropriada. [Retorna]

[27] Os cinco agregados influenciados pelo apego, (pancupadanakkhandha), so os cinco grupos de fatores que compem a identidade de um indivduo. Os agregados so analisados e explicados em relao sua origem e desaparecimento no MN 109.9. [Retorna]

[28] As bases internas so, como foi mostrado, as seis faculdades sensoriais; as bases externas so os seus respectivos objetos. A cadeia que surge entre cada um dos pares pode ser entendida como atrao, (desejo), averso, (raiva) e deluso subjacente. [Retorna]

[29] A maneira pela qual os sete fatores da iluminao se desdobram numa seqncia progressiva explicada no MN 118.29-40. Para uma discusso mais detalhada veja Piyadassi Thera, The Seven Factors of Enlightenment. [Retorna]

[30] Investigao dos fenmenos, (dhammavicaya), significa o escrutnio por meio da ateno plena dos fenmenos fsicos e mentais que se apresentam ao meditador. [Retorna]

[31] Os comentrios explicam em detalhe as condies que conduzem maturao dos fatores da iluminao. Veja The Way of Mindfulness pag. 134-149. [Retorna]

[32] A partir deste ponto o DN 22 faz uma anlise detalhada das Quatro Nobres Verdades que no consta do MN 10. No entanto, o detalhamento da Nobre Verdade do sofrimento tambm pode ser encontrado no MN 141. [Retorna]

[33] O detalhamento da Nobre Verdade da origem do sofrimento, (verso 47), bem como da Nobre verdade da cessao do sofrimento, (verso 48), no constam do MN 141. [Retorna]

[34] Vitakka. [Retorna]

[35] Vicara. [Retorna]

[35A] Veja o SN LVI.11.[Retorna]

[36] Igual ao MN 141. [Retorna]

[37] O conhecimento supremo, aa, o conhecimento do arahant sobre a libertao final. No retorno, (anagamita), o estado de no retorno daquele que renasce num mundo superior, onde ele realiza o parinibbana sem jamais retornar para o mundo humano. [Retorna]

 

 

Revisado: 2 Abril 2014

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